A infância exumada

por Antonio Souza*

Havia algo de mau, havia algo de sádico em minha mãe e os seus jogos de pique-esconde.

Na infância, morávamos perto de uma mata, na época, imensa pra mim. Eu era o preferido , era o escolhido sempre para acompanhá-la pela travessia desse local escuro, andar até a casa da tias.

Minha mãe gostava de enterros, ainda hoje me desespero ao sentir cheiro de cravos vermelhos. Sempre à noite morria alguém e minha mãe adorava velar corpos macilentos. O meu terror começava ao vê-la em busca de roupas pretas, eu teria que acompanhá-la, teríamos que atravessar a mata escura, a pequena senda entre árvores retorcidas, a pinguela que rangia , ela ria, ria vendo o medo de seu miúdo enquanto ela balançava as cordas da pequena ponte, o meu choro preso na garganta. Passando pela pinguela estávamos em plena escuridão, ela corria à frente, se escondia. O terror do abandono. Gritava desesperado, pedia que ela não me abandonasse, não eu, o seu pequeno, o seu miúdo. Na maior parte das vezes, ela estava escondida atrás de uma árvore rindo, rindo. Caminhávamos sempre para algum enterro, pelo que me lembro.

A morte para mim tem a crueldade do abandono, a morte tem cheiro de flores vermelhas e sufocantes. No meio do caminho uma pinguela provisória e instável.

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*Antonio Souza da Cruz é de Surubim, uma cidadezinha do agreste pernambucano, nascido em 1971, muda-se com a família para a periferia de São Paulo em 79. Atualmente trabalha nos Correios. Possui um livro publicado pela editora Patuá, em 2015, O Deus dos Famintos. Sobre seus poemas pode-se dizer que são marcados por duas paisagens principais: o sertão pernambucano e a periferia paulista.

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