Facada 55 – Full Throttle Remastered (PS4)

Sempre que penso em Full Throttle, penso em duas coisas: asfalto… e encrenca! Depois de 22 anos, com gráficos e sons atualizados, Ben volta a correr com sua moto nesse jogo mais do que nostálgico! Já vou avisando… o jogo travou bem no finalzinho, mas só a abertura já ajuda a dar aquela aquecida no coração!

Facada 52 – Unboxing K2 (boardgame)

Desencaixotamos K2, um jogo que passa a experiência de escalar uma das maiores montanhas do mundo!

A ditadura do trabalho morto

por Grupo Krisis*

Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho. Todas as potências do globo estão coligadas em defesa desta dominação: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só têm uma palavra na boca: trabalho, trabalho, trabalho.

Cada um tem que poder viver do seu trabalho, reza o princípio em vigor. Poder viver é, portanto, algo que está condicionado pelo trabalho, e não há direito à vida onde esta condição não estiver preenchida.

Johann Gottlieb Fichte

Fundamentos do Direito Natural segundo os Princípios da Doutrina da Ciência, 1797.

Quem ainda não desaprendeu de pensar reconhece sem dificuldade a inconsistência desta posição. Porque a sociedade dominada pelo trabalho não vive uma crise transitória, antes está chegada ao seu limite último. Na sequência da revolução microelectrônica, a produção de riqueza desligou-se cada vez mais da utilização da força de trabalho humano – numa escala até há poucas décadas apenas imaginável na ficção científica. Ninguém pode afirmar com seriedade que este processo voltará a parar, e muito menos que possa ser invertido. A venda dessa mercadoria que é a força de trabalho será no século XXI tão promissora como foi no século XX a venda de diligências. Porém, nesta sociedade, quem não consegue vender a sua força de trabalho torna-se «supérfluo» e é atirado para a lixeira social.

Quem não trabalha, não come! Este princípio cínico continua em vigor, hoje mais do que nunca, precisamente porque está a tornar-se irremediavelmente obsoleto. Trata-se de um absurdo: a sociedade, nunca como agora, que o trabalho se tornou supérfluo, se apresentou tanto como uma sociedade organizada em torno do trabalho. Precisamente no momento em que está a morrer, o trabalho revela-se uma potência totalitária que não tolera nenhum outro deus junto de si. Dentro da vida psíquica, dentro dos poros do dia a dia, o trabalho determina o pensamento e os comportamentos. E ninguém poupa despesas para prolongar artificialmente a vida desse ídolo, o trabalho. O grito paranoico dos que clamam por «emprego» justifica até que se aumente a destruição dos recursos naturais, com resultados há muito conhecidos. Os últimos obstáculos à total comercialização de todas as relações sociais podem ser postos de lado, sem qualquer crítica, na mira de meia dúzia de miseráveis «postos de trabalho». E a ideia de que é melhor ter um trabalho «qualquer» do que não ter nenhum trabalho tornou-se uma profissão de fé universalmente exigida.

Quanto mais se torna claro que a sociedade do trabalho chegou definitivamente ao fim, mais violentamente se recalca este fato na consciência pública. Por diferentes que possam ser, porventura, os métodos de tal recalcamento, têm um denominador comum: o fato, mundialmente constatável, de o trabalho se revelar irracional enquanto fim em si mesmo, de ser algo que se tornou a si próprio obsoleto, é transformado, com a obstinação típica de um sistema delirante, em fracasso pessoal ou coletivo dos indivíduos, das empresas ou de certas «localizações» geográficas. As limitações, que objetivamente são do próprio trabalho, devem passar por problema subjetivo dos excluídos.

Enquanto para uns o desemprego se deve a reivindicações exageradas, à falta de disponibilidade ou de flexibilidade, outros acusam os «seus» gestores e políticos de incompetência, de corrupção, de ganância ou de traição a determinadas regiões. Mas, ao fim e ao cabo, toda essa gente está de acordo com o ex-presidente da Alemanha, Roman Herzog: seria preciso um «abanão» em todo o país, exatamente como se o problema fosse idêntico à falta de motivação de uma equipe de futebol ou de uma seita política. Todos devem, «de uma forma ou de outra», agarrar-se ao remo com força, mesmo que o remo tenha desaparecido há muito, e todos devem, «de uma forma ou de outra», pôr mãos à obra, mesmo que já não haja nada para fazer (ou só coisas sem sentido). O subtexto desta mensagem triste é inequívoco: aquele que, apesar da sua aplicação, não obtiver as boas graças do ídolo trabalho é responsável por essa situação, e não tem que haver problemas de consciência em abatê-lo ao ativo ou pô-lo na rua.

E esta mesma lei, que dita o sacrifício do homem, vigora em escala mundial. Uns após outros, países inteiros vão sendo triturados pela engrenagem do totalitarismo econômico, comprovando sempre o mesmo: pecaram contra as chamadas leis do mercado. Quem não se «adaptar» incondicionalmente e sem reservas ao curso cego da concorrência total será punido pela lógica da rentabilidade. Os que hoje são promissores serão a sucata econômica de amanhã. Mas os psicóticos econômicos dominantes nem por isso se deixam abalar minimamente na sua bizarra explicação do mundo. Três quartos da população mundial foram já declarados, em maior ou menor medida, lixo social. As «localizações» privilegiadas desaparecem em queda d’água. Depois do desastre dos «países em vias de desenvolvimento», do Sul, e depois dessa secção da sociedade mundial do trabalho que era o capitalismo de Estado, no Leste, são os alunos exemplares da economia de mercado do Sudeste asiático que desaparecem no inferno das falências. E também na Europa alastra há muito o pânico social. Mas, na política e na gestão, os respectivos cavaleiros-da-triste-figura limitam-se a prosseguir, cada vez com mais raiva, a sua cruzada em nome do ídolo trabalho.

(Este é o primeiro capítulo do texto Manifesto Contra o Trabalho. Leia a íntegra neste link)

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*Krisis  é uma revista política e crítica do grupo capitalismo cujo principal foco é uma crítica teórica da “sociedade de consumo” (crítica do valor).

A revista existe desde 1986 (até 1989 sob o nome de “crítica marxista”). A última edição de impressão (no. 33) apareceu em 2010. Desde 2013 Novos produtos em intervalos irregulares só são publicadas no site.

DE CARA NOVA

Em junho, o Facada X completa 12 anos. DO-ZE-A-NOS, companheiro. Pensa que nóis é moleque? Bão… no frigir dos ovos, a gente sAmos. Moleques e molecas, com orgulho! Pra marcar o aniversário antecipado daremos uma atualizada no visual do blog.

A ideia é ressaltar a cara de zine eletrônico, inclinação sempre tida e nunca assumida oficialmente!

Para isso, contamos com a colaboração dos ilustradores da Casa Locomotiva, meninos monstros que captaram a essência do Facada X e transformaram nesse logo novo com cara de xilogravura. Tem ares do planalto brasiliense, atual habitat da editora Roberta AR, com toque da linguagem dos quadrinhos, vício do coeditor André Luiz Rafaini Lopes, de São Paulo.

A Casa Locomotiva é um espaço de criatividade formado pela união de Evandro Malgueiro, Shun Izumi, Benson Chin e Breno Ferreira. Esses malucos são desenhistas, pintores, editores digitais, quadrinhistas e artistas plásticos que se uniram não só para fomentar a arte como também para ensinar novos malucos. Eles estão atrás de graphic novels como O Colhedor de Raios (tivemos o prazer de entrevistá-los no finado podcast na época do lançamento), de coletivos como Miolo Frito ou mesmo incríveis campanhas como a da Getty Images (vencedora de 8 Cannes Lion e 7 Clio Awards) e da ação de lançamento da novela Velho Chico, da Globo.

A caminhada do Facada X não para.

Femina

por Roberta AR

Voltei a  menstruar. Depois de dois anos e meio. Uma gravidez no início desse período e amamentação até agora. São muitas doses de hormônios de todos os tipos nesse intervalo, dos que mexem com o corpo todo e fazem ser suportável todas as mudanças pelas quais passei, é essa mesma a função deles. Se fosse só o corpo, seria bem fácil, mas tem o mundo todo para lidar e isso deixa a gente paralisada, tem hora.

Essas mudanças físicas todas me fazem pensar nos corpos diferentes, nas mulheres que não menstruam, nas que não têm útero pelo motivo que for, nas que não são mães. Somos todas um grande grupo que ficou à margem do mundo porque o dinheiro quis assim. Podem dizer muitas coisas e tornar essa história mais complexa, e com razão, mas simplificando bem, o dinheiro e quem o tem não gostam de mulheres.

O não gostar de nós se manifesta de muitas formas e todos os dias. Eu ouvi com tom professoral outro dia um cara me explicar que homens estupram porque não conseguem se controlar, “é hormonal”, ele me disse. Fiquei sem resposta olhando para aquele rosto meigo que me dizia essa barbaridade pensando em quantas pessoas ele teria estuprado para justificar aquilo de maneira tão simples e “científica”.

E teve o dia em que o marido de uma conhecida queria brincar com meu filho, menino, que estava doente e esse homem gritou comigo porque não era nada grave e era má vontade minha, eu, que também estava doente e sem dormir por causa de nós dois por quatro dias. A naturalidade em que um homem grita com uma mulher é uma coisa assombrosa.

Não podemos esquecer o assobio nosso de cada dia, em cada esquina. E o medo que nos faz andar pelo meio da rua, fugindo de calçadas escuras e mesmo das claras, quando homens vêm caminhando em nossa direção.

E ser mãe tem essa cobrança todos os dias de todo mundo que diz que filho que faz isso e faz aquilo é porque a mãe não educou direito, quando tem um mundo inteiro achando normal agredir mães (lembra do cidadão citado aí em cima?), que ensina que homem é grosso e bruto mesmo, que tem que ser pegador e todo o tipo de barbaridade banalizada e repetida infinitamente em festas de famílias e por pessoas próximas. “Mas a mãe (sempre ela sozinha, diz o mundo) tem que corrigir isso em casa”. Sério mesmo que uma mãe é capaz de sozinha colocar o filho contra o mundo todo? A gente faz o que é possível e, ainda assim, quando evitamos o convívio com certas brutalidades nos chamam de “radical demais”. O certo é que nunca estaremos certas.

Eu nem quero falar muito sobre a dor cotidiana dos nossos corpos agredidos, violentados, mortos só porque somos mulheres, porque essa é uma dor conhecida de todas nós e nosso medo de todo dia.

Foi mesmo o corpo de cada uma nós que vi nesse meu depois de tantas mudanças em tão pouco tempo, como se tivesse cada mulher do mundo em mim. Somos mesmo uma só no que passamos só por ser mulher. E por isso precisamos de muitos gritos de ordem, porque as dores são muitas. Não esqueceremos! Nem um direito a menos! Nem uma a menos!

 

Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso

por Gertrude Stein*

Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse.
Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria.
Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse.
Já.
Não já.
E já.
Já.
Exatamente como como reis.
Tão totalmente tanto.
Exatidão como reis.
Para te suplicar tanto quanto.
Exatamente ou como reis.
Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado.
Exata semelhança e exata semelhança e exata semelhança como exata como uma semelhança, exatamente como assemelhar-se, exatamente assemelhar-se, exatamente em semelhança exatamente uma semelhança, exatamente a semelhança. Pois é assim a ação. Porque.
Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal.
Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal.
Juízo o juiz.
Como uma semelhança a ele.
Quem vem primeiro. Napoleão primeiro.
Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual.
Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data.
Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro.
Presentemente.
Exatamente eles vão bem.
Primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem também.
Primeiro exatamente.
E primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem.
E primeiro exatamente e exatamente.
E eles vão bem.
E primeiro exatamente e primeiro exatamente e eles vão bem.
O primeiro exatamente.
E eles vão bem.
O primeiro exatamente.
De primeiro exatamente.
Primeiro como exatamente.
De primeiro como exatamente.
Presentemente.
Como presentemente.
Como como presentemente.
Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se.
Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis.
Como presentemente.
Como exatidão.
Como trens.
Tomo trens.
Tomo trens.
Como trens.
Como trens.
Presentemente.
Proporções.
Presentemente.
Como proporções como presentemente.
Pais e pois.
Era rei ou rês.
Pois e vez.
Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez.
Vez e em vez.
E assim se fez.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Aterro.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Dois.
Aterro.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Eu te erro.
Como um tão.
Eles não vão.
Uma nota.
Eles não notam.
Uma bota.
Eles não anotam.
Eles dotam.
Eles não dão.
Eles como denotam.
Milagres dão-se.
Dão-se bem.
Dão-se muito bem.
Um bem.
Tão bem.
Como ou como presentemente.
Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.

(tradução de Augusto de Campos)

If I told him: a completed portrait of Picasso:

If I told him would he like it. Would he like it if I told him.
Would he like it would Napoleon would Napoleon would would he like it.
If Napoleon if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him would he like it would he like it if I told him.
Now.
Not now.
And now.
Now.
Exactly as as kings.
Feeling full for it.
Exactitude as kings.
So to beseech you as full as for it.
Exactly or as kings.
Shutters shut and open so do queens. Shutters shut and shutters and so
shutters shut and shutters and so and so shutters and so shutters shut and so shutters shut and shutters and so. And so shutters shut and so and also. And also and so and so and also.
Exact resemblance. To exact resemblance the exact resemblance as exact as a resemblance, exactly as resembling, exactly resembling, exactly in resemblance exactly a resemblance, exactly and resemblance. For this is so. Because.
Now actively repeat at all, now actively repeat at all, now actively repeat at all.
Have hold and hear, actively repeat at all.
I judge judge.
As a resemblance to him.
Who comes first. Napoleon the first.
Who comes too coming coming too, who goes there, as they go they share, who shares all, all is as all as as yet or as yet.
Now to date now to date. Now and now and date and the date.
Who came first. Napoleon at first. Who came first Napoleon the first. Who came first, Napoleon first.
Presently.
Exactly do they do.
First exactly.
Exactly do they do too.
First exactly.
And first exactly.
Exactly do they do.
And first exactly and exactly.
And do they do.
At first exactly and first exactly and do they do.
The first exactly.
And do they do.
The first exactly.
At first exactly.
First as exactly.
As first as exactly.
Presently
As presently.
As as presently.
He he he he and he and he and and he and he and he and and as and as he and as he and he. He is and as he is, and as he is and he is, he is and as he and he and as he is and he and he and and he and he.
Can curls rob can curls quote, quotable.
As presently.
As exactitude.
As trains.
Has trains.
Has trains.
As trains.
As trains.
Presently.
Proportions.
Presently.
As proportions as presently.
Father and farther.
Was the king or room.
Farther and whether.
Was there was there was there what was there was there what was there was there there was there.
Whether and in there.
As even say so.
One.
I land.
Two.
I land.
Three.
The land.
Three.
The land.
Three.
The land.
Two.
I land.
Two.
I land.
One.
I land.
Two.
I land.
As a so.
They cannot.
A note.
They cannot.
A float.
They cannot.
They dote.
They cannot.
They as denote.
Miracles play.
Play fairly.
Play fairly well.
A well.
As well.
As or as presently.
Let me recite what history teaches. History teaches.

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*Gertrude Stein (1874 – 1946) foi uma escritora, poeta e feminista estadunidense.

O mundo de Lísias: estranho, familiar

por Adriano de Almeida*

a-vista-particular-livro

O mundo de Ricardo Lísias é um continuum entre Rio, São Paulo e as grandes capitais contemporâneas. É um lugar péssimo, onde reina a estupidez mais medonha, e onde os estetas, senhores do bem e do mal, regozijam-se em converter em alegria a realidade insolitamente desumana.

narrativa contemporânea

O insolitamente desumano, central em A vista particular, tem a ver com uma tendência da ficção do século XXI, presente tanto nas séries de TV – de Walking Dead a Black Mirror – quanto na literatura considerada mais culta, como Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

Nos filmes de suspense e de horror, o insólito também tem sido associado à representação hiper-realista. Existe um “neonaturalismo” até, no gosto pelos fenômenos médicos, fisiológicos ou escatológicos, “neonaturalismo” que comparece não só em American Horror Story mas também em O anticristo. Esse “neonaturalismo” não caberia na fria análise de Lísias, que parece empanar a realidade, oferecendo-nos uma visão enevoada e difusa, uma realidade que é incômodo experienciar como leitor, e esse incômodo me parece decisivo nos livros de Lísias.

lísias é para os fortes?

Esses elementos todos, frequentes nos diversos tipos de produção cultural, estão presentes e são combinados de modo específico em A vista particular.

O radicalismo realista – um primeiro exemplo de especificidade – se estabelece a partir do pacto singular de Lísias com a representação, pacto que embaralha a relação do leitor com o texto. Para o autor, não só a cidade do Rio e o século XXI são referentes verazes na narrativa, mas também a existência de pessoas, como o crítico Rodrigo Naves e a psicanalista Maria Rita Kehl, os quais são referidos no romance. Portanto, Lísias joga para o leitor o seguinte problema: por que apenas cidades, países, ruas, bares, pontes são apresentados como elementos da realidade?

O leitor talvez saiba que o autor conseguiu algumas dores de cabeça com a publicação de Delegado Tobias. Se não acompanhou o episódio, o link abaixo é altamente recomendável. Trata-se de um curioso evento na história das letras brasileiras: Livro de Ricardo Lisias leva à instauração de inquérito na Polícia Federal por falsificação de documento.

ficção como realidade

Outra escolha estética contemporânea de A vista particular é a oscilação entre ficção e realidade. Esse é outro elemento muito explorado pelo cinema em seus mais diversos segmentos – de Atividade paranormal a Ninfomaníaca, passando por A Bruxa de Blair. Uma referência clássica dessa combinação é Citizen Kane, de Orson Welles, e ela encontra outros exemplos notáveis no cinema: Aguirre, de Herzog; o documentário que parece ficção Iracema, uma transa amazônica, de Jorge Bodansky e Orlando Senna. E há também o caso notável de O bandido da luz vermelha. Ainda os inúmeros filmes de Woody Allen.

Lísias comenta sobre sua filiação ao nouveau roman (ver entrevista em Literatorios #15) e, propõe, como aqueles autores, um verdadeiro desafio lúdico, marcadamente metalinguístico, que não é simplesmente entrega à estesia, porque chama a atenção para a engenharia da literatura como fenômeno análogo à vida social: estetiza o horror de uma arte que estetiza o horror – o que me obrigaria a comentar sobre o pintor José de Arariboia, o herói do romance, e isso será feito só mais para a frente.

simulação e negaceio

Mas, ainda que evoque o jogo e a brincadeira, A vista particular não é uma atração apenas agradável. Não mesmo. O livro desconcerta o leitor, traindo-o logo no início, quando, por exemplo, apresenta um espaço para a citação que não traz texto algum. Como neste caso:

Como o texto é claro e ele autorizou a reprodução, copio literalmente:
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
(LÍSIAS, Ricardo. A vista particular. Alfaguara, 2016, p. 14)
Acho que o Lísias criou uma forma quase impossível de citação, um verdadeiro desafio para os mestres da ABNT e citadores mundo afora.

Na página 15, o leitor encontra o seguinte trecho:

“O mar e a favela, por exemplo, amalgamam-se em um conjunto de quatro telas de tons azulados muito intensos, todas em acrílico. Uma delas está reproduzida na próxima página”.
(LÍSIAS, Ricardo. A vista particular. Alfaguara, 2016, p. 14)

No entanto, a “próxima página”, a 16, não traz nenhuma imagem. Aliás o livro, que tem um grande apelo à visualidade, trabalhando a trama narrativa em diálogo com referências a vídeos e pinturas não apresenta, por exemplo, uma ilustração sequer. Esse não é um dado banal no caso de Lísias, porque as imagens recebem capítulos exclusivos para elas, como é o caso da página 16:

“VIII
Cidade Brava: mar Brasil
Acrílico sobre tela
2014
(coleção particular)

Na página da “imagem”, aparece apenas essa legenda.

E o leitor recebe uma bela trollagem, e fica a ver navios. Sim, estamos na tradição machadiana dos narradores nada confiáveis.

romance sacana

A capa de A vista particular é uma sacanagem à parte. O trabalho é de Claudia Espínola de Carvalho, e deve ter rendido muitos elogios, todos merecidíssimos. É um lindo trabalho. A ilustração é de Celso Koyama: um naif revisitado por um traço rústico de HQ. É um desenho muito bonito. Então você repara que são casas pobres, de bairros pobres. Então você repara que aquele colorido de HQ é um enfeite para encobrir a realidade das habitações precárias, é um colorido que engana a percepção, mostra a pobreza de modo sorridente, harmônico, como se fosse um belo projeto urbanístico-estético. Cores modernas, árvores, predomínio da verticalidade…

O título também é enganador. Veja lá: uma boa vista da cidade do Rio, um ângulo privilegiado, uma janela com vista para a mata, para a montanha ou para o mar. Até parece ser uma crítica, ou pelo menos uma provocação, ao privilégio de poucos cuja vista agrega valor.

arariboia

A história registra o nome do índio Arariboia, dos temiminós, grupo tupi que habitava o litoral brasileiro no século XVI e ajudou os portugueses na luta contra tamoios e franceses na disputa pela Baía da Guanabara.

Já o José de Arariboia de A vista particular é um artista reputado, considerado pelos críticos como conhecedor do espírito do Rio de Janeiro.

José de Arariboia só tem olhos para a sua arte. Mas, em vez de enfurnar-se numa torre de marfim – como seus antepassados da arte pela arte, no Rio de Janeiro do início do século XX -, ele é cínico o suficiente para frequentar o morro Pavão-Pavãozinho, em plena boca do tráfico e, a partir de lá, construir sua espetacularização da pobreza e da violência.
É o espírito de beleza da Belle Époque carioca atualizada na “cosmética da fome” (Ivana Bentes). Esse termo, aliás, “cosmética da fome”, é bastante útil para se pensar a crítica de Lísias aos postulados de uma arte como a de Arariboia. É uma arte que dialoga com a “cosmetização” da violência e da miséria, tornando a condição dos pobres do morro um exótico material de fetiche, excitador dos mais doentios orgasmos estéticos – aquele de Tropa de Elite e de Cidade de Deus, que entre o choque e o gozo se confundem para no fim apresentarem heróis dos mais duvidosos: respectivamente, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e a grande imprensa, destacados como “caminhos do bem”, para lembrarmos a música de desfecho do filme Cidade de Deus – contrariando as escolhas do autor do romance, o escritor Paulo Lins.

Se o Arariboia de Lísias não é o temiminó que entregou outros indígenas aos colonizadores estrangeiros, que afinal triunfaram na peleja, é o artista que delicia as classes abastadas com a exibição dos sofrimentos dos pobres do Rio de Janeiro – os moradores da favela de Pavão-Pavãozinho – e sua realidade miserável e violenta. José de Arariboia simboliza o artista que, envolvido com seus próprios processos criativos, passa ao largo dos problemas do mundo, um evasionismo que infelizmente é bem forte nas artes plásticas. Se a favela for estilosa, se for capaz de atrair, de gerar frisson com seus ratos, crianças mortas, uso de crack, então ela é interessante.

Horror com legendas de realidade é fascinante para o público. E ninguém precisa defender que cultiva o horror, uma vez que a diversão artística ou o entretenimento é um salvo-conduto para comentários de qualquer teor, como acontece com a misoginia, o racismo, o bairrismo e outros preconceitos que passam de boca em boca, nas piadas, ou são transmitidos pela televisão e o cinema, além de frequentemente mencionadas nos palcos de alguns teatros. Isso para não falar nos rádios, que fazem piadas com vinhetas satirizando jogadores homossexuais.

Tudo parece apontar para o caso do protagonista machadiano do conto “O caso da vara” (publicado originalmente em Gazeta de Notícias, de 1891), que afirma que não há culpa em “ter chiste”.

em outras palavras

A farsa assume, na narrativa, a forma de um incômodo difícil de entender. Seguindo uma linha impressionista, diria que percebo um problema que o autor joga para seu interlocutor de modo incrivelmente eficiente, o qual pode ser apresentado da seguinte forma: o leitor sensível às injustiças e à “banalidade do mal” (Hannah Arendt) ficará indignado com Arariboia e sua estetização da desgraça, mas ao mesmo tempo vai se espantar com o modo eficiente com que Lísias representa esse tipo de canalhice na arte. O ético e o belo se conflitam constantemente no livro, como na vida social.

todorov

O narrador prega uma peça de humilhação à banalidade burguesa do mundo contemporâneo. Sim, ele faz isso mesmo. E nunca é demais insistir que ainda existem leitores para quem o prazer estético reside justamente na eficácia com que alguns livros captam a dinâmica da realidade. No caso de A vista particular, a narrativa procura despistar a desfaçatez de caráter de Arariboia e, no fim das contas, a do próprio narrador. Essa desfaçatez e a tentativa (muitas vezes preguiçosa) de ocultá-la são tônicas da vida brasileira.

Todorov acaba de morrer (7 de fevereiro de 2017) e, já tendo deixado um legado de alta importância, fechou o seu percurso de modo surpreendente, com A literatura em perigo (2009), livro em que Todorov adverte que a literatura, mais que um conjunto de combinações linguísticas ou de achados poéticos, é uma forma de representação da realidade, uma forma de diálogo crítico com ela.

Ninguém me perguntou. Mas se me perguntarem direi:

É esse o papel mais importante da literatura – falar a língua do tempo e gritar as dores da humanidade -, eu acredito, mais do que nunca.

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* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor, educador e pesquisador em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Autor do livro Entulhos, que pode ser adquirido aqui.