A lei

por Lima Barreto*

Este caso da parteira merece sérias reflexões que tendem a interrogar sobre a serventia da lei.
Uma senhora, separada do marido, muito naturalmente quer conservar em sua companhia a filha; e muito naturalmente também não quer viver isolada e cede, por isto ou aquilo, a uma inclinação amorosa.
O caso se complica com uma gravidez e para que a lei, baseada em uma moral que já se
findou, não lhe tire a filha, procura uma conhecida, sua amiga, a fim de provocar um aborto de forma a não se comprometer.
Vê-se bem que na intromissão da “curiosa” não houve nenhuma espécie de interesse
subalterno, não foi questão de dinheiro. O que houve foi simplesmente camaradagem, amizade, vontade de servir a uma amiga, de livrá-la de uma terrível situação.
Aos olhos de todos, é um ato digno, porque, mais do que o amor, a amizade se impõe.
Acontece que a sua intervenção foi desastrosa e lá vem a lei, os regulamentos, a polícia, os inquéritos, os peritos, a faculdade e berram: você é uma criminosa! você quis impedir que nascesse mais um homem para aborrecer-se com a vida!
Berram e levam a pobre mulher para os autos, para a justiça, para a chicana, para os
depoimentos, para essa via-sacra da justiça, que talvez o próprio Cristo não percorresse com
resignação.
A parteira, mulher humilde, temerosa das leis, que não conhecia, amedrontada com a
prisão, onde nunca esperava parar, mata-se.
Reflitamos, agora; não é estúpida a lei que, para proteger uma vida provável, sacrifica
duas? Sim, duas porque a outra procurou a morte para que a lei não lhe tirasse a filha. De que vale a lei?
Vida urbana, 7-1-1915

.

* Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), mais conhecido apenas como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

Anúncios

“Mamaini, essa música não”

por Roberta AR

Eu sempre me perguntei: pra que fazer essas versões “infantis” de músicas pop? Além de esquisitas (e assustadoras, em alguns casos), por que crianças não podem ouvir os originais? Não estou falando aqui de canções infantis, de ciranda ou de roda, mas de “Ramones para crianças”, “Beatles para crianças” e por aí vai.

Tem uma linha de trem perto da minha casa, junto a um parquinho público e uma pista de caminhada. Estava andando por ali um dia desses e comecei a ouvir uma pianola, um sonzinho fraco que parecia uma caixinha de música, com uma canção conhecida, que depois de algum tempo percebi ser dos Beatles, em versão canção de ninar. Posso dizer o quanto aquilo parecia uma cena de filme de terror? Um dia nublado, no fim da tarde, um parquinho com balanços ao vento e essa música assustadora de fundo.

Eu sempre ouvi punk rock com meu filho, desde meses de vida. Teve parente me dando bronca que aquilo ia “perturbar a criança”, mas ele nunca pareceu perturbado. Quando começou a balbuciar sons mais controlados (ficou um bom tempo falando por onomatopeias), soltou um “ocai, oait”, que era o refrão de Sixteen, dos Buzzcock. Achei engraçado, ele todo feliz cantando isso pela casa. Depois foi a vez de “chamar a barca”, o refrão de Preta Pretinha. Ele está aprendendo a falar agora, então tenho colocado mais músicas em português. Os Mulheres Negras, que eu gostava muito quando era criança, o disco Acabou Chorare (que, vejam só, foi feito para crianças), Gal Costa, Rita Lee, tudo faz sucesso, até Itamar Assumpção, que parece ser um dos seus favoritos, surpreendentemente.

Podia emendar sobre o quanto acho meu filho um prodígio musical, de sensibilidade sobrenatural e coisas do tipo, mas eu sei que toda criança é assim e que seus gostos podem ser mais amplos e variados do que podemos imaginar, a limitação é nossa mesmo. Não é preciso simplificar música para crianças, nem nada. É claro que é bom estar atento a conteúdos adequados, histórias de mortes brutais, sexo e coisas do tipo não fazem bem e não devem ser compartilhadas com crianças. Mas que mal faz um ieieiê?

Eu costumo falar muito sobre isso, mas é que essa é a coisa que mais se reafirma ao criar um filho: nós não controlamos nada. Quando meu filho tinha uns seis meses, rolou uma oficina de musicalização para bebês com um maestro estrangeiro que fazia experiências com crianças até um ano de idade, uma lindeza na sensibilização dos pequenos. Estava toda empolgada, achando que ele ia arrasar nos instrumentinhos, mas foi chegar e ouvir o primeiro acorde de violino que um choro sentido começou, até virar um choro alto e cheio de lágrimas. Tentamos sair e voltar umas duas vezes, o maestro já tava ficando putaço, até que percebemos que era a música que estava deixando ele daquele jeito. Era assim com saxofone também, não podia ouvir que começava a chorar sentido, ativava uma chave da tristeza nele. Parecia um adulto na fossa ouvindo um brega romântico, algo o deixava muito abalado. E tinha o agudinho do sertanejo universitário, que o deixava tão puto que começava a gritar com raiva, isso com uns três ou quatro meses. Fizemos alguns testes para confirmar se não era viagem da nossa cabeça, mas a audição trazia outras coisas além de lágrimas. Foram muitas as crises de choro acalmadas com música, também. Acabou Chorare acabava o chorare quase sempre, parecia mágica, um relaxamento que vinha até o choro parar. Agora, perto dos três anos, ele começou a ouvir cantigas infantis com joguinhos de palavras. Adora o sítio do Seu Lobato com seus iaiaô e os sons dos bichos. Mas fui tentar colocar o disco do Zeca Baleiro, e mais uns outros de cantores com versões de músicas famosas para crianças, e ele mandou tirar na hora, todas as vezes. Odiou. Ele ainda prefere as versões originais.

Falei das minhas preferências musicais, mas tem as do pai também, que gosta de metal, coisa que nunca ouvi e nunca gostei. O menino está apaixonado por Amorphis, faz performance imitando. Tem até a versão de “iaiaô” com voz gutural, que tem sido o grande hit do momento.

Sabe o que acontece? Ele é uma pessoa. Todo dia isso se confirma. Veja bem, eu sei que estou falando o óbvio aqui, mas saber disso e praticar isso não é a mesma coisa. Meus desejos e anseios não querem dizer nada para ele, o que eu posso fazer é dividir as coisas que são importantes para mim, vivermos essa experiência de ouvir músicas e dançar juntos. Ele sente como eu, canta e se emociona também, não precisa simplificar nada, o que ele não gosta, ou o que o deixa incomodado, ele pede para tirar. E eu não preciso fantasiá-lo de roqueiro ou de David Bowie para realizar minha fantasia bizarra de dizer para todo mundo “esse é o meu filho mesmo”. Meus gostos não vão ser a prioridade nos gostos dele. A coisa já está tomando forma, bem aqui no comecinho da vida, e às vezes eu tenho que ouvir “shh, mamaini, essa (música) não”.

.

Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #5

Lição póstuma

por Carmen Dolores*

No carro que conduzia à casa da amiga morta, Madalena meditava com melancolia, conchegando ao busto ainda belo as rendas negras do vestuário de luto improvisado para esse inesperado transe.

Morrera Valentina, a sua querida companheira da infância!… Extinguira-se de repente, na véspera, essa doce criatura pálida, cuja vida frágil, de sempre enferma e sempre apagada, pouco importava desde muitos anos aos seus mais próximos, nesse centro familiar, rumoroso e alegre, onde se moviam os filhos, as filhas, os genros e as noras da atual finada, em seu inconsciente egoísmo de entes novos, sadios e ativos. E o principal, na aparência, de toda essa gente moça, nascida do seu sangue ou fundida com o seu sangue, Valentina, na realidade, passara gradualmente a ser um zero no lar, de uma sensibilidade doentia que a isolava, sob o terror dos choques da existência comum, e de uma fraqueza de caráter que as contínuas moléstias iam sempre agravando. Tinha a figura emaciada de uma freira. Andava devagar, como arrastando dolorosamente os passos, sem rumo, sem objetivo. E eis enfim que morrera, discretamente, sem ruído, num sopro de ave cansada, que encolhe a cabeça sob a asa e expira docemente, sem incomodar ninguém com estardalhaços de uma agonia aflitiva e prolongada.

Madalena evocava agora esse tristonho tipo de mulher, que conhecera despreocupado na meninice, poeticamente sentimental na adolescência, e enfim abatido nos últimos tempos — e uma sensação como medrosa de arrepio se misturou ao sentimento natural da sua afetuosa saudade.

Quantos anos podia ter Valentina? Só quarenta e seis — a sua própria idade, pois tinham nascido no mesmo ano. E, mais nervosa, Madalena atirou-se para o canto da vitória, vergou o corpo, para enfiar a vista pelo espetáculo das ruas em todo o jubiloso movimento das quatro horas da tarde. Que contraste com o desalento das suas idéias! E que novidade, também, no meio da apatia dos seus dias monótonos, sempre iguais, ao fundo dessa chácara sombria de arvoredos, porejando umidade dos seus caramanchéis apodrecidos pelas chuvas, em que ela esquecia todos os risos da vida por inércia de hábitos, empurrada pouco a pouco, quase sem sentir, para o isolamento próprio dos que terminaram o seu papel no mundo! Um relâmpago fuzilou nas pupilas de Madalena, ao acicate de um pensamento súbito e cruel: como a Valentina!… assim mesmo é que se resvala até cair na morte, sem reagir e sem viver — no verdadeiro sentido desta palavra tão ampla…

E, como febril, debruçou-se mais avidamente, fartou a vista de olhar, de olhar a onda popular espraiada pelas vias, numa ondulação crescente e vertiginosa.

O carro, vindo do Rio Comprido, seguia pela nova e brilhante rua da Carioca, cortada de elétricos rápidos, com a sua alta casaria de aspecto europeu, lojas de montras espelhantes cheias de compradores, grupos remoinhando em certos pontos da calçada larga, junto aos postes de parada dos bondes, um ar de efervescente alegria no azul do céu, na brancura luminosa das fachadas dos prédios, nas vitrinas, nos artigos policromos expostos à venda, nas portas, na multidão formigando apressadamente; em tudo.

Ao pé do mercado das flores, um embaraço qualquer deteve um instante a marcha da vitória, entre a trepidação violenta de todo o gênero de veículos a se cruzarem, e Madalena aspirou, com um frêmito, o aroma vivo das rosas brancas e rubras, dos cravos purpurinos e das angélicas virginais desprendendo o seu hálito de volúpia entre os crisântemos e as dálias sem perfume. Mas já o carro vencia o largo da Carioca, onde desembocava toda uma torrente popular despejada pelas ruas da Uruguaiana e Gonçalves Dias; e, ao reflexo dourado do sol, trazendo nos ouvidos o rumor da vida tumultuosa das ruas e na rotina a visão da graça experta das mulheres que andam às compras, parando em cada montra com um fulgor de apetite no olhar, a saia arregaçada com arte, o pé bem calçado e nervoso — Madalena entrou a rodar sobre o asfalto macio da avenida Beira-Mar, voltando a pensar nessa morta que aguardava na imobilidade suprema o definitivo mergulho na terra fria.

Em pouco, muito pálida sob o negrume do vestido de luto, contemplava Madalena a amiga de infância estendida sobre a eça de ouros lúgubres, entre os candelabros do estilo: e essa face mais lívida do que a cera das tochas acesas, mais reduzida do que um semblante de criança, com os cabelos de leve grisalhos, penteados para o túmulo, e uma expressão de amargura nos lábios finos e roxos — essa face defunta abalou tão violentamente a sua alma, que os soluços a sufocaram como uma crise de nervos. Nem saberia dizer por quem chorava, se pela morta, se por si própria, sentindo como uma trágica parecença nos seus destinos — ambas já tendo cumprido a sua missão na existência e não havendo sabido salvaguardar a nota pessoal, que serve de arma de defesa, instinto de conservação, na segunda e melancólica fase da vida das mulheres.

Acudiam-lhe, de envolta com as lágrimas, trechos de certo romance pungente de Tolstói — uma grande ternura ingênua que tudo dera de si, encontrando ao cabo a ingratidão mais dura, o isolamento, o abandono…

E um pavor subiu-lhe ao cérebro, lembrando as acomodações, as transigências, que ela fora aceitando contra o seu interesse, por amor e por inércia. Apareceu-lhe a chácara sombria, sentiu o vagar dos dias longos, viu-se a errar, cheia de tédio, sem vida própria, entre a animação egoística dos seus mais próximos, como a outra, como essa que ali jazia entre homenagens mentirosas, agora inúteis, de coroas, flores e galões dourados… E uma reação perigosa se fez no seu íntimo. Como a Valentina?… Não, jamais!… Ela queria viver e não morrer. Aquilo era uma lição.

O Matias, genro de Madalena, fumava, ao cair dessa tarde, à porta do vestíbulo, olhando a beleza do ocaso, quando viu caminhar pela grande alameda da chácara, em direção à casa, um vulto de mulher que ele, à primeira vista, não reconheceu.

“Mas é tua mãe!”, disse por fim à esposa, virando-se para dentro da sala, como atônito. E no seu tom havia uma tão insólita estranheza, visto como a volta da sogra era perfeitamente natural, que as filhas logo se ergueram e chegaram à porta.

“Mas é mamãe!”, repetiram elas, imitando inconscientemente o ar admirado do Matias.

Efetivamente, a silhueta de Madalena parecia mudada nas suas linhas habituais. Ela, que era gorda e indolente, vinha num passo firme e decidido que esmagava as folhas secas do caminho. Tinha arremessado para trás a pelerine de rendas negras, e em seu corpo, ainda bem feito, estava mais moça, mais viva, mais esbelta. No silêncio curioso que a acolheu, pôs-se a contar como fora o enterro da pobre Valentina, insistindo com rancor na insensibilidade ou excessiva resignação de toda a família, que tinha demonstrado à evidência o ínfimo lugar ocupado sob aquele teto pela falecida.

E como, nesse ponto da narrativa, um netinho a importunasse teimosamente, puxando-lhe ora o leque, ora as rendas, Madalena administrou-lhe, com nervosa prontidão, uma pancadinha seca nos dedos. O pequeno chorou: os pais entreolharam-se, espantados; e a mãe acabou observando, para aliviar o despeito:

“Essa d. Valentina, afinal, não passava de uma imprestável…”

Madalena, de ordinário paciente e vagarosa, saltou imediatamente:

“Imprestável? … Tola é que ela foi…”

Surpresa geral.

Quando Madalena saiu da sala, o Matias dirigiu-se ao cunhado Jorge, também casado, e, de mãos nos bolsos, meneando misteriosamente a cabeça, a esticar um grande beiço desolado, murmurou…

“Transformaram tua mãe, sabes? Aqui há coisa…”

E havia. Era um terror profundo deixado na alma de Madalena pelas impressões da morte da amiga. Era uma reação, entretida pela vontade de fugir a vagos perigos, que chicoteava dia a dia os impulsos da natural e passiva apatia, tentando às vezes retomar os antigos direitos sobre o seu caráter. Nesse momento, então, Madalena corria ao espelho para se examinar; já se via mais magra, com a face lívida e esbatida da amiga que não soubera defender a sua nota pessoal e morrera anulada, como um trapo inútil. E se, a essa hora, a filha ou a nora lhe anunciavam que iam passear, pedindo-lhe para ficar, como dantes, com as crianças, ela, depressa, contrariando o espontâneo assomo de condescendente bondade, respondia que também tinha de sair. E saía de fato, para atestar a sua independência; andava pela cidade, a impregnar-se, como buscando reforço à sua bruxuleante energia, do espetáculo da vida ativa de outras mulheres da sua idade, em que bebia lições. Como a Valentina é que nunca, nunca, jamais!

E certo dia, sob a reprovação mal refreada dos seus, Madalena participou que se ia casar com um senhor Salgado, qüinquagenário ainda robusto, que lhe oferecia a comunhão da simpatia contra os próximos e comuns desalentos da velhice solitária.

Por ocasião desse casamento, enquanto a noiva, madura e satisfeita, jurava fidelidade ao futuro de cabelos grisalhos, bem empertigado na sua casaca solene, o Matias, sucumbido, sussurrava ao ouvido do cunhado Jorge.

“Tudo isto é obra fatal da defunta Valentina…”

E, mais áspero:

“Eu, se ela ressuscitasse, metia-lhe uma bengalada…”

O filho acrescentou com raiva:

“Eu fazia mais: assassinava a peste…”·

E volvendo o olhar torvo para as sedas lilases e farfalhantes da mãe ao pé do altar, concluiu entre dentes:

“Ainda esta manhã ela foi levar uma coroa de amores perfeitos ao túmulo da amiga, agradecendo a lição…”

Madalena, entretanto, pesada e triunfante, ia dizendo ao senhor Salgado, cuja calva reluzia às luzes:

“ Recebo a vós…”

Era o direito à felicidade, proclamado alto!… Era o direito à vida própria!…

.

* Carmen Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, (1852 — 1910) foi uma escritora brasileira. Emilia escreveu contos e “fantasias” Usou vários outros pseudônimos em suas colaborações para os jornais “Correio da Manhã”, “O Pais”, “Tribunal” e “Étoile du Sud”, mas foi com o pseudônimo de Carmen Dolores que ficou mais conhecida. Apesar das limitações de sua concepção de libertação feminina, sua participação marca para as mulheres uma conquista importante de espaço na imprensa.

A minha avó

por Auta de Souza*
Minh’alma vai cantar, alma sagrada!
Raio de sol dos meus primeiros dias…
Gota de luz nas regiões sombrias
De minha vida triste e amargurada.
Minh’alma vai cantar, velhinha amada!
Rio onde correm minhas alegrias…
Anjo bendito que me refugias
Nas tuas asas contra a sina irada!
Minh’alma vai cantar… Transforma o seio
N’um cofre santo de carícias cheio,
Para este livro todo o meu tesouro…
Eu quero vê-lo, em desejada calma,
No rico santuário de tu’alma…
– Hóstia guardada n’um cibório de ouro!
.

* Auta de Souza (1876 – 1901) foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica (ultrarromântica, byroniana ou Mal do Século), autora de Horto. Escrevia poemas românticos com alguma influência simbolista, e de alto valor estético. Segundo Luís da Câmara Cascudo, é “a maior poetisa mística do Brasil”.

A chalga do meu coração

por Roberta AR

Um dia cheguei no trabalho contando de um show do Varukers que tinha assistido no Conic (quem é de Brasília sabe que esta sempre foi uma quadra underground, um pouco menos agora que começa a ser gentrificada por hipsters, lojas de vinis e coisas do tipo). Uma colega, assustada, me disse que nunca me imaginaria num show punk, que eu tinha cara de quem gostava de Vanessa da Mata. Acho que são meus cabelos cacheados e o fato de eu ser de humanas que dão essa impressão de que eu gosto de nova mpb (ainda chamam assim?).

Mas minha vida musical nunca foi assim só underground, tem os pop que me tocam fundo, sempre gostei de Robertão (chorei horrores nos dois shows que fui) e David Bowie é ainda um grande amor da minha vida.

Quando conheci meu companheiro, nossa primeira conversa foi sobre Rammstein, ainda morro de inveja que ele foi num show e eu não. Ficamos juntos num show do Gangrena Gasosa. Tudo caminhava para sermos um casal camisa preta, quando, num belo dia, o Pedro me apresenta Azis, que conheceu nas zueiras de internet, ele é de uma geração depois da minha e conhece coisas que eu demoro um pouco mais para ter contato.

E a primeira coisa que vi do Azis foi o clipe de Hop. É difícil descrever a sensação que tive enquanto ouvia e via. Uma empolgação, comecei a rebolar discretamente na cadeira (estava no trabalho, com meus melhores amigos, os fones de ouvido), mas por dentro me senti numa noitada nA Lôca*. Vou tentar descrever aqui o que vi e ouvi.

Azis é um cantor pop da Bulgária. Ele canta chalga, que mistura ritmos tradicionais búlgaros com batidas eletrônicas, considerado brega no leste europeu. É muito popular, o vídeo de Hop, na página da Diapason Records do youtube, tem mais de doze milhões de visualizações. A primeira imagem que vemos, é uma casa de madeira coberta de neve, corata para a foice e martelo, símbolo do comunismo, num fundo preto, seguida de uma animação com o nome da música em letras brancas HOP, até agora ao som de uma sanfona, ou algum instrumento tradicional. E aí a diversão começa.

Damos de cara com o Azis ricamente maquiado em um ofurô, rodeado de lindos homens seminus numa sauna, cantando “Lover, lover / Fucker, fucker / Lover” e depois entra o trecho em búlgaro. Imagens de um dançarino folclórico se alternam com a sauna e closes de Azis em roupas mínimas, cheias de lantejoulas.


(clique e veja o clipe de Hop)

Seus hits são contagiantes, outra música que recomendo para quem quiser conhecer é Sen Trope, que, na página azisofficialmusic, tem mais de três milhões e meio de acessos.

Seu visual andrógino exageradamente elaborado pode parecer de alguém fútil, mas ele é uma personalidade política importante na Bulgária, se casou com um, agora, ex-companheiro com quem tem uma filha e não teve sua união reconhecida no país, foi vice líder do Euroma, partido ultraliberal búlgaro, e luta pela visibilidade e direito dos ciganos na Europa.

Vi poucas coisas em português sobre ele nas minhas pesquisas, mas sei que tem uma geração que o conhece por essas bandas, muito pela zueira, mas alguns foram curtindo de verdade. Apresentei para uma colega de trabalho que ficou simplesmente alucinada por ele, com planos de ir para a Bulgária e tudo e eu ainda nem sei o quanto tinha de brincadeira ou verdade nessa história toda.

Mas Azis é pra isso tudo mesmo. Delícia demais!

*boate de São Paulo

.

Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #3

Facada no Além do Muro

Anote na agenda! Em 26/8, sábado, acontece o 40º Além do Muro (ADM), um dos maiores encontros de jogos de tabuleiro de São Paulo. Promovido bimestralmente em Jundiaí, reúne jogadores de várias partes do interior paulista.

O Facada X é um dos patrocinadores do evento e traz uma novidade: o próximo ADM terá um convidado especial Jack Explicador, do Canal Meeple Maniacs, um pioneiro na produção de vídeos de regras e gameplays sobre boardgames.

JACK no ADM

A ação é uma parceria dos organizadores do ADM com All The Things, Arcano Games, BG Express, Facada x, Flick Game Studio, Kronos Games e Redbox Editora.

Relembre da nossa cobertura sobre o ADM de fevereiro!

E aí? Vamos nos encontrar lá?

Mais informações: Além do Muro

Acho que ele me chamou

por Roberta AR

Acho que ele me chamou de novo. Será que foi ele? Vou lá olhar. Está dormindo, deve ter sonhado algo. Tão bonito assim, dando risadinha sonhando.

Estou cansada, não consigo falar frases compostas mais. O pensamento não acompanha. Nunca mais uma noite com mais de cinco horas de sono consecutivas. E essas cinco horas são raras, bem raras.

Eu gosto de dormir, preciso, isso me deixa meio paranoica, isso de não dormir decentemente. Aliás, me deixa mais paranoica. Mas me dá uma satisfação ver que estou dando conta, que está crescendo saudável, fisicamente, emocionalmente, mentalmente.

Ele acorda e me chama, angustiado porque está crescendo e isso é difícil. Tentamos deixar as coisas mais fáceis para ele, mesmo que sejam pesadas para a gente, mas isso não tem nada a ver com ele.

Ah, sim, a paranoia. Eu sinto medo do abandono o tempo todo. Sinto que ele vai ser abandonado quando chora, mas não por mim, é um abandono ancestral, o que eu sinto. O abandono que eu mesma sofri. “É melhor ter pais ausentes do que nenhum”, diz a pessoa que não tem ideia do que está falando.

Eu tinha sonhos estranhos quando era criança, desde muito pequena. Um dia sonhei que uma equipe de agentes federais invadia a minha casa e me dizia que aqueles não eram meus pais, mas robôs disfarçados que me roubaram. E que iam me levar para casa, finalmente. Acordava sobressaltada, uma alegria que se dissipava assim que eu percebia que era só sonho. E foram vários do tipo, com variações dos sequestradores, que eram alienígenas, agentes soviéticos (ah, os filmes americanos…).

Uma vez sonhei que estava no quintal, era uma noite muito fria, daquelas que dava geada na madrugada, o céu bem limpo e eu pedia ajuda para alguém, qualquer um, e o vira-lata, aquela paródia do super homem que em inglês chama underdog, descia e me resgatava. A sensação de estar voando para longe, qualquer lugar, era maravilhosa. Ainda lembro direitinho.

Hoje, aqui, em casa, sinto o sobressalto do abandono quando olho para ele pequeno dormindo na cama. Medo de que ele sinta isso. Será que meu afeto basta? Será que tem afeto em mim? Sinto que secaram minha fonte lá atrás, me deixaram seca de afeto, mas sei, e isso é diferente de sentir, que não é assim. O que falta, falta para mim e daquelas pessoas. A mãe que está em mim é meio capenga e está fazendo tudo surgir do zero, reflexivamente, racionalmente, deixando brotar algo que alimente a si mesma também.

É uma oportunidade de cicatrizar, sinto que estamos nesse caminho, mas não sem ficar uma quelóide ou algo assim que poderia ilustrar o que sinto.

E ainda tem que proteger das cobranças emocionais de relações tóxicas o tempo todo, da chantagem de quem acha que afeto é um direito e não algo a ser cultivado com respeito e cuidado. Ter que ser a vilã num mundo que não está nem aí para a saúde emocional e mental de ninguém. Tem gente realmente interessada em desequilibrar a vida alheia e assistir a tudo desabando. Eu sei que isso vem de quem está em sofrimento profundo, o que torna tudo ainda mais difícil.

Quanto tempo desde que ele me chamou? Cinco minutos? Será que consigo relaxar e dormir agora ou será mais quanto tempo pensando nisso tudo de novo e de novo? Amanhã tem que lavar aquela roupa, o texto que estou devendo…