Desconstruindo Una: a sociedade não ouve as mulheres

por Roberta AR

Minha leitura de fim de ano foi Desconstruindo Una, uma novela gráfica densa sobre mulheres que sofrem violência e como sua voz ecoa no vazio. O fio condutor do livro são os crimes de um assassino em série que matava mulheres em West Yorkshire, Inglaterra, entre 1975 e 1981. Una narra os acontecimentos com detalhes, fruto de uma pesquisa minuciosa que inclui diversas reproduções de manchetes da época e toda a construção da narrativa dos crimes feita pela polícia, acumulando incompetência e culpabilização das vítimas no meio do processo. Este é mais um livro para refletirmos sobre a violência sofrida pelas mulheres, já escrevi sobre um outro aqui.

O registro desse crime, que demorou décadas para ser solucionado, se mistura com a violência sofrida pela autora neste mesmo intervalo de tempo, o que a coloca em sintonia com a experiência cotidiana de milhares de mulheres no mundo todo e o que faz desse quadrinho uma leitura tão fundamental e um registro tão importante nesses tempos.

Eu ainda estava no meio da leitura, quando aconteceu a bárbara chacina de Campinas, em que um homem decidiu matar esposa e filhos e mais nove mulheres e deixou uma carta em que chama a todas de vadia, incontáveis vezes. Una também teve o carimbo de vadia na sua adolescência e ela diz “se você é mulher e alguém quer mostrar o quanto te odeia, você certamente será chamada de vadia ou algo similar”. E isso não tem relação à sua vida ser promíscua ou não, basta não fazer o que se espera que você faça.

Página de Desconstruindo Una

Una foi abusada na infância e o desamparo das crianças também é bastante exposto no livro. Crianças abusadas têm mudanças bruscas de comportamento e os adultos devem estar atentos para conseguir identificar do que se trata, para não taxar a criança de birrenta, mimada, delinquente e aumentar ainda mais o sofrimento. Comportamento bem comum entre os adultos, aliás, culpar as crianças pelas violências que elas sofrem.

Os crimes de West Yorkshire poderiam ter sido resolvidos ainda nos primeiros casos, se a polícia tivesse prestado atenção no que as vítimas sobreviventes disseram. O retrato falado de uma adolescente, uma das primeiras vítimas, acabou sendo muito fiel ao assassino preso mais de trinta anos depois. A polícia trabalhou com a tese de “assassino de prostitutas”, numa comparação com Jack, o estripador, e simplesmente transferiu às vítimas o motivo de suas mortes. Mesmo que, o que foi verificado por Una, praticamente nenhuma das mulheres mortas fosse prostituta, foram assim taxadas, porque estavam bebendo ou andando sozinhas à noite. As autoridades também pareceram achar impossível que um homem comum, pai de família e trabalhador, fosse capaz de cometer atos tão bárbaros, mas foi o que se verificou.

Não ouvir as vítimas sobreviventes adiou a solução dos crimes e causou a morte de mais de uma dezena de mulheres que poderiam ter sido salvas. Una faz um lindo memorial para essas vítimas da incompetência e do silenciamento das mulheres no final do livro.

Página de Desconstruindo Una

Os dados sobre violência contra a mulher no Reino Unido são muito semelhantes aos do Brasil e de várias partes do mundo. “No Reino Unido, estatísticas recentes mostram que os homens correspondem por cerca de 98% dos crimes sexuais; enquanto dos suspeitos de homicídios acusados em 2011 e 2012 referentes a um total de 547 homicídios, 210 eram homens e 25 mulheres. Por que a ideia de que mulheres e crianças causam isso a elas mesmas é tão mais fácil para sociedades mundo afora aceitarem do que o fato de que homens violentos levam sofrimento a milhões de pessoas, em tempos de paz e de guerra?”, relata Una.

Desconstruindo Una também trata da representação das mulheres nas artes, o uso do estupro como apelo dramático e como isso nos torna ainda mais vulneráveis. É muito conteúdo e ainda o relato intenso  de uma vítima que se culpou por muito tempo pelo que sofreu. “Culpar a vítima é um ato de refúgio e uma forma de nos enganar. Permite àquele que culpa sentar e julgar, imaginando alguma justiça mística que significa que coisas ruins só acontecem para pessoas más, garantindo, dessa forma, sua própria segurança. Um misticismo similar envolve a ideia do homem monstruoso, lunático, da figura oculta por uma capa nas sombras”, reflete a autora no seu posfácio.

O livro é praticamente todo em preto e branco, com uns detalhes de cor em algumas páginas. A história é contada em quadrinhos interrompidos por recortes de jornal e lindas ilustrações que servem como um respiro para um conteúdo tão denso.

A autora

Una é artista, acadêmica e quadrinista. Seus quadrinhos tratam de deficiência, psicose, ativismo polítco e violência contra a mulher e crianças. Desconstruindo Una foi lançado em 2015 no Reino Unido, e em 2016 no Brasil, pela Nemo.

Desconstruindo Una

Una

Tradução: Carol Christo

Editora Nemo

Número de páginas: 208

Formato: 17x24cm

R$ 59,80

O livro foi cortesia da editora.

(resenha escrita em 2017, originalmente para o site Minas Nerds)

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