Meu não é a muitos eles

por Roberta AR

Eu sinto um medo constante desde que me entendo por gente. Medo de ser agredida quando eu menos espero, verbalmente ou fisicamente. Não tem um momento de alegria pura que não seja tomado por esse sentimento, de que algo muito ruim vai acabar acontecendo.

Toda a minha infância foi vivida na ditadura militar, nasci num subúrbio operário, como diz a música. Muito nova, participei de mobilizações de legalização de loteamentos, o que hoje poderia ser chamado de MTST, o terreno que meu pai comprou em Parelheiros era ilegal. O medo das “autoridades” era constante, não podíamos ter conversa sobre política em casa, que eu ouvia um “shhhhhhh” retumbante da minha mãe. Foi um tanto de tempo depois que fui entender o que era aquilo.

Mas o medo que me acompanha não é só esse, de fora. O meu maior medo vinha de dentro de casa, de um homem que deveria cuidar de mim e que me dizia sempre que podia: “você pensa que você é gente? você não é gente não!”. Ou então me proibia de quase tudo dizendo que “se eu fosse homem poderia”, rindo. Uma vez ele me trancou em casa por dois meses, porque achou que eu tinha sido cantada na rua. Ele começou a me bater, minha mãe deixou de ser exclusiva nessa violência. E foi aí que comecei a ter medo de morrer cada dia que ficava em casa.

Nesse tempo, comecei a participar de um grupo de jovens na igreja, acho que meus pais achavam que ali seria um ambiente seguro para uma “menina de família”. Mas eis que eu caio num grupo Pastoral, de uma Comunidade Eclesial de Base e a partir dali minha história mudou completamente. Uma nova constituição foi aprovada no país e, pela primeira vez na minha vida, alguma lei garantia que eu era igual aos homens em direitos e deveres. Colei o artigo em toda a parte de casa, apavorada com a violência que sofreria, mas realizada de ter um papel ao meu favor.

Eu fui engajadíssima na aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, tinha dezesseis anos e ainda teria alguns anos de cobertura da primeira lei que interveio na violência doméstica nesse país. Foi uma alegria imensa ver o texto aprovado e os primeiros conselhos tutelares funcionando. Alguns dos conselheiros eram meus amigos de pastoral e olhavam por mim. Meu pai foi veemente contra a lei: “onde já se viu não poder fazer o que eu quiser com minha própria filha!”. Não podia mais. Ainda não pode. Mas mesmo assim me torturou psicologicamente por anos ainda. Me ameaçou jogar na rua porque comecei a trabalhar, mesmo ganhando pouco, me proibiu de comer a comida da casa.

Meu pai era metalúrgico, fez parte do nascimento daquele partido do período das greves, foi membro de diretório da instituição. De esquerda.

Hoje, vivemos esse momento em que um candidato a presidente diz querer acabar com o Estatuto que eu lutei tanto para que fosse aprovado, e que provavelmente me salvou. Que fala das mulheres como se fôssemos lixo.

O medo me toma.

Tenho medo de ser abordada na rua e agredida por fanáticos. Tenho medo até de escrever esse texto.

Mas hoje não tenho mais o medo que me tomou a maior parte da minha vida, o de voltar para casa e não saber se eu ia sair de lá viva. Ainda hoje a própria casa é o lugar mais perigoso para as mulheres, mais da metade das assassinadas o são lá. Imagina só quando matar mulheres e filhas não gerava condenação nenhuma?

Faz tão pouco tempo que começamos a superar isso, não podemos deixar que isso volte a ser nossas vidas. NÃO VAMOS!

 

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