Resenha – Pessoas que usam bonés-com-hélice

por André Rafaini Lopes

Dizem por aí que todos temos um preço. O meu atende pelo nome de Pessoas que usam bonés-com-hélice (às vezes muda para a coleção completa de tiras do Calvin ou o Playstation 3, assumo). De modos que fiquei um par de minutos acariciando o livro de José Carlos Fernandes (Editora Asa, 46 páginas), assim que tirei a belezinha do envelope. É verdade. Ganhei assim de mão beijada da editora-amiga deste Facada e cá está a resenha – outras virão!

Sou fã deste autor português há algum tempo. Não me lembro bem quando encontrei o primeiro número da Pior Banda do Mundo – o quiosque da Utopia. Demorou um pouco para me conquistar. Não é uma HQ (ou BD) fácil. Fernandes tem a capacidade única de cruzar referências e de tirar da cartola personagens escalafobéticos. É fácil encontrar conceitos de física, lingüística, música e filosofia escondidos nas entrelinhas e isso me toma lá uma certa energia para decifrar. Não raramente é preciso ler bem mais de uma vez todo o livro para apreender todo o humor sutil e ácido.

Assim, foi uma surpresa ler Pessoas que usam bonés-com-hélice, um livro leve e um tanto mais acessível. As referências cruzadas estão lá – tenho certeza de que encontrei algum componente da Banda –, bem como os conceitos trans-disciplinares (fui longe?), mas é bem mais palatável especialmente para mim que geralmente reservo as horas pré-sono para botar a leitura em dia. Pessoas… é um exercício de coesão. Fernandes desfila sua galeria de freaks em quadros que ocupam toda uma página, dedicando este espaço para piadas fechadas isoladas sobre cada um dos seus personagens de estranhas manias – como um tal que odeia tanto cachorros a ponto de se comportar como um – e invenções escabrosas ¬– como o impagável capacete que avisa segundos antes do impacto de um meteoro, mas não diferencia asteróides de “caganitas de pombas”. O desenho faz jus aos outros trabalhos do desenhista, mas exagerando sensivelmente no tamanho das cabeças. Seria uma tentativa de desvendar onde as pessoas armazenam tantas idiossincrasias, pequenas manias, obsessões e estranhezas? Em certo momento, aqueles olhões começam a te mirar de volta. Será que eles estão nos lendo também?

Bom, tudo isso para concluir: é uma legítima obra-prima de Fernandes? Sim, senhor – o cara já é um clássico, convenhamos. Vale a segunda e terceira leitura? Yup. O problema é um: como conseguir essa perolazinha sem que uma querida amiga traga de Lisboa?

Um comentário em “Resenha – Pessoas que usam bonés-com-hélice

  1. Quando descobrir o macete de conseguir sem precisar da sua amiga trazer de Lisboa, avise, por favor.

    Esse cara é gênio mesmo e eu adoro idiossincrasias, logo, isso só pode ser poesia pura da fonte cristalina.

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