Mas ele diz que me ama – graphic novel de uma relação violenta

por Roberta AR

Uma das coisas mais difíceis para quem está num relacionamento afetivo é admitir que vive uma relação abusiva. Para as mulheres isso é ainda mais complicado, pois somos educadas a encarar a brutalidade dos parceiros como um tipo de amor. Por esses dias, rodou nas redes sociais a foto de uma menina de quatro anos que foi agredida por um colega de escola e teve que levar quatro pontos no rosto. Seria apenas mais uma história de briga entre colegas, se não fosse o comentário do enfermeiro que atendeu o caso e disse para a garotinha que o menino que a agrediu provavelmente tem uma “quedinha” por ela. Desde crianças somos educadas a acreditar que homens amam com violência.

Essa longa introdução é para justificar a resenha desta novela gráfica que já tem quase dez anos de publicação no Brasil, mas acredito ser uma leitura obrigatória: Mas ele diz que me ama – Graphic novel de uma relação violenta, de Rosalind B. Penfold.

maseledizque

Rosalind, na verdade, é um pseudônimo usado pela autora que decidiu preservar sua privacidade, mas achou fundamental expor passo a passo o desenrolar de uma relação abusiva, a sua própria, como forma de alerta para as mulheres.

Uma publicitária de sucesso, Roz, que tinha sua empresa, um apartamento, entre outras coisas, com apenas 35 anos de idade, começa a se relacionar com Brian, um homem recém viúvo, com quatro filhos pequenos. Uma relação intensa, irresistível, com muitas flores e bilhetes românticos. Os episódios abusivos começam a aparecer já no início da relação, mas ela se recusa a ver, pois o ama e acredita que é um exagero de sua parte, pois ele sempre se desculpa e a “compensa” de alguma forma.

Segundo Rosalind, um relacionamento abusivo é assim: “ Quando conheci Brian, me apaixonei profundamente. Imaginei que viveríamos um romance de conto de fadas. E vivemos… por algum tempo… ATÉ QUE AS COISAS COMEÇARAM A MUDAR. Ignorei as primeiras frustrações, os joguinhos sutis e me recusei a acreditar no que acontecia até perceber que estava afundando em uma areia movediça de ABUSOS VERBAIS, EMOCIONAIS, SEXUAIS e, por fim, FÍSICOS”.

Com um traço simples, direto, fruto dos diários de Roz durante a relação, esse quadrinho vai relatando ao longo das suas mais de duzentas páginas, como podemos nos recusar a ver que estamos numa relação abusiva e como essas feridas vão se intensificando, tornando cada vez mais difícil nos desvencilhar e encerrar o ciclo.

Roz também deixa claro que é fundamental o apoio de pessoas queridas, amigas, amigos e de profissionais, que uma mulher dificilmente consegue sair disso sozinha.
Fruto desse livro, está no ar o site Dragonslippers (o nome original do livro) – Friends of Rosalind, que disponibiliza para impressão uma lista de alertas para quem quiser saber se está vivendo uma relação abusiva ou não (em inglês) e indica instituições de apoio a mulheres que sofrem violência doméstica em várias partes do mundo.

O livro está disponível em nove línguas e ainda está à venda no Brasil, já presenteei algumas amigas com ele recentemente (possivelmente assustei alguma com a HQ, mas achei importante dar).

Acompanhar a história de Rosalind nos faz perceber o como é comum e o quanto é difícil se perceber como protagonista de uma história como essa. No meu caso a coisa é bem estranha, porque ganhei meu exemplar deste livro de um namorado que estava todo empolgado com essa HQ que poderia ajudar tantas mulheres a poupar um longo período de sofrimento, mas que ao mesmo tempo fazia gaslighting comigo, o que demonstra que precisamos estar sempre alerta, pois o machismo é algo que se pratica (ou se reproduz, no caso das mulheres) no piloto automático e muitas vezes não nos damos conta.

 

Mas ele diz que me ama – Graphic novel de uma relação violenta
Rosalind B. Penfold
Ediouro
264 páginas
http://www.dragonslippers.com/

Vamos falar de zines

por Roberta AR

Eu sou da geração pré internet, um tempo que parece um universo paralelo ao que vivemos hoje. Uma coisa que me incomodava bastante naquele tempo (antes da internet) era a ideia bastante difundida por quem trabalhava com produção cultural de diversas áreas de que era impossível para qualquer um fazer um livro, um filme, um disco sozinho. Para quem faz quadrinhos ou escreve, sempre existiu o zine, ou fanzine como era conhecido nos seus primórdios, mas ele era uma publicação menor, de baixa qualidade, nunca teria o mesmo prestígio de uma revista ou seria considerado nas rodas literárias.

Quando a internet se popularizou, esse discurso se inverteu. O que aconteceria a partir de então seria o fim das revistas, livros, filmes, discos. Tudo seria online. Essa previsão apocalíptica fez muitas revistas saírem do mercado, sumiu com os discos de vinil durante um bom tempo, fez com que todo mundo tivesse blogs, fotologs, depois entrar nas redes sociais, e ninguém achou que o zines seriam úteis de novo.

Mas eis que a febre do analógico retorna aos corações e vemos por aí vinis, lomos e, claro, zines também.

Mas o que é zine?

Vamos com a clássica definição da wikipedia: “Fanzine é uma abreviação de fanatic magazine, mais propriamente da aglutinação da última sílaba da palavra magazine (revista) com a sílaba inicial de fanatic. Fanzine é portanto, uma revista editada por um fan (fã, em português). Trata-se de uma publicação despretensiosa, eventualmente sofisticada no aspecto gráfico, podendo enfocar histórias em quadrinhos (banda desenhada), ficção científica, poesia, música, feminismo, vegetarianismo, veganismo, cinema, jogos de computador e videogames, em padrões experimentais.”

O zine mais antigo conhecido no mundo é a ficção científica Cosmic Stories, publicada por Jerry Siegel, com apenas 14 anos de idade. No Brasil, o primeiro zine conhecido é o O Cobra, “Órgão Interno da 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica” realizada entre 12 e 18 de Setembro de 1965, em São Paulo. No mesmo ano saiu o zine Ficção, publicado em 12 de outubro por Edson Rontani, e foi o primeiro dedicado a quadrinhos.

Primeiro fanzine brasileiro de quadrinhos: Ficção, de 1965

Mas o formato só ficou popular por aqui nos anos 80, com a onda punk e o seu lema Do It Yourself (Faça Você Mesmo), ou apenas DIY. Nesse tempo, o zine era a principal forma de divulgar shows e discos, de distribuir poesias, discussões políticas, fotos e quadrinhos. Com a popularização da internet, surgiu o e-zine, que são publicações distribuídas online. Hoje, muitos zines impressos acabam sendo publicados também na internet.

 

Por que fazer?

Se temos blogs, redes sociais, email, para que fazer um zine hoje em dia? Porque é muito legal poder ter um trabalho impresso, feito do jeito que eu quero, de maneira artesanal. Pode até ser que o que originou os zines fosse a praticidade e o baixo custo para difundir ideias e trabalhos por aí, mas hoje a coisa está bem além disso. Essas publicações se tornaram também objetos de arte e, muitas vezes, a maneira de manipular seu conteúdo também faz parte da brincadeira.

Muitas editoras independentes têm se especializado em fazer zines com impressão de ótima qualidade, em tiragens pequenas, em papéis especiais e montagem artesanal. Aqui vou citar uma com a qual trabalhei e que é conduzida por mulheres. A Pingado-Prés, levada a cabo por Beeanca Muto e Ivy Folha, faz edições com tiragem a partir de quarenta exemplares, encadernadas com todo o cuidado. São publicações com textos, ilustrações e fotografia.

Ainda há espaço para o DIY, mas dá para perceber que tem gente se profissionalizando na edição e publicação de livros artesanais. Já são muitas feiras dedicadas às publicações independentes, que incluem também pequenas editoras de literatura e quadrinhos, como a Feira Plana, Feira Miolos, Feira Dente, MOTIM, Parada Gráfica, e por aí vai.

 

Como fazer?

Como fazer um zine dobrando uma folha de sulfite

Para fazer um zine é preciso primeiro ter a vontade, escolher um tema, que tipo de material usar e o formato. É possível fazer tudo a mão e xerocar depois, ou fazer no computador e imprimir. Cada um escolhe seu caminho.

Separei aqui dois tutoriais simples: um da revista Capitolina e outro da WikiHow. Mas tem muitos mais disponíveis na internet

Um zine em oito passos

O que ler por aí?

Esta é uma introdução sobre o tema aqui no site, porque devemos falar sobre ele mais vezes, sobre gente que faz e sobre publicações. Eu tenho quatro publicações do tipo disponíveis online aqui no Facada X: Uma pessoa asquerosa; Por acaso?, que fiz com a Luda LimaPés – Volume I; e Cabelos – Volume II. A Laura, minha parceira aqui no Minas Nerds, também tem publicações online: Delirium e O mundo é um jogo e eu só tenho mais uma vida. Tem muita coisa na internet, então separamos mais algumas publicações de minas:

Coletivo Girl Gang – zine #1, gangue de 24 artistas

4 x amor,  a junção das inspirações, devaneios e ideias de quatro amigas.

Indigo, de Suzana Maria

Gata Pirata, de Maiara Moreira

SELVÁTIK, colagens de Laíza Ferreira Desenhos e poemas de Jane Gomes

A Ética do Tesão na Pós-Modernidade vol.1   e A Ética do Tesão na Pós-Modernidade vol.2, de Lovelove6

 

Quanto mais gente fizer, mais coisas interessantes teremos para ler. Então, mão à obra.

(publicado originalmente no site MinasNerds)

Escritoras brasileiras em domínio público

por Roberta AR

A literatura brasileira está entre as artes nacionais mais respeitadas em todo o mundo. Na escola, aprendemos que temos grandes nomes em todos os movimentos literários, mas só não vemos exclusivamente homens quando se fala de produções mais recentes, como se não houvessem romances escritos por mulheres no final do século XIX e início do século XX, por exemplo. As mulheres passam a se tornar invisíveis em pouco tempo, assim, panoramas e antologias acabam nos apagando, ainda hoje, no presente, e deixam apenas as marcas de homens, na sua maioria brancos, na história.

A lista que se segue reúne quatro importantes autoras e alguns de seus trabalhos, que já estão em domínio público. São contos e romances que publicamos aqui no Facada X ao longo dos anos.

 

Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis nasceu na Ilha de São Luís, no Maranhão, em 11 de março de 1825, falecida em 1917.  Em 1859, ela publicou o romance Úrsula, que teve sua edição bancada pela autora, e, hoje, este livro é considerado o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. Mas sabemos que muitas mulheres publicaram com pseudônimo ou com o nome do marido ao longo da história, então não podemos nos fiar de que este seja realmente o primeiro, apesar de ser um marco importante da literatura brasileira.

Negra, abolicionista, sua obra é marcada pelo retrato da escravidão pelo ponto de vista dos escravos. Úrsula foi reeditado recentemente em versão impressa e deveria ser uma das obras que estudamos do Romantismo na escola. Outra obra importante da autora é o conto A Escrava, que foi publicado em 1887, na Revista Maranhense.

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Úrsula (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o conto A Escrava

 

Júlia Lopes de Almeida

Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida, ou apenas Júlia Lopes de Almeida, nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de setembro de 1862, onde também faleceu, em 30 de maio de 1934.

Foi contista, romancista, cronista, teatróloga, poeta, tradutora e jornalista e uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras. Sua obra se mistura com seu ativismo, pois foi bastante atuante no movimento abolicionista. Por muito tempo escreveu às escondidas, pois a literatura não era considerada atividade para mulheres na época. Seu estilo é marcado pela influência do realismo e do naturalismo. Seus trabalhos influenciaram muitos artistas na época, entre eles, Artur de Azevedo.

Leia aqui o primeiro capítulo do romance A falência (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o primeiro capítulo do romance A intrusa (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Livro das donas e donzelas (com pdf para a obra completa)

Carmen Dolores

Carmen Dolores é o pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, nascida em 11 de março de 1852, no Rio de Janeiro, morreu na mesma cidade em 16 de agosto de 1910. Foi uma importante escritora naturalista brasileira.

Sua obra mais famosa é o romance A luta, publicado em folhetim pelo Jornal do Commercio em 1909 e editado posteriormente, em 1911. A obra fala da sobre mulheres que questionam seu papel na família, mas que temem perder segurança social. Lutou pela educação das mulheres, pelo divórcio e foi uma importante jornalista na sua época, chegando a ser a colunista mais bem paga do periódico O País, no fim da vida..

Leia aqui o primeiro capítulo do romance A luta (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o conto Lição Póstuma

Maria Benedita Bormann

Nascida em Porto Alegre, em 25 de novembro de 1853, faleceu no Rio de Janeiro, julho de 1895. Era conhecida pelo pseudônimo Délia,  com o qual assinou crônicas, romances, contos. Também atuou como jornalista. Publicou nos principais jornais do Rio de Janeiro.

Sua obra é considerada naturalista, e está entre as duas mulheres representantes do movimento, segundo estudiosos, aos lado de Carmen Dolores. Sua obra retrata mulheres complexas com uma pitada de erotismo, que chocou os críticos da época.

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Uma vítima (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Duas irmãs (com pdf para a obra completa)

 

Políticas: mulheres que fazem cartuns, charges e muito mais

por Roberta AR

Algumas coisas são bem óbvias, mas mesmo assim precisam ser reforçadas, porque o senso comum determina o lugar das pessoas de um jeito bem tirano. “Azul para menino, rosa para menina”, a gente sabe que pode usar qualquer que não vai acontecer nada, talvez alguém encher o saco. “Não tem mulheres fazendo quadrinho, cadê?”. Daí a gente faz uma lista gigante (que tá em andamento aqui no Facada X também). E agora surge a página Políticas , porque mulheres fazem quadrinhos sobre política também, claro.

“A partir de articulações entre diversas artistas, foi constatada a ausência de mulheres em espaços dedicados às charges políticas. A ideia de que mulheres não desenham charges ou não se interessam por política ainda é bastante forte no inconsciente coletivo, quando na verdade, sabemos que mulheres chargistas que atuaram nos mesmos veículos e com a mesma proficuidade que autores renomados, apenas não tiveram o mesmo prestígio e visibilidade. Basta abrir o jornal e ver quantas mulheres têm suas reflexões e opiniões publicadas”, elas explicam na sua apresentação .

Mas quem são elas? A página Políticas é um projeto das quadrinistas Thaïs Gualberto, Aline Zouvi, Carolina Ito e da pesquisadora (e MinaNerd) Dani Marino, para oferecer um espaço para cartuns, charges e tiras feitos por mulheres. E eu conversei um pouquinho com elas sobre isso:

Mariza Dias Costa (SP)
Uma das poucas mulheres que conseguiram entrar na grande imprensa fazendo ilustrações políticas. Ela iniciou sua carreira nos anos 70, trabalhou no Pasquim e publica até hoje na Folha de S. Paulo.

 

Existe um estereótipo de que mulheres fazem quadrinhos intimistas ou fofinhos. Qual a força das mulheres nos quadrinhos políticos no Brasil?

Thaïs Gualberto – Os quadrinhos de política são considerados um ambiente mais direto, fulminante, seco, crítico, características “não femininas” e por isso tendem a achar que as mulheres não têm “tino”, “talento” para abordar assuntos políticos. Mas visitando algumas páginas na internet você vê essa teoria cair terra abaixo, com várias produções ácidas e certeiras no momento de se opor a questões da política e da sociedade. Aparentemente essa é uma das últimas barreiras que precisamos derrubar: que mulheres não fazem, não se interessam ou não são capazes de fazer charges, cartuns e histórias em quadrinhos com teor político.

Carol Ito – A gente ainda está entendendo esse universo, já que a atuação de mulheres cartunistas na grande imprensa sempre foi de exceção, não conquistou o mesmo reconhecimento dos grandes nomes da HQ política no Brasil. Sobre os estereótipos, temos recebido trabalhos com estéticas e temas bem diversos, a maioria está longe do fofinho. Mas também não há restrições contra o fofinho, desde que o trabalho traga uma reflexão crítica sobre a realidade.

Aline Zouvi – A força das mulheres nos quadrinhos políticos brasileiros ainda não é totalmente sentida pelo público (algo que podemos notar pela simples necessidade de criar nossa página), mas com o empenho de pesquisadores e divulgadores de autoras, esperamos que este trabalho (cuja força existe, desde os quadrinhos de Pagu até a atualidade) seja cada vez mais reconhecido.

Dani Marino –  Não acredito que existam estereótipos. Na prática e na convivência com as artistas, o que percebo é que a maioria é extremamente versátil. Como qualquer profissional da área, conseguem trabalhar com diversos temas, ainda que algumas tenham preferência por temas específicos como política, cotidiano, terror…

Quanto à força, mulheres como Mariza, Ciça Pinto e Crau da Ilha, já faziam charges e tiras políticas na mesma época em que os nomes mais conhecidos se destacaram no meio. Porém, nunca tiveram a mesma visibilidade. É importante que tenhamos uma diversidade em todos os tipos de produção artística, pois o olhar sobre a política não é algo homogêneo, compartilhado por todos da mesma forma. Assim, é importante que mulheres falem de política e toquem em assuntos que nem sempre os homens têm a mesma sensibilidade, simplesmente porque alguns assuntos não os dizem respeito, como o que está acontecendo com a PEC sobre criminalização do aborto.

Maíra Colares (Motoca.)

Por que é importante organizar esse conteúdo produzido por mulheres em uma página?

Aline Zouvi –  Tudo se resume à questão da visibilidade: é preciso organizar e reunir cartuns e quadrinhos políticos feitos por mulheres brasileiras para que as pessoas saibam que esta produção existe, e é frequente e em estilos e técnicas variadas. É bem simples.

Dani Marino – Justamente porque ainda é recorrente a ideia de que mulheres não falam de política, achamos necessário fornecer um espaço que reúna essas mulheres, para acabar de vez com a desculpa de que elas não são chamadas a participar de salões de humor ou antologias porque não produzem. A exemplo do que já fazia o Lady’s Comics e o Minas Nerds com as listas de mulheres quadrinistas, agora temos um espaço onde as artistas podem expor seus trabalhos sobre um assunto que muita gente nem sabia que elas produziam.

Carol Ito – O objetivo do Políticas é justamente conhecer os trabalhos das minas que estão produzindo cartuns, charges e tiras políticas e trazer a público, oferecendo um espaço acolhedor. É uma curadoria que serve para que os profissionais da imprensa e do mercado editorial tenham acesso a esses quadrinhos, já que, supostamente, é tão difícil encontrá-los nas redes.

Thaïs Gualberto – Chegou um momento em que as quadrinistas feministas do Brasil perceberam que se sentiam que não há espaço para elas, devem criar seus próprios espaços e o Políticas surgiu com essa proposta, reunir esse conteúdo político que vem sendo produzido, mas que muitas vezes é pouco conhecido, reproduzido. Existe muito conteúdo que merece mais divulgação, exposição e por mais que o Políticas ainda seja uma plataforma pequena, queremos contribuir com a disseminação desses trabalhos.
Outro aspecto que acho importante é o de gerar uma demanda por esse tipo de tema. Muitas mulheres não encontram oportunidades ou não se enxergam trabalhando exclusivamente com quadrinhos – isso também atinge os homens, claro, mas acredito que em um nível menos dramático, já que eles encontram um cenário favorável –, então, acabam se dividindo em inúmeras outras tarefas para sobreviver. Nesse contexto, produzir quadrinhos políticos pode se tornar uma tarefa árdua. Pensamos que oferecer um espaço para publicação é uma forma de incentivo para que as mulheres continuem produzindo quadrinhos sobre política.

Por Carol Ito do Salsicha em conserva.

Boa parte das criadoras da páginas fazem cartuns e quadrinhos políticos. Qual a dificuldade de circular com publicações sobre esse tema por ser mulher?

Dani Marino –  Até então, o que percebemos é que a visibilidade dada a elas e os espaços não eram os mesmos que destinados aos colegas do sexo masculino. Vamos poder avaliar como essa visibilidade muda na medida em que mais pessoas conhecerem o projeto.

Aline Zouvi – Creio que seja a mesma dificuldade com relação a qualquer outro tipo de publicação, científica ou artística, feita por mulheres. Como você disse na primeira pergunta, há este estereótipo da mulher que só faz quadrinho autobiográfico, fofo, sentimental. Toda mulher pode fazer quadrinho autobiográfico, fofo, sentimental se quiser, e podem ser quadrinhos incríveis. Mas já estamos cansadas de bater na tecla de que mulher pode fazer qualquer tipo de quadrinho, inclusive o político. Creio ser mais produtivo mostrar o trabalho de mulheres cartunistas, contribuir com a visibilidade do trabalho delas.

Carol Ito – O Alan Moore tem um texto publicado na revista The Daredevils, de 1982, que traz uma reflexão interessante. Conheci o ensaio lendo a revista argentina Clítoris. Ele traz um depoimento que diz que as mulheres não são incentivadas a serem irreverentes, sarcásticas, engraçadas, padrões associados ao trabalho de um cartunista político. O padrão é incentivar a docilidade, o silêncio, desde a infância. Embora muitas mulheres tenham se dedicado aos quadrinhos políticos, ainda são minoria. Com a desconstrução estrutural do machismo, o que vai influenciar a performance de gênero, talvez possamos pensar em uma situação igualitária.

Thaïs Gualberto – É mais difícil para algumas pessoas aceitar mulheres que se pronunciem com assertividade, que apresentem um pensamento crítico que muitas vezes pode se chocar com o de outras pessoas, principalmente os homens. Como muitos desses trabalhos trazem temáticas feministas, a rejeição acaba aumentando, porque ainda há muito machismo no meio e não é agradável quando catucam o nosso calo, né?

Thaïs Gualberto (Kisuki)

Vocês têm recebidos muitos trabalhos? Pretendem dar outros desdobramentos a esse projeto?

Carol Ito – Já temos trabalhos de 13 artistas diferentes para postar na página. Quando tivermos um volume legal de trabalhos, a ideia é transformar em uma publicação impressa. Talvez em parceria com alguma editora ou auxílio de edital. Estamos recebendo trabalhos incríveis, incluindo de cartunistas importantes como a Mariza Dias Costa.

Thaïs Gualberto – Nesse primeiro momento fizemos alguns convites às quadrinistas que publicam trabalhos no perfil que gostaríamos de ter na página. Agora estamos abertas para receber as obras das autoras que tiverem interesse em contribuir, brasileiras ou não. Mas tudo em português.

Dani Marino – Os trabalhos estão chegando aos poucos e os desdobramentos virão com os resultados que tivermos com a página, mas a ideia é que tenhamos o maior alcance possível e que os trabalhos circulem por diversos meios.

Aline Zouvi – Felizmente há muitas colaborações, e quem ainda não mandou cartuns/tiras políticas pode mandar! Talvez este projeto se desenvolva, mas os planos ainda estão sendo elaborados

Se quiser publicar na página, envie sua charge, cartum ou tira para politicashq@gmail.com.

Acesse a página Políticas no facebook: https://www.facebook.com/politicashq/

 

Thais Linhares (Grimoire) (RJ) Participa do coletivo Revista Vírus, Periquitas Quadrinhos Feministas e como voluntária do DDH – Instituto de Defensores de Direitos Humanos, onde atua na comunicação e educação em direitos humanos. Prêmios recentes como ilustradora: White Ravens 2015 e Jabuti 2016.

 

(este texto faz parte da coletânea Mulheres & Quadrinhos, organizado por Laluña Machadoe Dani Marino, publicado pela editora Script)

Distopia pra quem? 100 anos de Asimov, robótica e questões raciais

por Juh Oliveira*

Após a leitura de algumas obras de distopia, de obras e influências de Asimov, principalmente quanto à robótica, e também da obra “O mal estar na civilização”, de Freud, tenho algumas considerações pessoais que podem nos levar a outras óticas sobre o que tememos sobre o futuro. Quero refletir com vocês sobre algumas questões.

Primeiramente, a ideia sobre futuro que sempre existiu e que ao chegarmos no ano 2020 imaginávamos ser realidade: carros voadores, roupas metalizadas, serviços robotizados para todas as ocasiões e, numa visão pessimista, o fim dos recursos naturais e desigualdade social alarmante. Como costumo dizer em aula, pensávamos que íamos ter tudo isso e o que temos é um retorno a elementos e ideologias da era medieval, infelizmente.

O que lemos nas distopias nos parece próximo da realidade e as questões sociais a cada dia nos aproximam dessas narrativas que quando eram só literatura nos amedrontavam. E, quando lemos sobre robótica e relações humanas nas obras de Asimov, que nos fazem repensar na relação humanidade-robôs e em suas 3 leis que norteiam esse vínculo (ou até mesmo uma quarta lei), notamos certa positividade quanto a este futuro – bem diferente das distopias. Humanidade e máquinas vivendo em harmonia, com questões morais mais definidas e poucas preocupações e tristezas.

Importante pontuar aqui: diante do genocídio da população negra, da matança das pessoas LGBTQIA+, do aumento do feminicídio e das denúncias de diversas violências sofridas por pessoas consideradas minorias (mesmo sendo maioria em número) nossa análise das utopias e distopias em 2020 vai seguir com esses recortes, para que a pessoa dentro do padrão compreenda que o que é um grande medo do que pode acontecer, já é realidade na nossa vida desde muito tempo. A vinda dos “novos tempos” não trouxe consigo melhoras para os nossos.

Ao analisar as obras de Asimov, que faria 100 anos em janeiro de 2020, tive um desconforto ao ler sobre a relação entre seres humanos e robôs pois me pareceu muito próximo à questão da escravidão. Antes que me venham com um “descansa militante”, só me fazendo compreender aqui: as leis sobre robótica de Asimov pautam a ação dos robôs quanto a seus donos e suas funções para com eles, e elas se assemelham muito aos patamares sociais que infelizmente ainda temos quando comparados às camadas ricas e dentro do padrão.

Os personagens das obras de Asimov estão na busca constante de felicidade e contam com o trabalho dos robôs para que as tarefas menos honrosas ou mais cansativas sejam realizadas por eles enquanto têm seu lazer e experiências boas na vida. Ao ler a obra de Freud, é possível atrelar essas narrativas à constante busca de satisfação dos prazeres dos seres humanos “do futuro”, bem como sua insatisfação com a civilização e os amortecedores de preocupações como escape às infelicidades.

“O trabalho dignifica o homem”. O mesmo ditado que o burguês diz para seu empregado não é colocado em prática por ele, que explora o trabalhador e aproveita da vida repleta de privilégios. E qual o pesadelo de futuro para ele? Não existir sua mão de obra barata. E sua expectativa quanto a esse tempo a vir? Que robôs tomem os postos de trabalho e produzam mais e em menor tempo, com custos bem mais baixos e lucros bem altos.

Entende onde quero chegar com esta análise? Vou racializar um pouco mais aqui, ok?

Algumas pessoas criticaram quando a série “Dear White People”, na 3ª temporada, criticou a série “The Handmaid´s Tale”, ironizou o feminismo branco e jogou luz na problemática que as pessoas negras são escanteadas na trama distópica, que tem uma heroína branca a salvar todas as mulheres da opressão masculina. Mulheres brancas em perigo num futuro distópico vivem o que as negras já sofrem há séculos. Vamos pensar um pouco: na obra “Kindred”, de Octavia Butler, a personagem negra se vê aterrorizada quando volta ao período escravocrata e seus horrores. Seu temor é não poder ter suas liberdades e na trama o companheiro branco não está ali só para ser par romântico e sim como um livramento de algumas situações, em que ele tem que se colocar como dono dela. Não preciso contar muito da história para vocês entenderem.

Nas utopias e distopias que cercam o 2020 de todas e todos nós, acompanhamos muitas coisas acontecendo que lá atrás Asimov e outros autores ilustres da ficção científica previram: os benefícios e avanços científicos, as consequências sociais e para a natureza vindos destes, os governos totalitários e também a era das máquinas, os setores privilegiados e os sem acesso. Tudo isso e muito mais presentes na busca pela felicidade e satisfação dos prazeres, na divisão entre trabalho de humanos e trabalho das máquinas, na sociedade branca e suas questões versus sociedade negra e suas aflições.

Mas seria possível uma narrativa diferente da que vemos e questionamos nessa visão de futuro utópica/distópica? Depois da análise de tantas referências de futuro, o 2020 de quem não faz parte do grupo de pessoas privilegiadas tem alguma opção de protagonismo positivo em suas histórias? Há um gênero literário chamado afrofuturismo que acredito ser um oásis no deserto. Com ele, é possível pensar que existiremos e resistiremos em meio a tudo isso com alegria e riqueza. Nos dá esperança e minimiza o medo destes tempos. Protagonizamos nossas vidas e escolhas, somos donos de tecnologia avançada e não precisamos reivindicar espaço para a nossa importante ancestralidade. O futuro é nosso e é agora!

 

Quebrada fortalece quebrada: Deixo aqui uns links importantes pra você ler e saber mais sobre AFROFUTURISMO

https://www.geledes.org.br/dossie-afrofuturismo-saiba-mais-sobre-o-movimento-cultural/

Lu Ain Zaila, uma autora afrofuturista talentosíssima: https://brasil2408.com.br/

Fabio Kabral, autor afrofuturista com obras incríveis: https://medium.com/@ka_bral/afrofuturismo-o-futuro-%C3%A9-negro-o-passado-e-o-presente-tamb%C3%A9m-8f0594d325d8

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*Juliana de Oliveira (@ilujauosue) é formada em História pela UNISA e em Ciências Sociais pela UNIMES, e cursos de extensão em Ciências Humanas pelo IICS e de Quadrinhos em Sala de Aula pela Fundação Demócrito Rocha. Atua como professora há 10 anos, trabalhando na rede municipal de São Paulo. É produtora de conteúdo de cultura pop, geek e nerd para sites do nicho e também apresenta o programa Live Pop Geeks na Rádio Geek às terças-feiras 20h.

 

A sociologia na Gotham City de Christopher Nolan

por Laluña Machado*

Nos primórdios da minha pesquisa de TCC, momento em que eu realmente me aprofundei no universo do Homem Morcego, eu comecei a me questionar sobre certos aspectos da formação do Batman e de todo o contexto no qual Gotham se apresenta (sempre). Com leituras teóricas, observando melhor os quadrinhos, levando outros filtros de interpretação para os filmes, analisando melhor as mudanças de discurso de acordo ao contexto de produção e a mídia na qual ele estava inserido, eu comecei a me perguntar: Gotham que precisa do Batman ou Bruce Wayne que precisa do Batman?

Levando em consideração toda a mitologia e o universo ficcional que compõem o Cruzado Encapuzado, é meio difícil responder isso de forma concreta. Sobretudo, porque é um personagem que fará 80 anos em 2019, que foi adaptado por vários meios de comunicação e isso influência (e muito) no que ele representa naquele momento. Porém, quando separamos certas produções ou arcos narrativos podemos chegar a conclusões inquietantes. Foi o que eu senti quando vi a trilogia de filmes do Nolan pela 234233543 vez, mas agora eu tinha outros filtros de interpretação.

No primeiro filme, Batman Begins (2005), que é uma produção que tem muitas influências do Batman: Ano Um de Frank Miller, o diretor procurou mostrar todo um prólogo da construção de Bruce Wayne/Batman (Christian Bale). Apresentando valores morais, medos, raivas, confusões, sobretudo, a motivação do bilionário em se vestir de preto à noite para pendurar pessoas em prédios, que segundo ele, será para se tornar um símbolo incorruptível. Todavia, parece que o pequeno Bruce passou anos se isentando totalmente da construção social de Gotham, não leva adiante trabalhos comunitários e até de infraestrutura que seu pai Thomas Wayne (Linus Roache) havia aplicado na ilha, como a linha de trem que foi construída por Thomas que ainda ressalta: Gotham sempre foi boa para nós.

Bruce Wayne cresce, some, rouba a própria corporação, é preso, treina, deixa a maior empresa da cidade nas mãos de acionistas com foco em contratos com o governo, e agora, já não se fala mais no legado social do Dr. Thomas Wayne, só há culpa e raiva. Bruce retorna, mas prefere usar a empresa para compor o seu lado em forma de morcego em vez de ser um verdadeiro Wayne e, claro, um gestor.

Em O Cavaleiro das Trevas (2008) as consequências sociais provocadas pela obsessão de Bruce em se vestir de preto à noite se agravam. As Indústrias Wayne é realmente a maior empresa de Gotham, “um império” que não é visto por seu único herdeiro de forma mais atenciosa, com isso, as pessoas que tomam a frente de uma administração que monopoliza praticamente tudo na ilha, consequentemente leva ao sufocamento da livre concorrência e os micros empresários não conseguem se manter, ainda mais considerando uma alta carga tributária que para as Indústrias Wayne não é nada. Além do mais, a corporação também monopoliza mão de obra especializada, ou seja, aquele cidadão que não tem ensino superior ou um técnico e muito menos condições de pagar um, ficará desempregado tanto por não se encaixar no quadro de funcionários Wayne quanto daquele pequeno empreendedor que já não existe mais.

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Em pouco tempo a taxa de desemprego aumenta, algumas pessoas conseguem ir embora da cidade, mas outras não tem a mesma sorte e sem opções se integram a criminalidade e a Máfia que é chefiada por Moroni (Eric Roberts). A Máfia nesse momento precisa se manter hegemônica e para tanto, precisa manter as pessoas “certas” dentro dos poderes legislativo, judiciário e executivo. Pessoas que estão ao lado do agora Comissário Gordon (Gary Oldman) e do Promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) que viria a ser vítima desse sistema de corrupção e se tornaria o Duas Caras. O caos se instala ainda mais em Gotham quando o Coringa (Heath Ledger) ganha poder e notoriedade afirmando que o próprio Batman trouxe a loucura para os gothamitas.

A película chega ao fim dando a entender que o Coringa foi preso no Asilo Arkham, um manicômio que não recupera ninguém e que era liderado pelo Espantalho (Cilliam Murphy), com o Duas Caras servindo como uma espécie de mártir e uma representação de justiça que Gotham nunca teve e o Batman sendo caçado pela GCPD.

Na sequencia com o filme O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) esse debate se confirma. Após a morte de Harvey e a implementação de uma lei mais rigorosa que não permite condicional para criminosos que se encaixarem nela, tal lei é baseada num imolado que nunca existiu e que aumentou a população carcerária em Blackgate sem dado algum de ressocialização dessas pessoas. Além disso, o Batman se aposenta por 8 anos e Bruce permanece numa reclusão mais um vez, só que agora em uma das alas da mansão Wayne.

A taxa de criminalidade diminui segundo o policial Blake (Joseph Gordon-Levitt), mas as políticas sociais não mudam, principalmente quando se ouve o relato de uma criança do orfanato dizendo que quando ficar maior terá que sair e procurar trabalho, contudo, o único trabalho que há em Gotham nesse momento é nos esgotos. Bane (Tom Hardy) recruta os jovens para posteriormente roubar armamento das Indústrias Wayne, armamento esse, que era utilizado pelo Batman. Até então, a cidade já não precisava do Batman, mas precisa do Bruce. Um Bruce que deveria se preocupar se a Fundação Wayne ainda estava passando as doações para esse orfanato, mas segundo Blake, há tempos que isso não acontecia. E mais uma vez tudo na ilha foge ao controle das autoridades e Bruce “precisa” vestir o uniforme novamente para combater o que poderia ter sido evitado por ele mesmo (mas também não deixo de pensar que se ele resolvesse tudo como Bruce eu não teria material de pesquisa)

Com isso tudo que foi apresentado, eu pergunto novamente: É Gotham que precisa do Batman ou Bruce Wayne que precisa do Batman?

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos e do site Minas Nerds.Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

 

Ser artista mulher é…

por Roberta AR

Começa mais um ano, desta vez caminhamos para a terceira década do século XXI, mas algumas práticas antigas permanecem intactas. Explico. Fui olhar algumas listas de melhores quadrinistas do ano passado e “pasmem” (tô sendo irônica, hein), tinha lista de site alternativão com ZERO mulheres. De novo. Sempre. E isso se repete em todas as áreas, ninguém lembra de uma mulher sequer para indicar, muitas vezes nem nós mulheres lembramos. Por isso que estou no quinto ano consecutivo fazendo listas (agora temos aqui no Facada também a categoria LISTA), neste caso especial, uma delas reúne mais de cem quadrinistas, até o momento. E é por esse tipo de coisa que o livro Ser artista mulher é…, da Cris Camargo, tem incomodado tanto por aí.

O livro reúne as tirinhas da série Ser artista mulher é… publicadas em sua página no facebook (https://www.facebook.com/sucodekaiju/), além de compilar os comentários escabrosos que uma mulher que registra experiências pessoais e relatos de outras artistas recebe pelas redes sociais. Sim, o tema é tenso, e o quadrinho trata disso de maneira ferina e divertida, com direito até a Bingo da Discórdia.  Cris Camargo tem levado pedradas por meter o dedo na ferida e acho muito difícil uma mulher ler o livro inteiro sem se identificar com pelo menos uma cena que ela registra.

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O livro

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Ser artista mulher é… foi publicado de maneira independente, após uma campanha de financiamento coletivo. É totalmente impresso em cores e pode ser adquirido diretamente com a autora (corra que ela tem poucos exemplares). Entre em contato com a Cris Camargo no facebook ou no instagram.

O prefácio

Eu tive a honra de ser chamada para fazer o prefácio dessa publicação e vou colocar meu texto na íntegra, porque muito do que ia dizer por aqui, já disse por lá:

Ser artista e ser mulher

Trabalhar com artes tem sido cada dia mais difícil por diversos motivos, agora parece que está na moda perseguir artistas com as mais diversas acusações e sabemos que isso acontece porque as artes sempre foram o espaço de questionamento e contraponto ao status quo.

Ser artista independente se tornou o lugar de resistência para muita gente, pois se profissionalizar e viver disso é uma realidade distante para a grande maioria.

Se para os artistas as coisas andam assim e para quem é artista e mulher?

“Ah, lá vem aquele discurso vitimista”, sempre tem um pra dizer. Mas quem é mulher que trabalha em qualquer área (mas qualquer mesmo) sabe bem que tem que gritar muito alto para alguém ver o que ela está fazendo. E olha que a gente tem gritado…

As Guerrilla Girls, grupo de artistas anônimas que expõem o tratamento desigual entre homens e mulheres nas artes, fizeram uma pequena lista (irônica, pelamor) com “As vantagens de ser uma artista mulher”, em que destaco: “trabalhar sem a pressão do sucesso”, “não ter que participar de exposições com homens”, “estar segura que, independente do tipo de arte que você faz, será rotulada de feminina”. Parece que é um discurso antigo, mas isso foi exposto no MASP em 2018.

Enquanto este livro está sendo fechado, está em cartaz uma exposição em um outro museu de SP que pretende ser um grande panorama mundial de quadrinhos, mas é um panorama que tornou as mulheres invisíveis. Não há justificativa possível para panoramas, listas on-line, antologias impressas que serão registros históricos desse tempo e não mostre que nós, mulheres, existimos. NÓS EXISTIMOS.

Quando a Cris me convidou para fazer este prefácio, senti o peso desse manifesto que ela está transformando em livro. Cada uma de suas tiras é o desabafo de muitas artistas, mas que pode ser transposto para muitas outras atividades em que mulheres são ignoradas como autoras, como pensadoras, na sua existência mesma como pessoas que também criam e constroem o mundo em que vivem.

Não somos side-kicks, não estamos aqui para enfeitar lugar nenhum, não somos ajudantes, não queremos estar atrás de ninguém. Não queremos nem ser gostadas (né Cris?). Agora não digam que estar na nossa pele é fácil e que gritamos por pouca coisa, porque, se calamos, nós sumimos.