Infância pasteurizada e homogeneizada também no audiovisual

por Roberta AR

Por que não incluímos a infância imediatamente ao falar sobre grupos não-hegemônicos em nossas críticas a modelos coloniais culturais que perpassam toda a sociedade? As crianças são as primeiras vítimas em qualquer crise, são alvo de toda e qualquer política de controle social, com projetos de escolas militarizadas, de fim da educação pública, do sucateamento do sistema de saúde pública com campanhas antivacina. E são as que imediatamente sentem fome em qualquer desequilíbrio social.

Se não bastasse isso, temos um crescente movimento de adultos que querem crianças fora de seus ambientes de lazer (seus, porque a criança tem direito de estar em qualquer lugar que não a deixe em risco). Pessoas que dizem lutar contra violências sistêmicas contra grupos minorizados acham normal excluir crianças da vida social, é assustador. 

Noções de direitos humanos devem ser aplicadas às crianças, mas não são. Temos uma lei específica para combater a violência doméstica contra crianças, a Lei menino Bernardo, além do ECA e de vários dispositivos na Constituição Federal. Mas por que falo disso ao falar de crítica de cinema?

Crianças são o principal alvo da indústria hegemônica do audiovisual, que vende seus heróis, princesas, com um sem número de versões que se pretendem diversas por incluir peles e rostos diferentes, com filmes que são para adultos, muitas vezes, mas que possuem uma infinidade de produtos licenciados focados nos pequenos desde que saem da barriga de suas mães. Roupas, material escolar e uma infinidade de brinquedos de plástico, grande parte colecionável, e que exclui uma parte imensa da nossa população infantil que, muitas vezes, mal tem o que comer.

Crianças são seres insubordinados por natureza, mas passamos toda essa fase da vida submetendo, subjugando, enquadrando essas pessoas, limitando seu pensamento com produtos culturais homogeneizados com filtros coloniais. Elas têm sido educadas visualmente por uma indústria imperialista, que doutrina para o amor à pátria, à família, com suas lições de submissão e obediência. E nós, que assumimos a dissidência, paramos para pensar no assunto?

O audiovisual para crianças precisa ser avaliado em seu conteúdo e isso também é papel dos críticos. Perdemos a grade maravilhosa que tínhamos na TV Brasil, que trazia animações com corpos e sotaques diversos e agora voltamos aos enlatados. Mas mesmo essa produção, que se ampliou pelo território nacional de maneira inédita nos anos dourados e findos da Ancine, ainda carregavam muitos problemas, como animações com temática indígena que diziam ser homenagem, como se os povos originários não fizessem mais parte da vida contemporânea, ou um sem número de séries no modelo “superamigos”  da mata, com heróis nos moldes de hollywood, personagens estereotipados do folclore nacional, versões abrasileiradas de histórias de mágicos, princesas, cavaleiros e mais um tanto de temas que se repetem ad infinitum em “novas” produções para crianças, com o olhar ainda bem colonizado. 

Festivais de cinema com foco em temática infantil parecem ser uma festa numa escola construtivista que nem fica no Brasil. Alguns deles, inclusive, têm debates sobre estratégias de licenciamento de produtos ou coisas do tipo. Onde está o protagonismo da infância nesses espaços e conteúdos? Crianças precisam de mediadores, mas, mais que isso, precisam estar também no centro dos processos que as envolvem. E elas são plenamente capazes. Falamos em racismo, machismo, lesbofobia, homofobia, transfobia, gordofobia, capacitismo, mas está faltando incluir o adultocentrismo (sim, tem termo para isso) nesse rol das opressões a grupos não-hegemônicos.

Crianças são público e realizadores. Grande parte da receita dos youtubers brasileiros vem de conteúdo produzido por crianças e vistos no mundo todo (youtubers brasileiros estão fazendo crianças portuguesas falarem “brasileiro”).

Neste contexto, é uma luz ver Guilhermina e Candelário (Mostra de Filme Infantil de Florianópolis 2021), que traz um grupo de crianças numa vila de pescadores na Colômbia falando sobre sua rotina brincando com lama, rodas de bicicleta, ou no mar. Ou Bia Desenha (Festival VerOuvindo 2021), uma garotinha de Recife, com seu sotaque natural, não o nordestinês produzido no sudeste, brincando no quintal com pouca roupa, como uma parte enorme das crianças desse país fica o dia todo para lidar com o calor.

De Criança para Criança, (comKids 2021) busca protagonismo infantil na narrativa, com histórias produzidas em conjuntos com crianças de escolas de todo o país. 

Começam a surgir mais filmes como o Astronauta (comKids 2021), em que um menino faz uma viagem espacial num céu de estrelas que escapam do teto de zinco, que deixou de ser Chão de Estrelas; ou Véu de Amani (comKids 2021), que trata do dia a dia de uma menina mulçumana na periferia de Brasília. Filmes para criança que falam do aqui e agora.  

Alguns festivais já abraçaram esse público, precisamos avançar mais e entender que criança precisa estar em todo lugar para que o mundo possa ser outro. 

(a intenção é que este seja o início de uma série de críticas a audiovisuais destinados a crianças com foco nos elementos desse quase manifesto, espero dar conta)

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