Maio

por Lima Barreto*

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice.

Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no largo do Paço.

– Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo.

Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mesmo o grande Patrocínio.

Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas…

Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na .minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia.

Houve missa campal, no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a Primeira missa, de Vitor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… Houve o barulho de bandas de músicas, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões, alegrias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos, assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de tarde, ao anoitecer.

Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apiedado. Nunca mais a vi e o imperador nunca vi, mas me lembro dos seus carros, aqueles enormes carros dourados, puxados por quatro cavalos, com cocheiros montados e um criado à traseira.

Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos.

Era bom-saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão.

Quando fui para o colégio, um colégio público, à rua do Resende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado.

A professora, Dona Teresa Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de criança, só uma coisa me ficou: livre! livre!

Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia.

Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: “Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres?”

Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!

Dos jornais e folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de um pequeno jornal, publicado pelos tipógrafos da Casa Lombaerts. Estava bem impresso, tinha umas vinhetas elzevirianas, pequenos artigos e sonetos. Desses, dois eram dedicados a José do Patrocínio e o outro à princesa. Eu me lembro, foi a minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se “Princesa e Mãe” e ainda tenho de memória um dos versos:

“Houve um tempo, senhora, há muito já passado…”

São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo.

Oh! O tempo! O inflexível tempo, que como o Amor, é também irmão da Morte, vai ceifando aspirações, tirando presunções, trazendo desalentos, e só nos deixa na uma essa saudade do passado às vezes composta de coisas fúteis, cujo relembrar, porém, traz sempre prazer.

Quanta ambição ele não mata! Primeiro são os sonhos de posição: com os dias e as horas e, a pouco e pouco, a gente vai descendo de ministro a amanuense; depois são os do Amor – oh! como se desce nesses! Os de saber, de erudição, vão caindo até ficarem reduzidos ao bondoso Larousse. Viagens… Oh! As viagens! Ficamos a fazê-las nos nossos pobres quartos, com auxílio do Baedecker e outros livros complacentes.

Obras, satisfações, glórias, tudo se esvai e se esbate. Pelos trinta anos, a gente que se julgava Shakespeare, está rente que não passa de um “Mal das Vinhas” qualquer; tenazmente, porém, ficamos a viver, -esperando, esperando… o quê? O imprevisto, o que pode acontecer amanhã ou depois. Esperando os milagres do tempo e olhando o céu vazio de Deus ou Deuses, mas sempre olhando para ele, como o filósofo Guyau.

Esperando, quem sabe se a sorte grande ou um tesouro oculto no quintal?

E maio volta… Há pelo ar blandícias e afagos; as coisas ligeiras têm mais poesia; os pássaros como que cantam melhor; o verde das encostas é mais macio; um forte flux de vida percorre e anima tudo…

O mês augusto e sagrado pela poesia e pela arte, jungido eternamente à marcha da Terra, volta; e os galhos da nossa alma que tinham sido amputados – os sonhos, enchem-se de brotos muito verdes, de um claro e macio verde de pelúcia, reverdecem mais uma vez, para de novo perderem as folhas, secarem, antes mesmo de chegar o tórrido dezembro.

E assim se faz a vida, com desalentos e esperanças, com recordações e saudades, com tolices e coisas sensatas, com baixezas e grandezas, à espera da morte, da doce morte, padroeira dos aflitos e desesperados…

Feiras e mafuás, 4-5-1911

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* Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), mais conhecido apenas como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

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Por que sou forte

por Narcisa Amália*

a Ezequiel Freire

Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito…
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia – ao sentir que desfaleço…
E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: – aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!
É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,
E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!…
– E eis-me de novo forte para a luta.

Resende, 7.9.1886.

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*Narcisa Amália ( 1856 — 1924) foi uma poetisa brasileira. Foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Movida por forte sensibilidade social, combateu a opressão da mulher, o regime escravista, segundo Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional” e busca sua própria identidade “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”. Colaborou na revista A leitura (1894-1896)

Facada 63 – Azul

Aqui, o objetivo é colecionar azulejos, concatenando a melhor ordem para tirar a maior quantidade de pontos das combinações na sua parede! Jogo fácil de aprender, mas difícil de dominar! (Em tempo: me perdoe pela penumbra no final do vídeo… prometo que melhoro a iluminação nos próximos!)

A Intrusa

de Júlia Lopes de Almeida*
Capítulo I

– Que temporal!

– E um friozinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho da chuva quando se está agasalhado? Eu estou me regalando…

– Sempre o mesmo egoísta! Como estás em tua casa… mas… desalmado, lembra-te de nós! São quase horas de me ir recolhendo aos meus penastes. E ali o padre Assunção, caso não fique pelo caminho, terá também que marchar um bom pedaço a pé. Ao Teles, esse o bonde leva-o até o quarto de dormir! Nasceu empelicado.

Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Cláudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assunção, o deputado Armindo Teles e o Adolfo Caldas, homem de quarenta anos, sem profissão determinada, mas muito bem aceito nas rodas políticas e literárias, que freqüentava assiduamente.

Tinham jantado tarde, fumavam agora na biblioteca de Argemiro, sentados à mesa do pôquer.

Menos por virtude que por cansaço, padre Assunção não quisera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o pano da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma cor pálida; e nas suas feições acentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolfo Caldas costumava dizer:

– O riso do Assunção cheira a rosas brancas.

O Dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diários do Rio – dos mais distintos do nosso foro – jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos à sua casa de viúvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando…

“Ah! uma casa sem mulher, afirmava ele, é um túmulo com janelas: toda a vida está lá fora…” E lembrar-se que aquilo havia de ser para sempre!

O Dr. Argemiro Cláudio de Menezes, descendente direto dos Iglésias de Menezes, nobres de Portugal, cujo solar brasonado existe ainda, bem que arruinado, naquele país, em terras limítrofes da Espanha, à beira de um rio espelhento e de pinheirais perdidos, – era um homem ainda moço, robusto, de carnes sólidas e uns olhos negros, em que talvez a raça árabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta talhada rente ao rosto pálido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabelo muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Tinha as mãos pequenas, a atitude preguiçosa, em contradição à energia do tipo. Viúvo a sete anos de uma formosa senhora, cujo retrato aparecia em todos os cantos da casa, ele protestara não tornar a casar-se.

A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida.

Do primeiro ano do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Glória. Vivia esta menina com os avós maternos, numa chácara dos subúrbios, e andava agora pelos seus onze anos e os rudimentos de português e de música.

Tanto como o pai e os avós, por ela se interessavam o padrinho, padre Assunção.

Sem interromper a partida, o deputado Armindo Teles gabou-se:

– Foi hoje um dos dias mais belos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrifícios que a deputação me tem custado… rios de dinheiro, noites de insônia, descomposturas de outros partidos…

de tudo colhi hoje o prêmio. Imaginem vocês que tive de lutar renhidamente com o próprio governo, molestar colegas, ir de encontro mesmo a princípios que prezo de gratidão pessoal e de conveniência própria, e que, arrostando tudo, como um soldado na guerra, consegui a minha vitória. Imaginem se não devo estar satisfeito!

Uma vitória política, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor.

Chartrier? … perguntou com curiosidade o padre Assunção.

Armindo Teles pareceu não ouvi-lo e continuou:

– Infelizmente temos agora na Câmara poucos talentos de combate.

Carecemos de mais vivacidade… A indiferença de uns e a má vontade de muitos enfraquecem os golpes de um ou outro mais entusiasta… Eu cruzei as minhas armas, nesta porfia, com os maiores talentos da Câmara e feri-os a todos sem piedade. Criei inimigos; pouco importa, mas triunfei!

Adolfo Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo::

– Por que feito ilustre glorificaste a pátria?

– Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu colega Simão da Cunha, que a

Câmara em peso guerreava!

Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolfo Caldas impregnou de cândida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar:

– Cunha?…

E depois:

– Ah! o Simão! sim… é desempenado. Veste-se bem.

– Não é águia, afirmou Teles; mas é o que se chama – uma mediocridade operosa – e é, sobretudo, um homem de bem!

– Isso em política não tem valor… comentou o dono da casa. – Mas que faz você aí, padre Assunção, remexendo nas estantes?!

– Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier…

– Olha, o catálogo dos livros deve estar naquela gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho…

– O que você deve procurar são os sermões do Padre Vieira! – disse malignamente Armindo Teles.

– Não preciso; sei-os de cor.

– Impinge-os como seus?

– Impingi-los-ia se os deputados fossem à igreja; mas você sabe, aos outros não… tenho medo que percebam!

Riram-se todos. Teles retrucou:

– Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre!

– Talvez. Os cilícios fazem os santos… mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo…?

– Simão da Cunha.

– Por esse senhor?

– Eu mesmo.

– Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço – o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro.

– Qual é?

– Vida de D. Frei Bertolomeu dos Mártires.

Adolfo Caldas comentou:

– Soleníssimo! Que bela língua, reverendo!

– Formosa! Frei Luiz de Sousa tinha a quem sair…

Padre Assunção ficou de pé, junto à alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito atento.

O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo.

– A sabedoria dos provérbios está sendo comprometida… – declarou

Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compatível com a do jogo!

Adolfo Caldas acrescentou:

– Leito, tribuna e mesa. Aí está um lema conveniente aos teus triunfos, Armindo!

Teles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade:

– Leito e tribuna… vá; mas mesa, não sei porquê!

Caldas, baralhando as cartas, concluiu:

– Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um dicionário. Referi-me à mesa do orçamento, à mesa do bacará e mesmo à do jantar. Não quero fazer-te a injustiça de supor que te alimentas a leite e a água de Vichy… Começas a ter pança; não te podes rir de mim; e jantaste hoje a meu lado, não te esqueças dessa circunstância; jantaste como um homem de boa consciência e magnífico estômago!

Fiquei te considerando mais, depois que te vi comer.

Argemiro observou, rindo:

– É o exercício da profissão…

Armindo Teles respondeu:

– Vocês confundem-me como Araújo Braga… que trouxe da pasta a prática da mastigação e leva mesmo a imprudência a ponto de dizer, como disse ontem à porta do Watson, à minha vista: – eu hoje só rôo subsídios e clientes.

– Esse tem, ao menos, o mérito da franqueza. A mim então só me aparecem causas péssimas, clientes já esfoladas, em osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina! – declarou Argemiro.

O jogo chegara a um ponto que requeria a atenção absoluta dos jogadores.

Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a boca para a passagem das expressões obrigadas do pôquer.

Padre Assunção continuava a sua leitura, de pé, com o ombro encostado ao ângulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente à moldura do móvel, confundindo-se com ele na sombra do aposento.

Os três jogadores eram de bem diferente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Teles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escocesa picada por um rubi fulgurante.

Representante do Paraná, que o tinha como um político hábil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a família carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleável, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes políticas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e desta arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, ele aparentava menos idade do que a que tinha realmente. Falava com sossego, num agradável timbre de voz. Às vezes mesmo Caldas caçoava:

– Na Câmara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C’est la voix d’or do Congresso!

Assim como a voz ele tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não se aplicara nunca… As mãos, pequenas, mostravam os anéis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos corretíssimos.

Em frente dele, Adolfo Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se à vontade no seu veston de pano preto, com um bom ar de despretensiosa superioridade.

Adolfo Caldas dizia-se rio-grandense, mas afirmavam alguns que ele era nascido em Montevidéu, de família brasileira. Vivia desde os vinte anos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda de financeiros ilustres e ministros afamados, chegando-se para as árvores de substanciosos frutos e boa sombra. Solteirão, intermediário de bons negócios, permitia-se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cor.

Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portugueses, clássicos sobretudo. Era com ele que o padre Assunção conversava às vezes sobre literatura antiga, certo de que os bons livros espirituais, como os profanos, tinham a mesma admiração no juízo competente daquele homem de tão esperta sagacidade.

Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os cálices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o Dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.

– Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? – perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos anos, esgrouviado e bem vestido.

– Na família da minha sogra… é filho da ama de minha mulher.

– Se não fosse relíquia de família, pedia-lo para mim.

Feliciano, servindo a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sair, silenciosamente.

– Se me não engano, – observou o Armindo Teles – vi-o outro dia em casa de Lolota…

– Ah! também você?…

– Que! ir à casa da Lolota? Mas toda a gente vai à casa da Lolota!

– Até o Feliciano… murmurou Caldas.

– Não! o Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro.

– Por isso ela discutiu leis com tanto apuro! Parabéns. É uma mulher

estonteadora…

– Não sei, a minha carta era acerca de negócios; ela é minha cliente.

– Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me pecador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para ver se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assunção!

O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura.

– Pecar ainda é e será a coisa melhor da vida, – continuou o Armindo –

pecado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguém foge à tentação! Você conhece o Dr. Aguiar?

– O da Caieira?

– Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da Câmara ou dos ministros, manda a mulher às secretarias ou à casa dos deputados. A mim procurou-me ela um dia no hotel, e como o negócio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda!

– E?…

– O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás, a pretensão era justa; todavia, se a mulher fosse feia, não digo isto por minha parte, creio que ele não arranjaria nada.

O caso não dependia de mim, mas de quem “mais caso faz da formosura alheia”!

Armindo interrompeu o assunto para sorver um gole de Chartreuse.

O padre Assunção, talvez para desviar o assunto mal encaminhado, por achar a propósito o trecho ou para fazê-lo notar a Adolfo Caldas, leu alto uma frase:

“… um pecado chama outro pecado, e este outro vem logo acompanhado até criar devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remédio. Miserabilíssimo estado que abre as portas de par em par a todo o gênero de vício e apaga toda a memória do Céu e da Eternidade”.

Padre Assunção fechou o volumezinho de Frei Luiz de Sousa, pô-lo na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro.

Estava à espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva caía em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de fúria. Assunção confessou:

– Estou com medo que o temporal desta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal…

Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. Daí a pedaço, já desinteressado do pôquer e prestando atenção à bulha das águas, Argemiro propôs que ficassem todos com ele: a casa tinha quartos para hóspedes. Nenhum aceitou.

Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua ménagère e o padre Assunção afirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o ver entrar.

A partida prolongou-se até as onze horas, em que deixaram os baralhos e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua através dos vidros das janelas.

– Chove ainda! E deve estar frio lá fora! Parece-me que estou em Curitiba!

Padre Assunção, voltando-se para o dono da casa, disse:

– Amanhã terei de ir à casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?

“Nossa Maria” era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem batizara e adorava.

– Nada… eu irei vê-la no domingo. Quero ver se para a semana ela vem passar uns dois dias comigo.

– Aqui?!

– De que te espantas?

– Ora essa! Com quem a deixarás, quando tiveres de sair?

– Vais-te rir… Botei hoje um anúncio no Jornal, pedindo uma moça para tratar da casa de um viúvo só.

– Estás doido! Não caias nessa asneira… Olha que chamas o perigo para casa.

– Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguém que me ajude a suportá-lo. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia à sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mês.

– E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?!

– Glória não deixará os avós senão por um dia… É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho…

Caldas preveniu:

– Olha que essas madamas trazem anzóis nas saias… Quando menos pensares… estás fisgado… E tu que és bom peixe! É uma raça abominável, a das governantas… Verás amanhã que afluência de francesas velhas à tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar sossegadinho nos braços do Feliciano!

– Que lembrança, pôr anúncio! – repetia o padre. – Ainda se não tivesses tua filha…

– Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu lugar. Nem quero vê-la, mas sentir-lhe apenas a influência na casa. É a minha primeira condição.

– Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse ofício mulheres aposentadas, pela força da idade, de outros serviços! Feias, mas habilidosas… No fim de algum tempo tu cairás doente, ela será uma enfermeira carinhosa e a

comédia acabará quase sem se sentir. É o costume. O Assunção reprova-te. Eu aviso-te.

– Consultaste ao menos tua sogra? – perguntou o padre.

– Não. Ela, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.

– Não tires de lá a nossa Glória. Está muito selvagem, mas está muito bem.

Realmente, essas senhoras vindas por anúncio para tratarem da casa de um viúvo só devem trazer intenções muito esquisitas. Será preferível uma velha.

– Não! As velhas cheiram a galinha, desde que não sejam de fina sociedade.

Uma, que meti por experiência em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha boa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciais, numa dona de casa. Quero uma moça educada.

Armindo Teles, enfiando o sobretudo, de que levantou a gola até as orelhas, ofereceu-se para vir esperá-la no dia seguinte…

Adolfo Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta anos e não se resignaria a não conhecer monsieur… E concluiu: – Cá estou para espectador da cena. Vamos rir.

Só o padre Assunção não enfiou sobretudo nem calçou galochas, limitando-se a tirar do cabide o seu grande guarda-chuva inglês. Ele ali estava para defender a afilhada de um mau contato… previa desastres que procuraria obstar. Ora, como pudera Argemiro cair naquele ridículo?

Saíram os três, calados, para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestíbulo, desejou a todos – muito boas-noites – e fechou a porta.

Para ler os demais capítulos de Aintrusa, clique aqui

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*Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (1862 – 1934) foi uma escritora e abolicionista brasileira.

Acordes Poéticos

por Júlia da Costa*

Não tenho segredos! É pura minh`alma!
Qual cândida aurora rasgando o seu véu!
Velando ou dormindo, chorando ou sorrindo,
Só amo – meus campos – meu solo – meu céu!

Cresci sobre um ermo tristonho e sombrio
Soltei nas campinas meu primeiro cantar!
Saudei nas montanhas o sol que nascia,
Brinquei entre moitas ao claro luar!

Sou jovem, sou meiga! Sorri-me o futuro
Nas fímbrias doiradas de aurorars de paz!
A flor das campinas só ama o infinito
Do céu das venturas…não quero nada mais!

As flores prados não causam-me inveja,
Que hei flores mimosas no meu coração!
Lauréis e grandezas, eu não, não aspiro!
Não quero ter gozo tão falso, tão vão!

Não tenho segredos! É pura minh`alma!
Qual cândida aurora rasgando o seu véu!
Velando ou dormindo, tristonha ou alegre,
Só amo – meus campos – meu solo – meu céu!

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*Júlia Maria da Costa (1844 – 1911) foi poetisa e escritora de crônicas-folhetins brasileira. Este poema foi extraído do livro Flores Dispersas – 1ª série.

 

A falência

por Júlia Lopes de Almeida*

O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosfera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por veículos pesadões e estrepitosos, cheirava a café cru. Era hora de trabalho.
Entre o fragor das ferragens sacudidas, o giro ameaçador das rodas e os corcovos de animais contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, compacto e esbaforido.
À porta do armazém de Francisco Teodoro era nesse dia grande o movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ajeitava as sacas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:
– Andem com isso, que às onze horas tenho de estar nas Docas!
E os carregadores vinham, sucedendo-se com uma pressa fantástica, atirar as sacas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabeludos mal cobertos pela camisa de meia enrugada de algodão sujo: outros negros, nus da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.
Ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.
No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa do caminhão, todo derreado para a aniagem das sacas, respirando a poeirada que se levantava delas. Os outros respondiam com iguais impropérios, que os cocheiros dos tílburis, em esperas forçadas, ouviam rindo, mastigando o cigarro.
Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquilo, como formigas em correição, com a cabeça vergada ao peso da saca, roçando o corpo latejante nas ancas lustrosas dos burros.
Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os paralelepípedos da rua.
Aqui, ali e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em forma de touca sobre a carapinha, varriam lépidas com uma vassoura de piaçava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento peneiravam-nos logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu negócio, que aqueles dias de abundância tornavam próspero. Enriqueciam-se com os sobejos.
Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo triunfo, gemendo com o mesmo esforço, em uma orquestra barulhenta e desarmônica.
A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sair de alguma fábrica de sacos com dúzias deles à cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquelas pedras, só afeitas ao peso bruto.
Dominava ali o trabalho viril, a força física, movida por músculos de aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de atletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra, davam à velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a uma artéria, correndo sempre com vigor e com ímpeto.
Já de outras ruas descia aquela onda quente, arfante de trabalho, vinha da rua dos Beneditinos e vinha dos armazéns da rua Municipal, todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.
Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um momento, com os cotovelos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indiferença para aquela multidão que passava aos trancos e barrancos, na ânsia da vida, num torvelinho de pó e gritaria.
De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiram nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, às gargalhadas, enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de protesto se perdiam abafados pelo ruído complexo da rua.
Dentro dos armazéns a mesma lufa-lufa.
No de Francisco Teodoro não havia paragem.
O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.
A porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de aço e latão todas as sacas que saíam, para que se escapasse pela abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os passos nessa operação, e o café caia cantando na soleira.
Ao fundo, um rapazinho magro e amarelo, o Ribas, apontava num caderno o número de sacas que levavam, rente à escada de mão por onde os carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois pelo asfalto desgastado e denegrido do solo.
Tudo era feito numa urgência, obrigada a grande movimento.
Um sopro ardente de vida, uma lufada de incêndio bafejada por cem homens arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquele extenso porão negro, sem janelas, ladeado de sacos sobrepostos e adornado nas vigas sujas do teto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crepe russo.
De vez em quando, um ruído de cascata rolava pelo interior do armazém. Era o café, que ensacavam na área do fundo, e que na queda das pás desprendia um pó sutil e um cheiro violento.
Fora, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no som confuso, em que
vozes humanas e rodas de veículos se amalgamavam com o estrupido das patas dos animais.
Alguns carregadores exaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas corriam logo,
chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito trêfego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.
– Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!
Era o seu estribilho.
E havia sempre muito que fazer naquela casa, uma das mais graúdas no comércio de café. Dirse-ia que o dinheiro aprendera sozinho o caminho dos seus cofres, correndo para eles sem interrupção.
Ao lado do armazém e comunicando com ele por uma portinha estreita, havia à esquerda o corredor e a escada, que levava ao escritório, acima, no primeiro andar.
Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra, guarda-livros, escrevia em pé, junto à escrivaninha colocado ao centro. Em outra carteira trabalhavam mais dois ajudantes, um velho, o Mota, de sorriso amável e modos submissos; e o outro, um moço bilioso de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.
Nessa sala o trabalho era silencioso. As penas não paravam, mal dando tempo às mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas. Diziam-se frases sem se levantar os olhos da escrita, e as perguntas eram apenas respondidas por monossílabos.
A um canto, sobre uma mesinha sólida, entre uma das janelas e a parede, estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira pintada, a talha de filtro já enegrecida pelo uso. Pelas paredes, pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e cartas a responder. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, abria-se uma janela para o negrume do armazém, sob uma clarabóia estreita, de pouca luz.
Era em um gabinete, ao lado, com uma janela para a rua e igual avareza de mobília, que o dono da casa escrevia a sua correspondência, bem repousado em uma larga cadeira de braços.
Ele ali estava, acabando de fechar uma carta.
Toda a sua pessoa ressumava fartura e a altivez de quem sai vitorioso de teimosa luta.
Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, com os olhos garços tranqüilos e os dentes
brancos e pequeninos, tinha um belo ar de burguês satisfeito.
Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos seus passos pesados.
Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a que ele respondia com paciência, indicando claramente as coisas, com minúcias, para evitar confusões.
Francisco Teodoro, à sua larga secretária de peroba, dava a face para o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas. Tinha ele por hábito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta e gorda o dinheiro e as chaves guardadas no bolso direito das calças. No começo da sua vida, dura de trabalho e de áspera economia aquilo seria feito com intenção; agora representava um ato maquinal, alheio a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.
Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava primeiro ao escritório, servindo depois os empregados do armazém.
Os degraus já gastos da escada rangiam então ao peso de um comissário vizinho, o João Ramos, e do ensacador Lemos, da rua dos Beneditinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Inocêncio Braga, recentemente associado ao grupo. As duas horas reuniam-se sempre ali para o cafezinho, descansando o corpo e desanuviando o espírito com palestras de seu interesse e do seu gosto.
Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes apareceram.
Francisco Teodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as calças.
– Homem! vocês tardaram…
– Culpa do Lemos…
E depois:
– O senhor está com a casa repleta!
– Tenho exportado muito café!
– Felizardo! aproveite a época, que não pode ser melhor!
Corria então o ano de 1891 em que o preço do café assumira proporções extraordinárias. O movimento crescia e casas pequenas galgavam aos saltos grandes posições.
– O que eu te invejo, disse o Ramos, único que ousava tratar Teodoro por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engoma as camisas!
Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa, que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.
– Não é má essa, regougou o Lemos, o comendador Lemos, da Beneficiência, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que nem de criança.
Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do Inocêncio, perguntando a Teodoro:
– Aqui seu vizinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o outro, hem?
– Homem, sempre é verdade aquilo?!
– Se é!… tenho provas… Afinal, eu inspirei-o um pouco no negócio…
Fixaram todos a vista no Inocêncio Braga. Era um homem pequenino, magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quase imperceptível.
– Custa-me a crer nesses milagres… ponderou Teodoro, pousando a xícara na bandeja que o Isidoro oferecia.
– Afirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazém e esperou a ocasião. O sogro ajudou-o, está claro…
– Não meditou nas conseqüências que poderiam sobrevir se desse uma baixa.
– Quem fala em baixa?! Eu só lhe digo que o comércio do Rio de Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquele. Senhores, a audácia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus antepassados analfabetos. O negociante moderno age mais com o espírito do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas nobres do pensamento e do cálculo. O Torres é de bom estofo; é destes. Conheço os homens.
Olhavam. todos para o Inocêncio com um certo respeito, reconhecendo-lhe superioridade
intelectual.
– O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.
E logo o Inocêncio acrescentou:
– Também aquele está destinado a ser o nosso Rottschild!
Teodoro contraiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais hábil, o mais forte fora
sempre o seu sonho…
Voltando-se, inquiriu dos outros explicações miúdas acerca daquele negócio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e ele meditava no assunto, alisando a barba grisalha, rente às faces gordas e macias.
O Negreiros, tendo dado volta à sala e enfiado pela porta do escritório o seu enorme nariz de cavalete, virou-se para os outros e disse a meia voz:
– Que diabo! não posso acostumar-me a ver aquele velho como ajudante de guarda-livros!
– Que quer você? murmurou Teodoro; o Matos empenhou. se por ele e afinal a aquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá boa conta do recado não penso em substituído.
É assíduo.
– Outro esquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o Joaquim… ninguém dirá que é o mesmo, lá fora…
– Muito carnavalesco e metido com as damas, hem? Que se divirta, aqui trabalha como nenhum.
É uma praça de arromba: descansa-me.
– Ouvi dizer que ele vai casar com a Delfina do Recreio…
– Histórias! o rapaz é sério.
– Tolo é que ele não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéu.
O Inocêncio despediu-se também; ia num pulo ao Torres. Os afazeres eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café.
Quando ele saiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O comendador Lemos sentenciou:
– Este Inocêncio é espertalhão! Está aqui, está diretor do banco. Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por ele… Tem uma lábia!
– E sabe encostar-se a boas árvores. O Barros tem-lhe dado boas comissões e não é à-toa que ele procura tanto agora o Torres… Mete-se sempre na melhor roda… Aquele não veio de Portugal como nós, sem bagagem e cheirando a pau de pinheiro; trouxe luvas e meias de seda… O patife!
– São os que naufragam…
– Quando não vêm à caça e não têm o jeitinho que este revela. Canta que nem um pássaro, para atrair a gente!
– E uma inteligência superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas as mãos o colete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se no sofazinho austríaco, teve uma ponta de censura para as coisas desta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado. a cidade infecta.
Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadência nem ritmo, lembrarase da maneira por que os soldados da sua pátria andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metais mais polidos, os passos iguaizinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo mais aqui, o mesmo relaxamento.
A maldita República acabaria de escangalhar o resto. Veriam.
Só no fim perguntaram pelas famílias.
– A propósito, perguntou o Ramos a Teodoro, aquela menina que vai tocar violino no concerto
dos pobres é sua filha?
– Que concerto?
– De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal…
– Pode ser… são coisas lá da mãe… a pequena tem um talentão; o próprio mestre espanta-se.
– E bonita! vi-a um destes dias, observou o Lemos.
– Não, isso não! por enquanto ainda não se pode comparar com a mãe… protestou Francisco Teodoro, com sinceridade e um certo orgulho.
Os outros sorriram.
– Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo!
Houve uma pausa.
– Realmente, insistiu Francisco Teodoro, o Gama Torres deu um cheque valente. Pois olhem, eu não dava nada por ele: um brasileirinho magro…
– E começou outro dia!
– De mais a mais, parecia acanhado… tímido…
– Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, ali do Leite Bastos. Foi sempre um atirado; ali está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou razão ao Inocêncio; aquele está talhado para ser o nosso Rottschild…
– Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada trêmula e um brilho de cobiça nos olhinhos pardos, eu quis fazer o mesmo negócio e lá o meu sócio é medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar… Está aí!
– Fez bem, foi prudente! Deixem lá falar o Inocêncio. Senhores, o comércio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu sistema, observou Teodoro.
– Sim, o Inocêncio aprecia isto de fora, por isso diz o contrário. Chama o comércio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.
– Porco?! bradaram os outros, indignados.
– Porco, confirmou o Ramos com solenidade.
– Tudo mais aceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o Lemos, o anafado.
Ramos sentiu saltar-lhe na língua esta resposta: “porque os animais da mesma espécie não se devoram entre si”. Ele confessava-se seduzido pelas exposições de Inocêncio. Que talento!
– Mas, afinal de contas, que quer o Inocêncio?! perguntou Teodoro de pé, cruzando os braços
sobre o fustão alvo do colete.
– Queria… pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, maiores transações, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo.
Não o ouviu?
– Com que diabo quereria ele que trabalhássemos?
– Com a inteligência. Está claro. E ele explicou a coisa bem. O nosso comércio é formado por gente sem escola, vinda de arraiais… Eu por mim, confesso, mal tive uns meses magros de colégio! Apanhei muito e não aprendi nada.
Houve um curto silêncio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa visão de uma escola rudimentar, em um recanto plácido de aldeia.
Depois de um suspiro, Teodoro concluiu:
– Que venham para cá os doutores com teorias e modernismos, e veremos o tombo que isto leva!
Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos eles um soberano desprezo pelas classes intelectuais. Dai um sorrizinho de expressiva intenção.
Mais um pouco de palestra sobre câmbio, transações da bolsa e assuntos lidos no Jornal do Comércio do dia encheram um quarto de hora, que passou depressa. Por fim saíram, falando alto, dizendo que aquela casa cheirava a dinheiro.
Francisco Teodoro foi dar o seu giro pelo armazém. Vendo-o em baixo, seu Joaquim acudiu logo, limpando com a língua o bigode molhado de café, a dar informações.
– Estamos esperando o café do Simas.
O caminhão já está ai perto, mas ficou entalado entre os carroções do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquele armazém tem engolido.
– Já sei disso… bem. Mandou as contas para cima?
O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu: – sim, senhor; depois gritou para o fundo:
– Seu Ribas!
O Ribas cruzou-se com Francisco Teodoro, que seguiu até a área, a ver ensacar o café.
A gente do armazém tinha quizília à do escritório: fazia valer os seus serviços, deprimindo os alheios. Seu Joaquim considerava-se o melhor empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigências. Os caixeiros temiam-no; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que ele não perdoava.
O velho Mota, ajudante de guarda-livros, ainda era o único que lhe dispensava amabilidades e cortesias; mas, mesmo nisso, seu Joaquim lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, que mirrava os seus trinta anos em um sobradinho da rua Funda.
Francisco Teodoro demorou-se um bocado na área vendo ensacar. Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena triste, de africanos. Era mais bonito.
As pás iam e vinham cantando, num compasso bem ritmado, sempre seguido da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E ainda acham que as coisas se alteram devagar!
Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na atmosfera carregada mal se podia respirar. Francisco Teodoro voltou. O caminhão estava já à porta e os carregadores andavam nas suas corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a freguesia, acrescentando para o estimular:
– Agora mesmo venho ali do seu vizinho, o Gama Torres, que me tem mandado lá para o
trapiche um número assombroso de sacas!
O movimento do armazém interrompia-os de instante a instante. Francisco Teodoro mal respondia, com as idéias desviadas para outro sentido.
Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe falava com elogio e pasmo. Aquele está destinado a ser o primeiro homem da praça dissera-lhe o Inocêncio, e o Inocêncio era homem de bom faro e de êxito seguro em todas as suas previsões… Mas esse papel, de financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fora o ideal de toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria justo que o outro, de um pulo, erigisse edifício mais alto e glorioso do que o seu, cimentado com lágrimas, com sacrifícios, com tantos anos de esforço e de labor?
Francisco Teodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a mão frouxamente, e subiu para o escritório. Na escada encontrou o mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.
– Cuidado!… não me tirem as teias de aranha do armazém…
– Não, senhor! Eu bem sei que aquilo dá felicidade…
Francisco Teodoro deteve-se um momento no escritório e entrou depois para o seu gabinete.
Fora, o sol avermelhava as fachadas feias e desiguais das casas fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um hálito ardente de verão bafejava toda a rua febril.
Os armazéns, pelas bocas negras das suas portas escancaradas, vomitavam ainda sacas e sacas de café, que as locomotoras e as carroças levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó, que espalhavam no ar cintilação de ouro.

Para ler os demais capítulos do romance A falência, clique aqui

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*Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (1862 – 1934) foi uma escritora e abolicionista brasileira.

O caminho mais fácil

por Roberta AR

Eu queria chegar chegando, com os pés nos peitos dos outros, dizendo altas sinceridades impensadas sem filtro e isso podia não me afetar em nada. Me sentiria ofendida quando quem quer que fosse se contrapusesse, porque eu seria inquestionável.

Podiam me pagar por eu ser assim, bastante, porque, além de tudo, eu ia me achar a mais competente em tudo o que fosse fazer e isso, de eu me achar foda, já seria mais do que o suficiente para que os dinheiros fossem dados a mim pelas pessoas que gostam de pessoas que se acham as mais competentes.

Sairia perguntando para as pessoas, em debates na internet ou pessoalmente, de forma condescendente, “como você chegou nessa afirmação?”, dizendo que elas são burras de uma forma direta, mas ao mesmo fingindo ser gentil. Eu nem precisaria estudar, porque ser inteligente é algo assim automático, basta querer ser e dizer que é.

Uma família perfeita é o que completaria esse cenário, claro. Um filho pequeno que soubesse todas as capitais do país, ou qualquer outra coisa inútil, mas que é bonitinho ficar mostrando pros outros, o que provaria que ele é melhor que os filhos dos outros em tudo. Simples assim. Ficaria exaltando as reuniões em datas especiais “dessa família enorme e unida que temos”. Fotos bonitas com todo mundo sorrindo, abraçados, cenas de cantoria, de primas “um pouco bêbadas”.

Um carro novo, uma casa com várias coisas.

Talvez escreveria um livro, como tantos que já existem, mas esse seria melhor, porque meu, para ajudar as pessoas a ter essa vida perfeita que eu teria. Possivelmente seria coach motivacional de vida, de carreira, ou de tudo, porque teria tanto para ensinar para quem não sabe viver.

Cabeça cheia de projetos e atividades e vida social porque ociosidade e cabeça vazia é oficina do diabo. Não ter tempo para pensar faz com que os problemas não sejam reais.

Nem seria preciso fingir, porque eu ignoraria por completo minha alma destroçada pela violência de não ser quem eu sou, de não me preocupar com o que é realmente importante pra mim.

Tudo daria certo e o que não desse seria fruto da inveja, das más energias ou da incompetência mesmo dos outros. Qualquer dor sentida seria uma grande injustiça desse mundo que não me dá tudo o que eu acho que preciso, mas que quero ardentemente.

Seria assim até o fim, que teria discursos lindos sobre a minha grandeza, enquanto minhas cinzas seriam espalhadas por pessoas que nunca souberam realmente algo importante sobre mim.

Seria fácil, mas já não é mais possível. Não pra mim.