Prólogo de Aventura de Diófanes

por Teresa Margarida da Silva e Orta*

Leitor prudente, bem sei que dirás ser o melhor método não dar satisfações; mas tenho razão particular, que me obriga a dizer-te, que não culpes a confiança de que me revisto, para nele basta que o natural instinto observe os preceitos da razão, para satisfazer ao ardente desejo, com que procuro infundir nos ânimos daqueles, por quem devo responder, o amor da honra, o horror da culpa, a inclinação às ciências, o perdoar a inimigos, a compaixão da pobreza, e a constância nos trabalhos, porque foi só este o fim, que me obrigou a desprezar as vozes, com que o receio me advertia a própria incapacidade; e como em toda a matéria pertence aos sábios advertir imperfeições, quando reparares em erros, que desfigurem esta obra, lembre-te que é de mulher, Que nas tristes sombras da importância suspira por advertir a algumas a gravidade de Estratônica, a constância de Zenóbia, a castidade de Hipona, a fidelidade de Polixena, e a ciência de Cornélia. Também é certo, que para pintar Majestades me faltam os pincéis de Apeles, e não tenho a pena de Homero; mas como sou estrangeira, tenho visto bastante para poder contemplar soberanas propriedades, assentando em que não há vapores tão elevados, que possam formar sombras na grandeza do Olimpo. Se esta empresa não produzir efeito correspondente ao meu desejo, já me tem pago o trabalho, pois a tomei, como remédio para divertir cuidados, que principiavam a debilitar-me o sofrimento com todo o gênero de contratempos; pelo que foi preciso que a memória contradissesse a vontade, que de melancólicas apreensões se alimentava; e seguindo cegamente o partido da confiança, chegou a entrar em alheios domínios: e assim se neste pequeno livro achares cousa, que te contente, não entendas que são adoções, pois confesso que da pequena esfera deste entendimento só nasce o inútil, e quando mais, o indiferente; e ainda que me lembro de que pelo muito que Fálaris considerou no ajustado de suas cartas, não as pode escurecer a sua maldade, pois tinham estimação em todo o Mundo, em me não embaraço em considerar ser mal desempenhada a imitação dos que dão à estampa os seus escritos, pois não tenho mais tempo, que para refletir no alívio, que recebo, discorrendo em trabalhos, que aos meus excedem, quando se me representa a maior grandeza na grandeza abatida; a formosura sem indecentes adornos, adornada de virtudes; o sábio virtuoso, que entre os inimigos da verdade não se lhe apoucam as luzes, que conduzem para a glória das Majestades; o prazer dos pais, que chegam a ver bem sazonadas os frutos da boa educação; o horror, com que os justos sabem ver o indigno aspecto da lisonja; e as mudanças do tempo, que sempre vem a dar o seu a seu dono. Para ser sofrível o meu atrevimento, adverte que a morte me há de separar dos meus, e que (só assim) ainda depois de me haver reduzido a alheios desenganos, lhes ficarei advertindo o que lhes convém; e tenho tão disposto o ânimo para sofrer os inimigos desta obra, que já espero a crítica, assim como os valerosos, que têm por maior o trabalho de fugir, que o de esperar; pois me anima o sólido prazer, de que sobre as minhas ignorâncias se formem polidos edifícios com acertadas medidas para se praticarem científicas doutrinas. Acham-se as gentes tão dominadas de paixões
2particulares, que muitas vezes só se estimam as obras para as forças do engenho, e sutileza em destruir as da razão não é vencer os esplendores da verdade. Eu não tenho mais armas, que o meu bom ânimo, e verdadeira sinceridade, e com o maior prazer sofrerei que me repreendam os sábios; mas para tolerar néscios mal intencionados, será preciso refletir, que com instrumentos grosseiros também se apuram os sofrimentos. Mais cruel foi a guerra dos Romanos com os Penos, que a dos Gregos com os Troianos, porque estes pelejaram pela injúria de Helena, e os outros sobre qual ficaria com o senhorio do Mundo; porque faz maior estrago a inimizade que nasce de paixões desordenadas, que aquelas, a que as ofensas dão causa, porque estas cura o temor de Deus com o tempo, e a vil emulação raras vezes se descuida. Um dos defeitos, que alguns acharão nesta obra, será a idéia fantástica, podendo aplicar-se o mesmo tempo à história verdadeira; ao que respondo, que me persuadiram os Espanhóis, Franceses, e Italianos, que entendem ser este método o que produz melhor efeito, e como de Grego não sei cousa alguma, e as mais línguas pouco melhor as entendo, por não mendigar notícias antigas, nem me arriscar mentir errando, me resolvi a seguir o caminho desta idéia, em que são os eventos, e objetos fantásticos, mas não o essencial, que conduz para o melhor fim; pelo que não me achaquem mais culpas, que o consentir na tentação de uma demasiada curiosidade; porque ainda que a minha debilidade, engolfando-se em tristezas, resistia a aplicações divertidas, desprezei o descanso, que me afligia, lembrando-me de ser incomparavelmente- te melhor sofrer o mal, que ter idéias para o fazer; e ainda que o justo receio, e o próprio conhecimento me persuadiam a que estes produtos do meu divertimento fossem (como outros) reduzidos a cinzas, o sentir os influxos de uma benigna Estrela, a quem sempre seguirá a minha escravidão, e reverente afeto, me anima a dar ao prelo esta Aventuras de Diófanes. Não estranhes que em uma serrana coubessem soberanos pensamentos, pois sabes que em uma Aldeia nasceu Pirro, que venceu os Epirotas; em outra Cipião, que venceu os Africanos; em outra Otávio, que venceu os Germanos; e em outra Tito, que venceu os palestinos: mas no caso que a enchentes das críticas engrossem tanto, que cheguem a sátiras, nem assim creias que me chegarão à notícia, porque vivo na minha choupana vizinha da Serra da Estrela, aonde não chegam novidades da Corte; mas se houver quem se resolva a maltratar-me, eu lhe respondo com Demétrio, quando lhe perguntou Lâmia, porque estava triste, e não falava? Dizendo: Deixa-me, que eu faço bem o meu ofício, calando, como tu o teu, falando; e se a discrição degenerar, sendo ingrata às intenções desta obra, a infâmia de ser tal terei por satisfação do meu agravo.

Para ler o livro na íntegra, clique aqui

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*Teresa Margarida da Silva e Orta (1711 – 1793) é considerada a primeira mulher romancista em língua portuguesa. Irmã de Matias Aires, publicou inicialmente sob o pseudônimo de Dorotéia Engrassia Tavareda Dalmira, um anagrama perfeito de seu nome.

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