Terno & Gravata

por Biu e Tiago Penna*

bzzt! diz:
e agora podemos postar o japa?
E.T. diz:
é sobre o que o vídeo?
bzzt! diz:
sobre como aproveitar bem a boa vontade dos outros, no caso o japa
E.T. diz:
esses são os bastidores, o enredo, ao meu ver, é sobre a destituição político-social que todos nós possuímos em nossa pseudo-democracia
E.T. diz:
concordas? o interessante é como o vídeo foi feito… vc se lembra? um parto às avessas
bzzt! diz:
bem, o q eu disse tem a ver como ele foi feito, não?
E.T. diz:
claro, mas vc se lembra que o compromisso durante a filmagem era diferente do mesmo quando posteriormente foi feito o roteiro, que se modificou na montagem?
bzzt! diz:
concordo com o q tu disse sobre a situação social
bzzt! diz:
bem, eu levei em conta o q tínhamos e o q dava pra fazer com aquilo
E.T. diz:
ele é um descamisado engravatado!!
E.T. diz:
sim, graças a você e seu espírito ecológico o material não foi pras cucuias
bzzt! diz:
acho realmente q o japa teve muita boa vontade
bzzt! diz:
muito
E.T. diz:
teve demais, embora ele não seja exatamente um, digamos, ator profissional
bzzt! diz:
arrumou o figurino, foi paciente…
bzzt! diz:
pagou o mico
E.T. diz:
mas emprestar o terno. ir de manhã cedo para o centro, topar da noite pro dia em assumir o papel, isso tudo foi graças ao japa, e não aos pré-produtores, que inclusive fizeram um vídeo poesia, tal qual planejado bem ruim, e não nos colocaram nos créditos, e mais vieram cobrar
bzzt! diz:
kkk
bzzt! diz:
os produtores eram muito estrelas
bzzt! diz:
foi o filme do filme
E.T. diz:
embora nao tivessem a mínima experiência com o audiovisual
E.T. diz:
mas tinham comprometimento, embora desviado, tenhamos que assumir
bzzt! diz:
eu lembro do cara dizendo – mas é assim q vou ganhar nota e é assim q eu quero
E.T. diz:
Graças a Deus nosso vídeo nunca entrou na academia
bzzt! diz:
seria queimação pra gente
E.T. diz:
demais, lyceu rulesx
bzzt! diz:
pois bem, então pra mim foi um filme de edição, uma brincadeira de dar sentido praquelas imagens.
E.T. diz:
exato, e o método do roteiro compartilhado simultaneamente também foi um exercício muito frutífero, produtivo e gratificante, deveria ser repetido mais vezes
bzzt! diz:
claro, foi um exercício de comunicação massa
E.T. diz:
fico honrado em ter feito um vídeo 200% com você
bzzt! diz:
500 com o acaso
E.T. diz:
há quem fale mal da paquerada do japa no final, mas creio que reflete uma falta de sensibilidade
E.T. diz:
1000% agora que será postado em nosso blog coletivo
bzzt! diz:
ah, falta de senso de humor. preciosismo bobo
E.T. diz:
conheço um cara que é “crítico”. além dele falar difícil pacas, sempre qualifica as obras de acordo com parâmetros e conceitos pré-estabelecidos, ou seja, um pé no saco, principalmente levando em conta esse vídeo exatamente
bzzt! diz:
ignoro
bzzt! diz:
não q exista, a existência
E.T. diz:
pois bem, que o público se divirta, reflita sobre a vida estética, e faça sua própria crítica da faculdade de julgar kantiana, como é de se esperar…
bzzt! diz:
sim, não tem q fazer sentido
bzzt! diz:
por si, digo
E.T. diz:
a leitura interpretativa das obras de arte perpassam o horizonte de conhecimento do sujeito, e por isso o fascínio das artes, falando agora em termos gadarmianos sob interpretação pensativa
E.T. diz:
divaguemos mais surrealisticamente, faz favor
bzzt! diz:
kkk
bzzt! diz:
pior q fez sentido pra mim
E.T. diz:
vc acha que este texto ficará robusto demais par aos nosso leitores dedicados do além tejo?
bzzt! diz:
acho que ficará piroso comum
bzzt! diz:
como eles dizem
bzzt! diz:
tive q olhar no dicionário
E.T. diz:
dictionarys suxs, legal, são divertidíssimos.
E.T. diz:
deveríamos brincar mais de escrever juntos
bzzt! diz:
eu gosto disso. tá lendo o q?
bzzt! diz:
tá sem tempo?
E.T. diz:
bem, eu li a metafísica do príncipe da filosofia, e agora pretendo reler o ensaio sobre o cinema
bzzt! diz:
quem é o tal príncipe?
E.T. diz:
Aristóteles, discípulo que superou o próprio Pai – Platão
bzzt! diz:
nunca li
E.T. diz:
vc deveria ler também, pra gente metamorfosear juntos
bzzt! diz:
tu gosta das tragédias?
E.T. diz:
gosto sim, embora alguns arquétipos sejam pesados para conceber da maneira usual
E.T. diz:
creio que agora já podemos postar
bzzt! diz:
sim. dá pra resumir, pr
E.T. diz:
enviemos para a redação, sil vous plait.
bzzt! diz:
kkk
E.T. diz:
bye, my friend
bzzt! diz:
. tu pode cuidar disso, plz?
E.T. diz:
até breve = cuido
bzzt! diz:
bj, véi

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.

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E o Sol da Liberdade, em Raios Fúlgidos

por Tiago Penna*

Um dia desses, antes de ontem, foi o dia do meio-ambiente. Provavelmente algumas escolas colocaram seus pupilos para plantarem alguma mudas de árvores, e os jovens pimpolhos, diante da TV, devem ter feito algum tipo de discurso bem bonito, daqueles que todo adulto são, ou pelo menos os pais, querem ouvir. “Devemos proteger o meio ambiente, afinal estamos no meio dele, fazemos parte dele, somos ele, inclusive”. Mas por que será que estes mesmos pimpolhos ao ficarem mais joviais se desviam para as drogas ilícitas ou para o sexo descompromissado, e ao chegarem na fase adulta já estão tão afixionados na gana de ganhar dinheiro (e mais e mais), que se esquecem que o ambiente que nos rodeia também é vivo, e muitas vezes verde.

Por que em nossa sociedade as crianças são tão esquecidas (o que dizer das crianças de rua)?? Por que o verde preocupa se não estamos dispostos a abrir mão de nossos carros, ou dispostos a pressionar o governo a impor às empresas, montadoras de carro, a embutirem um dispositivo que já existe há 15 anos que reduz drasticamente a poluição (ao passo que também diminui a potência do carro e o encarece também um tanto)? Quem ousa ser o primeiro?

Em Campina Grande (“O Maior São João do Mundo”) um promotor de nome engraçado foi ousado: proibiu todo e qualquer tipo de fogueira, argumentando que – após o advento dos celulares – as mesmas não são mais necessárias para anunciarem o nascimento de ninguém. Boa medida, dizem os especialistas, para se proteger o meio ambiente é preciso abrir mão de costumes tradicionais. Eis a moral da história.
É isso que os adultos não entendem, porque seus professores especializados em mercado de trabalho também não compreendem que a vida do planeta inteiro está ameaçada. Enquanto Israel loteia a Lua, e os EUA planejam ir à Marte, a nossa Terra Amada está pedindo socorro, sofrendo, emitindo seus sinais. Semana passada: novo recorde de temperatura na Ásia – Afeganistão e Índia – marcaram 52° de temperatura ambiente. Centenas de pessoas morreram de calor, principalmente mendigos e moradores de rua. Agora não é só o frio que mata em países “emergentes”; paradoxalmente o planeta está em estado de emergência.

E fazer o quê? Além de compartilhar um pouco de informação em um blog coletivo?

Alertar: precisamos mudar de paradigma. O velho e já tradicional modelo de desenvolvimento não está mais dando conta da saúde da Terra e de seus compatriotas. O espelho da ecologia precisa refletir uma nova visão de mundo, uma nova filosofia de gestão de material – humano inclusive, mas não apenas. O que dizer de nossos graduandos engenheiros, alunos de “relações humanas”, quando distinguem pela primeira vez na vida o significado de se ter uma conduta ética, e desconfiam que colar em provas e copiar trabalhos na internet começa a incomodar pelo mau cheiro.

Do meu singelo ponto de vista as crianças continuam com a razão, é preciso preservar. Mas as mesmas precisam ser acompanhadas também em sua juventude transviada e principalmente em sua fase adúltera. Governo não late sozinho. Um cidadão isolado não faz monção. Tentando não ser tão didático assim, nem planfetário (se é que é possível falar de um tema desses sem os sê-los): é o paradigma que precisa ser mudado. São nossos hábitos mentais, culturais, sociais, industriais que precisam mudar. Enquanto é tempo.

Senão, não é que o Monsieur Isaac Newton tinha razão: o mundo pode mesmo acabar em 2060.
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* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.

Quem nos dera, ao menos uma vez mais…

por Tiago Penna*

Hoje, 1° de junho de 2007, quase cinqüenta anos após o homem ter pisado na Lua, saiu no jornal: descoberto grupo indígena com 87 integrantes que nunca tiveram contato com o homem branco. A postos, o “chefe” da FUNAI, e um cacique de nome estranho, irão tentar o primeiro contato. Pra quê? Me pergunto. Quando falaram sobre os ianomamis na década de 90: “última tribo de índios sem contato com os brancos”, eu raciocinei na hora, não são os últimos, nem sequer os antepenúltimos. Hoje, 15, 20 anos após minha especulação adolescente, posso testemunhar pela televisão o que minha intuição já me dissera de imediato. Nós não estamos sós. Nem eles. Coitados, não podem viver isolados? Por que não? Eles não são índios? O que o governo brasileiro ou nossa sociedade pode dar de produtivo para esses índios vivos? Um assentamento? Uma televisão de plasma? Uma camionete de luxo, última geração?

Como uma daquelas coincidência, daquelas que só os loucos percebem, ouço da janela do meu apartamento, à beira mar da capital da Paraíba, uma moto-serra, matando alguma árvore indefesa na mísera reserva ao lado da minha casa. Mas não se preocupem. Eles (os assassinos) são do governo. Esta é a terceira vez que me deparo com uma situação dessas ao vivo. Na primeira, muito louco, resolvi telefonar para o disque denúncia do IBAMA, órgão instituído a priori para proteger o verde. Me falaram: “Ah, mas é na Universidade Federal, deve ter autorização…”. Pois então verifique!! Não tive capacidades de ordenar. Na segunda, translocado, escrevi um texto, pois percebi que os humanos pouco se lixavam, enquanto o cadáver da árvore verde e em plena forma era dilacerado no chão, enquanto a seiva etérea ia escorrendo. Até aonde vai a vida? Até a planta secar? Assim que ela é desgarrada do solo? Quando ela não puder mais dar frutos? Ou apenas quando apodrecer?

Me pergunto: hoje já é São João aqui no Nordeste. Será que tão catando lenha? Fico ansioso. Verifico pela terceira vez. Trata-se de um caminhão oficializado, sabe-se lá daonde. Bom para se pensar é a questão: até onde vai a oficialidade e até onde segue o bom senso? Voltando à questão indígena. Pergunto-me: se acharam esse grupo em pleno século XXI, no meio da região centro-oeste, o que deverá haver abaixo daquela imensidão de copas verdejantes que é a Amazônia Brasileira? Porque intervir? Pra quê? Para levar-lhes doenças, por certo, aprender pouco ou nada, e “ensinar-lhes” a serem cidadãos brasileiros, abandonados por certo, nem índios, nem brasileiros, um misto destituído dos dois, sem hospitais, com algumas vacinas, sem universidade, com pneumonia e diarréia, sem conta no banco (até quando?), com destaque nos mais importantes telejornais internacionais. Nós, civilizados e educados, estamos loucos para ver este resquício de barbárie nativa, queremos vê-los nus. Não queremos ver seus rituais mágicos. Mas sim os seios das indígenas adolescentes. Queremos saber como sobrevivem, sem coca-cola, hambúrguer, ou televisão. Como alguém, pode viver assim, perguntam nossos psicólogos, sociólogos, antropólogos, filósofos, artistas, comunicólogos, engenheiros, doutores do direito e da medicina, anciães, crianças com mães, e também aquelas abandonadas.

Can you hear me? Can you feel…?? What? The vibe, my brow. wht do u thnk about tht?

Você já pôde ouvir uma moto-serra em sua ação assassina? E sentí-la? Você pôde? Ou sua mente está calculando os afazeres domésticos e bancários, as verbas e notas da faculdade?

Para onde essa indagação poderá me levar, só Deus sabe, ou talvez o meu inconsciente:
Domesticado está ele a tremular diante de tanta atrocidade de fantasias desesperadas e inesperadas santificadas pelo Papa de outrora como da outra vez perante o inatingível translúcido, indago: não quero mais calcular, quero intuir, mesmo que ela me leve para o buraco, como fez da última vez em que foquei minha atenção em um dálmata que grunia, sabe-se lá porquê, e quando fui dar atenção devida pareceu sorrir de felicidade enquanto abanava inescrupulosamente aquele rabo canino, mas o cão me mordeu na jugular assim que pôde, e enquanto não acabar o papel não finda-se a especulação humana, mas estamos na era dos computadores, não há papel, há virtualidade, admirável mundo novo, é isso que queremos: levar para os nossos índios, “bem vindos ao século XVI”, bem vindo Pedro Álvares Cabral, você vai querer enrabar quantas dessa vez? Pero Vaz, digo, Bonner, manere a língua, fale bem do governo, mas não elogie a dissidência, pode ser perigoso para o seu emprego, e para o seu papel de orador da nossa terrinha, eterna colônia, os filhos dos índios, eternos cheira-colas, quem deve olhar por eles? Apenas as damas caridosas de alguma ONG naturalista, ou algum douto em algum tipo de ciência, inexata, desumana, por certo, longe da saúde mental que assola esses povos ditos selvagens, mas que não costumam cometer estupros, latrocínios, adultérios (oxalá deve saber se é permitido), ASSASSINATOS.

Após essa digressão surrealista, vale reler o texto e verificar a racionalidade do mesmo. Quem vai dar a vida pela Amazônia? Ou não percebem o montante de cientistas, leia-se bio-piratas do velho mundo, ou os aviões-radar do imperialismo verificando se há combustível nuclear de primeira em nosso afamado e desde já ameaçado território nacional. Estão de olho no futuro. Mas nós não temos passado. Temos apenas um pseudo-problema, chamado presente. Em que alguns perdem tempo lendo um testículo como esse em algum blog talvez um pouco menos idiota do que a maioria, ou perde-se tempo escrevendo textos, que jamais lhe dará retorno, apenas para esvaziar a mente de tanta angústia, como se alguém quisesse mesmo saber o que o autor pensa, se é que ele pensa mesmo. Ele é formado em quê? Graduou-se aonde? Escreve para quem? Tem fama? Tem relevância?

Please God, My Lord, can you hear-me? Please, answer me. Nâo deixe nossa herança ser pilhada mais uma vez. Quem nos dera, ao menos uma vez, ficar feliz com o achamento de uma terra nova, onde plantando-se tudo dá.

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* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.

Eu Acho, É Uma Coisa…

por Tiago Penna*

Eu acho que o amor é uma coisa que não pára.
Está em constante movimento, como uma onda eletromagnética em um feixe de luz.
E o tempo parece não existir, ou estar parado, para esse facho de luz.
Se houve um amor entre duas pessoas, então este amor continuará a fluir.
Se alguém ama uma pessoa, ele a ama à sua maneira, como um feixe de luz em certa freqüência e amplitude, com uma certa cor.
É bom amar uma pessoa, que saberá que é amada, e amará a pessoa que a ama, à maneira dela, em sua cor própria.
Duas cores podem ser parecidas.
Ou podem ser distintas e compor uma terceira cor devido à justaposição de ambas.
É importante salientar que cada feixe de luz é sua própria cor, que poderá ser refletida ou absorvida em suas interações com o resto do Mundo.
Mesmo uma pessoa que não é conhecida pode ser amada; então neste caso ela será amada sob determinada maneira, pela outra pessoa, que a ama a seu modo.
Uma pessoa pode ser conhecida, e o será de um tipo especificado.
E há algo que é como haver essa interação, ou ser essa própria interação,
entre feixes de luz que interagem entre si, e são como freqüências próprias.
Em algo que parece estar parado.
Ele é dinâmico. Mas o tempo está parado, relativamente a cada feixe de luz.
É como se ele não existisse. Mas ele está ali, imóvel. Portanto imutável.
O Amor é imutável.
Mas ele é dinâmico, e portanto está em movimento.
Ele é Sua Própria Dinâmica. Seu próprio processo, Sua própria interação.
Ele é como algo, que Seja como Si Próprio. Algo que seja por si próprio.
Algo como Sua cor. Sua Própria cor. Algo como ser sua cor.
Algo como algo é algo. Por si só. Ser algo por si só. Subsistir.
Algo como você ser igual a você mesmo. Algo como eu ser eu.
E cada um de nós é como uma cor. Nós somos como feixes de luz.
Nós somos como nossas próprias cores. Cada um de nós.
Cada freqüência dinâmica, em algo que parece estar parado ou
inexistente relativamente a nós; o tempo em relação aos feixes de luz.
Que têm algo, como uma freqüência, que é dinâmica.
E parece ser Eterna.
O Amor é eterno.

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* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.

Manifesto do Cinema Periférico

por Tiago Penna*

Preâmbulo ao Manifesto do Cinema Periférico

Este manifesto, mais do que marginal, além de propor novas possibilidades estéticas no processo de criação cinematográfica; pretende sugerir (no modo de produção), meios de contornar e superar dificuldades e limitações excessivas de processos de produção demasiadamente deficitários quanto a recursos técnicos, ou carentes quanto a uma política psico-social favorável à execução cinematográfica.

O manifesto parece claramente herdar traços e sugestões do Dogma-95, mas engloba ainda propostas advindas do Teatro do Oprimido e suas inúmeras aplicações, vertentes e interpretações. Parece também refletir uma situação econômica desfavorável – se comparada a dos grandes centros da indústria cinematográfica – que ainda mais gravemente afeta nossa concepção de obra de arte, padronizando a um formato pré-moldado nosso fazer e entender a arte. Dissociando qualquer forma de ideologia livre ou cultura alternativa.

Por tudo isso, o manifesto parece incluir, mesmo que inconscientemente, outras concepções artísticas alternativas periféricas, como – no caso da música – o Mangue-Beat, que também herdou traços de outras concepções (como a Tropicália) e sugeriu novas tendências (como a estética Cyber-Punk); por isso alguns de seus refrões parecem estar nas “sub-linhas” da promulgação do manifesto como o universal: “Leve diversão a sério.” – proclamado pelo saudoso mestre Chico Sciense, ou pelo pragmático: “Não espere nada do centro, se a periferia está morta…” – recitado pelo célebre Mundo Livre S/A.

Podemos frisar que o manifesto concilia-se com a Teoria do Caos e sua matemática fractal… e com a Teoria da Evolução de Darwin; e ainda com os avanços na física quântica, e na astronomia moderna. E surpreendentemente ao dadaísmo e ao surrealismo.

É importante notar que, antes de serem doutrinárias, todas essas concepções artísticas visam aumentar as possibilidades de criação livre, e de produção independente; em oposição às normas e formas mercadológicas impostas pelo que parece ser uma ditadura cultural hegemônica. Então, pensemos que quando pensar é fazer, e digamos com nossas próprias palavras, o que é nosso próprio pensamento. E ampliemos horizontes… além de dar uma moeda, podemos (“Why not”?), ensinar às crianças que catam lixo, e às que moram nas ruas, que a partir disso elas podem criar, livremente; independentemente do que é apregoado pela televisão, e pelo sistema capitalista.

“Do it your-self. Make a movie!!!”
Manifesto do Cinema Periférico

Redator: Tiago Penna

1- A matriz inicial fílmica, ou seja, o suporte técnico de captação, poderá ser efetuado sobre qualquer tipo de equipamento que esteja à disposição, já existente ou que venha a ser criado, que propicie possibilidades de elaboração seqüencial de imagens distintas e de arranjos sonoros imagináveis, não importando assim a qualidade de realização imediata.

2- A trilha sonora deve ser executada imediato e simultaneamente à execução fílmica, de preferência por instrumentos tradicionais (“analógicos”), propiciando assim uma perfeita integração e ambientação de toda a equipe técnica com a linguagem estética proposta, potencializando incisivamente a atuação cênica dos atores, e conseqüente elaboração dos personagens.

2.1- Todo e qualquer elemento ou efeito sonoro, assim como todas as falas e diálogos dos personagens, devem ser executadas a partir de som direto; excluindo-se qualquer possibilidade de dublagem, edição ou mixagem posterior de som.

3- Todo e qualquer tipo de cenário ou adereço deve ser realista/naturalista, no sentido de não ter sido construído artisticamente com o intuito de compor-se a obra áudio-visual. Assim, qualquer locação deve corresponder a algum local, paisagem ou ambiente pré-existente (sem interferência criativa, no sentido de modificá-la quanto ao seu aspecto utilitário real); e qualquer objeto de cena deve servir também e principalmente para sua operação funcional cotidiana.

4- Toda a luz utilizada no processo de realização fílmica deve pertencer à composição do próprio ambiente, locação, ou cenário natural; e ainda, deve fazer parte da cena. Não sendo admitida qualquer interferência externa e/ou técnica sobressalente, nesse sentido.

5- A realização fílmica em si deve ser executada em forma de plano sequência; ou seja, sem que a câmera seja desligada durante o processo de composição da obra, e excluindo-se qualquer possibilidade de edição ou montagem imagética ou sonora. Ressalvado no caso de composição simultânea à realização fílmica.

5.1- O tempo fílmico – (aquele composto pelo enredo, através do conflito dramático) – portanto, deve ser igual ao tempo de execução técnica da obra. E, portanto, o enredo deve ser composto de forma a seguir o sistema de medida temporal tradicionalmente adotado. É censurado, qualquer tipo de corte ou elipse (neste último caso, ressalva-se a ocasião em que tal artifício é feito durante a execução técnica da obra).

6- A construção do personagem pelos atores-chave (ou atores-guia), deve caber majoritariamente a eles próprios, sendo permitida a criação de novas falas, contanto que estas caibam na composição da estética da obra áudio-visual proposta. É estimulada a improvisação crítica efetuada pelos atores, no intuito de contornar possíveis entraves, sejam eles de ordem técnica ou subjetiva. Censura-se no caso de um ator querer insensatamente expor suas convicções político-ideológicas, ou mesmo suas alterações de estados psicológicos da consciência, a não ser que faça parte da proposta prévia estética da obra.

6.1- Todo e qualquer papel coadjuvante ou de figuração deve ser executado pelos chamado “atores-naturais“, que são aqueles indivíduos da população sem um apuro técnico prévio para a elaboração e composição de personagens; de forma que eles passam a se representar, em seu próprio ambiente e cotidiano. Por isso prefere-se não avisá-los previamente que tal encenação é parte integrante da obra fílmica, de forma que suas ações e reações sejam o mais natural e espontâneas possível.

7- Cabe ao técnico-diretor apenas a indicação dos diálogos-guia e entonações desejadas, além de indicar a limitação das “margens” do espaço de filmagem, ou das localizações dos “espaços-fílmicos” a serem utilizados. Seu papel relevante está em espelhar conceitualmente a unidade da proposta estética a ser executada. Suas possibilidades são também a de sugerir modos ou mesmo alterações do enredo ou da concepção estética durante o processo de filmagem. No entanto, seu papel de técnico-diretor não deve transparecer dentro dos limites fílmicos; neste caso o técnico-diretor tem a permissão livre de conceber e construir, mesmo que imediatamente, a composição de um ator-chave e passar a fazer parte do enredo da obra. Neste caso, as indicações de pontos de improviso devem partir das falas do personagem concebido.

8- O técnico-câmera tem total liberdade de exploração, criativa e espontânea para sua elaboração imagética, podendo obviamente levar em consideração e por vezes seguir sugestões do técnico-diretor ou mesmo do ator-guia que tentará expô-las através das falas de seus personagens. A atenção do técnico-câmera deve ser dirigida, entretanto, de modo que não se evidencie de que se trata de uma elaboração artístico-técnica, a não ser que se trate do intuito da concepção estética fílmica.

8.1- Considera-se louvável quando a câmara compõe um personagem na composição do enredo juntamente com os demais atores (a chamada “câmera subjetiva“), sem, no entanto, deixar claro que se trata de uma obra de arte pré-elaborada, em especial de uma composição técnica áudio-visual.

9- A concepção estética a ser concebida previamente deverá, preferencialmente, na maior parte das vezes, optar por um realismo ficcional, de forma a retratar e sugerir soluções para as dificuldades enfrentadas pelas partes mais desfavorecidas e oprimidas da população. Torna-se importante, no entanto, que a própria população atue na elaboração da concepção estética fílmica, e do próprio enredo.

Texto publicado originalmente em:
http://www.filtrodeoleo.com.br (atualmente desativado)

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* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.

Da Estética do Nazismo à Ética

por Tiago Penna*

Ensaio crítico sobre o filme “Arquitetura da Destruição” (Suécia -1994)

Neste documentário em longa metragem, o diretor Peter Cohen faz uma minuciosa descrição do projeto nazista para embasar sua tese de como esse sistema de governo se baseou em princípios estéticos para justificar sua ideologia política.

O princípio do nazismo é a pureza (baseada, em seus primórdios, na rejeição sexual), e tinha como objetivo embelezar o mundo e livrar-se da suposta ameaça iminente da decadência (ou da “escuridão eterna” que (segundo esta doutrina), a civilização ocidental parecia estar fadada a mergulhar). O objetivo do nacional-socialismo era construir uma nação alemã forte e bela.

Este governo era composto, em sua maioria, por inúmeros artistas (muitos deles, frustrados); e concebia o artista como o intermediário entre o racionalismo e os desejos e sonhos da população, dando a este, evidentemente, um papel crucial em sua formulação.

Hitler logo ascendeu ao poder (em 1933), e imediatamente atingiu um lugar enaltecido e importante na nação; mas fez jus à sua megalomania e transformou este posto em algo desproporcional ao seu papel tradicional. Hitler dava suma importância ao “corpo do povo” – como algo análogo a um ser biológico e racional – e esta preocupação de revitalização do povo perpassou (através da mente de seus ideólogos), todo o período em que os nazismo esteve no poder.

Hitler transformou seus atos públicos em comícios (de proporções astronômicas) de pseudo-arte, nos quais ele atuava, segundo o autor do filme, como cenógrafo, diretor e ator principal. Ainda, Hitler tinha três fixações principais: Lins, sua cidade natal, na qual queria transformá-la no centro cultural da nova Alemanha; a Antiguidade, encarada como um modelo de sociedade a ser seguido; e Wagner, visto como a síntese ideal entre o artista e o político, e do qual herdou as idéias de anti-semitismo, de legado nórdico, e do mito do sangue puro. Hitler acreditava que o modelo ideal de sociedade seria a síntese entre Roma, vista como a república mais importante da história, Atenas com seu cunho cultural, e Esparta, com seu espírito guerreiro.

Mas o nazismo se embasou em princípios (que poderiam ser chamados ingenuamente de “meramente”) estéticos para fundamentar sua ideologia política. A arte era encarada – assim como na Antiguidade e na Renascença – como tendo o dever de expressar o desejo do povo para sua raça. O nazismo pregava a erradicação da arte moderna (censurando completamente, portanto, correntes de vanguarda, tais como o dadaísmo e o surrealismo), chamada de “arte degenerada”, na qual os nazistas faziam um paralelo entre essas obras e a suposta saúde mental de seus autores. Pregavam o fim da loucura na arte. Tomavam como inimigos ideológicos os judeus, que haviam instigado a infiltração da arte bolchevique. Mas logo consideraram os judeus como inimigos da raça pura, assim como os miscigenados e os degenerados (os retardados ou aleijados).

Neste sentido, os nazistas faziam uma inter-relação entre a estética, a saúde, e a ideologia (com suas conseqüências éticas). Daí a importância da arte neste regime político-social. De fato, segundo esta tese, o nazismo foi construído a partir de um embasamento estético, com um vínculo ideológico explícito, que implicou em conseqüências sociais, políticas e, em última instância, éticas.

De fato, havia, na Alemanha da época de Hitler, um avanço científico-tecnológico; como também em outras áreas da sociedade, como a medicina. O nazismo propunha uma solução para a luta de classe a partir de um “despertar estético”, assimilado com um ambiente de trabalho e de moradia limpo e belo para o proletariado, que a partir de então, não viria mais motivos para conflitos.

Como vimos, fazia parte do ideário do nazismo a busca da beleza e da elevação; de forma que pudessem readquirir a (suposta) beleza humana da Antiguidade; além da reconstrução da Alemanha, baseada no noção de progresso tradicional (e também num messianismo implícito, talvez). O nazismo dizia que deveria “enfrentar os deveres” de seu tempo. E dizia mais: “nossa raça e arte resistirão ao julgamento de todo o milênio”. Neste ponto, podemos perceber a correlação que o nazismo apregroa entre o homem e a arte. Havia um culto nazista à beleza.

Os judeus eram vistos como inimigos do nazismo, pela sua preservação racial. Enquanto o anti-semitismo era encarado como uma medida de higiene. O instrumento de embelezamento do nazismo era a matança. O que definiam como um saneamento antropológico; de fato, isto era encarado como uma missão biológica, um tributo sagrado ao sangue puro. A guerra desferida pelo nazismo era uma guerra moderna com objetivos antigos: o genocídio e a escravidão.

E apregoavam ainda que o nazismo não terminaria com o fim da guerra, mesmo que perdida, pois inspiraria gerações futuras. Diziam: “Da derrota, brotará nova semente”. E, nas palavras de Hitler: “Se a guerra está perdida, o povo alemão está perdido”.

Segundo o diretor, é uma tarefa difícil definir o nazismo politicamente, “pois sua dinâmica está repleta de um conteúdo diverso”, especialmente o ideal estético. E diz ainda, que uma bagagem mental obscura e uma estranha noção de política – tipicamente européia – tiveram vazão em Hitler.

Indiscutivelmente, Hitler foi um homem que transformou ideologia em realidade, e ele deve ser avaliado levando-se em conta esta perspectiva.

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* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.