O mais emocionante em Pantera Negra somos nós!

por Juh Oliveira*
A Juh esteve numa sessão especial do filme Pantera Negra somente para a comunidade negra e republica aqui no Facada X o relato desta experiência.

 

   

Participei de um evento incrível, de importância e significado, impacto e representatividade enormes: uma sessão especial do filme “Pantera Negra” somente para a comunidade negra – uma ação liderada pela Rede Negras Empoderadas, com o apoio de diversos afroempreendedores que inclusive ofereceram produtos e serviços para um sorteio entre os participantes do evento e que também contou com a presença e participação de artistas negros apresentando intervenções poéticas, como a exibição do clipe musical “Pretas Panteras” antes do filme.

 

Realizado no cinema de um espaço não-periférico como o Shopping Eldorado, a visão de pretos e pretas maravilhosamente vestidos celebrando a representação da cultura afro em uma obra cinematográfica de tal dimensão já me emocionou logo que cheguei: me senti parte dessa festa abraçando e tirando fotos junto do grupo. Lembrei na hora de quando as minas e manos da minha quebrada apareciam nos shoppings pros “rolezinhos” e eram barrados de entrar ou mesmo de todas as vezes que eu não me senti à vontade indo passear num local como esse, elitizado, e que por onde quer que eu andasse um segurança estava me acompanhando, ou com vendedores me indicando somente os produtos mais baratos e de menor qualidade. Me senti imensamente feliz por ver outras mulheres negras lindas e poderosíssimas sorrindo entusiasmadas e orgulhosas pela vitória que uma ocasião como essa, em toda sua grandiosidade, representa.

Negras e negros de várias idades ocuparam toda a sala e se permitiram imaginar com superpoderes, em posições de realeza, travando lutas e batalhas, comemorando vitórias, e não faltaram momentos de palmas, gritos de aprovação, gargalhadas e emoção com partes marcantes do filme – muitos destes momentos sendo pautados pelas cenas onde se viam referências a cultura negra ou ao racismo e lugar de fala. Nos permitimos essa ludicidade, já que no dia a dia nossa vida é tão concreta, tão cheia de desafios que nem sempre saímos vitoriosos, com heróis e heroínas que lutam diariamente pela sobrevivência dos seus. Ver na tela que os negros não estão sendo retratados ali como escravizados, empregados ou ladrões, e admirar toda a beleza em cada detalhe muito bem pensado nesse filme fez os olhos de todos brilharem de esperança e emoção: desde as crianças de abrigo que tiveram a oportunidade de participar desse evento, até os idosos que foram acompanhados de sua família mesmo sem conhecer por completo o universo Marvel e como a história contada ali se encaixará na trama de Guerra Infinita.

    

Algumas frases do filme tiveram outro contexto e impacto ao assistir “Pantera Negra” nesse dia (pois tinha assistido antes numa sala de cinema também de um espaço elitizado e com uma maioria massiva de pessoas brancas e não-periféricas). O carinho da mãe de T´Challa ao aconselhá-lo durante a luta (“Mostre quem você é!”) e do pai no plano etéreo de Wakanda, The Djalia (“Cerque-se de pessoas da sua confiança”), ou da companheira Nakia (“Apenas você pode decidir que tipo de rei quer ser”), e a frase “Devemos encontrar uma maneira de cuidar dos outros como se fossemos uma só tribo”: Todas elas nos lembram alguém querido da nossa família, que nos acolheu com carinho e que nos aconselhou no momento oportuno, e me emocionou grandiosamente a última cena, onde o apoio de Wakanda se estende a comunidade de Oakland (um local de referência, pois foi onde o Partido Pantera Negra foi fundado) para que outras pessoas negras também possam ter oportunidades positivas e um futuro repleto de possibilidades. Me vejo em cada personagem ali, e desejo que em minha esfera de influência como professora, como negra, como afroempreendedora, como mulher, como mina nerd possa ajudar outras pessoas a se reconhecerem como importantes, capazes, fortes, lindas e vitoriosas no que fazem todos os dias.

  

A primeira superprodução da Marvel protagonizada por um super herói negro, que já havia estreado em primeiro lugar, agora soma R$ 60, 4 milhões, com 3,6 milhões de ingressos vendidos nos EUA. No Brasil foram R$ 19,3 milhões entre quinta-feira (22) e domingo (25), com 1 milhão de ingressos vendidos. Não é um hype qualquer, é a representatividade que o filme traz que tem levado tantas pessoas a organizarem eventos como esse que participei, em que nos vemos na tela e celebramos a nossa comunidade e cultura com tudo o que ela tem de melhor!

No esporte, duas situações se destacaram nesses últimos dias envolvendo a representatividade do filme: Os jogadores Adam Lingard e Paul Pogba, do Manchester United, comemoraram os gols da vitória contra o Chelsea com a saudação do povo de Wakanda nesse domingo (25), e no desafio de enterradas do All-Star Game da NBA (no outro final de semana) quando o jogador Victor Oladipo, do Indiana Pacers recebeu de Chadwick Boseman (que interpreta T’Challa – Rei de Wakanda) a máscara do Pantera Negra e repetiu o gesto reverenciando Wakanda, tendo protagonizado uma das enterradas mais épicas dessa edição do desafio!

  

Que mais espaços, não só as salas de cinema, sejam “enegrecidos” com a alegria e a beleza do nosso povo! Que mais escolas e ambientes de educação possam valorizar nossa cultura e história! Que os lugares de lazer possam ser ocupados por todas e todos sem distinção e preconceito! Que a imagem das riquezas de Wakanda possa mudar a maneira de vermos o continente africano e seus povos! Que haja incentivo a tecnologia e a ciência para as mulheres negras e que nossas meninas sejam quem sonharem ser!

Wakanda Forever representou MUITO mais para mim depois dessa experiência inigualável, de ser parte de uma rede de apoio de outras pretas e pretos que revolucionarão o mundo!

  

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*Juliana de Oliveira (@ilujauosueé formada em História pela UNISA e em Ciências Sociais pela UNIMES, e cursos de extensão em Ciências Humanas pelo IICS e de Quadrinhos em Sala de Aula pela Fundação Demócrito Rocha. Atua como professora há 10 anos, trabalhando na rede municipal de São Paulo. É produtora de conteúdo de cultura pop, geek e nerd para sites do nicho e também apresenta o programa Live Pop Geeks na Rádio Geek às terças-feiras 20h.

 

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