Nós, mulheres da periferia: jornalismo e cinema pelo olhar de quem não está no centro

por Roberta AR

Republico aqui a entrevista que fiz com as criadoras do site Nós, mulheres da periferia, em 2017. Este tem sido um importante veículo de informação sobre os impactos da pandemia nas periferias de São Paulo, com olhar estratégico e engajado. Leiam a entrevista e sigam essas mulheres nas redes (no final do post):

A criação de veículos de comunicação que retratem as realidades não registradas pelas mídias convencionais, a partir do olhar de outros grupos sociais, é uma necessidade que tem se consolidado na internet por meio de coletivos de todo o tipo. Nós, mulheres da periferia é um site feito por mulheres moradoras da periferia de São Paulo, que têm um olhar sensível e crítico sobre a vida das mulheres à margem das grandes cidades. Conversamos com elas para contar um pouco da trajetória deste site, que agora entra no universo audiovisual também, com a produção do documentário Nós, Carolinas.

Quem faz parte do projeto e como começou Nós, mulheres da periferia?

Nós, mulheres da periferia é um coletivo integrado ao todo por 7 mulheres, sendo 6 jornalistas e uma designer. Nós nos conhecemos por meio de uma rede independente e horizontal de correspondentes comunitários das periferias de São Paulo e regiões, organizados para produzir notícias que a grande mídia não veicula ou que contrariem a visão rasa e preconceituosa que tais veículos costumam disseminar sobre seus bairros (mais aqui: http://mural.blogfolha.uol.com.br/projeto_mural/).

O coletivo nasceu dentro de outro coletivo que era o Blog Mural, atual Mural Agência de Jornalismo das Periferias. No dia 7 de março de 2012, quatro das nove mulheres jornalistas que integram o coletivo publicaram artigo na seção “Tendências/Debates” do jornal Folha de S. Paulo, atentando para a invisibilidade e aos direitos não atendidos de uma parte das mulheres – as que moram em bairros periféricos de grandes metrópoles. O texto obteve grande repercussão, sendo replicado em outros veículos de mídia, como na coluna diária Mais São Paulo, da Rádio CBN. O artigo teve ainda mais repercussão e encontrou eco entre nossas iguais, outras jovens ou não tão jovens mulheres moradoras da periferia de São Paulo que finalmente tinham se sentido representadas, lembradas e retratadas. O artigo, por exemplo, foi lido e registrado em vídeo no Sarau do bairro Itaim Paulista, na zona leste da capital.

As integrantes são:

Aline Kátia Melo, da Jova Rural, zona norte de São Paulo; Bianca Pedrina, de Carapicuíba, Grande São Paulo; Jéssica Moreira, de Perus, zona noroeste; Lívia Lima, de Artur Alvim, zona leste; Mayara Penina,  de Paraisópolis, zona sul ; Regiany Silva, da Cidade Tiradentes, zona leste; e Semayat Oliveira, da Cidade Ademar, zona sul.

Imagem da página “Nós, mulheres da periferia”

Estamos acostumados com a narrativa dos centros sobre as periferias. O que há de diferente no olhar da periferia sobre si mesma e sobre a vida das mulheres na periferia?

Hoje em dia, não há nenhum veículo da grande mídia voltado apenas para a mulher. Mesmo entre os alternativos, não encontramos esse viés. E, naqueles da periferia, encontramos alguns assuntos, mas nenhum com foco na mulher. Além disso, um dos principais diferenciais de nosso projeto é que fazemos parte do universo que iremos retratar, pois todas moramos em bairros periféricos de São Paulo. Assim, observador e observado se fundem, marcando as nossas matérias com a sensibilidade de quem vive aquilo que escreve. O jornalismo é a ferramenta que escolhemos para dar voz às mulheres que nunca são ouvidas pela mídia e, quando são, é de forma sensacionalista ou sexista. Além disso, temos como objetivo pautar a grande imprensa, servindo de ponte entre a mídia e as mulheres não ouvidas da periferia.

O coletivo Nós, Mulheres da Periferia pretende contribuir para o empoderamento das mulheres moradoras da periferia de São Paulo, promovendo espaços de reflexão, debate, informação, troca de conhecimento, experiências e visibilidade sobre seus protagonismos, histórias e dilemas.

Vocês acabaram de produzir o documentário Nós, Carolinas, que fala sobre a vida de algumas mulheres moradoras das periferias de São Paulo. Foi a primeira experiência do grupo com audiovisual? Como foi a produção e escolha do que seria retratado?

Sim, foi a primeira experiência do grupo com audiovisual. As mulheres apresentadas fizeram parte do projeto Desconstruindo Estereótipos, realizado pelo coletivo em 2015, durante oficinas sobre a representação das mulheres moradoras das periferias na grande mídia. No final do mesmo ano, o coletivo lançou no Centro Cultural da Juventude (CCJ) a exposição multimídia Quem Somos [Por Nós], que incluiu uma série de entrevistas, a partir das quais, como uma segunda etapa deste projeto, foi criado o documentário. Ambos os projetos foram financiados pelo VAI (Programa de Valorização às Iniciativas Culturais) da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo.

As oficinas intituladas Desconstruindo Estereótipos – eu, mulher da periferia na mídia, que tinham como proposta refletir junto às mulheres a forma como nossas histórias são retratadas na chamada “grande mídia” (TV, jornais, revistas) foram realizadas em 2015, durante cinco meses. Seis bairros de norte a sul da capital receberam as oficinas (Perus, zona norte, Campo Limpo, zona sul, Guaianases, zona leste, Jardim Romano, zona leste, Jova Rural, zona norte, e Capão Redondo, zona sul) e mais de 100 mulheres, de 17 a 93 anos, entre elas estudantes da rede pública (ensino regular ou EJA) e participantes de associações foram envolvidas no processo, em uma constante troca de conhecimentos e afetividade entre o coletivo e as mulheres. A dinâmica envolveu debates, exercícios, ensaios com máquinas fotográficas e telas de pintura. E, em um segundo ciclo do processo, nove destas mulheres foram entrevistadas individualmente, em vídeo, e de forma mais aprofundada. Os discursos, majoritariamente, refletem o desafio de enfrentar uma sociedade racista, machista e desigual, mas também a irreverência, força e os embates necessários para sobreviver neste ambiente.

Dona Carolina Augusta de Oliveira em cena de “Nós, Carolinas”
Foto: Vinicius Bopprê

 

(o filme Nós, Carolinas está disponível no youtube neste link ou incorporado aqui embaixo)

Sobre o site, são muitas reportagens sobre a vida das mulheres nas periferias. Como é feita a escolha dos temas? Os especiais surgiram de alguma demanda específica?

Os especiais como moradia e trabalho doméstico surgiram depois de conversas e/ou reuniões de pauta presenciais e/ou virtuais, as nove integrantes (atualmente sete) do coletivo autoras dos textos, se basearam principalmente em suas vivências pessoais e familiares, visões e experiências cotidianas, perceberam naquele momento que o vazio de representatividade não era sentido apenas por elas.  Desde o início  do  coletivo, iniciou-se um processo de pesquisa e consolidação do mesmo, que tem como objetivo principal dar visibilidade aos direitos não atendidos das mulheres, problematizar acerca dos preconceitos e estereótipos limitadores que se cruzam com as questões de classe social, etnia e raça, muito presentes em razão da localização geográfica das residências das moradoras das bordas da cidade

Renata Ellen Ribeiro, em “Nós, Carolinas”
Foto: Vinicius Boppre

Que outros veículos de jornalismo produzido nas periferias vocês indicam?

Indicaria a Agência Mural de Jornalismo das Periferias onde nós integrantes do Nós, Mulheres da Periferia nos conhecemos.

Quais são os futuros projetos de Nós, mulheres da periferia?

O grande desafio é buscar condições financeiras que nos possibilite ampliar nosso campo de atuação e as formas de divulgação do nosso trabalho realizando mais circuitos de exibição do documentário em diferentes locais. Extrapolando o campo virtual e tornando as histórias e falas dessas mulheres ainda mais acessíveis e valorizadas.

Nós, mulheres da periferia pode ser acessado em http://nosmulheresdaperiferia.com.br/

No instagram: https://www.instagram.com/nosmulheresdaperiferia

No facebook: https://www.facebook.com/nosmulheresdaperiferia/

E-mail: contato@nosmulheresdaperiferia.com.br

 

(publicado originalmente no site MinasNerds em 2017)

Manifesto Comunista

por Karl Marx e Friederich Engels*

Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram em uma santa campanha difamatória contra ele: o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães.

Qual partido de oposição não foi qualificado de comunista por seus adversários no poder? Qual partido de oposição, por sua vez, não lançou de volta a acusação de comunista, tanto a outros opositores mais progressistas quanto a seus adversários reacionários?

Duas conclusões decorrem desse fato:

O comunismo já é reconhecido como força poderosa por todas as potências europeias.

Já é tempo de os comunistas exporem abertamente sua visão de mundo, seus objetivos e
suas tendências, contrapondo assim um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo.

Com este objetivo, reuniram-se em Londres comunistas de várias nacionalidades e esboçaram este Manifesto, que será publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês.

Esta é a introdução ao Manifesto Comunista, publicado em 1848, retirado da edição da Editora Expressão Popular, que pode ser baixada gratuitamente em pdf.

Publicamos por aqui também o capítulo II do Manifesto, Proletários e Comunistas.

O Manifesto Comunista também pode ser baixado em anarquistas.net.

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*Karl Marx (1818 – 1883) foi um intelectual e revolucionário alemão, fundador da doutrina comunista moderna, que atuou como economista, filósofo, historiador, teórico político e jornalista.

Friederich Engels (1820 – 1895) foi um teórico revolucionário alemão que junto com Karl Marx fundou o chamado socialismo científico ou marxismo. Ele foi coautor de diversas obras com Marx, sendo que a mais conhecida é o Manifesto Comunista. Também ajudou a publicar, após a morte de Marx, os dois últimos volumes de O Capital, principal obra de seu amigo e colaborador.

O Manifesto comunista (Das Kommunistische Manifest), originalmente denominado Manifesto do Partido comunista (em alemão: Manifest der Kommunistischen Partei), publicado pela primeira vez em 21 de fevereiro de 1848, é historicamente um dos tratados políticos de maior influência mundial. Comissionado pela Liga dos Comunistas e escrito pelos teóricos fundadores do socialismo científico Karl Marx e Friedrich Engels, expressa o programa e propósitos da Liga. O Manifesto comunista foi escrito no meio do grande processo de lutas urbanas das Revoluções de 1848, chamadas também de Primavera dos Povos, um processo revolucionário de quase um ano que atingiu os principais países Europeus e é uma análise da Revolução Industrial contemporânea a ela. Duas de suas maiores reivindicações foram reformas sociais: a conquista da diminuição da jornada diária de trabalho de doze para dez horas e o voto universal, embora apenas para os homens.

Entre a Foice e o Martelo: 103 anos de Revolução Russa

por Laluña Machado*

Em outubro de 1917, consolidou um processo revolucionário de 30 anos e um dos principais acontecimentos do século XX e da história contemporânea. Eclodia-se a Revolução Russa. Por 300 anos, o país se viu sob o pulso firme do Império Czarista, o mesmo que levou a nação a dimensões continentais e a várias crises. Nesse contexto, praticamente toda a base econômica do país era derivada de métodos quase feudais, levando o Império a abrir as portas para o capital estrangeiro.

No ano de 1914, o mundo assistiu o estopim da Primeira Guerra Mundial, um episódio que desencadeou um enorme desgaste aos russos com saldo de 1,5 milhão de soldados liquidados pela potência bélica alemã. Além disso, a inflação do país disparou e a produção de alimentos praticamente se anulou. Grandes manifestações de trabalhadores ganhavam fôlego, um clima de resistência tomou conta dos populares, levando ao enfraquecimento do Czar.

Em meados de fevereiro de 1917, a cidade de São Petersburgo vivenciou uma crise de abastecimento que acarretou na implementação de um racionamento de alimentos pelo governo czarista, a ocorrência inflamou uma greve geral que teve adesão de tropas militares do Império e em poucos dias sucedeu a derrubada do Czar Nicolau II. Assim, o Duma (Parlamento Russo) estabelece um governo provisório. Tal governo foi composto por membros da elite e marxistas ortodoxos (Mencheviques) que não ansiavam dos mesmos desejos dos trabalhadores como a reforma agrária, combate a inflação, retirada do país da guerra e retomada do laboro. Sob esse contexto os sovietes continuaram a se organizar em conselhos democráticos e começaram a constituir uma espécie de poder concomitante que foi de total importância para a fixação do socialismo no país.

Campesinos ocuparam terras de latifundiários e os proletários passaram a administrar as produções expedindo os burgueses.

Com novos confrontos, os bolcheviques começaram a assentar as mobilizações dos campesinos e proletários, e em outubro de 1917, com o apoio da população, a Revolução Bolchevique valida-se após o abatimento do governo provisório levando a instauração do governo de Vladimir Lênin.

Prometendo pão, terra e paz, Lênin assumiu o comando da Rússia e um dos seus primeiros atos foi retirar o país da Guerra, posteriormente deu inicio a uma reforma agrária, nacionalizou bancos e estatizou comércios e indústrias. Em 1918, foi criado o Exército Vermelho, um braço opressor do estado para sufocar milícias anticomunistas que eram apoiadas pelo Exército Branco, que, por sua vez, era financiado com capital estrangeiro e alguns mencheviques.

Em 1922, a União Soviética se consolida, resultado da convergência de 15 repúblicas com economia e governo associados à Rússia. Após a morte de Lênin, em 1924, Joseph Stalin toma o poder e faz a união socialista se desenvolver economicamente, apesar do isolamento que os países capitalistas estabeleceram com o “Cordão Sanitário”.

Todavia, o Stalinismo foi marcado por medidas totalitárias e centralizadoras. Com mais de 5 milhões de vítimas divididas entre fuzilamentos, campos de trabalho forçado, exílios e prisões, o governo de Stalin se estendeu até sua morte, em 1953, durante a Guerra Fria.

Dicas de leitura:

A Revolução Russa – Roteiro de André Diniz e Arte de Laudo Ferreira

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos e do site Minas Nerds.Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

O itinerário de Sisifo

por Antonio Souza*

Não lido bem com o tempo. Estou ficando velho e o desperdiço como se fosse rico. Para outros a barba grisalha cai bem, não para um negro, não para um pardo. Café amargo. Chegar atrasado e ouvir um interminável sermão, apesar da barba grisalha, me consideram criança. À noite, havia lutado com um sonho, o esforço de aprender juros simples me deixou seco e essa parte seca quis dominar e ordenar o caos do sonho, produzindo um pesadelo, era necessário terminar algo sempre interrompido. Café amargo, a diabetes silenciosa, lá fora, a pressa dos outros. Não chegue atrasado, não se atreva.

No ônibus as pessoas em seus smartphones. Saco o meu caderno de notas . “Olha o velho de boina”. Me olham críticos: “ o velho ainda escreve”. Depois abaixam os olhos para a tela de seus celulares e digitam compulsivamente, ou gritam no viva voz com suas mulheres, repreendem os filhos. Tudo como se fosse um reality em pequena escala. Não é possível que tenham tanto pra falar, tanto para digitar, não, é uma cena. Estamos todos atrasados e todos apenas com um café amargo no estômago. O motorista conversa animadamente com duas mulheres. Chove. – Não chegue atrasado, não se atreva. Estamos todos atrasados. – Não se atreva. Você tem fobia social. Síndrome do pânico. – Não chegue. Não se… Você é rancoroso. E as pessoas nos celulares . Ninguém tem nada a dizer, mastiga-se as palavras, resmunga-se, ninguém ouve. – Não se atreva. Mas foi a chuva, os celulares, o mau sonho, o café amargo. – Não se atreva.

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*Antonio Souza da Cruz é de Surubim, uma cidadezinha do agreste pernambucano, nascido em 1971, muda-se com a família para a periferia de São Paulo em 79. Atualmente trabalha nos Correios. Possui um livro publicado pela editora Patuá, em 2015, O Deus dos Famintos. Sobre seus poemas pode-se dizer que são marcados por duas paisagens principais: o sertão pernambucano e a periferia paulista.

Podcast e videocast: Facada X em outras mídias

por André Rafaini Lopes

Quinze anos de Facada… e vou aproveitar para registrar aqui, oficialmente todo o mérito da minha querida editora-amiga-irmã Roberta AR. Às vezes temo levar crédito por essa obra que é muito, muito, fruto da visão e empenho dela! Tá… eu não fui pautado para ficar jogando confete: hoje é dia de podcast e videocast, bebê.

Pois então, ao longo desses anos, a Roberta conseguiu criar um cantinho de liberdade e criatividade… E, mais do que isso, preservou a independência do nosso zine. Tá, chegou a hora de eu entrar na história. Estive no começo do Facada… meu primeiro texto ainda está lá… Quatro de outubro de 2005. Caramba… Olhando a timeline das minhas contribuições, confesso que ainda bate um certo peso na consciência pelas enormes lacunas que deixei. Como um pai ausente, aparecia uma… duas vezes ao ano para ver a cria. Postava alguma coisinha… e sumia. Aí quando o rebento estava taludo, eu voltei pra ficar – rs…

E a amizade e o contato com a Roberta nunca cessou. Muito menos a admiração pelas posturas dela… pela história dela… pela cultura dela… 

Acho que dá para estimar que esse meu retorno, se deu há cinco anos… Naquela época, o Facada estava comemorando sua primeira década. Não sei porque cargas d’água eu tinha um gravador de áudio todo emperequetado e foi com ele e com o Skype que fizemos sete edições do Facadacast! Seis delas estão no ar e podem ser ouvidas aqui. Ainda tem uma sétima que ficou sem finalizar, mas está toda captada! Será que um dia a gente finaliza o episódio perdido?

Eu sempre odiei a minha voz… e a minha gagueira que às vezes aparece… mas o ambiente do Facada era tão seguro que meti as caras! Tivemos conversas incríveis… Infelizmente, por minha alta inexperiência, não consegui manter o ritmo de edição e o podcast entrou em hiato!

Mais um tempinho se passou e a febre do audiovisual não passou… Fiquei matutando uma forma de trazer conteúdo em vídeo que não desse trabalho para editar e matei a charada: celular! Gravar e montar usando um aplicativo do celular… coisa que poderia fazer rapidinho, sem um computador que exigisse cortes de câmera… sincronização de áudio… muitos efeitos especiais…

Nesse tempo eu tava na febre dos jogos de tabuleiro! A vontade de falar era tanta que me joguei na frente da câmera! Aí tive que vencer todas as barreiras da timidez para me expor! Culpa também do ambiente seguro do Facada! Gravava takes únicos para a introdução, para o jogo montado na mesa e para as conclusões finais! No celular, colocava só uma vinhetinha produzida em outro app gratuito e compilava os takes em ordem!

Hoje temos quase 80 vídeos no canal! Alguns até que comecei a explorar outros assuntos… como jogos eletrônicos, música e histórias em quadrinhos… Aliás, quero começar a produzir mais sobre HQs! 

Uma curiosidade: minha experiência no Facada foi que me encorajou a criar vídeos para meu trabalho oficial! E isso me abriu uma estrada imensa para que eu crescesse e me especializasse ainda mais na produção audiovisual! 

E o Facada também ganhou com isso… acho… O trabalho com vídeo me colocou em contato com profissionais espetaculares e muuuuuuuito mais experientes que eu! E isso possibilitou retroalimentar o coletivo. Meus vídeos ganharam uma edição melhor (agora feitas no Premiere) e melhor som! 

Que venham mais 15 anos de Facada!

Ouça nosso PODCAST clicando aqui
Veja nosso VIDEOCAST clicando aqui

Eventos, zines e listas: o analógico no Facada X

por Roberta AR

São quinze anos deste espaço virtual, num emaranhado de conteúdos que conversam entre si, ou não, mas também tivemos nossos momentos analógicos. Desde o início do Facada X, temos ido a eventos e falado sobre eles. Em linguagem bem informal, muitas vezes, pois ainda não tínhamos redes sociais em boa parte dessa história.

Estivemos, por exemplo, numa das primeiras edições do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de BH, em 2005, o André fez quatro posts falando sobre o evento: parte I, II, III e IV.

Também estivemos na Mostra Trash (que agora se chama Crash), em Goiânia, em 2006, que teve exibição do vídeo Pombos Comem Carne, que pode ser visto aqui. Sobre a mostra, a Roberta fez dois posts: parte I e II.

Nós também fizemos parte da organização do Brucutumia 2008, evento realizado em Lisboa, Portugal, com a participação de autores de quadrinhos do Brasil. A Roberta esteve junto com a produção do evento e falou um pouco dele por aqui. Brucutumia 2008: secando o Atlântico.

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O Evandro Esfolando, personalidade conhecida do rock de Brasília, fez alguns posts aqui, antes de criar o próprio blog, um deles foi sobre sua participação no Festival Jambolada, em Uberlândia, em 2008.

Em 2010, numa parceria com a HQMIX Livraria de São Paulo, trouxemos para Brasília a Jam Session de Quadrinhos, que foi realizada durante dois dias na saudosa Kingdom Comics. A Roberta, que organizou o evento junto com a loja, falou aqui sobre sua organização e fez um balanço do evento com uma degustação do resultado da maratona de quadrinhos para criar novos capítulos para O crime do teishouku preto.

Além de eventos, também produzimos algumas publicações impressas. As mais recentes podem ser lidas na aba IMPRESSOS do blog. Estão também on-line, as versões impressas estão esgotadas, os zines: Uma pessoa asquerosa, Pés – Volume I, Por Acaso?, Cabelos – Volume II. Antes disso, tivemos a curta experiência com as Edições Facada, que foram descontinuadas.

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Para finalizar este capítulo da nossa história, precisamos falar das listas, que entraram mais recentemente nas nossas postagens. São publicações que organizam assuntos interessantes para consultarmos on-line e acompanharmos no mundo analógico. Fizemos listas de Ilustradoras Negras (lista I e lista II) , Mulheres Artistas Indígenas, e nossa lista de Mulheres Quadrinistas que ainda está em andamento (colabore mandando e-mail para blogfacadax@gmail.com).

O Facada e suas publicações de domínio público

por Roberta AR

O Facada X foi criado para ser um espaço de livre difusão, quando a internet se tornou um lugar de trocas de fácil acesso. Um dos ideais é o do conteúdo de qualidade sem custo, por isso é um zine eletrônico com licença Creative Commons. Em certo momento, decidimos começar a publicar filmes, livros, fotos, reproduções de pinturas e outras coisas que caíram em domínio público. Nosso acervo é muito extenso, textos políticos, filmes do expressionismo alemão, romances de escritoras brasileiras são algumas das coisas que colocamos no ar.

Neste espírito da troca e da divulgação, reproduzimos conteúdos de vários lugares, um deles é a página que divulga mulheres pintoras já falecidas (nem tudo de domínio público) Female artists in history, reproduzimos alguns de seus posts por aqui e neste link fizemos uma pequena entrevista com sua criadora e contamos um pouco a história desse espaço.

Como o acesso público a conteúdos tem sido uma bandeira nossa, fizemos também um episódio do nosso podcast de vida curta sobre isso: Facada Cast 004 – Tá dominado! Tá tudo dominado! Falaremos sobre nosso podcast e nosso videocast em outro post.

Aqui, listamos o que temos de domínio público no ar, por nome do autor:

Abigail de Andrade

Adelaide Schloenbach Blumenschein

Adelina Lopes Vieira

AF Schmidt

Alberto Caeiro

Albertus Seba

Aleister Crowley

Alexis de Tocqueville

Alfred Le Petit

Alfrida Baadsgaard

Alida Withoos

Alphonsus de Guimaraens

Álvares de Azevedo

Álvaro de Campos

Andreas Vesalius

Andrei Rublev

Angelo Agostini

Anita Clara Rée

Anna Althea Hills

Anna Ancher

Anna Atkins

Anna Diriks

Anna Maria van Schurman

Anne Allen

Anne Vallayer-Coster

Anthonore Christensen

Antoine Saint-Exupery

Antoine Watteau

Anton Tchekhov

Artemisia Gentileschi

Artur Azevedo

Artur Rimbaud

Auguste Bouquet

Auta de Souza

Barbara Longhi

Bartolomeo Scappi

Beatrix Potter

Benedikt Lergetporer

Bernardo Guimarães

Bernardo Soares

Bertha Worms

Betty Boop

Bocage

Broncia Koller-Pinell

Camille Claudel

Caravaggio

Carl Friedrich Mylius

Carl Wilhelm Hahn

Carmen Dolores

Castro Alves

Cecil Hepworth

Charles Baudelaire

Charles Chaplin

Charles Deburau

Chiquinha Gonzaga

Cimabue

Clara Peeters

Clara Zetkin

Clarissa Peters Russell

Coleção Brito Alves

Coleção Thereza Christina Maria

Dante Alighieri

Délia

Delminda Silveira

Eça de Queirós

Edgar Allan Poe

Edvard Munch

Elisabeth Keyser

Élisabeth Sophie Chéron

Eloise Harriet Stannard

Emília Moncorvo Bandeira de Melo

Emma Goldman

Ernst Moerman

Éros Academie

Errico Malatesta

F. W. Murnau

Fernando Pessoa

Fiódor Dostoiévski

Fleischer & Famous

Florbela Espanca

Francisca Júlia da Silva

Francisco Goya

Francis Masson

François Chauveau

Frank R. Strayer

Franz Kafka

Fratelli Alinari

Friederich Engels

Friedrich Nietzsche

G. Bodenehr

G. Gaillard

Gabriela Frederica de Andrada Dias Mesquita

Gautier D’Agoty 

Gaslight (filme de 1940)

Gebroeders van Limburg

Georg Lukács

George Ripley

Georges Méliès

Gerda Wegener

Gertrude Käsebier

Gertrude Stein

Giacomo Franco

Giuseppe Arcimboldo

Gregório de Matos

Grupo Krisis

Guilherme Gaensly

Guilliame Sicard

Gustav Klimt

Hale Asaf

Hans Staden

Harriet Brims

Helen Allingham

Henriëtte Ronner-Knip

Henry Charles Andrews

Herman Goethe

Hieronymus Bosch

Hilma af Klint

Hipólito José da Costa

Hiroshige

Humberto Mauro

Ida Gisiko-Spärck

Ike no Taiga

Imogen Cunningham

Imperador Huizong

Irmãos Lumière

Isadore Sparber

James Joyce

Jean Baptiste Debret

Jean-Jacques Rousseau

Jeanne Hébuterne

JF Hennig

JF Naumann

Johan F. L. Dreier

Johann Friedrich Wilhelm Herbst

John Gould

John Tenniel

Juan Eusebio Nieremberg

Juana Romani

Judith Leyster

Jules-Adolphe Chauvet

Júlia da Costa

Júlia Lopes de Almeida

Julia Margaret Cameron

Julie de Graag

Karl Marx

Kate Greenaway

Käthe Kollwitz

L. Schmidt

Ladislas Starevich

Laura Muntz Lyall

Lavinia Fontana

Leni Riefenstahl

Leon Dabo

Léon Spilliaert

Lewis Carroll

Lima Barreto

Little Tich

Louis Agassiz Fuertes

Louise Michel

Lucie Cousturier

Luigi Fabbri

Machado de Assis

Magdalena van de Passe

Marc Ferrez

Margaret Bourke-White

Margaret Macdonald Mackintosh

Maria Firmina dos Reis

Maria Lacerda de Moura

Maria Sibylla Merian

Marianne North

Marianne von Werefkin

Mário de Andrade

Mário Peixoto

Matias Aires

Matilde Malenchini

Merrie Melodies

Mia Arnesby Brown

Mikalojus Čiurlionis

Mikhail Bakunin

Napoleon Sarony

Narcisa Amália

Nicolau Maquiavel

Nísia Floresta

Olga Boznańska

Oscar Wilde

Otis Turner

Pat Sullivan

Paul Gauguin

Paul Klee

Paul Legrand

Paula Modersohn-Becker

Percy Stow

Philipp Baum

Pierre-Joseph Proudhon

Pieter Bruegel

Pieter Cramer

Piotr  Kropotkin

Plautilla Nelli

Pseudo-Callisthenes

Ramón de la Sagra

Raphael Tuck & Sons

Ricardo Reis

Robert Louis Stevenson

Robert Wiene

Sacher-Masoch

Séraphine Louis

Serguei Eisenstein

Shunkōsai Hokushū

Sofonisba Anguissola

Stephen Thompson

Suor Isabella Piccini

Teresa Margarida da Silva e Orta

Thomas Edison

Toulouse Lautrec

Toni Gürke

Utagawa Kuniyoshi

Utagawa Toyokuni

Van Beuren Studios

Van Gogh

Vera Willoughby 

Visconde de Taunay

Vittotio Putti

Vladimir Maiakovski

Voltairine de Cleyre

Walter Benjamin

William Blake

William Cheselden

Winsor McCay

Quinze anos de Facada X

por Roberta AR

Criado como um espaço livre para publicar, por mim e pelo André, o Facada sempre esteve aberto aos nossos amigos e a pessoas que se aproximaram para trocas interessantes. Começamos um ano depois do lançamento do orkut, que ainda era fechado apenas para convidados,  então muito do que foi postado no início deste deste zine eletrônico tem a cara de publicação comum das redes sociais de hoje. Para muita gente, foi a primeira experiência publicando despreocupadamente na internet, alguns até começaram seus próprios blogs depois. Hoje, ainda somos espaço para reflexões, trabalhos autorais, resenhas, e, mais recentemente, listas. E tudo isso está aqui nos nossos arquivos. Ao abrir nossa conta no instagram, nesses tempos de redes muitas, vi que chegamos aos QUINZE ANOS!

É muito tempo desde que criamos o ainda Facada Leite-Moça, um nome aleatório retirado de uma música de Fausto Fawcett, e que acho que foi o nome deste espaço por pelo menos a metade da sua existência. Como somos dinossauros da internet, ainda somos fruto do idealismo do conteúdo livre e compartilhado, por isso decidimos ser um espaço não monetizável e colocamos nossas publicações em licença Creative Commons.

O que nunca fizemos, nesta longa trajetória, foi organizar em um único post todo mundo que já passou por aqui. Não tínhamos feito, porque está aqui agora, os convidados todos para nossa festa de debutante. Além de mim, Roberta AR, e do André Rafaini Lopes, temos esta longa lista. Clique no nome para ver o conteúdo disponível:

Adriano de Almeida

André Francioli

André Gonzales

Antonio Netto

Antonio Souza

Biu

Bruno Azevêdo

Caio Gomez

Casa Locomotiva

Carla Lisboa

Carlos Dowling

Chapamamba

Cicinho Filisteu

Clara do Prado

Cláudo Parentela

DigóesX

Diogo Brozoski

Edgar Raposo

Érica Pierrobon

Evandro Esfolando

Everaldo Maximus

Felipe Marinho

FErio

Fernando Vasconcelos

Flávia Diab

Francisco Zenio

Gabriel Góes

Gabriel Mesquita

Igo Estrela

Jamile Vasconcelos

Juh Oliveira

Juliana Bolzan

Laluña Machado

Lauro Montana

Lilian Sampaio

Luciano Vitoriano

Luda Lima

Maurício Patiño

Mauro Castro

Michel Aleixo

Os Haxixins

Pedro Elias

Rafael Zolis

Raul Córdula

Sebastião Vicente

Stêvz

Thelma Ramalho

Tiago Penna

Túlio Flávio

Valdez

Zefirina Bomba

Atemporalidade: O racismo e a discriminação étnica nos Estados Unidos

por Laluña Machado*

Desde o período escravista e a época colonial que perdurou até 1776, os EUA “enfrenta” a questão racial e discriminação étnica em seu território. Os traços de sua história (e de muitos outros países) mostram uma supremacia branca dotada de privilégios e direitos legais ou sancionados exclusivamente. Nativos americanos, asiático-americanos, afro-americanos, latinos, judeus, árabes, irlandeses, poloneses e italianos sofreram e sofrem exclusão étnica, xenofobia e preconceito religioso nas terras do Tio Sam.

Após sua independência – influenciada por ideias Iluministas – e a Guerra de Secessão, o sucesso dos estados do norte, que eram abolicionistas e industrializados mediantes aos estados do sul que eram escravistas e agrários, levaram a formação de classes sociais a partir da consolidação do sistema capitalista em todo o país. A classe trabalhadora engrenava o ciclo vicioso do sistema, uma classe assalariada que é levada ao consumo, principalmente para adquirir bens industrializados e alavancar as condições e permanência burguesa.

Porém, os negros continuavam marginalizados e foco de organizações favoráveis a insulação racial como a Ku Klux Klan (KKK), instituída em 1866 com base reacionária e extremista, que urrava por uma supremacia branca com um discurso antissemita, racial e antinortista. A KKK exercia práticas criminosas como linchamentos, torturas e assassinatos moldados por uma predição de purificação da sociedade estadunidense.

Praticamente um século após o “fim” da KKK, os negros dos EUA ainda eram proscritos pela sociedade, proibidos de frequentar lugares atribuídos a brancos como escolas, universidades e restaurantes, obrigados a se sentarem em lugares específicos nos transportes públicos e não poderiam utilizar os mesmos sanitários que os brancos.

A situação só sofreu algumas mudanças com a eclosão do Movimento pelos Direitos Civis liderado por Martin Luther King e Malcolm X, que tinha como objetivo a igualdade de direitos para a população negra. Após 10 anos do início do Movimento pela equivalência racial, a Lei dos Direitos Civis foi proclamada, eliminando fundamentalmente as leis discriminatórias. Os negros alcançaram direitos, mas continuaram sofrendo preconceito “velado” e estrutural como crimes de intolerância e violência policial, mesmo com a eleição de Barack Obama em 2009, tornando-se o primeiro e até agora único presidente negro dos EUA.

Com a saída de Obama e a eleição de Donald Trump em 2017, o discurso racista e completamente belicoso de face para as minorias acaba ganhando fôlego e locação para os gritos de ódio, neozanistas, neofacistas e xenofóbicos, levando a atos de cólera como o que ocorreu em Charlottesville, uma cidade de 50 mil habitantes situada no estado da Virgínia.

A Marcha de Charlottesville ocorreu em 12 de agosto de 2017 e foi composta por grupos que proclamavam uma hegemonia branca, com discursos inflamáveis que protestavam contra os imigrantes, judeus, homossexuais e negros. O movimento encabeçado por neonazistas e de simpatizantes da KKK, levou a morte da jovem Heather Heyer após ser atropelada por um membro da Marcha.

Esses discursos de ódio ganham mais notoriedade nas redes sociais e na Internet Profunda (DeepWeb), os quais produzem e reproduzem esse tipo de pensamento reacionário. Os mesmos se sentem “blindados” pela tela do computador ou celular, confundindo democracia e liberdade de fala com discurso de ódio, inclusive muitas declarações são propagadas pelo próprio presidente, legitimando a colocação de Umberto Eco: “a internet deu voz a todos, inclusive aos idiotas.” Tais proposições fazem parte de fenômeno neoconservador que não toma conta somente dos EUA, mas de outros países, sobretudo, países que se consideravam evoluídos em relação a esses questionamentos como a Alemanha.

Há poucos dias, o país mostrou mais uma vez sua negligência e completa selvageria com a população negra. George Floyd, de 46 anos, foi morto por um policial branco – Derek Chauvin – nas ruas de Minneapolis no estado de Minnesota. Floyd foi algemado e asfixiado por 8 minutos enquanto as pessoas filmavam o ato bárbaro que viralizou nas redes sociais. A partir daí, grandes manifestações começaram a surgir na cidade pedindo a prisão dos policiais envolvidos no crime, além de levantar debates (mais uma vez) sobre o racismo estadunidense, ainda mais neste momento em que o país, assim como o Brasil, é composto por uma base estatal neofascista.

Os episódios que levantaram um engajamento virtual com a hastag BlackLivesMatter (VidasNegrasImportam), se espalharam pelo país e muitos deles foram apoiados pela força militar e outros foram duramente combatidos, gerando uma onda de violência que teve como consequência direta a prisão de Derek Chauvin. Isso não é o suficiente e nunca será.

Além de constante violência policial (o que também acontece no Brasil) contra a população negra, os Estados Unidos também somam o maior número de mortes por Covid-19 no mundo, mais da metade delas são de pessoas negras. Ou seja, se não mata de forma extremista, mata por ausência de uma política social. O Tio Sam tem se mostrado ativo em relação a discursos neofascistas, sobretudo, após a crise econômica de 2008. Mas se engana quem acha que esse tipo de “comportamento” só se mostra posterior a conflitos, crises diplomáticas, econômicas e humanitárias, “invasões”… já dizia Bertolt Brecht: A cadela do fascismo está sempre no cio.

Dicas de filmes:

Selma – Uma luta pela igualdade. Direção: Ava DuVernay – Roteiro: Paul Webb – 2014

Corra! Direção: Jordan Peele – Roteiro: Jordan Peele – 2017

Estrelas além do tempo – Roteiro: Theodore Melfi, Margot Lee Shetterly, Allison Schroeder – 2012

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos e do site Minas Nerds.Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

A vida não me assusta: para espantar os medos desses tempos

por Roberta AR

O medo tem sido um tema constante nesses tempos. Medo das incertezas do futuro. Da violência contra mulheres, contra negros, homossexuais. Medo de líderes religiosos. Medo em toda a parte. Mas nada como a companhia de uma linda obra de arte para afastar um pouco os fantasmas. Junto com Maya Angelou e Basquiat, eu digo: A vida não me assusta.

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A vida não me assusta é um lindo livro infantil editado por Sara Jane Boyers, que uniu ao poema Life doesn’t frighten me, de Maya Angelou, imagens produzidas por Basquiat durante toda a sua carreira num belo trabalho de curadoria que resultou nessa edição poderosa, que pretende espantar os medos infantis das coisas mais assustadoras. Sombras, cães bravos, monstros, dinossauros, bruxas e até os bullys que puxam os cabelos crespos das meninas são os personagens que não assustam essa nossa criança narradora, que guarda os seus medos para os sonhos noturnos.

O livro chegou ao Brasil pela primeira vez nessa edição comemorativa de 25 anos da publicação, editado pela DarkSide Books no seu selo infantil Caveirinha.

Para entender a grandeza de uma publicação como essa, temos que falar sobre os dois artistas unidos nessa obra:

Maya Angelou Obit.

Maya Angelou (pseudônimo de Marguerite Ann Johnson) viveu de 1928 a 2014. Ativista dos direitos civis, junto a líderes negros como Malcom X e Martin Luther King (era amiga dos dois), ela foi muito atuante não só nos Estados Unidos, como também em diversos países da África, onde trabalhou como jornalista e professora, ajudando movimentos de independência pelo continente. Em sua longa carreira, foi poetisa, escritora, historiadora, entre outras coisas.

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Jean-Michel Basquiat viveu entre 1960 e 1988. Filho de uma porto-riquenha e pai haitiano, começou a ganhar notoriedade com seus grafites, que traziam a assinatura SAMO (same old shit ou “sempre a mesma merda”), trabalho que fazia com o amigo Al Diaz. Também era músico e tocou em diversas casas noturnas importantes de Nova Iorque com sua banda Gray, que lhe rendeu o personagem principal do filme Downtown 81. Após participar de uma exposição numa instituição chamada Colab, seu trabalho como artista plástico foi reconhecido e ele começou a integrar o movimento chamado neoexpressionista. Sua parceria mais conhecida foi com Andy Warhol, com uma extensa produção colaborativa entre os dois.

Para Sara Jane Boyers, “A vida não me assusta é sobre experiência de vida. É sobre perseverança e orgulho, sobre encontrar-se com a história da própria vida, sobre o bom e o mau e sobre utilizar tudo aquilo que que nos influencia e nos afeta – nossas famílias, nossa cultura, o dia a dia do nosso planeta – para nos apoiarmos e nos reinventarmos constantemente”.

 

 

A vida não me assusta
Maya Angelou 
DarkSide Books
R$ 49,90

O livro foi cortesia da editora.

(texto publicado originalmente no site MinasNerds)

Sirlene Barbosa, a primeira indicada ao Jabuti de HQ por Carolina

por Roberta AR 

O primeiro quadrinho da novela gráfica Carolina foi de um impacto imenso para mim. Lembrei imediatamente da chácara que ficava no fim da minha rua, em Parelheiros, que tinha aquela senhora gentil que fazia biscoitos para mim. Eu era muito pequena, possivelmente no mesmo ano que aparece registrado ali. Teria eu conhecido a Carolina?

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Primeiro quadrinho da novela gráfica Carolina

 

A história de Carolina Maria de Jesus, escritora do livro mais vendido em 1960 no Brasil e que foi publicado em dezenas de países, é que faz o roteiro desse quadrinho comovente de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Ela era conhecida como a escritora catadora de papel, que era a forma da elite cultural colocar seu trabalho em uma caixinha de menor valor na produção literária, mas seu trabalho era visceral, um olhar apurado da sordidez e das pequenas felicidades que se alternam na vida dos que estão na extrema pobreza.

Sirlene Barbosa reuniu um grande material de pesquisa sobre vida e obra de Carolina de Jesus, que receberam um roteiro lindamente desenhado por João Pinheiro. Não por acaso, o livro acaba de ser indicado ao Prêmio Jabuti na primeira edição em que se terá uma premiação específica para quadrinhos. Sirlene Barbosa é a primeira autora indicada na categoria, a única mulher nesta edição. Conversamos um pouco com ela sobre esse belo trabalho:

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Sirlene Barbosa

O que levou a escolha de Carolina Maria de Jesus como tema para este quadrinho?

Antes das respostas, quero deixar registrado meus agradecimentos pelo contato.

Bem, estou professora de língua portuguesa da Prefeitura de São Paulo. Por alguns anos, coordenei uma sala de leitura (projeto da Secretaria Municipal de Educação [SME] que, este ano, completa 45 anos e, por conta desse fato, haverá um Seminário para comemorar e refletir sobre este espaço. Eu fui convidada a participar de uma mesa para representar o corpo docente, no papel de escritora) e, principalmente no ano de 2014 (gestão Haddad), a SME tinha um núcleo para propor trabalhos referentes às questões étnico-raciais. Alguns dos membros da equipe fizeram algumas palestras sobre literatura negra, fazendo jus à lei 10.639/2003, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996), colocando como pauta obrigatória os estudos da literatura, história e cultura negras em todos os ambientes educacionais.

Carolina Maria de Jesus já era uma companheira de aulas, há alguns anos, mas ouvir pessoas falando de nomes que não aparecem como referências do cânone (Carolina, por exemplo), que deixam de ser objeto de estudo em livros e passam a ser protagonistas de suas obras me deslumbrou e me fez olhar, com outros olhos, o acervo da sala de leitura que coordenava – observei que diante de uma média de 30.000 livros, havia apenas uma prateleira de livros (algo em torno de 50) que estavam relacionados à literatura negra.

Em 2014, foi comemorado o centenário de Carolina Maria de Jesus e eu recebi, no início do ano, alguns livros para complementar o acervo da sala. Analisei a discrepância de duas caixas com livros de Ferreira Gullar, somando 40 volumes, e dois, sim, apenas dois Quarto de despejo: diário de uma favelada (o grande best-seller de Carolina).

Essas discrepâncias me levaram a refletir sobre a questão do currículo escolar: por que se lê, com muita frequência, pra não dizer sempre, o cânone literário, representado, em grande maioria, por homens e brancas e brancos e ignoram o que os excluídos desta mesma literatura têm a dizer?

Assim, propus uma enquete rápida com os professores orientadores de sala de leitura da Diretoria Regional Educação de Itaquera, onde constatei que de uma média de 40 docentes, apenas cinco conheciam Carolina e NENHUM/A havia lido sua obra em sala de aula.

Esses pontos me obrigaram a apresentar a vida e a importância de Carolina; o gênero textual que acreditei ser mais didático e interessante, principalmente, para as/os estudantes, foi a História em Quadrinhos (HQ). Como meu companheiro é quadrinista (João Pinheiro), resolvemos concretizar o trabalho. Faltava, no entanto, condições financeiras para se dedicar com exclusividade à empreitada. No final de 2014, fomos um dos ganhadores do prêmio ProAC, do governo do Estado de São Paulo, possibilitando, então, concretizar o livro.

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Trecho de Carolina

Mesmo depois de tanto tempo, ainda temos grandes figuras do meio literário tentando diminuir a importância da Carolina de Jesus para a literatura, como no episódio em que ela foi homenageada pela Academia de Letras do Rio. Literatura ainda é uma arte elitista?

Acredito que sim, mas, também, que representantes das literaturas periférica, negra e indígena estão abrindo estas portas, mesmo que a “pontapés”.

Um exemplo importante: em 2014, apareceu um projeto na SME chamado de Leituraço, em que se propunha a leitura de livros que tentavam validar as leis 10.639/2003 e 11.645/2008 (propõe os estudos da história, arte e literatura indígenas). Todas as salas de leitura do município paulista receberam livros com estas temáticas, além de literaturas que abordam a vida na periferia, bem como da América Latina e de alguns países do continente africano – projeto belíssimo, por sinal, muito bem executado, pelo menos, até o final de 2016.

Dessa forma, foi possível apresentar aXs estudantes outras/os autoras/es, narrativas, protagonistas – foi uma tentativa de descolonizar o currículo da rede municipal paulista. Currículo que aborda com muita ênfase nomes e fatos do continente europeu e menospreza nossa realidade. Dizendo isso não significa que se deixará de ensinar o que a Europa e/ou os EUA têm de importante, no contexto histórico mundial e nas suas literaturas etc. Não! Descolonizar para ensinar que não existe apenas a estética europeia como padrão de beleza, nem seus ambientes gelados como cenários da narrativa, mas dizer que negras/os (por conta de um recorte de pesquisa, pois não podemos nos esquecer da importância dos primeiros moradores do que, hoje, chamamos Brasil – OS INDÍGENAS – e que tiveram suas terras INVADIDAS e não ocupadas, foram assassinados,

estupradas/os, enfim, destroçadas/os) também podem ser princesas, que não foram/são preguiçosos, que foram/são protagonistas de suas próprias narrativas, inventores importantes, por fim, mas não somente, SÃO ESCRITORAS/ES – sim, a literatura também é nossa!

Quarto de Despejo vendeu mais que Jorge Amado e Clarice Lispector no ano de seu lançamento e fala da realidade dos excluídos, um tema que tem paralelo em autores como Graciliano Ramos. O que teria levado seu trabalho a não estar presente nos currículos escolares e só recentemente foi pedido em algumas provas de vestibular e virou tema de Enem?

A tentativa de esconder a grandiosidade de negras/os, de mantê-las/os no poço literário.

Você é a primeira mulher indicada ao prêmio de quadrinhos do Jabuti, e única. O espaço das publicações sempre foi um território difícil. Qual o paralelo que você faria entre o cenário vivido por Carolina de Jesus e o que vivemos hoje?

O paralelo que faço é que ainda há muito a caminhar, pois não posso ignorar o fato de que sou a única mulher e NEGRA a ser indicada, mas tenho um homem do meu lado.

Carolina tentava publicar já há alguns anos, bem antes da chegada do jornalista do que hoje conhecemos como Folha de S.Paulo, Audálio Dantas, em maio de 1958, mas só o fez, em 1960, tendo homens como seus editores.

Finalizo afirmando que há muito a se fazer, principalmente para nós mulheres, negras, indígenas, brancas, trans e periféricas, e que, é de suma importância, estarmos na ponta para abrirmos as portas para outras irmãs e isso não significa dizer que pretendemos derrubar os homens, mas que a luta não termina enquanto os direitos por igualdade, em todos os âmbitos, não forem alcançados por nós, mulheres.

É isso e tudo isso!

Um grande abraço a todas as manas e aos manos!

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Capa do quadrinho Carolina

Carolina

Sirlene Barbosa e João Pinheiro

Editora Veneta

Número de páginas: 124

Formato: 17x24cm

R$ 54,90

 

Entrevista publicada originalmente no site MinasNerds em outubro de 2017

Alma não tem cor: uma falsa medida do homem

por Carla Lisboa*

Passadas as “comemorações” sobre o dia em que foi assinada a Lei Áurea, que extingue a escravidão no país (mas não a mentalidade escravista), tudo volta ao “normal”: violência e/ou discriminação racial, racismo, silenciamento, necropolítica… você escolhe, o repertório é vasto. Tudo acaba em extermínio, em invisibilidade social, em uma memória apagada, numa denúncia deslegitimada.

Tá, mas… E daí?

O historiador francês Pierre Norah, propôs um debate importante sobre memória, por ocasião do bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, mas também sobre o papel dos arquivos, datas comemorativas, monumentos e do patrimônio do país. O que deve ser preservado, ou esquecido? De qual passado falamos? Quais memórias são dignas de serem levadas adiante? Entre outras questões (e incômodos) levantados por Norah, está a memória como espaço de DISPUTA.

Tá, mas… E daí?

Daí que os debates sobre a desigualdade e a discriminação racial têm data certa no calendário, como se só morressem pretas e pretos no 13 de maio ou no 20 de novembro… É como se afrodescendentes só existissem a partir da perspectiva da miséria, da exclusão social e da violência, e essas duas datas servissem para um mea culpa, mea maxima culpa, mas que, na prática, não muda nada. Mas enfim, Pierre Norah está aí para explicar sobre esse processo de apagamento de memória e como ele acontece. E, apesar de me basear nas reflexões de um historiador europeu e branco, ele ajuda a organizar minhas reflexões sobre o assunto. Em tempo: Isso não quer dizer que não haja outros intelectuais falando sobre isso, mas que é uma escolha minha para falar sobre o tema partir das datas comemorativas, criadas por brancos. É uma discussão longa, válida, necessária, mas que pretendo fazer em outro momento, abordando especificamente intelectuais negros.

Todo lugar de memória é, antes de tudo, um espaço de disputa, não de concessão. Assim como a Lei Áurea não foi uma concessão, mas resultado de uma série de disputas em diversos níveis, seja no aspecto político, econômico e, claro, o social. Para que um grupo social seja lembrado é preciso silenciar o outro, ou “conceder” uma data, monumento, homenagem, para compensar esse silenciamento. Explico: não é uma data para reconhecimento das lutas por liberdade e reconhecimento da humanidade de milhões de pessoas escravizadas, muito menos de seus descendentes. Deveria ser, mas não é. Se houvesse, realmente, uma vontade de reconhecer historicamente a miséria vivida cotidianamente por essas pessoas, hoje, não seria necessário criar essas datas “de reflexão”. Sabe por quê? É simples: porque essas pessoas teriam sido integradas à sociedade depois do glorioso 13 de maio de 1888. Mas quem quer reconhecer que pisou na bola e construiu seu patrimônio financeiro à custa da exploração do trabalho alheio, não é mesmo?

Sem políticas de inserção social, sem acesso à escola e ao aprendizado de outros ofícios (além daqueles que exerceram enquanto escravizados), sem moradia, não haveria muitas alternativas além do alcoolismo, da mendicância, da fome e do subemprego. E nem venha me dizer que alguns conseguiram subir na vida, porque essa exceção só confirma a regra miserável que permanece ainda hoje. E digo mais: estes poucos que “subiram na vida” ou que não são miseráveis, só conseguiram graças ao ocultamento de sua identidade e ancestralidade africana. Só conseguiram o passaporte do sucesso porque se submeteram a uma série de códigos (brancos) de aceitação: modo de vestir, de falar, de se comportar, enfim, se embranquecer como é possível. Uma violência tamanha, que nenhum branco é capaz de imaginar, muito menos de sentir.

Mas, antes que eu me perca, quero evidenciar alguns pontos “nebulosos” sobre o racismo nosso de cada dia. Porque, sim, apesar de não ser branca, eu também cometo erros e tento aprender com eles. É uma luta desgastante, injusta e cheia de armadilhas e devemos estar preparados para elas. É preciso estar atento e forte, já alertava Gal, sob os ventos tropicalistas. E o mundo está cheio de armadilhas, acredite. A primeira delas, quiçá a mais frequente e que me deixa profundamente irritada (e até já adoeci por isso) é o famigerado “Somos todos iguais”. Iguais!? ONDE, alguém me explica?

Agora, neste exato momento de isolamento social, nem todos têm o privilégio de ter uma casa para se isolar, tampouco uma torneira para lavar as mãos. Não deveria ser assim, óbvio que não. Ter empatia e compaixão são indicadores da nobreza das pessoas, mas se esses sentimentos não levam a uma ação efetiva, de pouca valia será a indignação com o racismo. Nossa humanidade nos faz iguais em generosidade, respeito e, até mesmo, na fragilidade com relação às doenças, a solidão e a morte, mas como acreditar nisso com tanta gente dizimada, deslegitimada, desacreditada, calada, presa sem saber por quê? Como acreditar nisso se, quando estamos dizendo que não somos socialmente iguais, embora devêssemos ser, insistem na ideia de vitimismo? Quando vão entender que existe uma história do CONTINENTE AFRICANO anterior à escravidão e que a diáspora negra para o Brasil foi e é cruel porque tira, HOJE, direitos constitucionais dos descendentes de escravizados, porque não têm acesso a eles, como quaisquer outros cidadãos? Como essas pessoas vão ter uma formação e conseguir “ser alguém na vida”, se não conseguem se manter frequentando a escola? Como essas crianças e adolescentes vão se sentir acolhidos e aceitos com TODAS as limitações, traumas e violências sofridas dentro e fora de casa (quando há uma), quando tudo que recebem é julgamento? Se ouvem, desde a mais tenra idade, que são caso perdido, preguiçosos, acomodados, vagabundos?

Somos todos iguais, mesmo? Iguais a quem?

E seu eu te disser que, essa frase contém uma crueldade imensa?

Não somos iguais fisicamente, embora milhares de pessoas maltratem os cabelos para que pareçam lisos; não somos iguais espiritualmente porque muitos de nós têm um sistema de crenças diferente do cristianismo e que cotidianamente é vilipendiado, desprezado, dilapidado e destruído em nome de um Deus (branco) e salvador; não somos iguais filosoficamente porque pensamos o mundo diferentemente, com ênfase no coletivo e em respeito à ancestralidade; Não somos iguais porque ubuntu é muito mais sofisticado, complexo e profundo do que um sistema operacional de computador. Vou ficar por aqui, porque tenho exemplos e cansaço demais para esse espaço.

Numa sociedade extremamente violenta como a brasileira, é curioso observar esse fenômeno: a (falsa) crença de que somos iguais e suas variantes, tais como raça humana, não vejo cor, preto de alma branca, branco de alma negra, ou outra mais espiritual: alma não tem cor. Esta última soa mais cínica aos meus ouvidos. Considerando que há pouco menos de 150 anos, negros não tinham alma, tampouco eram considerados gente, a menos que fossem batizados com um nome cristão, obviamente… isso dói ouvir, sabe? Há quem argumente que se deva superar esse triste passado e buscar uma unidade espiritual, uma unidade branca e cristã, que fique bem entendido.

Então, eu te pergunto: por que deveríamos ser iguais, pasteurizados como um enorme pote de iogurte? Por que AINDA não somos aceitos por ser quem somos, como somos e queremos ser e ainda não podemos ser em plenitude e com dignidade?

Porque existe uma maioria que não quer assumir que tem privilégios. Sim, ser branco no Brasil é privilégio, não porque eu quero, mas porque vivemos num mundo em que aparência é importante. Veja, o código de “normalidade” é ocidental e branco. Não se trata de culpa, mas de responsabilidade social. Dizem que os negros e afrodescendentes não têm educação, são agressivos, irascíveis, histéricos, encrenqueiros, indisciplinados, se vitimizam… Você branco, cristão etc., já questionou sobre o porquê desse comportamento? Se não, deveria. Não estou falando em caridade, mas em fazer autocrítica para ser capaz de aceitar valores, estéticas e formas de expressão artística e religiosa diferentes das suas, para que outras pessoas tenham acesso às oportunidades que você tem. Começa por aí… O primeiro passo é reconhecer os privilégios.

Dói, né? Imagina quando negam o direto de se manifestar sobre a discriminação e violência vividas por causa da cor da pele… Quando um afro-brasileiro diz que determinada postura, fala, brincadeira é racista, não é opinião, nem vitimismo. É uma afirmação que é imediatamente deslegitimada com o mais puro achismo. Racismo não é sobre (sua) opinião, é sobre sua postura com quem é diferente de você, mesmo que você não perceba. Quando alguém lhe disser “isto é racismo”, aceite humildemente e se emende.

Outra coisa: quando acreditamos na ideia de “dar voz às minorias”, na verdade, estamos dizendo que essas pessoas não são capazes de falar por elas mesmas de suas mágoas, frustrações e injustiças sofridas. E isso é silenciá-las mais uma vez. Olha aí, Pierre Norah acenando para mostrar o apagamento simbólico e histórico novamente! Não basta homenagear a cultura negra, exaltar sua beleza e sabedoria ancestral é preciso que ela exista e seja respeitada per se, sem ser esvaziada de significados, tampouco tornado produto. Essa luta é multifacetada e cheia de armadilhas, como já disse. É política, econômica, religiosa, social, semântica, mas também está presente no nível dos afetos, nos ritos cheio de significado e riqueza, nas memórias, histórias e seus múltiplos sentidos. É cruel, porque inviabiliza o discurso de quem mostra o racismo que estrutura nossa sociedade e as redes de relações. É tão grave que foi tornada crime, apesar de banal.

É aqui que nosso compromisso como cidadão deve se reafirmar, principalmente em tempos de terras planas, pistolas e “Zumbi dos Palmares dono de escravos” e outros negacionismos perigosos, do passado e do presente. Esse compromisso, nada fácil de ser mantido, pouco tem a ver com conceder algo que já está previsto na Constituição de 1988. Diz mais sobre como, nas diferenças, todos tenham acesso às mesmas oportunidades e direitos que você tem, desde que nasceu, e muitos nem sabem que existe. É sobre respeitar o ser humano, suas diferenças e, acima de tudo, agir com justiça. Só assim, a diversidade de identidades, credos, cores e crenças farão parte de ser brasileiro verdadeiramente.

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* Carla Lisboa é mestre e doutora em História Social pela Unesp/Assis e professora convidada do Centro Universitário Sagrado Coração. Capricorniana, corinthiana (sem muita convicção), de “de esquerda” e voltou a tricotar na quarentena.

O fracasso em meio ao caos

por Roberta AR

Sonhei que estava no cruzamento de uma grande avenida, um lugar que me foi tão familiar por tanto tempo, mas que não vou há anos. Perguntei para quem estava comigo, uma amiga que se distanciou, coisas da vida, se não tinha problema eu dar um pulinho por lá no meio do isolamento. “Está cheia de gente passeando, não tem problema”. Acordei assustada.

Este ar de normalidade no meio do absurdo é algo que sempre me assusta, não é um sentimento novo. As pessoas naturalizam as piores coisas de um jeito quase sereno, digo quase porque esta serenidade é mantida artificialmente com alguma compulsão, remédios controlados ou drogas. Os que não naturalizam, viram esses seres estranhos inadaptados que precisam ser consertados. 

Eu tenho sido essa pessoa quebrada faz uns anos já. Em isolamento, sem conseguir ser funcional nas condições que o mundo quer. Não sou mais produtiva, pois não gero riqueza. Estou aqui dedicada a manter uma criança mentalmente, emocionalmente e fisicamente saudável no meio da violência emocional e patrimonial que vem de todo o lado. E minha energia tem sido toda consumida por isso e pela feridas emocionais de uma vida de abandonos. Esteja materialmente vulnerável e se veja ser tratada como incapaz, com condescendência e até tentarem tirar seu poder familiar. 

É difícil e pesado viver neste mundo. Para todo mundo. Este é um mundo violento e nós, pobres, dividimos entres nós metade da riqueza do planeta, a outra metade está na mão dos 1%. Esse valor deve ter aumentado depois que esta marca foi atingida há quatro anos (pros mais ricos). E são esses 1% que dizem quem vai mandar em cada canto do mundo, ou você acha que foi o porteiro com seu voto que escolheu este presidente?

Acho interessante como se gasta tempo falando mal do pobre de direita e não se fala nunca destes ultra-ricos. Será que é porque as fundações deles dão uns troco para as artes, bancam políticos “de esquerda”? Usam até os mortos desta epidemia para chamar pobres de burros: “a maioria desta cidade votou em…”. Merecemos morrer por isso. Mas falar da fundação lá do cara mais rico do país, que tem aquela fast food das propagandas descoladas, junto com aquele apresentador que quer ser presidente nem pensar. E eles se juntaram para eleger muita gente no parlamento. Normal, né? Dinheiro bem gasto que vai nos beneficiar… Aqui eu acordo assustada, de novo, mas desta vez não estava nem dormindo. 

Precisamos buscar o sucesso. Pensar em sucesso traz o sucesso até você. Mentalize a riqueza, o que você quer ter, onde você quer estar. Mesmo sabendo que tem que dividir metade da riqueza do mundo com quase sete bilhões de pessoas, porque a outra metade tá na mão de umas duas mil. Alguém sugeriu que eu monte meu negócio agora. Acordo já acordada de novo. Mas assustada. “Fulano doou um milhão para pesquisa do corona vírus”. Dinheiro do papel higiênico, né? Cês me poupem. 

Eu vejo muita gente sem conseguir se encaixar neste mundo. Estou assim faz pouco tempo, focando minha energia em sobrevivência primária, mas sinto essa dor de todos como a minha. Pessoas que sentem o peso de ter que levantar de manhã para exercer atividades absolutamente inúteis e dispensáveis no meio de gente abusiva e que se dá um valor maior do que lhe é de direito. Nunca tinha chegado neste estado em que o peso é maior que a minha força, mas sempre tive que lidar com ele. E ainda temos que ouvir que isto é fracasso.

O sucesso do 1% é o total desprezo ao resto do planeta. Estamos neste caos sanitário porque tem gente sugando nossa existência (nossa como parte da natureza, somos todos uma coisa só) e a transformando em moeda corrente. Lidar com o fracasso não pode ser um problema, neste contexto. Somos todos fracassados, nesta perspectiva. O fato de alguém ter um salário um pouco maior não o torna uma pessoa de sucesso, porque o salário pode sumir a qualquer momento. Aquela empresa de sucesso também não sobreviveu agora.

Hoje, me sinto reconectada ao mundo. A minha dor agora tem legitimidade. O absurdo está bem visível, para quem quiser enxergar. Não é uma sensação boa, este pertencimento. Mas me tira do lugar da louca que se nega a cair na real. O que é real?

Ontem, li um artigo, que tava numa fila pra ler faz tempo (você está sendo produtivo na pandemia? eu não). Ele falava de moda, mas veja este trecho: “O tempo urge. Defendo a cura pelo respeito ao coletivo, às pessoas. Acredito que vamos precisar nos preparar para organizar uma nova ordem feita de variações mínimas (…) com respeito irrestrito ao planeta. Será preciso o indivíduo desprender-se das normas antigas e apreciar cada vez mais o coletivo, para aí sim conseguir afirmar um gosto mais pessoal.” (o texto do Jackson Araújo está completo aqui

Ele fala de coletivo, mas não como estes grupos contemporâneos que pretendem ser vanguarda, mas têm essa cara de empreendedorismo meritocrático. Coletivo como estar junto, de verdade. Precisamos nos ver a partir do outro, da troca, não do julgamento. E eu pensei aqui nas tantas vezes que estive com amigues e até em coletivos, mais de um, pessoas incapazes de pensar a troca de potencialidades sem isso virar recurso financeiro. Pessoas que não aceitam que você faça algo que é sua especialidade sem pagar por isso, provavelmente por não querer “ficar devendo”. Ou que acha que qualquer coisa que ela faça tem preço. A impensável, para elas, gratuidade nos gestos. Eu faço parte de um núcleo da Comunidade que Sustenta a Agricultura (saiba mais o que é clicando aqui) e um dos lemas desse grupo é substituição da “cultura do preço pela cultura do apreço”. Agora é tempo de pensarmos estas relações sociais. Isso é muito sério.

Vejo iniciativas como Artistas em Quarentena, da Lila Cruz, que pensa concreto e pontual, neste momento difícil, para citar uma de um grupo com que tenho trabalhado nos últimos anos. Como esta, temos milhares de ações em todo o país, indígenas, periferia, catadores, artesãos, quilombolas, estão todos se articulando para sobreviver apesar de. Mas, mais do que doar, precisamos criar nossas próprias redes de apoio. Material e emocional. Gente com a qual você possa estar nas vacas gordas e vacas magras te olhando do mesmo jeito, com respeito, amor e carinho. Que a gratuidade do gesto seja recíproca. Que o cuidado seja sincero e te deixe tranquila por ter um colo no meio do caos. Precisamos sobreviver para o depois.

Está difícil, mas eu tenho o sonho com um abraço apertado na amiga querida que nunca vi pessoalmente. Tenho a mensagem de quem sempre esteve aqui do meu lado quando eu quebrei de verdade. O carinho de quem me ajuda a descobrir quem eu sou. O amigo que divide minhas iniciativas de conteúdo gratuito “creative commons”. O companheiro que está aqui, mesmo sendo tudo tão difícil. A criança que me ama. Somos coletivo. Comunidade, porque acho mais bonito.