I´m dead, I´m dead, I´m dead

por Biu*

“Maybe I´m just like my mother, she´s never satisfied”. Mas eu não gostaria de escrever a ninguém mais que não você, que infelizmente não pode mais me ouvir. É próprio de quem escuta não ouvir e de quem enxerga não ver. Que importa, pois, fazer o caminho inverso e escrever aos mortos? Há um imenso vazio intransponível entre os vivos – the cold black sea – e agora que você se banha nessas águas, finalmente me sinto mais próximo à você: sinto-me morto e feliz.

Eu não fui ao festival de cinema de Quadradinho de Goiás.
Eu não passei férias em Balneário Filipéia.
Eu não vi o último trampo de Cicraninho Multimídia.
Eu não ri de tua piada, de nenhuma delas.

E no entanto fui e vi e ri, eu ri muito. Morrer é um meio de vida. E não há nada mais fácil para um morto que misturar-se aos vivos. Quando percebem que não ofereço resistência eles abrem os braços e estalam beijinhos e estiram a mão. Mas é que os vivos são enfadonhos de tão óbvios, principalmente os ruminantes, eles me enchem de um tédio mortal.

As pedras não. As pedras são gente-boa. Principalmente as que rolam.

Let´s get rolling forever, mom.

 

Beijão.


Caveiras, por Biu

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

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