Minorias versus maiorias

por Emma Goldman*

Se eu fosse resumir a tendência de nossos tempo seu diria: quantidade. A multidão, o espírito de massa,domina tudo, destruindo a qualidade. Nossa vida toda —produção, políticas e educação —, baseia-se em quantidade, em números. O trabalhador, que antes se orgulhava da qualidade e da minúcia de seu trabalho, é substituído por autômatos incompetentes e descerebrados,que despejam enormes quantidades de coisas, sem qualquer valor para eles, e geralmente prejudiciais para o resto da humanidade. Deste modo, ao invés de trazer paz e conforto para a vida, a quantidade apenas ampliou o fardo do homem.

Na política, somente a quantidade importa. Proporcionalmente a esse aumento, porém, os princípios, os ideais, a justiça e a honradez são engolidos por um mar de números. Na luta pela supremacia, os vários partidos se superam em mentiras, fraudes, astúcias e tramas duvidosas, seguros de que, aquele que obtiver êxito será aclamado pela maioria como o vencedor. Este é seu único deus, — o Sucesso. Às expensas do quê? A qual terrível custo do caráter? Esse é o ponto crucial. Não é preciso ir muito longe para comprovar esse triste fato.

Nunca antes a corrupção, a completa podridão de nosso governo, se expôs tão claramente; jamais foi tão explícito ao povo americano o caráter pérfido do corpo político, o qual por anos reivindicou estar acima de qualquer acusação, ser a base de nossas instituições e o verdadeiro protetor dos direitos e liberdades do povo.

Contudo, quando os crimes deste grupo se tornaram tão descarados que até um cego poderia enxergá-los, foi preciso apenas que se convocassem seus agentes para assegurar a sua supremacia. Assim, as vítimas, enganadas, traídas e ultrajadas uma centena de vezes, se colocaram, não contra, mas a favor do vencedor. Perplexos, alguns questionaram: como a maioria pôde trair as tradições da liberdade americana? Qual o critério, qual a lógica? Mas é exatamente isso, a maioria não pode justificar, não há discernimento. Sem qualquer originalidade e valor moral, a maioria sempre colocou o seu destino nas mãos de outros. Incapazes de assumir responsabilidades, preferiram seguir seus líderes ainda que para a destruição. Dr. Stockmann estava certo: “Os inimigos mais perigosos da justiça e da verdade em nosso meio são as maiorias compactas, as malditas maiorias compactas.” Sem ambição ou iniciativa, a massa compacta odeia a inovação mais do que tudo. Sempre se opôs, condenou e desprezou qualquer um que inovasse, que sugerisse uma nova verdade.

O slogan mais repetido em nossos tempos, entre todos os políticos, incluindo os socialistas, é que vivemos numa era de individualismo, de minorias. Apenas aqueles que não se preocupam em sondar nada além da superfície, poderiam concordar com tal ideia. Não é na mão de poucos que está a riqueza do mundo? Não são eles os mestres, reis absolutos da situação? Seu sucesso, entretanto, não é devido ao individualismo, mas à inércia, à covardia, à absoluta submissão da massa. Esta quer ser dominada, liderada e coagida. Quanto ao individualismo, em nenhum momento da história da humanidade, este teve tão poucas chances e oportunidades de se expressar e se afirmar de maneira normal e saudável.

O educador individual permeado pela honestidade de seu propósito, o artista ou escritor de ideias originais, o explorador ou cientista independente, os pioneiros das mudanças sociais descomprometidas, são diariamente colocados na parede por aqueles cujo aprendizado e habilidades criativas foram definhando com o passar dos anos.

Educadores como Ferrer não são tolerados em parte alguma, enquanto que dietistas de comida pré-digerida, à la professores Eliot e Butler, são os bem-sucedidos perpetuadores de uma época de autômatos e nulidades. No mundo do drama e da literatura, Humphrey Wards e Clyde Fitches são os ídolos da massa, enquanto que apenas alguns apreciam ou conhecem a beleza e o gênio de Emerson, Thoreau, Whitman; um Ibsen, um Hauptmann ,um Butler Yeats, ou um Stephen Philips. Estes são como estrelas solitárias, para além do horizonte da multidão.

Editores, gerentes teatrais e críticos, não se perguntam sobre a qualidade inerente à arte, mas se terá uma boa vendagem. Servirá ao paladar do povo? Ah! Esse paladar é um depósito de lixo; saboreia-se qualquer coisa que não exija esforço mental. Como resultado, o medíocre, o banal, o lugar-comum estabelecem a maior parte da produção literária.

Preciso dizer que o mesmo ocorre com as artes plásticas? Basta observar os parques e vias públicas para perceber o horror e a vulgaridade da arte industrializada. Certamente somente o gosto da maioria poderia suportar tamanho insulto à arte. Falso em sua concepção e primitivo em sua execução, os monumentos que infestam as cidades americanas têm com a arte, a mesma relação de um totem com Michelangelo. Não obstante, é a única arte que tem algum reconhecimento. O verdadeiro gênio artístico, aquele que não sustenta as noções estabelecidas, que exercita sua originalidade e se preocupa em ser verdadeiro diante da vida, segue uma existência obscura e miserável. Talvez algum dia seu trabalho caia no gosto da multidão, mas não antes que se tenha esgotado o sangue em suas veias; que tenha cessado o seu espírito desbravador, e um amontoado de gente sem visão nem ideais tenha matado a herança do mestre.

Diz-se que o artista de hoje não pode criar pois é um Prometeu acorrentado à pedra da necessidade econômica. Isso, porém, sempre ocorreu em todas as épocas. Michelangelo era dependente de seu mecenas tanto quanto um pintor ou escultor hoje em dia. A diferença é que os peritos em arte daquela época estavam longe da massa confusa. Sentiam-se honrados em poder reverenciar o altar do mestre.

O mecenas de nosso tempo conhece apenas um critério, um valor, o dólar. Não está preocupado com a qualidade de nenhum grande trabalho, mas apenas na quantidade de dólares que sua transação pode lhe render. Assim, como o homem das finanças, em Les Affairessont les Affaires, de Mirbeau, aponta para alguns arranjos de cores borradas dizendo: “Veja como é maravilhoso; custa 50.000 francos.” Exatamente como nossos novos-ricos. As quantias exorbitantes que pagam por suas descobertas artísticas pretendem compensar a pobreza do seu gosto.

O pecado mais imperdoável na sociedade é a independência do pensamento. Que isso possa ser tão evidente em um país cujo símbolo é a democracia, é muito significativo do tremendo poder da maioria.

Wendell Phillips disse cinquenta anos atrás: “Em nosso país de absoluta igualdade democrática, a opinião pública não é somente onipotente, mas também onipresente. Não há refúgio para sua tirania, não há como se esconder de seus objetivos, e o resultado é que se for usada a velha lanterna grega para procurar entre a multidão, não se encontrará um só americano que não tenha, ou não tenha imaginado ao menos, algo a ganhar ou perder, seja em sua ambição, vida social, ou negócios, da boa opinião e dos votos daqueles ao seu redor. A consequência é que, ao invés de ser uma massa de indivíduos, em que cada um fala de suas convicções sem medo e sem hesitação, somos na verdade, uma massa de covardes se comparados a outras nações. Mais do que qualquer um, temos medo uns dos outros.” Evidentemente não avançamos muito longe desta condição enfrentada por Wendell Phillips.

Hoje, como antes, a opinião pública é o tirano onipresente; hoje, como antes, a maioria representa uma massa de covardes ansiosa para aceitar aquele que espelhe a miséria de sua própria mente e alma. Isso ex-plica a ascensão sem precedentes de um homem como Roosevelt. Ele encarna o pior elemento da psicologia do populacho. Como político, ele sabe que para a maioria pouco importam ideais ou integridade. O que ela exige é o espetáculo. Não importa se é uma exposição de cães, uma luta por prêmios, o linchamento de um “criolo”, o cerco a algum infrator insignificante, o casamento de alguma herdeira, ou as palhaçadas de algum ex-presidente. Quanto mais abominável a contorção mental, melhor o deleite e aplausos da massa. Assim, ainda que de pobres ideais e alma vulgar, Roosevelt continua a ser o homem da vez.

Por outro lado, os homens que se elevam sobre os pigmeus da política, homens de refinamento, cultura, habilidade são ridicularizados como efeminados e assim, silenciados. É absurdo dizer que a nossa é uma era de individualismo. A nossa é apenas a mais pura repetição de um fenômeno da história: todo esforço para o progresso, para o esclarecimento, para a ciência, para a religião, liberdade econômica e política, tudo isso emanada minoria, e não da massa. Hoje, como sempre, estes poucos são mal compreendidos, desprezados, aprisionados, torturados e mortos.

O princípio da fraternidade, exposto pelo agitador de Nazaré, preservou o germe da vida, de justiça e liberdade, enquanto este era o farol luminoso para uma minoria. No momento em que a maioria tomou posse, este grande princípio passou a ser uma senha e um estandarte de sangue e fogo, espalhando sofrimento e desastre. O ataque à onipotência de Roma, liderado pelas figuras colossais de Huss, Calvino e Lutero, foi, por um instante um raio de luz na escuridão. Mas tão logo Calvino e Lutero se tornaram políticos e começaram a abastecer os pequenos potentados, a nobreza e o espírito popular, comprometeram as grandes possibilidades de Reforma. Eles ganharam prestígio e conquistaram a maioria, mas esta maioria se mostrou tão ou mais cruel e sanguinária na perseguição do pensamento e da razão como fora o monstro Católico. Infortúnio dos hereges, da minoria que não se curvou às suas ordens. Após tanto empenho, resignação e sacrifício, a mente humana se vê, ao menos, livre do fantasma da religião; a minoria segue em busca de novas conquistas, enquanto a maioria se arrasta incapacitada pela verdade que se torna falsa com o tempo.

De uma perspectiva política, se não fosse por John Balls, Wat Tylers, os Tells e outros incontáveis indivíduos excepcionais, que brigaram passo a passo contra o poder dos reis e tiranos, a raça humana ainda estaria na mais absoluta escravidão. Se não fosse por estes desbravadores, o mundo não teria sentido o abalo da Revolução Francesa. Grandes acontecimentos são geralmente precedidos de coisas aparentemente pequenas. Desta forma, a eloquência e o fogo de Camille Desmoulins foi como a trombeta diante de Jericó, arrasando as terras que simbolizavam a tortura, o abuso e o horror: a Bastilha.

Sempre, em todos os tempos, as minorias foram responsáveis por sustentar uma grande ideia, de forças liberadoras. Por outro lado, as massas foram sempre o peso morto que não permitia o movimento. Na Rússia isso ficou mais claro que em qualquer outro lugar. Milhares de vidas foram consumidas por aquele regime sanguinário, e, no entanto, o monstro no trono ainda não ficou satisfeito. Como é possível que tal atrocidade aconteça quando as ideias, a cultura, a literatura, as emoções mais delicadas e profundas fervem em baixo de uma mão de ferro? A maioria, esta massa compacta, imóvel, adormecida, o campesinato Russo, após um século de lutas, de sacrifícios, de misérias inenarráveis, continua a acreditar que a corda que estrangula “o homem das mãos brancas” traz sorte.

Na luta americana pela liberdade, a maioria não foi nada mais do que um bloco hesitante. A partir daí as ideias de Jefferson, Patrick Henry, Thomas Paine, foram negadas e traídas pela posteridade. A massa não quer nada deles. A grandiosidade e coragem admiradas em Lincoln, foram esquecidas nos homens que criaram a base para o panorama daquele tempo. Os verdadeiros santos protetores dos negros estavam representados por alguns poucos guerreiros de Boston, por Lloyd Garrison, Wendell Phillips, Thoreau, Margaret Fuller e Theodore Parker, cuja coragem e vigor culminaram neste gigante sombrio que foi John Brown. Seu incansável cuidado, sua eloquência e perseveança abalaram a fortaleza dos senhores sulistas. Lincoln e seus partidários prosseguiram apenas quando a abolição já se tornara uma prática habitual.

Há mais ou menos 50 anos, uma ideia meteórica apareceu no horizonte social do mundo, uma ideia tão distante, tão revolucionária, e que foi acolhida por todos para terror dos tiranos em toda a parte. Por outro lado, a ideia era um anúncio de alegria, celebração e esperança para milhões. Seus precursores sabiam dos obstáculos de seu caminho, sabiam das resistências, perseguições, das dificuldades que enfrentariam, mas orgulhosos e destemidos, começaram sua marcha adiante, sempre adiante. Agora aquela ideia se tornou um mote popular. Quase todos são socialistas hoje: tanto o rico, quanto sua pobre vítima; os defensores da lei e da ordem, e seus criminosos desafortunados; os livre-pensadores, assim como os perpetuadores de mentiras religiosas; a senhora elegante, e a garota mal vestida. Por que não? Agora que a verdade de cinquenta anos atrás se tornou uma mentira, agora que foi apartada de sua vigorosa imaginação e despojada de seu entusiasmo, de sua força, de seu ideal revolucionário, por que não? Agora que não é mais uma bela visão, mas “um esquema prático e funcional”, pautado pela vontade da maioria, por quê não? As artimanhas políticas sempre fazem uma apologia à massa: a pobre maioria, ultrajada, violentada, a gigantesca maioria, se ao menos pudessem nos seguir.

Quem não ouviu esta ladainha antes? Quem não conhece este refrão repetitivo de todo político? Que a massa sofre, que vem sendo extorquida e explorada, isso eu conheço tanto quanto os engodos do voto. Mas insisto que não é um punhado de parasitas, e sim a própria massa que é responsável por esta situação horrível. Prendem-se aos seus mestres, amam a chibata, e são os primeiros a clamar Crucifiquem! no momento em que surge uma voz contra a sagrada autoridade capitalista ou qualquer outra instituição decadente. Não obstante, quanto tempo mais poderia se manter a autoridade e a propriedade privada, se não fossem a vontade e disposição da massa de se tornarem soldados, policiais, carcereiros e algozes. A demagogia socialista sabe disso tanto quanto eu, mas mantém o mito da virtude da maioria pois seu projeto de vida está fundado na perpetuação do poder. E como essa perpetuação pode ser alcançada sem números? Sim, autoridade, coerção e a dependência se pautam na massa, mas nunca na liberdade ou na livre determinação do indivíduo, nunca no nascimento de uma sociedade livre.

Não porque eu não sinta como os oprimidos, como os deserdados da terra; não porque não saiba a vergonha, o horror, a indignidade da vida levada pelo povo, que eu repudio a maioria como força criativa. Oh, não, não! Mas porque eu sei que a massa compacta nunca lutou por justiça e igualdade. Ela suprimiu a voz dos homens, subjugou o espírito humano, acorrentou o corpo humano.

Como massa, seu objetivo foi sempre uma vida mais uniforme, cinzenta e monótona, como o deserto. Como massa, será sempre o exterminador da individualidade, da livre iniciativa, da originalidade. Assim como Emerson, acredito que “as massas são grosseiras, coxas, perniciosas em suas demandas e influências, e não precisam ser elogiadas, mas educadas. Eu desejaria não ter que conceder nada a elas, mas ensinar, dividir, quebrá-las e transformá-las em indivíduos. Massas! A calamidade são as massas. Eu não desejo massa alguma, mas apenas homens honestos, e mulheres doces, amáveis e completas.”

Em outras palavras, a verdade viva e vital do bem-estar econômico e social só se tornará realidade diante o zelo, coragem, determinação sem obrigações, de minorias inteligentes, e não por meio da massa.

Texto originalmente compartilhado por anarquistas.net neste link

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*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

À alma de minha mãe

por Auta de Souza*

Partiu-se o fio branco e delicado
Dos sonhos de minh’alma desditosa…
E as contas do rosário assim quebrado
Caíram como folhas de uma rosa.

Debalde eu as procuro lacrimosa,
Estas doces relíquias do Passado,
Para guardá-las na urna perfumosa,
Do meu seio no cofre imaculado.

Ai! se eu ao menos uma só pudesse
D’estas contas achar que me fizesse
Lembrar um mundo de alegrias doidas…

Feliz seria… Mas minh’alma atenta
Em vão procura uma continha benta:
Quando partiste m’as levaste todas!

Natal – Março de 1895

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* Auta de Souza (1876 – 1901) foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica (ultrarromântica, byroniana ou Mal do Século), autora de Horto. Escrevia poemas românticos com alguma influência simbolista, e de alto valor estético. Segundo Luís da Câmara Cascudo, é “a maior poetisa mística do Brasil”.

Meiguice

por Adelina Lopes Vieira*

Deram à linda Clarisse
uma gatinha mimosa,
tão branca, tão carinhosa,
tão engraçada, tão mansa
que a encantadora criança
por nome lhe pôs — Meiguice.

Tinha bom leite ao almoço
e biscoitos e bolinhos;
dormia em sedas e armarinhos,
e ronronava fagueira
quando sentia a coleira
de fita azul, no pescoço.

Clarisse amava deveras
a bichinha cor de neve
e a gata, nervosa e leve,
adorava a pequenita;
e tinham graça infinita,
estas amigas sinceras!

Veio Raul, o mais louro
e traquinas dos rapazes,
forte e audaz entre os audazes,
fanfarrão e desordeiro;
correu a casa ligeiro
indo encontrar o tesouro,

a doce e branca Meiguice,
deitada comodamente
na cama fofinha e quente
da prima, e gritou: — Que vejo?
um bicho tão malfazejo,
sobre o leito de Clarisse!

E… zás, suspendeu a gata
pela coleira de fita,
atirou a pobrezita,
ao jardim e, satisfeito,
à priminha o heróico feito
foi contar como bravata.

Debatia-se Meiguice,
no lago, fria, transida,
a morrer.
O gaticida
sentiu remorso pungente
ao ver o pranto tremente
no olhar azul de Clarisse.

E… correndo, denodado,
deitou-se ao lago profundo,
(dois palmos d’água); do fundo
tirou Meiguice, e ofegante
disse em tom dilacerante:
— Salvei-a!
— Estou perdoado?

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*Adelina Amélia Lopes Vieira (1850 — 1923) foi uma escritora, poeta, contista, teatróloga e educadora brasileira.

Úrsula

por Maria Firmina do Reis*

I

Duas almas generosas

São vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma – branco lençol de espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brame irado, ameaçando insano quebrar os limites que lhe marcou a onipotente mão do rei da criação. Enrugada ligeiramente a superfície pelo manso correr da viração, frisadas as águas, aqui e ali, pelo volver rápido e fugitivo dos peixinhos, que mudamente se afagam, e que depois desaparecem para de novo voltarem – os campos são qual vasto deserto, majestoso e grande como o espaço, sublime como o infinito.
E a sua beleza é amena e doce, e o exíguo esquife, que vai cortando as suas águas hibernais mansas e quedas, e o homem, que sem custo o guia, e que sente vaga sensação de melancólico enlevo, desprende com mavioso acento um canto de harmoniosa saudade, despertado pela grandeza dessas águas, que sulca.
E às águas, e a esses vastíssimos campos que o homem oferece seus cânticos de amor? Não por certo. Esses hinos, cujos acentos perdem-se no espaço, são como notas duma harpa eólia, arrancadas pelo roçar da brisa ou como sussurrar da folhagem em mata espessa. Esses carmes de amor e de saudade o homem os oferece a Deus.
Depois, mudou-se já a estação; as chuvas desapareceram, e aquele mar, que viste, desapareceu com elas, voltou às nuvens formando as chuvas do seguinte inverno, e o leito, que outrora fora seu, transformou-se em verde e úmido tapete, matizado pelas brilhantes e lindas flores tropicais, cuja fragrância arrouba e só tem por apreciador algum desgarrado viajor, e por afago a brisa que vem conversar com elas no cair da tarde – à hora derradeira do seu triste viver.
E altivas erguem-se milhares de carnaubeiras, que balançadas pelo soprar do vento recurvam seus leques em brandas ondulações.
Expande-se-nos o coração quando calcamos sob os pés a erva reverdecida, onde gota a gota o orvalho chora no correr da noite esse choro algente, que se pendura da folhinha trêmula, como a lágrima de uma virgem sedutora, e que, arrancada do coração pelo primeiro gemer da saudade, se balança nos longos cílios. Depois vem a ardentia do sol, e bebe o pranto noturno, e murcha a flor, que enfeitiçava a relva, porque o astro que rege o dia reassumiu toda a sua soberania; mas ainda assim os campos são belos e majestosos!
E desce depois o crepúsculo, e logo após a noite bela, e voluptuosa recamada de estrelas; ou prateada pela lua vagarosa e plácida, que lhe branqueia o tapete de relva, derramando suave claridade pelos leques recurvados dos palmares. Então um vago sentimento de amor, e de uma ventura, que muito longe lobrigamos, arrouba-nos a alma de celestes eflúvios, e doce esperança enche-nos o coração, outrora mirrado e frio pela descrença, ou pelo ceticismo.
Quem haverá aí que se não sinta transportado ao lançar a vista por esses vastos páramos ao alvorecer do dia, ou ao arrebol da tarde, e não se deixe levar por um deleitoso cismar, como o que escuta o gemer da onda sobre areais de prata, ou o canto matutino de uma ave melodiosa!… A vista expande-se e deleita-se, e o coração volve-se a Deus, e curva-se em respeitosa veneração, porque aí está Ele.
O campo, o mar, a abóbada celeste ensinam a adorar o supremo Autor da natureza e a bendizer-lhe a mão; porque é generosa, sábia e previdente.
Eu amo a solidão; porque a voz do Senhor aí impera; porque aí despe-se-nos o coração do orgulho da sociedade, que o embota, que o apodrece, e livre dessa vergonhosa cadeia, volve a Deus e o busca – e o encontra; porque com o dom da ubiquidade Ele aí está!
Entretanto, em uma risonha manhã de agosto, em que a natureza era toda galas, em que as flores eram mais belas, em que a vida era mais sedutora – porque toda respirava amor –, em que a erva era mais viçosa e rociada, em que as carnaubeiras, outras tantas atalaias ali dispostas pela natureza, mais altivas, e mais belas se ostentavam, em que o axixá, com seus frutos imitando purpúreas estrelas, esmaltava a paisagem, um jovem cavaleiro melancólico, e como que exausto de vontade, atravessando porção de um majestoso campo, que se dilata nas planuras de uma das nossas melhores e mais ricas províncias do Norte, deixava-se levar ao través dele por um alvo e indolente ginete. Longo devia ser o espaço que havia percorrido; porque o pobre animal, desalentado, mal cadenciava os pesados passos.
Abstrato, ou como que mergulhado em penosa e profunda meditação, o cavaleiro prosseguia sem notar a extrema prostração do animal ou então fazia semblante de a não reparar; porque lhe não excitava os nobres estímulos. Dir-se-ia ter já concluído sua longa jornada.
Mas quem sabe?!… Talvez uma ideia única, uma recordação pungente, funda, amarga como a desesperação de um amor traído, lhe absorvesse nessa hora todos os pensamentos. Talvez. Porque não havia o menor sinal de que observasse o espetáculo que o circundava.
Que intensa agonia, ou que dor íntima que lhe iria lá pelos abismos da alma?! Só Deus sabe!
Prosseguia em tanto a marcha, e sempre abstrato, sempre vagaroso. Curvada a fronte sobre o peito, o mancebo meditava profundamente, e grande, e poderoso devia ser o objeto de seu aturado meditar. Arfava-lhe o peito sobre o qual descansava essa fronte acabrunhada, que parecia tão nobre e altiva? Quem o poderia dizer ao certo?
O mancebo ocultava parte de suas formas num amplo capote de lã, cujas dobras apenas descobriam-lhe as mãos cuidadosamente calçadas com luvas de camurça. Numa destas mãos o jovem cavaleiro reclinara a face pálida e melancólica, com a outra frouxamente tomava as rédeas ao seu ginete. Mas este simples traje, este como que abandono de si próprio, não podia arredar do desconhecido certo ar de perfeita distinção que bem dava a conhecer que era ele pessoa da alta sociedade.
De repente o cavalo, baldo de vigor, em uma das cavidades onde o terreno se acidentava mais, mal podendo conter-se pelo langor dos seus lassos membros, distendeu as pernas, dilatou o pescoço, e dando uma volta sobre si, caiu redondamente. O choque era demais violento para não despertar o meditabundo viajor: quis ainda evitar a queda, mas era tarde, e de envolta com o animal rolou no chão.
Houvera mais que descuido no incerto e indolente viajar desse singular desconhecido: não previa ele um acontecimento fatal nessa divagação de tanto abandono, de tão grande desleixo? E malgrado o langor do cavalo, sempre a prosseguir, cada vez mais submerso em seu melancólico cismar! Caiu, e de um jato perdeu o sentimento da própria vida; porque a queda lhe ofendeu o crânio e, aturdido e maltratado, desmaiou completamente. Para mais desastre, o pobre animal, no último arranco do existir, distendendo as pernas, foi comprimir acerbadamente o pé direito do mancebo, que inerte e imóvel, como se fora frio cadáver, nenhuma resistência lhe opôs.
Era apenas o alvorecer do dia, ainda as aves entoavam seus meigos cantos de arrebatadora melodia, ainda a viração era tênue e mansa, ainda a flor desabrochada apenas não sentira a tépida e vivificadora ação do astro do dia, que sempre amante, mas sempre ingrato, desdenhoso e cruel afaga-a, bebe-lhe o perfume, e depois deixa-a murchar, a desfolhar-se, sem ao menos dar-lhe uma lágrima de saudade! Oh! O sol é como o homem maligno e perverso, que bafeja com hálito impuro a donzela desvalida, e foge, e deixa-a entregue à vergonha, à desesperação, à morte! E depois, ri-se e busca outra, e mais outra vítima!
A donzela e a flor choram em silêncio, e o seu choro ninguém compreende!
Era apenas o alvorecer do dia, dissemos nós, e esse dia era belo como soem ser os do nosso clima equatorial onde a luz se derrama a flux – brilhante, pura e intensa.
Vastos currais de gado por ali havia; mas tão desertos a essa hora matutina, que nenhuma esperança havia de que alguém socorresse o jovem cavaleiro, que acabava de desmaiar. E o sol já mais brilhante, e mais ardente e abrasador, subia pressuroso a eterna escadaria do seu trono de luz, e dardejava seus raios sobre o infeliz mancebo!
Nesse comenos alguém despontou longe, como se fora um ponto negro no extremo horizonte. Esse alguém, que pouco e pouco avultava, era um homem, e mais tarde suas formas já melhor se distinguiam. Trazia ele um quer que era que de longe mal se conhecia e que, descansando sobre um dos ombros, obrigava-o a reclinar a cabeça para o lado oposto. Todavia essa carga era bastante leve – um cântaro ou uma bilha; o homem ia sem dúvida em demanda de alguma fonte.
Caminhava com cuidado, e parecia bastante familiarizado com o lugar cheio de barrocais, e ainda mais com o calor do dia em pino, porque caminhava tranquilo.
E mais e mais se aproximava ele do cavaleiro desmaiado; porque seus passos para ali se dirigiam, como se a Providência os guiasse. Ao endireitar-se para um bosque à cata sem dúvida da fonte que procurava, seus olhos se fixaram sobre aquele triste espetáculo.
— Deus meu! – exclamou correndo para o desconhecido.
E ao coração tocou-lhe piedoso interesse, vendo esse homem lançado por terra, tinto em seu próprio sangue, e ainda oprimido pelo animal já morto. E ao aproximar-se contemplou em silêncio o rosto desfigurado do mancebo; curvou-se e pôs-lhe a mão sobre o peito, e sentiu lá no fundo frouxas e espaçadas pulsações, e assomou-lhe ao rosto riso fagueiro de completo enlevo; da mais íntima satisfação. O mancebo respirava ainda.
— Que ventura! – então disse ele, erguendo as mãos ao céu – que ventura, podê-lo salvar!
O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos, e que na franca expressão de sua fisionomia deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano fervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde – dissemos – se revoltava, porque se lhe erguia como barreira – o poder do forte contra o fraco!…
Ele entanto resignava-se; e se uma lágrima a desesperação lhe arrancava, escondia-a no fundo da sua miséria.
Assim é que o triste escravo arrasta a vida de desgostos e de martírios, sem esperança e sem gozos!
Oh! Esperança! Só a tem os desgraçados no refúgio que a todos oferece a sepultura!… Gozos!… Só na eternidade os anteveem eles!
Coitado do escravo! Nem o direito de arrancar do imo peito um queixume de amargurada dor!…
Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo –, e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante!… Àquele que também era livre no seu país… Àquele que é seu irmão?
E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos e puros como a sua alma. Era infeliz, mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista.
Reunindo todas as suas forças, o jovem escravo arrancou de sob o pé ulcerado do desconhecido o cavalo morto, e deixando-o por um momento, correu à fonte para onde uma hora antes se dirigia, encheu o cântaro, e com extrema velocidade voltou para junto do enfermo, que com desvelado interesse procurou reanimar. Banhou-lhe a fronte com água fresca, depois de ter com piedosa bondade colocado-lhe a cabeça sobre seus joelhos. Só Deus testemunhava aquela cena tocante e admirável, tão cheia de unção e de caridoso desvelo! E ele continuava a sua obra de piedade, esperando ansioso a ressurreição do desconhecido, que tanto o interessava.
Finalmente seu coração pulsou de íntima satisfação; porque o mancebo, pouco e pouco revocando a vida, abriu os olhos lânguidos pela dor, e os fitou nele, como que estupefato e surpreso do que via.
Deixou fugir um breve suspiro, que talvez a pesar seu se lhe destacasse do coração, e sem proferir uma palavra de novo cerrou os olhos.
Talvez a extrema claridade do dia os afetasse; ou ele supusesse mórbida visão o que era realidade.
Entretanto o negro redobrava de cuidados, de novo aflito pela mudez do seu doente. E o dia crescia mais, e o sol, requeimando a erva do campo, abrasava as faces pálidas do jovem cavaleiro, que soltando um outro gemido mais prolongado e mais doído, de novo abriu os olhos.
Tentou então erguer-se como envergonhado de uma fraqueza a que irremissivelmente qualquer cedera; porém desalentado e amortecido foi cair nos braços do compassivo escravo, única testemunha de tão longas dores e desmaios, e que em silêncio o observava. Mas esta segunda síncope, menos prolongada que a primeira, não afligiu tanto ao mísero rapaz, que dedicadamente o reanimava. A febre começou a tingir de rubor aquela fronte pálida, dando vida fictícia a uns olhos, que um momento antes pareciam descair para o túmulo.
— Quem és? – perguntou o mancebo ao escravo apenas saído do seu letargo. – Por que assim mostras interessar-te por mim?…
— Senhor! – balbuciou o negro – vosso estado… Eu – continuou, com o acanhamento que a escravidão gerava – suposto nenhum serviço vos possa prestar, todavia quisera poder ser-vos útil. Perdoai-me!…
— Eu? – atalhou o cavaleiro com efusão de reconhecimento – Eu perdoar-te! Pudera todos os corações assemelharem-se ao teu. E fitando-o, apesar da perturbação do seu cérebro, sentiu pelo jovem negro interesse igual talvez ao que este sentia por ele. Então nesse breve cambiar de vistas, como que essas duas almas mutuamente se falharam, exprimindo uma o pensamento apenas vago que na outra errava.
Entretanto o pobre negro, fiel ao humilde hábito do escravo, com os braços cruzados sobre o peito, descaía agora a vista para a terra, aguardando tímido uma nova interrogação.
Apesar da febre, que despontava, o cavaleiro começava a coordenar suas ideias, e as expressões do escravo, e os serviços que lhe prestara, tocaram-lhe o mais fundo do coração. É que em seu coração ardiam sentimentos tão nobres e generosos como os que animavam a alma do jovem negro: por isso, num transporte de íntima e generosa gratidão, o mancebo, arrancando a luva que lhe calçava a destra, estendeu a mão ao homem que o salvara. Mas este, confundido e perplexo, religiosamente ajoelhando, tomou respeitoso e reconhecido essa alva mão, que o mais elevado requinte de delicadeza lhe oferecia, e com humildade tocante extasiado beijou-a.
Esse beijo selou para sempre a mútua amizade que em seus peitos sentiam eles nascer e vigorar. As almas generosas são sempre irmãs.
— Não foste por ventura o meu salvador? – perguntou o cavaleiro com acento reconhecido, retirando dos lábios do negro a mão, e malgrado a visível turbação deste apertando-lhe com transporte a mão grosseira; mas onde descobria, com satisfação, lealdade e pureza.
— Meu amigo, – continuou – podes acreditar no meu reconhecimento e na minha amizade. Quem quer que sejas, eu a prometo: sou para ti um desconhecido; e inda assim foste generoso e desinteressado. Arrancando-me à morte tens desempenhado a mais nobre missão de que o homem está incumbido por Deus – a fraternidade. Continua, agora peço-te em nome da amizade que te consagro, continua a tua obra de generosidade; porque sinto que tenho febre, e não me posso erguer. Arreda-me destes lugares se te é possível; porque… – e a voz, que era fraca, expirou nos lábios; porque ligeira vertigem precursora talvez de um mais prolongado sofrer de novo lhe ofuscou a vista, e as faculdades se lhe afracaram.
A febre tornara-se ardente, e o mancebo exigia mais sérios cuidados.
O negro bem o compreendeu, e esperou ansioso que o mancebo voltasse a si para falar-lhe, e aproveitando um momento em que por um pouco se reanimara, disse-lhe: — Meu senhor, permiti que vos leve à fazenda que ali vedes – e apontava para a outra extremidade do campo –, ali habita com sua filha única a pobre senhora Luísa B., de quem talvez não ignoreis a triste vida. Essa infeliz paralítica todo o bem que vos poderá prestar limitar-se-á a uma franca e generosa hospitalidade; mas aí está sua filha, que é um anjo de beleza e de candura, e os desvelos, que infelizmente vos não posso prestar, dar-vo-los-á ela com singular bondade.
Imerso entanto em novo cismar, o mancebo parecia nada ouvir do que lhe dizia o jovem negro, deixando-se conduzir por ele, que como se fora leve carga o levava sobre seus ombros nus e musculosos.
Foi um momento de meditação, a febre, a dor, e o movimento arrancaram-no a ela, e soltando um frouxo suspiro perguntou ao seu condutor:
— Como te chamas, generoso amigo? Qual é a tua condição?
— Eu, meu senhor – tornou-lhe o escravo, redobrando suas forças para não mostrar cansaço – chamo-me Túlio.
— Túlio! – repetiu o cavaleiro, e de novo interrogou:
— A tua condição, Túlio?
Então o pobre e generoso rapaz, engolindo um suspiro magoado, respondeu com amargura, malgrado seu, mal disfarçada:
— A minha condição é a de mísero escravo! Meu senhor – continuou – não me chameis amigo. Calculastes já, sondastes vós a distância que nos separa? Ah! O escravo é tão infeliz!… Tão mesquinha e rasteira é a sua sorte, que…
— Cala-te, oh! Pelo céu, cala-te, meu pobre Túlio – interrompeu o jovem cavaleiro – dia virá em que os homens reconheçam que são todos irmãos. Túlio, meu amigo, eu avalio a grandeza de dores sem lenitivo que te borbulha na alma, compreendo tua amargura, e amaldiçoo em teu nome ao primeiro homem que escravizou a seu semelhante. Sim – prosseguiu – tens razão; o branco desdenhou a generosidade do negro, e cuspiu sobre a pureza dos seus sentimentos! Sim, acerbo deve ser o seu sofrer, e eles que o não compreendem! Mas, Túlio, espera; porque Deus não desdenha aquele que ama ao seu próximo… E eu te auguro um melhor futuro. E te dedicaste por mim! Oh! Quanto me hás penhorado! Se eu te pudera compensar generosamente… Túlio – acrescentou após breve pausa – oh dize, dize, meu amigo, o que de mim exiges; porque toda a recompensa será mesquinha para tamanho serviço.
— Ah! Meu senhor – exclamou o escravo enternecido – como sois bom! Continuai, eu vo-lo suplico, em nome do serviço que vos presto, e a que tanta importância quereis dar, continuai, pelo céu, a ser generoso e compassivo para com todo aquele que, como eu, tiver a desventura de ser vil e miserável escravo! Costumados como estamos ao rigoroso desprezo dos brancos, quanto nos será doce vos encontrarmos no meio das nossas dores! Se todos eles, meu senhor, se assemelhassem a vós, por certo mais suave nos seria a escravidão.
E o cavaleiro perguntou-lhe:
— Essa é, Túlio, toda a recompensa que exiges?
— Sim, meu senhor. Fizeste-me tão feliz, que nada mais ambiciono; e rendendo a Deus graças pela minha presente ventura, suplico-lhe que vos cubra de bênçãos, e que vele sobre vós a sua bondade infinita.
E o negro dizia uma verdade; era o primeiro branco que tão doces palavras lhe havia dirigido; e sua alma, ávida de uma outra alma que a compreendesse, transbordava agora de felicidade e de reconhecimento.
Pobre Túlio!
E o mancebo sentia mais e mais crescer-lhe as dores, e as ideias se lhe barulhavam: entretanto Túlio aproximava-se da casa de sua senhora para onde conduzia o moço enfermo.
Empregava para isso todas as suas forças, porque conhecia que o moço sofria cruelmente.
Dentro em pouco sua tarefa concluiu-se. Túlio penetrou, rendido de cansaço, o lumiar da porta.
Simples e solitária era essa casa implantada sobre um pequeno outeiro, donde a vista dominava a imensidade dos campos. Um aspecto de nobre singeleza apresentava; pouco extensa era, mas coroava-a agradável mirante, orlado de largas varandas, por onde uma onda de ar tépido divagava rumorejando.
Esplêndida claridade de um sol vivo e animador iluminava as nuas e brancas paredes dessa plácida morada, e dardejando nas vidraças das janelas, refletia sobre elas as cores cambiantes do ocaso. Aí parecia gozar-se a vida; – aí ao menos o homem terá um momento de felicidade; porque longe do buliço enganoso do mundo, com a mente erma de ambições, vive nas regiões sublimes de um pensar livre e infinito como a amplidão – como Deus. A existência é serena, mais pura, e mais formosa; – aí despe-se a vaidade do coração; – aí cessam os mentirosos preconceitos, que o homem ergueu em seu orgulho – vergonhosos limites contra os quais vão quebrar-se de encontro os virtuosos transportes do seu coração.
Quanto é o homem egoísta e vão!…
Túlio franqueou a entrada da casa de Luísa B. no momento mesmo em que o jovem desconhecido, alquebrado pelo muito sofrer de algumas horas, acabava de cair em completa e profunda letargia.

Este é o primeiro capítulo do livro Úrsula, que pode ser lido na íntegra ao clicar neste link (em pdf)

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*Maria Firmina dos Reis (1825 —  1917) foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira, negra e maranhense.

Milagre do Natal

por Lima Barreto*

O bairro do Andaraí é muito triste e muito úmido. As montanhas que enfeitam a nossa cidade, aí tomam maior altura e ainda conservam a densa vegetação que as devia adornar com mais força em tempos idos. O tom plúmbeo das árvores como que enegrece o horizonte e torna triste o arrabalde.

Nas vertentes dessas mesmas montanhas, quando dão para o mar, este quebra a monotonia do quadro e o sol se espadana mais livremente, obtendo as cousas humanas, minúsculas e mesquinhas, uma garridice e uma alegria que não estão nelas, mas que sê percebem nelas. As tacanhas casas de Botafogo se nos afigura assim; as bombásticas “vilas” de Copacabana, também; mas, no Andaraí, tudo fica esmagado pela alta montanha e sua sombria vegetação.

Era numa rua desse bairro que morava  Feliciano Campossolo Nunes, chefe de seção do Tesouro Nacional, ou antes e melhor: subdiretor. A casa era própria e tinha na cimalha este dístico pretensioso: “Vila Sebastiana”. O gosto da fachada, as proporções da casa não precisam ser descritas: todos conhecem um e as outras. Na frente, havia um jardinzinho que se estendia para a esquerda, oitenta centímetros a um metro, além da fachada. Era o vão que correspondia à varanda lateral, quase a correr todo o prédio. Campossolo era um homem grave, ventrudo, calvo, de mãos polpudas e dedos curtos. Não largava a pasta de marroquim em que trazia para a casa os papéis da repartição com o fito de não lê-los; e também o guarda-chuva de castão de ouro e forro de seda. Pesado e de pernas curtas, era com grande dificuldade que ele vencia os dous degraus dos “Minas Gerais” da Light, atrapalhado com semelhantes cangalhas: a pasta e o guarda chuva de ” ouro”. Usava chapéu de coco e cavanhaque.

Morava ali com sua mulher mais a filha solteira e única, a Mariazinha. A mulher, Dona Sebastiana, que batizara a vila e com cujo dinheiro a fizeram, era mais alta do que ele e não tinha nenhum relevo de fisionomia, senão um artificial, um aposto. Consistia num pequeno pince-nez de aros de ouro, preso, por detrás da orelha, com trancelim de seda. Não nascera com ele, mas era como se tivesse nascido, pois jamais alguém havia visto Dona Sebastiana sem aquele adendo, acavalado no nariz. fosse de dia, fosse de noite. Ela, quando queria olhar alguém ou alguma cousa com jeito e perfeição, erguia bem a cabeça e toda Dona Sebastiana tomava um entono de magistrado severo.

Era baiana, como o marido, e a Única queixa que tinha do Rio cifrava-se em não haver aqui bons temperos para as moquecas, carurus e outras comidas da Bahia, que ela sabia preparar com perfeição, auxiliada pela preta Inácia, que, com eles. viera do Salvador, quando o marido foi transferido para São Sebastião. Se oferecia portador, mandava-os buscar; e. quando, aqui chegavame ela preparava uma boa moqueca, esquecia-se de tudo, até que estará muito longe da sua querida cidade de Tomé de Sousa.

Sua filha, a Mariazinha, não era assim e até se esquecera que por lá nascera: cariocara-se inteiramente. Era uma moça de vinte anos, fina de talhe, poucas carnes, mais alta que o pai, entestando com a mãe, bonita e vulgar. O seu traço de beleza eram os seus olhos de topázio com estilhas negras. Nela, não havia nem invento, nem novidade como — as outras.

Eram estes os habitantes da “Vila Sebastiana” , além de um molecote que nunca era o mesmo. De dous em dous meses, por isso ou por aquilo, era substituído por outro, mais claro ou mais escuro, conforme a sorte calhava.

Em certos domingos, o Senhor Campossolo convidava alguns dos seus subordinados a irem almoçar ou jantar com eles. Não era um qualquer. Ele os escolhia com acerto e sabedoria. Tinha uma filha solteira e não podia pôr dentro de casa um qualquer, mesmo que fosse empregado de fazenda.

Aos que mais constantemente convidava, eram os terceiros escriturários Fortunato Guaicuru e Simplício Fontes, os seus braços direitos na seção. Aquele era bacharel em Direito e espécie de seu secretário e consultor em assuntos difíceis; e o último chefe do protocolo da sua seção,cargo de extrema responsabilidade, para que não houvesse extravio de processos e se acoimasse a sua subdiretoria de relaxada e desidiosa. Eram eles dous os seus mais constantes comensais, nos seus bons domingos de efusões familiares. Demais, ele tinha uma filha a casar e era bom que…

Os senhores devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as filhas na classe que pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros; os militares com outros militares; os médicos com outros médicos e assim por diante. Não é de estranhar, portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um funcionário público que fosse da sua repartição e até da sua própria seção.

Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela.

Era carioca e obtivera o seu lugar direitinho, quase sem pistolão e sem nenhuma intromissão de políticos na sua nomeação.

Mais ilustrado, não direi; mas muito mais instruído que Guaicuru, a audácia deste o superava, não no coração de Mariazinha, mas no interesse que tinha a mãe desta no casamento da filha. Na mesa, todas as atenções tinha Dona Sebastiana pelo hipotético bacharel:

— Porque não advoga? perguntou Dona Sebastiana, rindo, com seu quádruplo olhar altaneiro, da filha ao cabocloque, na sua frente e a seu mando, se sentavam juntos.

— Minha senhora, não tenho tempo…

— Como não tem tempo? O Felicianinho consentiria – não é Felicianinho?

Campossolo fazia solenemente :

— Como não, estou sempre dispostoa auxiliar a progressividade dos colegas.

Simplício, à esquerda de Dona Sebastiana, olhava distraído para a fruteira e nada dizia. Guaicuru, que não queria dizer que a verdadeira . razão estava em não ser a tal faculdade “reconhecida”, negaceava:

— Os colegas podiam reclamar.

Dona Sebastiana acudia com vivacidade :

— Qual o que . O senhor reclamava, Senhor Simplício?

Ao ouvir o seu nome, o pobre rapaz tirava os olhos da fruteira e perguntava com espanto:

— O que, Dona Sebastiana ?

— O senhor reclamaria se Felicianinho consentisse que o Guaicuru saísse, para ir advogar?

— Não.

E voltava a olhar a fruteira, encontrando-se rapidamente com os olhos de topázio de Mariazinha. Campossolo continuava a comer e Dona Sebastiana insistia:

— Eu, se fosse o senhor ia advogar.

— Não posso. Não é só a repartição que me toma o tempo. Trabalho em um livro de grandes proporções.

Todos se espantaram. Mariazinha olhou Guaicuru; Dona Sebastiana levantou mais a cabeça com pince-nez e tudo; Simplício que, agora, contemplava esse quadro célebre nas salas burguesas, representando uma ave, dependurada pelas pernas e faz pendante com a ceia do Senhor – Simplício, dizia, cravou resolutamente o olhar sobre o colega, e Campossolo perguntou:

— Sobre o que trata?

— Direito administrativo brasileiro.

Campossolo observou:

— Deve ser uma obra de peso.

— Espero.

Simplício continuava espantado, quase estúpido a olhar Guaicuru.

Percebendo isto, o mato-grossense apressou-se:

— Você vai ver o plano. Quer ouvi-lo ?

Todos, menos Mariazinha, responderam, quase a um tempo só:

— Quero.

O bacharel de Goiás endireitou o busto curto na cadeira e começou:

— Vou entroncar o nosso Direito administrativo no antigo Direito administrativo português. Há muita gente que pensa que no antigo regímen não havia um Direito administrativo. Havia. Vou estudar o mecanismo do Estado nessa época, no que toca a Portugal. Vou ver as funções dos ministros e dos seus subordinados, por intermédio de letra-morta dos alvarás, portarias, cartas régias e mostrarei então como a engrenagem do Estado funcionava; depois, verei como esse curioso Direito público se transformou, ao influxo de concepções liberais; e, como ele transportado para aqui com Dom João VI, se adaptou ao nosso meio, modificando-se aqui ainda, sob o influxo das idéias da Revolução.

Simplício, ouvindo-o falar assim dizia com os seus botões: “Quem teria ensinado isto a ele?”

Guaicuru, porém, continuava:

— Não será uma seca enumeração de datas e de transcrição de alvarás, portarias, etc. Será uma cousa inédita. Será cousa viva.

Por aí, parou e Campossolo com toda a gravidade disse:

— Vai ser uma obra de peso.

— Já tenho editor!

— Quem é? perguntou o Simplício.

— É o Jacinto. Você sabe que vou lá todo o dia, procurar livros a respeito.

— Sei; é a livraria dos advogados, disse Simplício sem querer sorrir.

— Quando pretende publicar a sua obra, doutor? perguntou Dona Sebastiana.

— Queria publicar antes do Natal. porque as promoções serão feitas antes do Natal, mas…

— Então há mesmo promoções antes do Natal, Felicianinho?

O marido respondeu:

— Creio que sim. O gabinete já pediu as propostas e eu já dei as minhas ao diretor.

— Devias ter-me dito, ralhou-lhe a mulher.

— Essas cousas não se dizem às nossas mulheres; são segredos de Estado, sentenciou Campossolo.

O jantar foi. acabando triste, com essa história de promoções para o Natal.

Dona Sebastiana quis ainda animar a conversa, dirigindo-se ao marido:

— Não queria que me dissesses os nomes, mas pode acontecer que seja o promovido o doutor Fortunato ou… O “Seu” Simplício, e eu estaria prevenida para a uma “festinha”.

Foi pior. A tristeza tornou-se mais densa e quase calados tomaram café.

Levantaram-se todos com o semblante anuviado, exceto a boa Mariazinha, que procurava dar corda à conversa. Na sala de visitas, Simplício ainda pôde olhar mais duas vezes furtivamente os olhos topazinos de Mariazinha, que tinha um sossegado sorriso a banhar-lhe a face toda; e se foi. O colega Fortunato ficou, mas tudo estava tão morno e triste que, em breve, se foi também Guaicuru.

No bonde, Simplício pensava unicamente em duas cousas: no Natal próximo e no “Direito” de Guaicuru. Quando pensava nesta .’ perguntava de si para si: “Quem lhe ensinou aquilo tudo? Guaicuru é absolutamente ignorante” Quando pensava naquilo, implorava: “Ah! Se Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse…”

Vieram afinal as promoções. Simplício foi promovido por que era muito mais antigo na classe que Guaicuru. O Ministro não atendera a pistolões nem a títulos de Goiás.

Ninguém foi preterido; mas Guaicuru que tinha em gestação a obra de um outro, ficou furioso sem nada dizer.

Dona Sebastiana deu uma consoada à moda do Norte. Na hora da ceia, Guaicuru, como de hábito, ia sentar-se ao lado de Mariazinha, quando Dona Sebastiana, com pince-nez e cabeça, tudo muito bem erguido, chamou-o:

— Sente-se aqui a meu lado, doutor, aí vai sentar-se o “Seu” Simplício.

Casaram-se dentro de um ano; e, até hoje, depois de um lustro de casados ainda teimam.

Ele diz:

— Foi Nosso Senhor Jesus Cristo que nos casou.

Ela obtempera:

— Foi a promoção.

Fosse uma cousa ou outra, ou ambas, o certo é que se casaram. É um fato. A obra de Guaicuru, porém, é que até hoje não saiu…

Careta, Rio, 24-12-1921

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* Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), mais conhecido apenas como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

Saudade

por Gabriela Frederica de Andrada Dias Mesquita*

Da vida na manhã tudo é bonança,
Tudo é luz, tudo flor, tudo harmonia:
São cantos de suavíssima poesia,
Que nos embala em sonhos de esperança.
Ri a ventura ao lábio da criança;
Da mocidade a alegre fantasia,
Escrava da ilusão que a inebria,
Em vão busca o prazer, em vão se cansa.
Passam os anos, e com eles passam,
Uma por uma, todas as quimeras,
Chegam invernos, fogem primaveras…
Além no azul do céu, onde esvoaçam,
Tristes saudades das passadas eras,
São os sonhos da vida que perpassam…

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*Gabriela Frederica de Andrada Dias Mesquita (1852 – 1922). O grande tema da poetisa Gabriela, muito comum ao Barroco e ao Romantismo, é a fugacidade da vida e, em consequência, a crítica à ausência do desejo na velhice e a interrogação acerca da morte, para ela um tenebroso e tormentoso mistério. O topos do ubi sunt, entrelaçado ao passado erotismo e ao desejo da morte frequenta praticamente todos os poemas. Os temas da saudade e da solidão são também bastante frequentes. 

Adiamento

por Álvaro de Campos*

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…

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* Álvaro de Campos é um heterônimo do poeta português Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Universal.