Dizes-me: tu és mais alguma cousa

por Alberto Caeiro*

Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, “é uma pedra”,
Digo da planta, “é uma planta”,
Digo de mim, “sou eu”.
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

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* Alberto Caeiro é um heterônimo do poeta português Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Universal.

Little Tich and his Big Boots (1900)

por Little Tich*

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*Little Tich nascido Harry Relph, tinha 137 cm música de altura. Comediante e dançarino durante o final século XIX e início do século XX. Ele foi mais conhecido por seu número acrobático de comédia Big-Boot Dance, que ele apresentou na Europa e para o qual ele usava botas com sola de 71 centímetros de comprimento. Além de suas aparições salão de música, ele também era um performer popular em pantomimas de Natal e apareceu neles anualmente nos cinemas em toda as províncias inglesas. Ele repetiu este sucesso em Londres, onde apareceu em três pantomimas no Theatre Royal, Drury Lane, entre 1891 e 1893, ao lado de Dan Leno e Marie Lloyd.

Facada Cast 001 – Awesome mix tape

Está lançada a primeiríssima edição do nosso podcast! Para começar, Roberta AR, Pedro Elias e André Luiz apresentam uma seleção de suas músicas favoritas, dividindo histórias e detalhes dos escolhidos. Spoiler alert: rolou de tudo um pouco, de Gangrena Gasosa, Mulheres Negras e Nina Simone. Assine nosso feed para acompanhar quinzenalmente (quem sabe um dia não fica semanal) nossas gravações! (Nossos engenheiros, técnicos e bacharéis em baixarias estão trabalhando para criar um feed redondinho para iTunes e demais aplicativos!)

Coordenação e edição: André Luiz

Cidadela (trecho)

por Antoine Saint-Exupery*

“A justiça, na minha maneira de ver – disse-me meu pai – está em honrar o depositário por causa do depósito. Tanto como honro a mim próprio. Porque reflete a mesma luz. Por muito pouco visível que seja nele. A justiça é considerá-lo como veículo e como caminho. A minha justiça é fazer nascer de si próprio.

“Mas enche-me de tristeza ver tamanha podridão nesse esgoto que se perde no mar. Deus encontra-se tão desfigurado… Espero deles o sinal que me mostrará o homem, e nunca vem.”

“E, no entanto – retorqui eu a meu pai -, vi este ou aquele partilharem o pão e ajudarem outro mais corrompido do que eles a descarregar um saco ou acolher por piedade uma criança doente…

“Põem tudo em comum – respondeu meu pai – e é a isso que chamam caridade. Eles partilham. Mas nesse pacto, que também os chacais sabem fazer em volta de uma carcaça, propõem-se celebrar um grande sentimento. Querem-nos fazer crer que há um doação nisso! Mas o valor da dádiva depende daquele a quem se dirige. E, no nosso caso, dirige-se ao mais baixo. Como o álcool ao bêbado que bebe. Assim a dádiva é doença. Mas se eu dou a saúde, nessa altura corto neste corpo ferido… e ela me odeia.

“Chegam ao ponto – acrescentou ainda meu pai – de, com toda a sua caridade, preferirem a podridão… Mas e se eu prefiro a saúde.?”

“Quando te salvarem a vida, continuou meu pai, não agradeças nunca. Não leves longe demais o teu agradecimento. Se aquele que te salvou está à espera do teu agradecimento – o que aliás é grande baixeza, afinal que pensa ele? Ter-te servido? Foi a Deus que ele serviu ao guardar-te, se porventura vales alguma coisa. E tu, se exprimes com exuberância demais o teu agradecimento, pecas contra a fé, a modéstia e a humildade. Porque o importante que ele salvou não foi o teu pequeno destino pessoal, mas sim a obra em que tu colaboras e se apóia também sobre ti. E como ele está submetido à mesma obra, não tens por que agradecer-lhe. Quem lhe agradece é o seu próprio trabalho de te ter salvado. É aí que reside a sua colaboração na obra.”

“Demonstras também orgulho se te submetes às suas emoções mais vulgares. E se o elogias na sua pequenez, fazendo de ti seu escravo. Porque, se ele se fosse nobre, rejeitaria o teu agradecimento.

“Não há nada que me interesse tanto – era de novo meu pai quem falava – como a admirável colaboração de um através de outro. Posso servir-me de ti ou da pedra. Quem é que demonstra agradecimento à pedra por ter servido de fundamento ao templo?

“Mas eles não colaboram noutra coisa que neles próprios. E este esgoto que se perde no mar não alimenta cânticos, nem dá origem a estátuas de mármore, nem é caserna para as conquistas. Para eles, só é questão de partilharem o melhor possível as provisões. Não te deixes enganar. As provisões são necessárias, mas mais perigosas do que a fome.

“Dividiram tudo em dois tempos: a conquista e o gozo. Nem um nem outro tem o mínimo significado. Viste por acaso a árvore crescer e, uma vez já grande, se impor sobre outra árvore? A árvore cresce, muito simplesmente. É o que eu te digo: aqueles que, depois de terem conquistado, se fazem sedentários, já estão mortos…”

A caridade, de acordo com o sentido do meu império, é colaboração.

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*Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry (1900 —  1944) foi um escritor, ilustrador e piloto francês, terceiro filho do conde Jean Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe. Aqui publicamos um trecho de seu último romance, Cidadela.

Quadros de Munch

por Edvard Munch*

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Anxiety

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Ashes

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By the Deathbed (Fever) (1893)

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Dance Of Life

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Death in the sickroom (1893)

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Jealousy (1895)

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Kiss (1897)

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Madonna (1894)

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Vampire (1895)

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Edvard Munch (1863 — 1944) foi um pintor norueguês, um dos precursores do expressionismo alemão. Estudou na Escola de Artes e Ofícios de Oslo.