Blue Note, a balada de Rio Tinto


Desenho de Blue Note em primeira versão

por André Rafaini Lopes

Saiu, amigos do Facada! Finalmente, saiu! A tão esperada Blue Note, graphic novel com roteiro de Biu (colaborador e sócio-fundador deste blog) e desenhos de Shiko, foi publicada! Rapaz, com direito a lombada quadrada e tudo!

Acredito que o atraso e toda energia gasta no processo compensaram. Entretanto, só reforça os argumentos do Lourenço Mutarelli que diz abandonar a criação em quadrinhos para a literatura, pois exige muito menos recursos e tem maior repercussão. Aliás, o desenhista paulista aparece em Blue Note – com direito a cartaz de Diomedes (detetive da Trilogia do Acidente) e a um suspeito remédio escondido no armário do protagonista.

Personagem, este, que é Biu e conta histórias – meio auto-biográficas e meio ficcionais – de Rio Tinto, cidadezinha da Paraíba. Como fica claro de início – e que parece um contra-senso para quem mora em regiões mais movimentadas – a calmaria urbana não é sinônimo de paz de espírito e o tempo vago pode muito bem ser usado para elucubrações mentais ou para atividades bem menos nobres. A sorte é Biu ter escolhido o primeiro caminho. Em Blue Note, ele se divide em inúmeros personagens de realidades paralelas, que eventualmente se cruzam.

Curiosamente, vi há poucas semanas o documentário Quem somos nós? (What the #$*! Do We (K)now!? , 2004, já em DVD) que explica algumas teorias da física quântica, mostrando como a realidade pode ser muito mais maleável do que imaginamos. E mais, tenho acompanhado uma amiga que estuda uma Escola de Sabedoria cujos motes são justamente a consciência da pluralidade das realidades, concentração, auto-percepção e a noção de que nosso corpo está apto para responder mecanicamente a alguns estímulos físicos e, o que é impressionante, intelectuais. A história de Biu esbarra em tudo isso.

Indo adiante, não posso deixar de comentar os desenhos de Shiko, que são impressionantes. Will Eisner encontra Moebius. Curti muito os enquadramentos, ângulos, colorização (em PB), ritmo. Mas o que eu achei mais delicioso – além dos diversos Easter Eggs relacionados ao mundo dos quadrinhos – é descobrir um barman muito parecido com o Biu verdadeiro, a Morte com a mesma compleição de Roberta (editora, sócio-fundadora deste blog e eterna namorada do escritor) e alguns costumes característicos do casal, tal como o apurado gosto musical e a fixação por bexigas (fora de São Paulo leia “balões”, preciso manter os maneirismos, sacumé).

Outra força do traço é a capacidade de traduzir visualmente alguns cenários típicos do Brasil – tendo a não gostar, quando uma história em quadrinhos nacional está ambientada em cidades genéricas.

E para não dizer que a resenha é muito chapa-branca, aqui vai uma crítica: faltou uma última revisão de texto. Minha cópia veio com algumas correções feitas a caneta preta – nada que não possa ser corrigido nas próximas edições.

Que venham novas tiragens! E que se arranje um bom sistema de distribuição para o Sul-Maravilha!

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