Feminicídio nos quadrinhos – a perspectiva feminina nas HQs nacionais

por Dani Marino*

A cada hora, mais de 500 mulheres são vítimas de agressão física no Brasil. O país tem o quinto maior índice do mundo de assassinatos de mulheres”

A frase acima abre a HQ A filha da mãe, de Tinda Costa e Alexandre Magalhães. Com ampla divulgação em diversos veículos nacionais, a narrativa se propõe a abordar um tema atual e delicado por meio de uma história em tom de thriller com pitadas de superação por parte da protagonista Cleonice. A protagonista é uma enfermeira que trabalha na emergência de um hospital e busca ajudar mulheres vítimas de agressão doméstica na medida do possível, já que ela encontra resistência dos colegas médicos para denunciar os agressores. Tendo sido ela mesma vítima de violência, conta com a ajuda da mãe para prestar assistência e conscientizar as mulheres que consegue, porém, em um país onde as autoridades são omissas, Cleonice acaba apelando para meios um tanto ortodoxos proteger as vítimas.

Página da HQ A filha da mãe, de Tinda Costa e Alexandre Magalhães

Já na HQ A Cabana, de Caru Moutosopoulos, Caroline Fravret e Gustavo Novaes, o feminicídio é tratado de forma mais subjetiva por meio de uma excelente exploração dos recursos gráficos que os quadrinhos permitem, conferindo suspense na medida certa, algo muito difícil de se imprimir nesse tipo de material, uma vez que o que possibilita a tensão é justamente o uso adequado da virada de página, requadros, closes e diagramação específicos para que o leitor se sinta instigado a continuar. Nessa trama, temos um filho cuidando de um pai debilitado, que se recusa a comer a comida que lhe é oferecida e um stress crescente entre os dois que vai se justificando na medida que alguns segredos vão sendo revelados. Com pouquíssimos diálogos, o traço lembra o de um mangá e a história tem o ritmo de um conto bem curto, ou seja, precisa ser apreciada em uma lida, de uma só vez, do contrário, o suspense se perde. Vamos sabendo mais a respeito do protagonista e de sua história por meio de seus flashbacks, que indicam uma infância traumatizada pelos abusos e violências sofridos por sua mãe e conforme a tensão entre ele e seu pai aumenta, somos levados a refletir sobre o impacto desses traumas na vida de uma criança. Será que um trauma justificaria ações violentas que alguém possa cometer? Será que uma violência vivida poderia ser um gatilho para alguém que já tem algum problema?

Emboras as duas HQ tragam a questão do feminicídio em seu cerne, A filha da mãe se parece mais com uma cartilha, dessas que poderiam ser utilizadas em grupos de apoio às vítimas de violência doméstica, pois as personagens são verossímeis e possibilitam a identificação imediata por parte de várias mulheres que já passaram por situações parecidas. Embora seja “vendida” como um thriller, a história não chega a oferecer nenhum suspense uma vez que os casos relatados são previsíveis por estarem nos noticiários diariamente. Mas há uma saída interessante que prevê a punicação dos agressores, algo que raramente vemos nas histórias de ficção que usam o estupro e o feminicídio apenas como recurso narrativo para justificar a ascensão do protagonista masculino.

A Cabana, por outro lado, tem seu foco no protagonista masculino e o feminicídio é usado como uma justificativa para as suas ações, mas sem a romantização da violência. A principal mensagem da HQ é que nem tudo é o que parece e que muitas vezes nossas primeiras impressões são equivocadas. Principalmente, é um trabalho que indica profundo conhecimento de quadrinhos por parte de seus autores, pois o que mais chama atenção no material é justamente sua qualidade gráfica que nem de longe denunciaria que esse é o primeiro quadrinho produzido pelo trio.

Ou seja, enquanto A filha da mãe se aproxima mais de um registro de fatos que busca alertar as pessoas sobre o problema da violência contra a mulher no Brasil, A Cabana explora a narrativa gráfica em uma ficção onde o suspense e a surpresa são os grandes protagonistas.

Porém, ambas as narrativas, contadas a partir da perspectiva de suas autoras, trazem um tema que não é tratado de forma banal e nos lembram que precisamos tratar o termo pelo que ele realmente é: feminicídio – assassinato de mulheres em função de seu gênero.

Isso porque até recentemente, muitas pessoas se questionavam sobre a necessidade de se usar um termo específico para assassinato quando na verdade, matar é errado independentemente do gênero. Hoje, ainda que existam pessoas que questionem o uso da palavra feminicídio, grande parte da população já entende o que ela significa e entende que cada tipo de crime precisa ter um registro diferente para que as campanhas de prevenção a eles sejam específicas. Sem a tipologia, é impossível criar campanhas de conscientização e no caso específico do feminicídio, o machismo estrutural ainda é o principal motivo pelo qual homens seguem matando mulheres.

Nosso atual presidente acredita que os casos de violência doméstica não precisam ser notificados à polícia, reforçando a crença de que agredir e assassinar mulheres é algo que não mereça muita atenção, são crimes como outros quaisquer. Essa mentalidade é extremamemente nociva pois perpetua uma cultura que segue nos matando diariamente. Por isso, vamos seguir falando sobre o assunto nos quadrinos, na TV, no cinema, em todos os lugares.

Ouça a entrevista com Tinda Costa: https://www.radiogazetaonline.com.br/a-filha-da-mae/

A FILHA DA MÃE

De Tinda Costa

Ilustrações de Alexandre Magalhães

Editora Itmix

106 páginas

A CABANA

De Caroline Favret, Caru Moutsopoulos e Gustavo Novaes

Editora Outside.co

86 páginas

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*Daniela Marino é pesquisadora de quadrinhos, cultura pop e questões de gênero. Mestre em comunicação pela ECA/USP, também é membro da associação de pesquisadores em Arte Sequencial, a ASPAS. Organizou com Laluña Machado o livro Mulheres e Quadrinhos, ganhador de 2 troféus HQMIX. 

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