O mundo de Lísias: estranho, familiar

por Adriano de Almeida*

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O mundo de Ricardo Lísias é um continuum entre Rio, São Paulo e as grandes capitais contemporâneas. É um lugar péssimo, onde reina a estupidez mais medonha, e onde os estetas, senhores do bem e do mal, regozijam-se em converter em alegria a realidade insolitamente desumana.

narrativa contemporânea

O insolitamente desumano, central em A vista particular, tem a ver com uma tendência da ficção do século XXI, presente tanto nas séries de TV – de Walking Dead a Black Mirror – quanto na literatura considerada mais culta, como Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

Nos filmes de suspense e de horror, o insólito também tem sido associado à representação hiper-realista. Existe um “neonaturalismo” até, no gosto pelos fenômenos médicos, fisiológicos ou escatológicos, “neonaturalismo” que comparece não só em American Horror Story mas também em O anticristo. Esse “neonaturalismo” não caberia na fria análise de Lísias, que parece empanar a realidade, oferecendo-nos uma visão enevoada e difusa, uma realidade que é incômodo experienciar como leitor, e esse incômodo me parece decisivo nos livros de Lísias.

lísias é para os fortes?

Esses elementos todos, frequentes nos diversos tipos de produção cultural, estão presentes e são combinados de modo específico em A vista particular.

O radicalismo realista – um primeiro exemplo de especificidade – se estabelece a partir do pacto singular de Lísias com a representação, pacto que embaralha a relação do leitor com o texto. Para o autor, não só a cidade do Rio e o século XXI são referentes verazes na narrativa, mas também a existência de pessoas, como o crítico Rodrigo Naves e a psicanalista Maria Rita Kehl, os quais são referidos no romance. Portanto, Lísias joga para o leitor o seguinte problema: por que apenas cidades, países, ruas, bares, pontes são apresentados como elementos da realidade?

O leitor talvez saiba que o autor conseguiu algumas dores de cabeça com a publicação de Delegado Tobias. Se não acompanhou o episódio, o link abaixo é altamente recomendável. Trata-se de um curioso evento na história das letras brasileiras: Livro de Ricardo Lisias leva à instauração de inquérito na Polícia Federal por falsificação de documento.

ficção como realidade

Outra escolha estética contemporânea de A vista particular é a oscilação entre ficção e realidade. Esse é outro elemento muito explorado pelo cinema em seus mais diversos segmentos – de Atividade paranormal a Ninfomaníaca, passando por A Bruxa de Blair. Uma referência clássica dessa combinação é Citizen Kane, de Orson Welles, e ela encontra outros exemplos notáveis no cinema: Aguirre, de Herzog; o documentário que parece ficção Iracema, uma transa amazônica, de Jorge Bodansky e Orlando Senna. E há também o caso notável de O bandido da luz vermelha. Ainda os inúmeros filmes de Woody Allen.

Lísias comenta sobre sua filiação ao nouveau roman (ver entrevista em Literatorios #15) e, propõe, como aqueles autores, um verdadeiro desafio lúdico, marcadamente metalinguístico, que não é simplesmente entrega à estesia, porque chama a atenção para a engenharia da literatura como fenômeno análogo à vida social: estetiza o horror de uma arte que estetiza o horror – o que me obrigaria a comentar sobre o pintor José de Arariboia, o herói do romance, e isso será feito só mais para a frente.

simulação e negaceio

Mas, ainda que evoque o jogo e a brincadeira, A vista particular não é uma atração apenas agradável. Não mesmo. O livro desconcerta o leitor, traindo-o logo no início, quando, por exemplo, apresenta um espaço para a citação que não traz texto algum. Como neste caso:

Como o texto é claro e ele autorizou a reprodução, copio literalmente:
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
(LÍSIAS, Ricardo. A vista particular. Alfaguara, 2016, p. 14)
Acho que o Lísias criou uma forma quase impossível de citação, um verdadeiro desafio para os mestres da ABNT e citadores mundo afora.

Na página 15, o leitor encontra o seguinte trecho:

“O mar e a favela, por exemplo, amalgamam-se em um conjunto de quatro telas de tons azulados muito intensos, todas em acrílico. Uma delas está reproduzida na próxima página”.
(LÍSIAS, Ricardo. A vista particular. Alfaguara, 2016, p. 14)

No entanto, a “próxima página”, a 16, não traz nenhuma imagem. Aliás o livro, que tem um grande apelo à visualidade, trabalhando a trama narrativa em diálogo com referências a vídeos e pinturas não apresenta, por exemplo, uma ilustração sequer. Esse não é um dado banal no caso de Lísias, porque as imagens recebem capítulos exclusivos para elas, como é o caso da página 16:

“VIII
Cidade Brava: mar Brasil
Acrílico sobre tela
2014
(coleção particular)

Na página da “imagem”, aparece apenas essa legenda.

E o leitor recebe uma bela trollagem, e fica a ver navios. Sim, estamos na tradição machadiana dos narradores nada confiáveis.

romance sacana

A capa de A vista particular é uma sacanagem à parte. O trabalho é de Claudia Espínola de Carvalho, e deve ter rendido muitos elogios, todos merecidíssimos. É um lindo trabalho. A ilustração é de Celso Koyama: um naif revisitado por um traço rústico de HQ. É um desenho muito bonito. Então você repara que são casas pobres, de bairros pobres. Então você repara que aquele colorido de HQ é um enfeite para encobrir a realidade das habitações precárias, é um colorido que engana a percepção, mostra a pobreza de modo sorridente, harmônico, como se fosse um belo projeto urbanístico-estético. Cores modernas, árvores, predomínio da verticalidade…

O título também é enganador. Veja lá: uma boa vista da cidade do Rio, um ângulo privilegiado, uma janela com vista para a mata, para a montanha ou para o mar. Até parece ser uma crítica, ou pelo menos uma provocação, ao privilégio de poucos cuja vista agrega valor.

arariboia

A história registra o nome do índio Arariboia, dos temiminós, grupo tupi que habitava o litoral brasileiro no século XVI e ajudou os portugueses na luta contra tamoios e franceses na disputa pela Baía da Guanabara.

Já o José de Arariboia de A vista particular é um artista reputado, considerado pelos críticos como conhecedor do espírito do Rio de Janeiro.

José de Arariboia só tem olhos para a sua arte. Mas, em vez de enfurnar-se numa torre de marfim – como seus antepassados da arte pela arte, no Rio de Janeiro do início do século XX -, ele é cínico o suficiente para frequentar o morro Pavão-Pavãozinho, em plena boca do tráfico e, a partir de lá, construir sua espetacularização da pobreza e da violência.
É o espírito de beleza da Belle Époque carioca atualizada na “cosmética da fome” (Ivana Bentes). Esse termo, aliás, “cosmética da fome”, é bastante útil para se pensar a crítica de Lísias aos postulados de uma arte como a de Arariboia. É uma arte que dialoga com a “cosmetização” da violência e da miséria, tornando a condição dos pobres do morro um exótico material de fetiche, excitador dos mais doentios orgasmos estéticos – aquele de Tropa de Elite e de Cidade de Deus, que entre o choque e o gozo se confundem para no fim apresentarem heróis dos mais duvidosos: respectivamente, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e a grande imprensa, destacados como “caminhos do bem”, para lembrarmos a música de desfecho do filme Cidade de Deus – contrariando as escolhas do autor do romance, o escritor Paulo Lins.

Se o Arariboia de Lísias não é o temiminó que entregou outros indígenas aos colonizadores estrangeiros, que afinal triunfaram na peleja, é o artista que delicia as classes abastadas com a exibição dos sofrimentos dos pobres do Rio de Janeiro – os moradores da favela de Pavão-Pavãozinho – e sua realidade miserável e violenta. José de Arariboia simboliza o artista que, envolvido com seus próprios processos criativos, passa ao largo dos problemas do mundo, um evasionismo que infelizmente é bem forte nas artes plásticas. Se a favela for estilosa, se for capaz de atrair, de gerar frisson com seus ratos, crianças mortas, uso de crack, então ela é interessante.

Horror com legendas de realidade é fascinante para o público. E ninguém precisa defender que cultiva o horror, uma vez que a diversão artística ou o entretenimento é um salvo-conduto para comentários de qualquer teor, como acontece com a misoginia, o racismo, o bairrismo e outros preconceitos que passam de boca em boca, nas piadas, ou são transmitidos pela televisão e o cinema, além de frequentemente mencionadas nos palcos de alguns teatros. Isso para não falar nos rádios, que fazem piadas com vinhetas satirizando jogadores homossexuais.

Tudo parece apontar para o caso do protagonista machadiano do conto “O caso da vara” (publicado originalmente em Gazeta de Notícias, de 1891), que afirma que não há culpa em “ter chiste”.

em outras palavras

A farsa assume, na narrativa, a forma de um incômodo difícil de entender. Seguindo uma linha impressionista, diria que percebo um problema que o autor joga para seu interlocutor de modo incrivelmente eficiente, o qual pode ser apresentado da seguinte forma: o leitor sensível às injustiças e à “banalidade do mal” (Hannah Arendt) ficará indignado com Arariboia e sua estetização da desgraça, mas ao mesmo tempo vai se espantar com o modo eficiente com que Lísias representa esse tipo de canalhice na arte. O ético e o belo se conflitam constantemente no livro, como na vida social.

todorov

O narrador prega uma peça de humilhação à banalidade burguesa do mundo contemporâneo. Sim, ele faz isso mesmo. E nunca é demais insistir que ainda existem leitores para quem o prazer estético reside justamente na eficácia com que alguns livros captam a dinâmica da realidade. No caso de A vista particular, a narrativa procura despistar a desfaçatez de caráter de Arariboia e, no fim das contas, a do próprio narrador. Essa desfaçatez e a tentativa (muitas vezes preguiçosa) de ocultá-la são tônicas da vida brasileira.

Todorov acaba de morrer (7 de fevereiro de 2017) e, já tendo deixado um legado de alta importância, fechou o seu percurso de modo surpreendente, com A literatura em perigo (2009), livro em que Todorov adverte que a literatura, mais que um conjunto de combinações linguísticas ou de achados poéticos, é uma forma de representação da realidade, uma forma de diálogo crítico com ela.

Ninguém me perguntou. Mas se me perguntarem direi:

É esse o papel mais importante da literatura – falar a língua do tempo e gritar as dores da humanidade -, eu acredito, mais do que nunca.

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* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor, educador e pesquisador em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Autor do livro Entulhos, que pode ser adquirido aqui.

25 de janeiro

por Adriano de Almeida*

São Paulo é destino
e ofício
– vale o custo-benefício?

São Paulo é sina
portuguesa italiana
japonesa boliviana
nordestina

São Paulo é preta
é ziquizira
é rebu que não escolhe
lira

é Mário de Andrade
Ugo Giorgetti João Antônio
Adoniran Mano Brown
é Piva!

São Paulo é índia
é corrupio curupira
no fundo no fundo São Paulo é caipira

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* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor e professor de literatura. Autor do livro Entulhos, que pode ser adquirido aqui.

Entulhos

por Adriano de Almeida*

Bicoradas de pombos e corvos. Essa cidade é um pesadelo.

Seu Mário agitou-se a noite toda. Meteu-se com uma vara no viveiro dos bichos, em voz de cantilena os almadiçoou e os benzeu. Ouvi ele dizendo “Agradecido, meu filho, agradecido”.

Duas da tarde e ainda de pijama. A montanha de papel sobre a mesa, esperando meu trabalho. Por que fui arrumar coceira? Ser professor já não vai muito bem? Agora se meter em servicinho de editora… Servicinho que nem paga pelo anonimato: guias de estudos, suplementos, roteiros de leitura, coisinha escroque. Ninguém nem devia de ler isso. E eu aceitando essa groselha pra ganhar um tostão.

Por que não foi fazer publicidade? Você escreveria assim mesmo, nas suas horas vagas. E cada ideia valeria nota preta.

Um escritor sem livro publicado? Investe mais nesses trabalhos, as editoras têm alguém por lá que acaba sempre farejando um talento.

Talento. Escrita dura, pedra sobre pedra, escrita sobre a escrita. O pêndulo com os pombos, seu Mário e as casas tortas desta rua, pesadelos neogóticos. As sombras e as raízes das árvores imensas, os homens de colete (pesadelo) perguntando o que você andou fazendo nesses últimos dias.

Nem uma linha. Nulla die sine linea. Ah, ah.

As perguntas vão reaparecendo, entre a poeira dos dias, sempre. O que esses anos todos foram acumulando de entulho. Um pouco da Roosevelt. Um pouco do seu próprio corpo. Um pouco dos copos de outros onde já meteu seu beiço. Um pouco das coisas pelas quais você um dia lutou.

Nulla die sine linea.

Seu Mário existe na forma de um corvo. O corvo do poeta Poe. Aquele doido americano. Ou a coruja do amaldiçoado Paulo Honório.

E você, Professor, que se vire com seus pombos.

Podia levantar-se agora, espanar a papelada e digitar cinco ou seis laudas de um textinho irretocável. Por que não o faz? Vingança, preguiça, falta de ambição. E, ao contrário do que pensam (Seu Mário nunca saiba disso), você não escreve. E ao contrário do que pensam (“Um bacharel, vejam só”), você redige cartas.

Despojos dejetos desejos entulhos. Tudo o que o tempo devolve, espumando imundas ondas.

Olha o Pinheiro

Podre

Dentro de todo homem

há um rio virulento

(Antonio Cruz)

Os espaços apertados (quando era jovem adorava o termo “angusto”, mas a vergonha restringiu seu uso a situações metalinguísticas) são propícios à perturbação mental. Isso está escrito em Crime e castigo. Esse é o tamanho do seu mundo.

Uma noite andando pela rua, achou que era Raskólnikov. Um pesadelo que durou dois meses; levou-o, a certa altura, a adormecer em túmulos. O coro dos entulhos, dos despojos, dos desastres.

São Paulo.

Dormiu em bancos de praças, marquises, cinemas. E não porque não tinha casa. Chegou a andar três dias sem nenhum destino. Radial Leste. Cachoeirinha. M’Boi-Mirim. Qualquer nota. Qualquer preço. Qualquer troco.

Seu Mário me diz que ele é neurótico, e que está vendo sua mulher ser devorada aos poucos pelo câncer.

É a cidade toda, seu Mário, é todo o mundo.

Ele é um homem sincero e me diz isso segurando seus cabelos com fúria.

A pilha de papéis mede meus movimentos. Esse é um cronômetro.

Eu sou o entulho.

(São Paulo, janeiro de 2002)

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* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor e professor de literatura.

O seu nome infeliz

por Adriano de Almeida*

Dieguinho de cara vincada, solitário mas ria. De muito.

Aos doze, prensou-me na sala de aula – mais alto, mais forte, mais velho que eu. Eu era maluco e enfezado e cuspi como um bicho e ele foi pro seu canto.

Amigo? Jamais. Na verdade eu sentia era medo.

Teve jogo de bola uma vez e marcamos dois gols, por instantes virando parceiros, mas o tempo arrastou Dieguinho.

As bocadas, os doidos, as tretas, uns rolês muito estranhos no bairro. Dieguinho afastou-se da escola, e a escola afastava-se dele.

Pude vê-lo duas vezes.

A primeira uma terça gelada, ele e os manos, num golpe sem sorte, levaram-me quinze reais. Meu salário, Dieguinho, cacete!

Já na febre do rato ele viu: era eu, o sujeito da escola, o magrelo que ele apavorava, com quem dividiu breve paz.

Era tarde, os seus manos gritavam. O dinheiro miúdo escoado na mão. Essa merda de vida, Dieguinho, roubando o que outros, branquinhos, retinhos do bairro ganhavam, trabalhando pra limpos poltrões.

A segunda foi constrangedora. Eu já tinha mais de vinte anos, dava aulas num curso noturno, e a chamada acusou Dieguinho, que escondeu de vergonha e sumiu.

Uma outra existiu, a terceira. Mas não era o menino Diego. Era outro, um zumbi gaguejante, implorando em molambos trocados, pra pagar sua pedra azarada.

Dieguinho, cacete, que vida, eu me sento a essa hora noturna, pra gravar o seu nome infeliz.

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* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor e professor de literatura.

Navio fantasma

Por Adriano de Almeida*

Fechando a porta, ouço o violão que ressoa no quintal. Meu avô pigarreia o fim da vida. Eu quase não respiro, me concentrando em reprimir o asco.

Como envolvido em plástico, protegido, passo pudicamente a palma pelos móveis, não me expando. Evito gorduras e nódoas. Há ratos no quintal, eu bem sei. Há um concerto de seres perversos, percevejos e pulgas, talvez até morcegos. Concerto que seres avançam pelo teto, esparramam-se no chão, perdem-se entre os móveis, rastreando sombras.

Em um instante tudo pode acontecer. A casa está sobre fossas. O cheiro irrompe no escuro e diz direta a meu estômago. Tento esquecê-lo, atenuá-lo, tento resistir. Quem sabe reagir. Inútil. O cheiro exercerá sua doutrina, cavará suas ruínas: porque o caso é o cheiro existir.

Sim, por que não reagir? E o que é reagir? Em que momento reagir não é também recusar, não é também esquecer?

Ando descalço, sozinho, a casa é grande e cheia de porões. A janela chupa a noite pro meu quarto e faz tremular os meus mais tolos pensamentos. Esboço um movimento evasivo, espécie de força aparvalhada, e acabo quieto e bambo como um a no vento.

Enquanto aliso o branco do lençol, neste momento mesmo, o avô tosse.

O certo seria me entregar, desatolar, desatar, soltar os véus – tocar o pútrido (para torná-lo puro?). Devia era irmanar-me com o escuro, deixar-me ser também aquilo, as partes brancas de minha pele e do lençol saberem outro jeito de ser inaugurar – isso seria talvez – seria isso a esperança?

Lá embaixo o mesmo som de cordas. Elas parecem abrir caminho para as criaturas, concatenando com seus passos. A casa toda é um organismo vivo, ritmado, assustador.

Tudo – meias, luvas, vedações internas –, tudo para seguir a saga. E o cheiro e o jeito da comida de hospitais. A janela chupa a noite. Traz a tosse do velho, seus cem segredos de senhas e filas.

Curvilíneo e descarnado, ele, o avô, velho pó, assimilou numerações excêntricas, ouviu sentenças veladas e a cantilena das bulas, zanzou por corredores brancos e uiva lá embaixo o seu destino calcinado.

Em zelo incorruptível, as outras filhas da espera, pernas de varizes, braços de sacolas, silenciam maldições, suportando as filas. Bocas de gaze. Em corredores brancos, aventais nervosos erram entre as macas e os guichês. O avô voltando cada vez mais furado, a boca feia, desbeiçada. No catre a voz da dona faz promessas, a mão tremendo sempre:

– E a família choooora, santa!

– Só Deus, menina. Só Deus.

Cada qual pode guardar suas lembranças, falamos todos muito pouco. A avó é surda e pouco sabe crochê, nunca dançou, falou a vida inteira sem ser entendida e está cansada. O filho é esquizóide trina as cordas de nylon, fios do tempo tão tênues. E o avô? – pergunta que viaja entre as escalas. E o que é de seu Laor? Talvez ele imagine um prato muito suculento, um prato de macarronada, muito molho. Um pedaço de abacaxi, que tanto ama. Laor não pode comer. Os olhos cheios de alegria urgente, a boca seca, e uma garganta que é um infinito de saudades, um pântano esquecido. Seu Laor, o avô, não come mais. Agora faz a vida na madeira: desenha trecos, faz ferramentas, esculpe a vida. Cospe de lado.

Laor, o avô – ele tem câncer.

E nessas horas, que a noite prima em ser passado; e nessas horas, que todo peso agora desce, que tudo é escuro e deselegantemente sério, Laor aperta a mão no peito, ajeita-a na garganta e emite um som que finjo não ouvir.

A noite suga a teia da memória. A avó balança na cadeira. Não ouve o som das rádios piratas, nem dos carros, que vão longe. O horror tateia os móveis. Será sempre assim? Nas fotos de Laor há um dorso novo – ele era o mais bonito de toda uma numerosa e saudável geração que percorreu cidades e cidades, todos bêbados, todos mancos, todos tristes – só que Laor tocava trompete. Na foto via-se o dourado do instrumento. Laor, bochecha cheia e avermelhada, soprava firme o tubo milagroso – Este Laor, foste dado!

O quarto fermenta, desfilam algumas cores pelo escuro. Parecem aviõezinhos, tufos de algodão, espuma. Aperto os olhos: a cor aumenta, vai e volta. Aperto o peito. Há muitos séculos fazem isso, apertam o peito. Laor aperta o peito e pode esfarelar-se, diluir-se. Me lembro que batia firme um murro na parede, fazia até tremer a casa. Com ele ali, dizia, ninguém faria mal à gente. Hoje se esfarinha e ninguém vê.

Laor, a vida é curta e cabe aqui na minha mão assim: a mãe tem culpa, o pai tem culpa, eu tenho culp… caiu no chão a espuminha branca. Andou voando e se desequilibrou. Os voos mais heróicos um dia têm sua queda. É a regra. Como a Gramática que estudaste, com aquelas regras que jamais poderás abolir. Sim, porque abolo não existe, tu te lembras? Aceitar, então, Laor? Como? Como ver em minha mão o que não há? Como ver as espuminhas? Como ver as nuvenzinhas ziguezageando livre do concerto. Igual àquele homem do mar, que Laor leu pra mim: sozinho, contra a força.

A avó balança em frente da TV, Laor tritura a pele da madeira, o tio dedilha a solidão absorta. Então é sempre assim? A crueldade do que não se move. Laor, não; alguma coisa come vagarosamente. O tempo, e seus desígnios. As células. Laor tritura a pele da madeira – trituram-lhe mãos muito mais duras, bem menos vagarosas e ainda quando dorme. Puseram formas esquisitas em seu rosto, brincaram de tirar-lhe as carnes, cismaram de arrancar-lhe os lábios, deram-lhe seca à boca. Concluem: Laor é sem secreção. É sem segredo.

O tio dedilha um mundo inteiro. Laor e a vó sorriem vagos. Sempre assim. Olhos ressabiados: os velhos adivinham coisas que não vemos. Naqueles momentos tensos, naqueles suspiros largos, enquanto dorme a avó na cadeira, suspendendo o tempo – cadeira feita por Laor, mãos ágeis contra o tempo, mãos grossas contra o peito, mãos hábeis e obsessivas, mãos vivas; – era então que eles sabiam: sempre assim.

Os musgos e os resmungos se acavalam em confraria. As assembleias voam velozmente noite adentro. Resisto à cama. O último cigarro iluminando o breu. Escuto o respirar pesado. A casa sua, o concerto. Eu.

A nave inteira – suja cega surda – silva. Eu vou sumindo no intervalo claro que antecede o sono, eu vou seguindo.

Um marinheiro novo já cansado das marés, do sal denso dos mares. Da estúpida viagem.

São Paulo, 1998.
E o avô morreu exatamente nesse ano.

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* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor e professor de literatura.

Parada

por Adriano de Almeida*

Umas duas vezes por dia eu penso: escreve, volta a escrever. Então manda pra ela. A sua amiga. Aquela. De Brasília. Ela com certeza vai sacar a santa impaciência, opaca, obtusa, compulsiva. Talvez ela quisesse o mínimo, um mímico murmúrio, pedra pontuda pontuada de verdade. Um fotograma: a cidade, ela queria, com certeza. Ela sente saudade. Do frio – que não existe. Do tempo – que não há. De uma outra cidade. Poxa, ela pediu pra você: escreve, puxa, escreve. Escravo, digo, repito: ela não vai falar, não adianta – a cidade. Ela é contínua. Ela muda emudecida. Gravou seus movimentos numa câmara aberta. O cérebro da câmara foi jogado no rio. Era madrugada, o rio já não existe. Ele se foi já muito antes da Cruzada pelo Verde. Salvaram até os ET’s, ele se foi. Seu leito virulento é o retrato da cidade. A câmara escura. O futuro. Não vem. É sólido, oco, ordinário. As vozes soterradas de tapuias se empedraram no seu ventre. Mas ela quer, ela quer ouvir, e umas duas vezes por dia mais ou menos eu penso: hoje escrevo, mandando um aceno e dizendo por aqui é a mesma coisa de sempre, entramos inda nas cavernas besuntadas de suor e ostentamos como sempre aquele modo grave de viver. Todo dia com mais queda de energia e criatividade, todo dia com uma queda significativa de humor e mais morador de rua, todo dia um horizonte mais estreito protegido por porteiros nordestinos, pretos, pobres, sonambulando pra zelar o nosso sonho clandestino, leve, ágil, e despertando ainda antes que possamos afastar o sono, prosseguir viagem, com licença, quase entre dentes, estridentes, tiritantes, entrementes um juízo que se acanha à beira de outro abismo quando tudo é atravessado na garganta da avenida.

Os faróis já vão abrir / E um milhão de estrela prontas pra invadir.

Não há manhãs frias de abril, não há exílio entre os casarões, não há aquecimento nem ventilação. São Paulo morre sozinha, São Paulo incha, São Paulo sofre, São Paulo está parada há muitos anos e estará pra sempre. Ninguém sabe disso e é preciso avisar: São Paulo está parada há pelo menos vinte anos. Mas você quer, você diz, você quer se lembrar: dos tempos dos sobrados, das sacadas, das varandas da periferia, do silêncio & da neblina, você quer – rever aquelas fotos de onde o nosso rosto já se foi. O sonho acordado, desejaram os mitólogos; mas não, my baby:

é o pesadelo infinito, de onde não se sai depois que acaba o grito.

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* Adriano Guilherme de Almeida é paulistano, pai, escritor e professor de literatura.