Pinturas de Hale Asaf

por Hale Asaf*

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Jeune Femme, s.d.

 

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La Charrette, s.d.

 

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La Lecture au Coin du Feu, s.d.

 

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Autorretrato

veja post em Female Artists in History

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*Hale Asaf, originalmente Salih, (1905 – 1938) foi uma pintora turca de ascendência georgiana e circassiana. Ela era sobrinha da primeira artista mulher da Turquia, Mihri Müşfik Hanim. Ao contrário de muitos artistas turcos de sua época, inspirados pelo impressionismo e pelos movimentos de arte clássica, ela foi uma importante defensora do cubismo na Turquia. Essa influência é vista especialmente em seus autorretratos, retratos e pinturas de natureza-morta.

Casamento e amor

por Emma Goldman*

A noção popular em torno do casamento e do amor é a de que eles são sinônimos, que eles afloram das mesmas razões e preenchem as mesmas carências humanas. Como tantas outras noções populares, também esta não repousa em fatos concretos, mas sob superstições.

Casamento e amor não possuem nada em comum; estão tão apartados como pólos; e de fato, são antagônicos entre si. Sem dúvidas, certos casamentos são resultado do amor. Entretanto, não é porque o amor só se afirma em casamento; é antes porque poucas pessoas conseguem superar completamente uma convenção. Para um grande número de homens e mulheres hoje em dia, o casamento nada é senão uma farsa, mas a ele se submetem por amor à opinião pública. Em todo caso, enquanto é verdade que certos casamentos baseiam-se no amor e enquanto é igualmente verdade que certas vezes o amor continua durante a vida conjugal, eu sustento que isso se dá independentemente do casamento e não devido a ele.

Por outro lado, é completamente falso que um casamento possa resultar em amor. Um caso milagroso se faz ouvir, em raras ocasiões, de cônjuges se apaixonarem depois de já estarem casados, mas num exame minuncioso encontraremos aí um mero ajuste ao inevitável. Certamente a habituação mútua estará bem distante da espontaneidade, da intensidade e da beatitude do amor, sem os quais a intimidade do casamento se revelaria degradante para ambos homem e mulher.

O casamento é em primeiro lugar um arranjo econômico, um contrato de seguro. Só difere do contrato comum precisamente naquilo que este tem de mais compulsório, de mais exigente. Os retornos são insignificantemente pequenos se comparados ao investimento. Quando contratamos uma apólice de seguro, pagamos por ela em dólares e centavos, mas sempre nos resta a liberdade de descontinuar o pagamento. Contudo, se o prêmio do seguro for um marido, a mulher pagará por isso com o seu nome, com a sua privacidade, com a sua auto-estima e com sua própria vida “até que a morte os separe”. Além do que, o contrato do casamento a condena a uma dependência vitalícia, ao parasitismo, a completa inutilidade individual bem como social. O homem paga também a sua parte, mas como sua esfera é maior, o casamento não o limita tanto como à mulher. Ele sente suas correntes pesarem mais num sentido econômico.

E assim o mote do Inferno de Dante se aplica ao casamento com a mesma força. “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”.

Somente alguém coompletamente estúpido negaria que o casamento é um fracasso. Basta relancear a vista sobre as estatísticas do divórcio para compreender como é verdadeiramente amargo um casamento fracassado. Tampouco o argumento filisteu estereotipado, o da lassidão das leis do divórcio e o da crescente frouxidão da mulher, dará conta do fato de que: em primeiro, cada décimo segundo casamento termina em divórcio; segundo, que desde 1870 os divórcios cresceram de 28 para 73 a cada população de cem mil; terceiro, que o adultério, desde 1867, como causa do divórcio cresceu 280.7 por cento; quarto, que a deserção aumentou em 369.8 por cento.

Somado a estes números surpreendentes, há ainda um vasto material dramático e literário melhor elucidando o assunto. Robert Herrick, em Together; Pinero, em Mid-Channel; Eugene Walter, emPaid in Full, e dezenas de outros escritores estão discutindo a aridez, a monotonia, a sordidez, e a inadequação do casamento como fator de harmonia e entendimento.

O estudioso social sério não se contentará com a superficial desculpa popular para este fenômeno. Ele terá de escavar a vida mesma dos sexos profundamente adentro para conhecer o porque de o casamento revelar-se tão desastroso.

Edward Carpenter diz que, por detrás de todo casamento, persiste uma ambiência vitalícia dos dois sexos; ambiências tão diferentes entre si que homem e mulher permanecem estranhos. Separados por uma muralha intransponível de superstição, costume, e hábito, o casamento não tem a potencialidade de desenvolver o conhecimento e o respeito mútuo, sem o que toda união está destinada ao fracasso.

Henrik Ibsen, o inimigo de toda farsa social, foi provavelmente o primeiro a conceber esta grande verdade. Nora largou o marido, não porque – como queria a crítica estúpida – estaria cansada de suas responsabilidades ou sentia a necessidade dos direitos da mulher, mas porque veio saber que, durante oito anos convivera com um estranho e agora deu a luz a uma criança sua. Pode haver qualquer coisa de mais humilhante, de mais degradante do que a proximidade vitalícia entre dois estranhos? Não é preciso que a mulher conheça nada do homem, salvo sua renda. Quanto ao conhecimento da mulher – o que há para se conhecer exceto se ela possui uma boa aparência? Não superamos ainda o mito teológico de que a mulher não possui alma, que ela é meramente um apêndice do homem, feita de sua costela apenas para sua conveniência, este que de tão forte ficara com medo da própria sombra.

Porventura da má qualidade do material, donde a mulher tornou-se responsável por sua própria inferioridade. Em todo caso, mulher não tem alma – o que há para se conhecer nela? Além do que, quanto menos alma tem uma mulher, maior seu tino para esposa, o mais prontamente irá absorver-se ao marido. É essa servil aquiescência à superioridade do homem que manteve a instituição do casamento aparentemente intacta por um tempo tão longo. Mas agora que a mulher está vindo a si, agora que ela está cada vez mais consciente de si como um ser exterior à graça do mestre, a sagrada instituição do casamento gradualmente vai sendo minada, e nenhum bocado de lamentação sentimental poderá evitá-lo.

Quase que desde a infância, é dito às garotas comuns que o casamento é o seu objetivo final; portanto seu treino e sua educação têm de ser direcionados para esse fim. Como a besta muda na engorda, vai sendo preparada para o abate. Mas para ela, estranho dizer, é permitido conhecer muito menos sobre sua função como esposa e mãe do que para o artesão comum sobre seu ofício. Para uma garota respeitável, é indecente e imundo conhecer qualquer coisa da relação marital. Oh, pela incoerência da respeitabilidade, requerer votos de casamento para tornar algo imundo no mais puro e sagrado arranjo que ninguém ousa questionar ou criticar. Mas é exatamente esta a atitude do entusiasta comum do casamento. A futura esposa e mãe é mantida na mais completa ignorância em torno de sua única inclinação no campo competitivo — o sexo. E assim ela entra numa relação vitalícia com um homem para ver-se chocada, repelida e ultrajada além da medida por seu instinto mais saudável e natural, o sexo. É seguro dizer que uma grande percentagem da infelicidade, miséria, aflição e sofrimento físico do matrimônio se devem à ignorância criminosa em matéria de sexo que anda sendo exortada como uma grande virtude. Tampouco é de todo um exagero quando digo que devido a este fato deplorável, mais de um lar foi desfeito.

Entretanto, se a mulher for livre e grande o bastante para aprender sem a sanção do Estado ou da Igreja o mistério do sexo, será condenada como absolutamente imprópria para ser esposa de um “bom” homem, sua bondade consistindo de um cérebro vazio e uma carteira cheia. Poderia haver alguma coisa mais ultrajante do que a ideia de que uma mulher saudável, em plena idade, cheia de paixão e vida, ter de negar as exigências da natureza, ter de reprimir seu desejo mais intenso, minar sua saúde e quebrantar seu espírito, ter de aturdir sua visão e abster-se da profundidade e da glória da experiência do sexo, até que venha um “bom” homem para tomá-la como esposa? É precisamente isto o que significa o casamento. Como poderia um arranjo como este terminar exceto em fracasso? Este é apenas um fator, embora não o menos importante, que diferencia o casamento do amor.

A nossa era é prática. O tempo em que Romeu e Julieta arriscaram-se à fúria dos pais por amor, em que Gretchen expôs-se ao falatório dos vizinhos por amor, já era. Se, em raras ocasiões, pessoas jovens se permitem à luxúria do romance, em seguida os mais velhos cuidam para que, após pregados e martelados, se tornem “sensatos”.

A lição moral instilada na garota não é a de se o homem arrebatou o seu amor, mas: o “Quanto?”. O único Deus importante da vida prática americana: o homem consegue ganhar a vida? Consegue sustentar uma esposa? Esta é a única coisa que justifica o casamento. Gradualmente isto de todo satura o pensamento da garota; seus sonhos já não são de luares e beijos, risos e lágrimas; agora sonha em ir às compras e às boas pechinchas. Tal sordidez e pobreza da alma são elementos inerentes à instituição do casamento. O Estado e a Igreja aprovam esse ideal e não outro, simplesmente porque esse é o ideal que necessita que o Estado e a Igreja controle homens e mulheres.

Indubitavelmente há as pessoas que continuam considerando o amor superior a dólares e centavos. E isto é particularmente verdade para a classe daqueles cuja necessidade econômica forçou a que se auto-sustentassem. A tremenda mudança na posição da mulher operada por este poderoso fator é, de fato, fenomenal quando refletimos que há só um curto período desde o ingresso da mulher na arena industrial. Seis milhões de mulheres assalariadas; seis milhões de mulheres com direitos iguais aos homens de serem exploradas, roubadas, ir à greve, e ai, até mesmo de passar fome. Algo mais, my lord? Sim, seis milhões de trabalhadoras em todas as ocupações, desde o mais elevado trabalho intelectual até as minas e ferrovias, até mesmo detetives e policiais. Com certeza a emancipação está completa.

Apesar disso tudo, só um número muito pequeno do vasto exército das mulheres trabalhadoras enxerga o seu trabalho como situação permanente, na mesma luz que um homem o faz. Não importa quão decrépito seja este último, ele foi ensinado a ser independente, a se auto-sustentar. Oh, eu sei que ninguém é verdadeiramente independente em nossa moenda econômica; e mesmo o espécime mais miserável de homem odeia ser um parasita; ou, em todo caso, pelo menos ser reconhecido como tal.

A mulher considera transitória sua posição como trabalhadora, a ser deixada de lado pelo primeiro pretendente. É este o porque de ser infinitamente mais difícil organizar mulheres do que homens. “Porque devo me filiar a um sindicato? Vou me casar, ter um lar”. Ela desde a infância não foi ensinada a enxergar isso como sua convocação última? Ela aprende cedo o bastante que, apesar de não tão grande como a prisão de uma fábrica, o lar tem portões e grades ainda mais sólidas. Possui um guardião tão fiel que nada lhe pode escapar. A parte mais trágica, entretanto, é que o lar não a liberta da escravidão assalariada; apenas aumenta seus afazeres.

De acordo com as mais recentes estatísticas submetidas diante de um Comitê “em torno do trabalho, salários e congestão da população”, apenas em Nova York, dez por cento das trabalhadoras assalariadas são casadas, ainda que continuem no trabalho mais mal pago do mundo. Some a esta visão horrível o peso do serviço doméstico e o que resta da proteção e da glória do lar? Como matéria de fato, até a garota classe-média não pode falar sobre um lar seu no casamento, desde que é o homem que cria sua esfera. Não é importante se o marido é um bruto ou um doce. O que desejo provar é que o casamento só garante um lar à mulher pela graça do marido. Ela gira em torno do lar dele, ano após ano, até que sua visão de vida e de relações humanas se torne tão rasa, estreita, e tediosa, como seu entorno. Pouco admira se ela vir a ser resmungona, trivial, arengueira, faladeira, insuportável, e expulsando assim o homem da casa. Se ela quisesse, não poderia ir; não há lugar para onde ir. Além do que, um curto período de vida conjugal, de completa rendição de todas as faculdades, incapacita absolutamente a mulher comum para o mundo exterior. Ela se torna indiferente à aparência, desajeitada em seus movimentos, dependente em suas decisões, covarde em seu julgamento, um fardo e um aborrecimento, cuja maioria dos homens cresce para odiar e desprezar. Atmosfera maravilhosamente inspiradora para o desenrolar da vida, não?

Mas e a criança, como será protegida sem o casamento? Afinal de contas, não é esta a consideração mais importante a se fazer? A farsa, a hipocrisia! O casamento protegendo a criança, mas centenas de crianças abandonadas e sem lar. O casamento protegendo a criança, mas orfanatos e reformatórios lotados, a Sociedade pela Prevenção de Crueldade a Criança ocupadíssima resgatando as pequenas vítimas dos pais “amorosos”, para colocá-las sob cuidados ainda mais amorosos, como os da Gerry Society. Oh, mas que pilhéria!

Pode até ser que o casamento leve o cavalo até a água, mas conseguirá fazer com que a beba? A lei coloca o pai na detenção, veste-o com uniforme penitenciário; mas alguma vez matou a fome de seus filhos? Se o pai não tem emprego, ou se oculta sua identidade, o que faz então o casamento? Invoca a lei para levar o homem à “justiça”, colocá-lo em segurança atrás dos portões fechados; seu trabalho, no entanto, não vai para criança, mas para o Estado. A criança só recebe uma memória enferrujada das listras do pai.

Com relação à proteção da mulher — aí reside a verdadeira maldição do casamento. Ele não as protege em absoluto, e essa ideia mesma é tão revoltante quanto um ultraje e um insulto à vida, tamanha degradação ele promove à dignidade humana, que se declara para sempre esta instituição como parasitária.

Bem como aquele outro arranjo paternalista — o capitalismo. Rouba os direitos do homem, aturde seu crescimento, envenena seu corpo, o submete à ignorância, à pobreza, à dependência, e então vai e promove caridades que vingam sobre os últimos vestígios do autorrespeito humano.

A instituição do casamento faz da mulher uma parasita completa, uma dependente absoluta. Incapacita-a para a luta da vida, aniquila a sua consciência social, paralisa a sua imaginação, e então vai e concede sua graciosa proteção que na realidade é meramente uma armadilha, travestida de caráter humano.

Se a maternidade é a mais elevada realização da natureza da mulher, que outra proteção exigiria além de amor e liberdade? O casamento só contamina, ultraja, e corrompe esta realização. Não é ele que diz à mulher: somente darás à luz se me seguires? Não é ele que a degrada e a humilha quando ela se recusa a vender-se junto com seu direito à maternidade? Não é o casamento apenas uma sanção para a maternidade, até mesmo quando a criança é concebida por ódio, por compulsão? Mas quando a maternidade é fruto da livre escolha, do amor, do êxtase, da paixão desafiante, não é o casamento que vai e encrava uma coroa de espinhos numa cabeça inocente e grafa em letras de sangue o epíteto hediondo de Bastardo? Posto que o amor contivesse o casamento todas as virtudes alegadas, seus crimes contra a maternidade bastariam para excluí-lo eternamente do reino do amor.

Amor, o mais forte e mais profundo elemento de toda a vida, o anunciador da esperança, da alegria, do êxtase; amor, o desafiador de todas as leis, de todas as convenções; amor, o libérrimo, poderosíssimo modelador do destino humano; como pode uma força que a tudo compele ser sinônimo daquela pobre erva daninha gerada pela Igreja e o Estado, o casamento?

Amor livre? Como se o amor pudesse ser de outro modo que não livre! O homem comprou cérebros, mas todos os milhões de cérebros do mundo fracassaram em comprar o amor. O homem subjugou corpos, mas todo o poder na terra foi incapaz de subjugar o amor. O homem conquistou nações inteiras, mas todos os seus exércitos não conseguiram conquistar o amor. O homem agrilhoou e acorrentou e o espírito, mas é absolutamente indefeso diante do amor. Do alto dos tronos, com todo o esplendor e a pompa que o ouro pode comandar, o homem ainda é pobre e desolado se o amor não o perpassa. Mas quando o amor permanece, o casebre mais pobre irradia calor, cor e vida. E assim, o amor possui o poder mágico de tornar um mendigo em um rei. Sim, o amor é livre; não pode habitar outra atmosfera. Em liberdade se dá sem reservas, abundantemente, completamente. Todas as leis nos estatutos, todos os tribunais do universo, não podem arrancá-lo da terra, uma vez que o amor finque suas raízes. Entretanto, se o solo é estéril, como poderia o casamento fazê-lo fruir? Seria como a última luta desesperada da fugacidade da vida contra a morte.

O amor não precisa de proteção; ele é sua própria proteção. Tão logo vidas sejam geradas pelo amor, nenhuma criança é desertada, passa fome ou vontade de afeto. Que isto é verdade, eu o sei. Conheço mulheres que se tornaram mães em liberdade dos homens que amaram. Poucas crianças na relação aproveitam o cuidado, a proteção e a devoção que a maternidade livre é capaz de conceder.

Os defensores da autoridade temem o advento da maternidade livre, com receio de que ela roube suas vítimas. Quem combateria nas guerras? Quem geraria a riqueza? Quem faria o papel do policial, do carcereiro, se a mulher se recusasse à reprodução indiscriminada de crianças? A raça, a raça! – grita o rei, o presidente, o capitalista, o padre. A raça deve ser preservada, embora a mulher degradada à mera máquina reprodutora — e a instituição do casamento é a nossa única válvula de segurança contra o pernicioso despertar sexual da mulher. Mas em vão todos estes esforços frenéticos para perpetuar um estado de sujeição. Em vão, também todos os éditos da Igreja, o enlouquecido ataque dos governantes, em vão, até mesmo os braços da lei. A mulher já não quer mais tomar parte na reprodução de uma raça de seres humanos doentis, débeis, decrépitos, miseráveis, que não possuem nem a coragem nem a força moral para se libertarem de seus fardos de pobreza e escravidão. Pelo contrário, ela deseja ter poucas crianças, mas crianças superiores, geradas e criadas no amor e pela livre escolha; não por compulsão, como imputa o casamento. Nossos falsos-moralistas ainda têm de aprender o profundo senso de responsabilidade com a criança que o amor em liberdade despertou no seio da mulher. Seria melhor renunciar para sempre a glória da maternidade do que dar à luz numa atmosfera onde só se pode respirar destruição e morte. E se ela se torna mãe, é para dar à criança o mais profundo e o melhor que seu ser pode oferecer. Crescer com a criança é seu mote; e ela sabe que somente desse modo é que pode ajudar a construir a verdadeira masculinidade e feminilidade.

Ibsen deve ter vislumbrado uma mãe livre, quando, num golpe de mestre, retratou Ms. Alving. Ela foi uma mãe ideal por superar o casamento e todos os seus horrores, por romper suas correntes, e libertar o espírito para voar, até que uma personalidade, regenerada e forte, lhe retornasse. Ai! Foi demasiado tarde para recuperar sua alegria de viver, seu Oswald; mas não demasiado tarde para compreender que o amor em liberdade é a única condição para uma vida bela. Aquelas que, feito Ms. Alving, que pagaram com sangue e lágrimas por seu despertar espiritual, repudiam o casamento como uma imposição e uma pilhéria sem graça, de baixo nível. Elas sabem que apenas o amor, quer dure apenas um breve espaço de tempo ou dure pela eternidade, é a única base criativa, inspiradora e elevada para uma nova raça e para um novo mundo.

Em nosso presente estado pigmeu, para a maioria das pessoas, o amor é, de fato, um estranho. Incompreendido e evitado, raramente finca suas raízes, e quando o faz, tão logo seca e morre. Suas fibras delicadas não suportam o stress e a tensão do cotidiano maçante. Sua alma é complexa demais para ajustar-se à trama viscosa de nosso tecido social. O amor lamenta, sofre e chora por aqueles que dele precisam, mas carecem da capacidade de elevar-se aos seus cumes mais altos.

Um dia, um dia homens e mulheres se elevarão, eles alcançarão o pico da montanha, se encontrarão grandes e fortes e livres, prontos para receber, partilhar, e refestelar-se nos raios dourados do amor. Que fantasia, que imaginação, que gênio poético pode entrever, ainda que aproximadamente, as potencialidades de tal força na vida dos homens e mulheres. Se o mundo alguma vez dará à luz a verdadeira união e companheirismo, não será o casamento, mas o amor a concebê-lo.

Texto originalmente compartilhado por anarquistas.net neste link

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*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

Fotos de Anna Atkins

por Anna Atkins*

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*Anna Atkins (1799 – 1871) foi uma botânica e fotógrafa inglesa. Muitos consideram-na a primeira pessoa a publicar um livro ilustrado com imagens fotográficas. Algumas fontes afirmam que ela foi a primeira mulher a criar uma fotografia.

Dói

por Roberta AR

Isso dói, já disse.
Deixa pra lá, ele me responde.
Mas dói, continua doendo.
Você é mais forte, ela diz.
Tá doendo muito!
Olha lá a louca!, ouço o coro.
Me afasto, respiro.
E vejo alguém que me olha sem julgar.
Sozinha.
E algo em mim dói menos

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poema resultado da oficina “Empoderamento Poético”, da poeta Marina Mara, e transformado em lambe-lambe

Fotografias de Harriet Brims

por Harriet Brims*

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StateLibQld_1_132613_Boating_on_the_Seymour_River,_near_Ingham,_ca._1890-1900

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autorretrato

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*Harriet Pettifore Brims (1864-1939) foi uma fotógrafa comercial pioneira em Queensland, Austrália.  Ela abriu um estúdio fotográfico em Ingham, Queensland, antes de se mudar para Mareeba em 1904. Seu trabalho fotográfico fornece informações sobre pessoas e lugares nos dias pioneiros de North Queensland.

Uma visão da Grécia por Vera Willoughby

por Vera Willoughby*

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Itea from Delphi

 

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Kithaeron

 

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Klytemnestra
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Marathonikes
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Mount Ida, Krete
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Olympus
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Philippides
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Salamis
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Salamis from Aegina
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Selene – The Parthenon
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The foothills of Pentelikon, Marathon
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The foothills of Pentelikon, Marathon

 

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The Lion Gate, Mycenae
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The toilette of Ariadne
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The vengeance of Orestes

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*Vera Willoughby (1870-1939) era um ilustradora, pintora e artista de cartaz britânica de origem húngara. Sob o nome de Vera Petrovna, ela também criou desenhos e ilustrações de bailarinas.

Minorias versus maiorias

por Emma Goldman*

Se eu fosse resumir a tendência de nossos tempo seu diria: quantidade. A multidão, o espírito de massa,domina tudo, destruindo a qualidade. Nossa vida toda —produção, políticas e educação —, baseia-se em quantidade, em números. O trabalhador, que antes se orgulhava da qualidade e da minúcia de seu trabalho, é substituído por autômatos incompetentes e descerebrados,que despejam enormes quantidades de coisas, sem qualquer valor para eles, e geralmente prejudiciais para o resto da humanidade. Deste modo, ao invés de trazer paz e conforto para a vida, a quantidade apenas ampliou o fardo do homem.

Na política, somente a quantidade importa. Proporcionalmente a esse aumento, porém, os princípios, os ideais, a justiça e a honradez são engolidos por um mar de números. Na luta pela supremacia, os vários partidos se superam em mentiras, fraudes, astúcias e tramas duvidosas, seguros de que, aquele que obtiver êxito será aclamado pela maioria como o vencedor. Este é seu único deus, — o Sucesso. Às expensas do quê? A qual terrível custo do caráter? Esse é o ponto crucial. Não é preciso ir muito longe para comprovar esse triste fato.

Nunca antes a corrupção, a completa podridão de nosso governo, se expôs tão claramente; jamais foi tão explícito ao povo americano o caráter pérfido do corpo político, o qual por anos reivindicou estar acima de qualquer acusação, ser a base de nossas instituições e o verdadeiro protetor dos direitos e liberdades do povo.

Contudo, quando os crimes deste grupo se tornaram tão descarados que até um cego poderia enxergá-los, foi preciso apenas que se convocassem seus agentes para assegurar a sua supremacia. Assim, as vítimas, enganadas, traídas e ultrajadas uma centena de vezes, se colocaram, não contra, mas a favor do vencedor. Perplexos, alguns questionaram: como a maioria pôde trair as tradições da liberdade americana? Qual o critério, qual a lógica? Mas é exatamente isso, a maioria não pode justificar, não há discernimento. Sem qualquer originalidade e valor moral, a maioria sempre colocou o seu destino nas mãos de outros. Incapazes de assumir responsabilidades, preferiram seguir seus líderes ainda que para a destruição. Dr. Stockmann estava certo: “Os inimigos mais perigosos da justiça e da verdade em nosso meio são as maiorias compactas, as malditas maiorias compactas.” Sem ambição ou iniciativa, a massa compacta odeia a inovação mais do que tudo. Sempre se opôs, condenou e desprezou qualquer um que inovasse, que sugerisse uma nova verdade.

O slogan mais repetido em nossos tempos, entre todos os políticos, incluindo os socialistas, é que vivemos numa era de individualismo, de minorias. Apenas aqueles que não se preocupam em sondar nada além da superfície, poderiam concordar com tal ideia. Não é na mão de poucos que está a riqueza do mundo? Não são eles os mestres, reis absolutos da situação? Seu sucesso, entretanto, não é devido ao individualismo, mas à inércia, à covardia, à absoluta submissão da massa. Esta quer ser dominada, liderada e coagida. Quanto ao individualismo, em nenhum momento da história da humanidade, este teve tão poucas chances e oportunidades de se expressar e se afirmar de maneira normal e saudável.

O educador individual permeado pela honestidade de seu propósito, o artista ou escritor de ideias originais, o explorador ou cientista independente, os pioneiros das mudanças sociais descomprometidas, são diariamente colocados na parede por aqueles cujo aprendizado e habilidades criativas foram definhando com o passar dos anos.

Educadores como Ferrer não são tolerados em parte alguma, enquanto que dietistas de comida pré-digerida, à la professores Eliot e Butler, são os bem-sucedidos perpetuadores de uma época de autômatos e nulidades. No mundo do drama e da literatura, Humphrey Wards e Clyde Fitches são os ídolos da massa, enquanto que apenas alguns apreciam ou conhecem a beleza e o gênio de Emerson, Thoreau, Whitman; um Ibsen, um Hauptmann ,um Butler Yeats, ou um Stephen Philips. Estes são como estrelas solitárias, para além do horizonte da multidão.

Editores, gerentes teatrais e críticos, não se perguntam sobre a qualidade inerente à arte, mas se terá uma boa vendagem. Servirá ao paladar do povo? Ah! Esse paladar é um depósito de lixo; saboreia-se qualquer coisa que não exija esforço mental. Como resultado, o medíocre, o banal, o lugar-comum estabelecem a maior parte da produção literária.

Preciso dizer que o mesmo ocorre com as artes plásticas? Basta observar os parques e vias públicas para perceber o horror e a vulgaridade da arte industrializada. Certamente somente o gosto da maioria poderia suportar tamanho insulto à arte. Falso em sua concepção e primitivo em sua execução, os monumentos que infestam as cidades americanas têm com a arte, a mesma relação de um totem com Michelangelo. Não obstante, é a única arte que tem algum reconhecimento. O verdadeiro gênio artístico, aquele que não sustenta as noções estabelecidas, que exercita sua originalidade e se preocupa em ser verdadeiro diante da vida, segue uma existência obscura e miserável. Talvez algum dia seu trabalho caia no gosto da multidão, mas não antes que se tenha esgotado o sangue em suas veias; que tenha cessado o seu espírito desbravador, e um amontoado de gente sem visão nem ideais tenha matado a herança do mestre.

Diz-se que o artista de hoje não pode criar pois é um Prometeu acorrentado à pedra da necessidade econômica. Isso, porém, sempre ocorreu em todas as épocas. Michelangelo era dependente de seu mecenas tanto quanto um pintor ou escultor hoje em dia. A diferença é que os peritos em arte daquela época estavam longe da massa confusa. Sentiam-se honrados em poder reverenciar o altar do mestre.

O mecenas de nosso tempo conhece apenas um critério, um valor, o dólar. Não está preocupado com a qualidade de nenhum grande trabalho, mas apenas na quantidade de dólares que sua transação pode lhe render. Assim, como o homem das finanças, em Les Affairessont les Affaires, de Mirbeau, aponta para alguns arranjos de cores borradas dizendo: “Veja como é maravilhoso; custa 50.000 francos.” Exatamente como nossos novos-ricos. As quantias exorbitantes que pagam por suas descobertas artísticas pretendem compensar a pobreza do seu gosto.

O pecado mais imperdoável na sociedade é a independência do pensamento. Que isso possa ser tão evidente em um país cujo símbolo é a democracia, é muito significativo do tremendo poder da maioria.

Wendell Phillips disse cinquenta anos atrás: “Em nosso país de absoluta igualdade democrática, a opinião pública não é somente onipotente, mas também onipresente. Não há refúgio para sua tirania, não há como se esconder de seus objetivos, e o resultado é que se for usada a velha lanterna grega para procurar entre a multidão, não se encontrará um só americano que não tenha, ou não tenha imaginado ao menos, algo a ganhar ou perder, seja em sua ambição, vida social, ou negócios, da boa opinião e dos votos daqueles ao seu redor. A consequência é que, ao invés de ser uma massa de indivíduos, em que cada um fala de suas convicções sem medo e sem hesitação, somos na verdade, uma massa de covardes se comparados a outras nações. Mais do que qualquer um, temos medo uns dos outros.” Evidentemente não avançamos muito longe desta condição enfrentada por Wendell Phillips.

Hoje, como antes, a opinião pública é o tirano onipresente; hoje, como antes, a maioria representa uma massa de covardes ansiosa para aceitar aquele que espelhe a miséria de sua própria mente e alma. Isso ex-plica a ascensão sem precedentes de um homem como Roosevelt. Ele encarna o pior elemento da psicologia do populacho. Como político, ele sabe que para a maioria pouco importam ideais ou integridade. O que ela exige é o espetáculo. Não importa se é uma exposição de cães, uma luta por prêmios, o linchamento de um “criolo”, o cerco a algum infrator insignificante, o casamento de alguma herdeira, ou as palhaçadas de algum ex-presidente. Quanto mais abominável a contorção mental, melhor o deleite e aplausos da massa. Assim, ainda que de pobres ideais e alma vulgar, Roosevelt continua a ser o homem da vez.

Por outro lado, os homens que se elevam sobre os pigmeus da política, homens de refinamento, cultura, habilidade são ridicularizados como efeminados e assim, silenciados. É absurdo dizer que a nossa é uma era de individualismo. A nossa é apenas a mais pura repetição de um fenômeno da história: todo esforço para o progresso, para o esclarecimento, para a ciência, para a religião, liberdade econômica e política, tudo isso emanada minoria, e não da massa. Hoje, como sempre, estes poucos são mal compreendidos, desprezados, aprisionados, torturados e mortos.

O princípio da fraternidade, exposto pelo agitador de Nazaré, preservou o germe da vida, de justiça e liberdade, enquanto este era o farol luminoso para uma minoria. No momento em que a maioria tomou posse, este grande princípio passou a ser uma senha e um estandarte de sangue e fogo, espalhando sofrimento e desastre. O ataque à onipotência de Roma, liderado pelas figuras colossais de Huss, Calvino e Lutero, foi, por um instante um raio de luz na escuridão. Mas tão logo Calvino e Lutero se tornaram políticos e começaram a abastecer os pequenos potentados, a nobreza e o espírito popular, comprometeram as grandes possibilidades de Reforma. Eles ganharam prestígio e conquistaram a maioria, mas esta maioria se mostrou tão ou mais cruel e sanguinária na perseguição do pensamento e da razão como fora o monstro Católico. Infortúnio dos hereges, da minoria que não se curvou às suas ordens. Após tanto empenho, resignação e sacrifício, a mente humana se vê, ao menos, livre do fantasma da religião; a minoria segue em busca de novas conquistas, enquanto a maioria se arrasta incapacitada pela verdade que se torna falsa com o tempo.

De uma perspectiva política, se não fosse por John Balls, Wat Tylers, os Tells e outros incontáveis indivíduos excepcionais, que brigaram passo a passo contra o poder dos reis e tiranos, a raça humana ainda estaria na mais absoluta escravidão. Se não fosse por estes desbravadores, o mundo não teria sentido o abalo da Revolução Francesa. Grandes acontecimentos são geralmente precedidos de coisas aparentemente pequenas. Desta forma, a eloquência e o fogo de Camille Desmoulins foi como a trombeta diante de Jericó, arrasando as terras que simbolizavam a tortura, o abuso e o horror: a Bastilha.

Sempre, em todos os tempos, as minorias foram responsáveis por sustentar uma grande ideia, de forças liberadoras. Por outro lado, as massas foram sempre o peso morto que não permitia o movimento. Na Rússia isso ficou mais claro que em qualquer outro lugar. Milhares de vidas foram consumidas por aquele regime sanguinário, e, no entanto, o monstro no trono ainda não ficou satisfeito. Como é possível que tal atrocidade aconteça quando as ideias, a cultura, a literatura, as emoções mais delicadas e profundas fervem em baixo de uma mão de ferro? A maioria, esta massa compacta, imóvel, adormecida, o campesinato Russo, após um século de lutas, de sacrifícios, de misérias inenarráveis, continua a acreditar que a corda que estrangula “o homem das mãos brancas” traz sorte.

Na luta americana pela liberdade, a maioria não foi nada mais do que um bloco hesitante. A partir daí as ideias de Jefferson, Patrick Henry, Thomas Paine, foram negadas e traídas pela posteridade. A massa não quer nada deles. A grandiosidade e coragem admiradas em Lincoln, foram esquecidas nos homens que criaram a base para o panorama daquele tempo. Os verdadeiros santos protetores dos negros estavam representados por alguns poucos guerreiros de Boston, por Lloyd Garrison, Wendell Phillips, Thoreau, Margaret Fuller e Theodore Parker, cuja coragem e vigor culminaram neste gigante sombrio que foi John Brown. Seu incansável cuidado, sua eloquência e perseveança abalaram a fortaleza dos senhores sulistas. Lincoln e seus partidários prosseguiram apenas quando a abolição já se tornara uma prática habitual.

Há mais ou menos 50 anos, uma ideia meteórica apareceu no horizonte social do mundo, uma ideia tão distante, tão revolucionária, e que foi acolhida por todos para terror dos tiranos em toda a parte. Por outro lado, a ideia era um anúncio de alegria, celebração e esperança para milhões. Seus precursores sabiam dos obstáculos de seu caminho, sabiam das resistências, perseguições, das dificuldades que enfrentariam, mas orgulhosos e destemidos, começaram sua marcha adiante, sempre adiante. Agora aquela ideia se tornou um mote popular. Quase todos são socialistas hoje: tanto o rico, quanto sua pobre vítima; os defensores da lei e da ordem, e seus criminosos desafortunados; os livre-pensadores, assim como os perpetuadores de mentiras religiosas; a senhora elegante, e a garota mal vestida. Por que não? Agora que a verdade de cinquenta anos atrás se tornou uma mentira, agora que foi apartada de sua vigorosa imaginação e despojada de seu entusiasmo, de sua força, de seu ideal revolucionário, por que não? Agora que não é mais uma bela visão, mas “um esquema prático e funcional”, pautado pela vontade da maioria, por quê não? As artimanhas políticas sempre fazem uma apologia à massa: a pobre maioria, ultrajada, violentada, a gigantesca maioria, se ao menos pudessem nos seguir.

Quem não ouviu esta ladainha antes? Quem não conhece este refrão repetitivo de todo político? Que a massa sofre, que vem sendo extorquida e explorada, isso eu conheço tanto quanto os engodos do voto. Mas insisto que não é um punhado de parasitas, e sim a própria massa que é responsável por esta situação horrível. Prendem-se aos seus mestres, amam a chibata, e são os primeiros a clamar Crucifiquem! no momento em que surge uma voz contra a sagrada autoridade capitalista ou qualquer outra instituição decadente. Não obstante, quanto tempo mais poderia se manter a autoridade e a propriedade privada, se não fossem a vontade e disposição da massa de se tornarem soldados, policiais, carcereiros e algozes. A demagogia socialista sabe disso tanto quanto eu, mas mantém o mito da virtude da maioria pois seu projeto de vida está fundado na perpetuação do poder. E como essa perpetuação pode ser alcançada sem números? Sim, autoridade, coerção e a dependência se pautam na massa, mas nunca na liberdade ou na livre determinação do indivíduo, nunca no nascimento de uma sociedade livre.

Não porque eu não sinta como os oprimidos, como os deserdados da terra; não porque não saiba a vergonha, o horror, a indignidade da vida levada pelo povo, que eu repudio a maioria como força criativa. Oh, não, não! Mas porque eu sei que a massa compacta nunca lutou por justiça e igualdade. Ela suprimiu a voz dos homens, subjugou o espírito humano, acorrentou o corpo humano.

Como massa, seu objetivo foi sempre uma vida mais uniforme, cinzenta e monótona, como o deserto. Como massa, será sempre o exterminador da individualidade, da livre iniciativa, da originalidade. Assim como Emerson, acredito que “as massas são grosseiras, coxas, perniciosas em suas demandas e influências, e não precisam ser elogiadas, mas educadas. Eu desejaria não ter que conceder nada a elas, mas ensinar, dividir, quebrá-las e transformá-las em indivíduos. Massas! A calamidade são as massas. Eu não desejo massa alguma, mas apenas homens honestos, e mulheres doces, amáveis e completas.”

Em outras palavras, a verdade viva e vital do bem-estar econômico e social só se tornará realidade diante o zelo, coragem, determinação sem obrigações, de minorias inteligentes, e não por meio da massa.

Texto originalmente compartilhado por anarquistas.net neste link

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*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.