Dói

por Roberta AR

Isso dói, já disse.
Deixa pra lá, ele me responde.
Mas dói, continua doendo.
Você é mais forte, ela diz.
Tá doendo muito!
Olha lá a louca!, ouço o coro.
Me afasto, respiro.
E vejo alguém que me olha sem julgar.
Sozinha.
E algo em mim dói menos

IMG_20190529_172153059
poema resultado da oficina “Empoderamento Poético”, da poeta Marina Mara, e transformado em lambe-lambe

Fotografias de Harriet Brims

por Harriet Brims*

Harriett_Brims_on_location_in_the_Queensland_bush_ca._1880-1890_(24094186680)

StateLibQld_1_132613_Boating_on_the_Seymour_River,_near_Ingham,_ca._1890-1900

StateLibQld_1_132669_Inside_the_church_built_by_brothers_Marcus_and_William_Brims,_Mareeba,_ca._1904

StateLibQld_1_132705_Seventh_Day_Adventist_Church,_Red_Hill,_Brisbane,_1920-1930

StateLibQld_1_132709_Seymour_River,_near_Ingham,_in_flood,_1890-1900

StateLibQld_1_132717_Steam_boat_'Emilie'_under_construction,_Ingham,_ca._1890-1900

StateLibQld_1_132721_Timber_bound_for_D._G._Brims'_sawmill,_Milton,_Brisbane,_ca._1915

StateLibQld_1_132729_Two_women_in_front_of_a_photographic_studio_at_Ingham

StateLibQld_2_132737_View_of_Milton,_Brisbane,_with_the_Brisbane_Aircraft_and_Automotive_Engineering_company_in_the_foreground,_1926

Two_women_reading_on_a_verandah_at_Ingham,_ca._1894-1903_(6752478685)

Self_portrait
autorretrato

.

*Harriet Pettifore Brims (1864-1939) foi uma fotógrafa comercial pioneira em Queensland, Austrália.  Ela abriu um estúdio fotográfico em Ingham, Queensland, antes de se mudar para Mareeba em 1904. Seu trabalho fotográfico fornece informações sobre pessoas e lugares nos dias pioneiros de North Queensland.

Uma visão da Grécia por Vera Willoughby

por Vera Willoughby*

Itea_from_Delphi_-_Willoughby_Vera_-_1925
Itea from Delphi

 

Kithaeron_-_Willoughby_Vera_-_1925
Kithaeron

 

Klytemnestra_-_Willoughby_Vera_-_1925
Klytemnestra
Marathonikes_-_Willoughby_Vera_-_1925
Marathonikes
Mount_Ida,_Krete_-_Willoughby_Vera_-_1925
Mount Ida, Krete
Olympus_-_Willoughby_Vera_-_1925
Olympus
Philippides_-_Willoughby_Vera_-_1925
Philippides
Salamis_-_Willoughby_Vera_-_1925
Salamis
Salamis_from_Aegina_-_Willoughby_Vera_-_1925
Salamis from Aegina
Selene-The_Parthenon_-_Willoughby_Vera_-_1925
Selene – The Parthenon
The_foothills_of_Pentelikon,_Marathon_-_Willoughby_Vera_-_1925
The foothills of Pentelikon, Marathon
The_Judgement_of_Paris_-_Willoughby_Vera_-_1925
The foothills of Pentelikon, Marathon

 

The_Lion_Gate,_Mycenae_-_Willoughby_Vera_-_1925
The Lion Gate, Mycenae
The_toilette_of_Ariadne_-_Willoughby_Vera_-_1925
The toilette of Ariadne
The_vengeance_of_Orestes_-_Willoughby_Vera_-_1925
The vengeance of Orestes

Theseus_and_Ariadne_-_Willoughby_Vera_-_1925

A_Vision_of_Greece_-_Title_page_-_Willoughby_Vera_-_1925

.

*Vera Willoughby (1870-1939) era um ilustradora, pintora e artista de cartaz britânica de origem húngara. Sob o nome de Vera Petrovna, ela também criou desenhos e ilustrações de bailarinas.

Minorias versus maiorias

por Emma Goldman*

Se eu fosse resumir a tendência de nossos tempo seu diria: quantidade. A multidão, o espírito de massa,domina tudo, destruindo a qualidade. Nossa vida toda —produção, políticas e educação —, baseia-se em quantidade, em números. O trabalhador, que antes se orgulhava da qualidade e da minúcia de seu trabalho, é substituído por autômatos incompetentes e descerebrados,que despejam enormes quantidades de coisas, sem qualquer valor para eles, e geralmente prejudiciais para o resto da humanidade. Deste modo, ao invés de trazer paz e conforto para a vida, a quantidade apenas ampliou o fardo do homem.

Na política, somente a quantidade importa. Proporcionalmente a esse aumento, porém, os princípios, os ideais, a justiça e a honradez são engolidos por um mar de números. Na luta pela supremacia, os vários partidos se superam em mentiras, fraudes, astúcias e tramas duvidosas, seguros de que, aquele que obtiver êxito será aclamado pela maioria como o vencedor. Este é seu único deus, — o Sucesso. Às expensas do quê? A qual terrível custo do caráter? Esse é o ponto crucial. Não é preciso ir muito longe para comprovar esse triste fato.

Nunca antes a corrupção, a completa podridão de nosso governo, se expôs tão claramente; jamais foi tão explícito ao povo americano o caráter pérfido do corpo político, o qual por anos reivindicou estar acima de qualquer acusação, ser a base de nossas instituições e o verdadeiro protetor dos direitos e liberdades do povo.

Contudo, quando os crimes deste grupo se tornaram tão descarados que até um cego poderia enxergá-los, foi preciso apenas que se convocassem seus agentes para assegurar a sua supremacia. Assim, as vítimas, enganadas, traídas e ultrajadas uma centena de vezes, se colocaram, não contra, mas a favor do vencedor. Perplexos, alguns questionaram: como a maioria pôde trair as tradições da liberdade americana? Qual o critério, qual a lógica? Mas é exatamente isso, a maioria não pode justificar, não há discernimento. Sem qualquer originalidade e valor moral, a maioria sempre colocou o seu destino nas mãos de outros. Incapazes de assumir responsabilidades, preferiram seguir seus líderes ainda que para a destruição. Dr. Stockmann estava certo: “Os inimigos mais perigosos da justiça e da verdade em nosso meio são as maiorias compactas, as malditas maiorias compactas.” Sem ambição ou iniciativa, a massa compacta odeia a inovação mais do que tudo. Sempre se opôs, condenou e desprezou qualquer um que inovasse, que sugerisse uma nova verdade.

O slogan mais repetido em nossos tempos, entre todos os políticos, incluindo os socialistas, é que vivemos numa era de individualismo, de minorias. Apenas aqueles que não se preocupam em sondar nada além da superfície, poderiam concordar com tal ideia. Não é na mão de poucos que está a riqueza do mundo? Não são eles os mestres, reis absolutos da situação? Seu sucesso, entretanto, não é devido ao individualismo, mas à inércia, à covardia, à absoluta submissão da massa. Esta quer ser dominada, liderada e coagida. Quanto ao individualismo, em nenhum momento da história da humanidade, este teve tão poucas chances e oportunidades de se expressar e se afirmar de maneira normal e saudável.

O educador individual permeado pela honestidade de seu propósito, o artista ou escritor de ideias originais, o explorador ou cientista independente, os pioneiros das mudanças sociais descomprometidas, são diariamente colocados na parede por aqueles cujo aprendizado e habilidades criativas foram definhando com o passar dos anos.

Educadores como Ferrer não são tolerados em parte alguma, enquanto que dietistas de comida pré-digerida, à la professores Eliot e Butler, são os bem-sucedidos perpetuadores de uma época de autômatos e nulidades. No mundo do drama e da literatura, Humphrey Wards e Clyde Fitches são os ídolos da massa, enquanto que apenas alguns apreciam ou conhecem a beleza e o gênio de Emerson, Thoreau, Whitman; um Ibsen, um Hauptmann ,um Butler Yeats, ou um Stephen Philips. Estes são como estrelas solitárias, para além do horizonte da multidão.

Editores, gerentes teatrais e críticos, não se perguntam sobre a qualidade inerente à arte, mas se terá uma boa vendagem. Servirá ao paladar do povo? Ah! Esse paladar é um depósito de lixo; saboreia-se qualquer coisa que não exija esforço mental. Como resultado, o medíocre, o banal, o lugar-comum estabelecem a maior parte da produção literária.

Preciso dizer que o mesmo ocorre com as artes plásticas? Basta observar os parques e vias públicas para perceber o horror e a vulgaridade da arte industrializada. Certamente somente o gosto da maioria poderia suportar tamanho insulto à arte. Falso em sua concepção e primitivo em sua execução, os monumentos que infestam as cidades americanas têm com a arte, a mesma relação de um totem com Michelangelo. Não obstante, é a única arte que tem algum reconhecimento. O verdadeiro gênio artístico, aquele que não sustenta as noções estabelecidas, que exercita sua originalidade e se preocupa em ser verdadeiro diante da vida, segue uma existência obscura e miserável. Talvez algum dia seu trabalho caia no gosto da multidão, mas não antes que se tenha esgotado o sangue em suas veias; que tenha cessado o seu espírito desbravador, e um amontoado de gente sem visão nem ideais tenha matado a herança do mestre.

Diz-se que o artista de hoje não pode criar pois é um Prometeu acorrentado à pedra da necessidade econômica. Isso, porém, sempre ocorreu em todas as épocas. Michelangelo era dependente de seu mecenas tanto quanto um pintor ou escultor hoje em dia. A diferença é que os peritos em arte daquela época estavam longe da massa confusa. Sentiam-se honrados em poder reverenciar o altar do mestre.

O mecenas de nosso tempo conhece apenas um critério, um valor, o dólar. Não está preocupado com a qualidade de nenhum grande trabalho, mas apenas na quantidade de dólares que sua transação pode lhe render. Assim, como o homem das finanças, em Les Affairessont les Affaires, de Mirbeau, aponta para alguns arranjos de cores borradas dizendo: “Veja como é maravilhoso; custa 50.000 francos.” Exatamente como nossos novos-ricos. As quantias exorbitantes que pagam por suas descobertas artísticas pretendem compensar a pobreza do seu gosto.

O pecado mais imperdoável na sociedade é a independência do pensamento. Que isso possa ser tão evidente em um país cujo símbolo é a democracia, é muito significativo do tremendo poder da maioria.

Wendell Phillips disse cinquenta anos atrás: “Em nosso país de absoluta igualdade democrática, a opinião pública não é somente onipotente, mas também onipresente. Não há refúgio para sua tirania, não há como se esconder de seus objetivos, e o resultado é que se for usada a velha lanterna grega para procurar entre a multidão, não se encontrará um só americano que não tenha, ou não tenha imaginado ao menos, algo a ganhar ou perder, seja em sua ambição, vida social, ou negócios, da boa opinião e dos votos daqueles ao seu redor. A consequência é que, ao invés de ser uma massa de indivíduos, em que cada um fala de suas convicções sem medo e sem hesitação, somos na verdade, uma massa de covardes se comparados a outras nações. Mais do que qualquer um, temos medo uns dos outros.” Evidentemente não avançamos muito longe desta condição enfrentada por Wendell Phillips.

Hoje, como antes, a opinião pública é o tirano onipresente; hoje, como antes, a maioria representa uma massa de covardes ansiosa para aceitar aquele que espelhe a miséria de sua própria mente e alma. Isso ex-plica a ascensão sem precedentes de um homem como Roosevelt. Ele encarna o pior elemento da psicologia do populacho. Como político, ele sabe que para a maioria pouco importam ideais ou integridade. O que ela exige é o espetáculo. Não importa se é uma exposição de cães, uma luta por prêmios, o linchamento de um “criolo”, o cerco a algum infrator insignificante, o casamento de alguma herdeira, ou as palhaçadas de algum ex-presidente. Quanto mais abominável a contorção mental, melhor o deleite e aplausos da massa. Assim, ainda que de pobres ideais e alma vulgar, Roosevelt continua a ser o homem da vez.

Por outro lado, os homens que se elevam sobre os pigmeus da política, homens de refinamento, cultura, habilidade são ridicularizados como efeminados e assim, silenciados. É absurdo dizer que a nossa é uma era de individualismo. A nossa é apenas a mais pura repetição de um fenômeno da história: todo esforço para o progresso, para o esclarecimento, para a ciência, para a religião, liberdade econômica e política, tudo isso emanada minoria, e não da massa. Hoje, como sempre, estes poucos são mal compreendidos, desprezados, aprisionados, torturados e mortos.

O princípio da fraternidade, exposto pelo agitador de Nazaré, preservou o germe da vida, de justiça e liberdade, enquanto este era o farol luminoso para uma minoria. No momento em que a maioria tomou posse, este grande princípio passou a ser uma senha e um estandarte de sangue e fogo, espalhando sofrimento e desastre. O ataque à onipotência de Roma, liderado pelas figuras colossais de Huss, Calvino e Lutero, foi, por um instante um raio de luz na escuridão. Mas tão logo Calvino e Lutero se tornaram políticos e começaram a abastecer os pequenos potentados, a nobreza e o espírito popular, comprometeram as grandes possibilidades de Reforma. Eles ganharam prestígio e conquistaram a maioria, mas esta maioria se mostrou tão ou mais cruel e sanguinária na perseguição do pensamento e da razão como fora o monstro Católico. Infortúnio dos hereges, da minoria que não se curvou às suas ordens. Após tanto empenho, resignação e sacrifício, a mente humana se vê, ao menos, livre do fantasma da religião; a minoria segue em busca de novas conquistas, enquanto a maioria se arrasta incapacitada pela verdade que se torna falsa com o tempo.

De uma perspectiva política, se não fosse por John Balls, Wat Tylers, os Tells e outros incontáveis indivíduos excepcionais, que brigaram passo a passo contra o poder dos reis e tiranos, a raça humana ainda estaria na mais absoluta escravidão. Se não fosse por estes desbravadores, o mundo não teria sentido o abalo da Revolução Francesa. Grandes acontecimentos são geralmente precedidos de coisas aparentemente pequenas. Desta forma, a eloquência e o fogo de Camille Desmoulins foi como a trombeta diante de Jericó, arrasando as terras que simbolizavam a tortura, o abuso e o horror: a Bastilha.

Sempre, em todos os tempos, as minorias foram responsáveis por sustentar uma grande ideia, de forças liberadoras. Por outro lado, as massas foram sempre o peso morto que não permitia o movimento. Na Rússia isso ficou mais claro que em qualquer outro lugar. Milhares de vidas foram consumidas por aquele regime sanguinário, e, no entanto, o monstro no trono ainda não ficou satisfeito. Como é possível que tal atrocidade aconteça quando as ideias, a cultura, a literatura, as emoções mais delicadas e profundas fervem em baixo de uma mão de ferro? A maioria, esta massa compacta, imóvel, adormecida, o campesinato Russo, após um século de lutas, de sacrifícios, de misérias inenarráveis, continua a acreditar que a corda que estrangula “o homem das mãos brancas” traz sorte.

Na luta americana pela liberdade, a maioria não foi nada mais do que um bloco hesitante. A partir daí as ideias de Jefferson, Patrick Henry, Thomas Paine, foram negadas e traídas pela posteridade. A massa não quer nada deles. A grandiosidade e coragem admiradas em Lincoln, foram esquecidas nos homens que criaram a base para o panorama daquele tempo. Os verdadeiros santos protetores dos negros estavam representados por alguns poucos guerreiros de Boston, por Lloyd Garrison, Wendell Phillips, Thoreau, Margaret Fuller e Theodore Parker, cuja coragem e vigor culminaram neste gigante sombrio que foi John Brown. Seu incansável cuidado, sua eloquência e perseveança abalaram a fortaleza dos senhores sulistas. Lincoln e seus partidários prosseguiram apenas quando a abolição já se tornara uma prática habitual.

Há mais ou menos 50 anos, uma ideia meteórica apareceu no horizonte social do mundo, uma ideia tão distante, tão revolucionária, e que foi acolhida por todos para terror dos tiranos em toda a parte. Por outro lado, a ideia era um anúncio de alegria, celebração e esperança para milhões. Seus precursores sabiam dos obstáculos de seu caminho, sabiam das resistências, perseguições, das dificuldades que enfrentariam, mas orgulhosos e destemidos, começaram sua marcha adiante, sempre adiante. Agora aquela ideia se tornou um mote popular. Quase todos são socialistas hoje: tanto o rico, quanto sua pobre vítima; os defensores da lei e da ordem, e seus criminosos desafortunados; os livre-pensadores, assim como os perpetuadores de mentiras religiosas; a senhora elegante, e a garota mal vestida. Por que não? Agora que a verdade de cinquenta anos atrás se tornou uma mentira, agora que foi apartada de sua vigorosa imaginação e despojada de seu entusiasmo, de sua força, de seu ideal revolucionário, por que não? Agora que não é mais uma bela visão, mas “um esquema prático e funcional”, pautado pela vontade da maioria, por quê não? As artimanhas políticas sempre fazem uma apologia à massa: a pobre maioria, ultrajada, violentada, a gigantesca maioria, se ao menos pudessem nos seguir.

Quem não ouviu esta ladainha antes? Quem não conhece este refrão repetitivo de todo político? Que a massa sofre, que vem sendo extorquida e explorada, isso eu conheço tanto quanto os engodos do voto. Mas insisto que não é um punhado de parasitas, e sim a própria massa que é responsável por esta situação horrível. Prendem-se aos seus mestres, amam a chibata, e são os primeiros a clamar Crucifiquem! no momento em que surge uma voz contra a sagrada autoridade capitalista ou qualquer outra instituição decadente. Não obstante, quanto tempo mais poderia se manter a autoridade e a propriedade privada, se não fossem a vontade e disposição da massa de se tornarem soldados, policiais, carcereiros e algozes. A demagogia socialista sabe disso tanto quanto eu, mas mantém o mito da virtude da maioria pois seu projeto de vida está fundado na perpetuação do poder. E como essa perpetuação pode ser alcançada sem números? Sim, autoridade, coerção e a dependência se pautam na massa, mas nunca na liberdade ou na livre determinação do indivíduo, nunca no nascimento de uma sociedade livre.

Não porque eu não sinta como os oprimidos, como os deserdados da terra; não porque não saiba a vergonha, o horror, a indignidade da vida levada pelo povo, que eu repudio a maioria como força criativa. Oh, não, não! Mas porque eu sei que a massa compacta nunca lutou por justiça e igualdade. Ela suprimiu a voz dos homens, subjugou o espírito humano, acorrentou o corpo humano.

Como massa, seu objetivo foi sempre uma vida mais uniforme, cinzenta e monótona, como o deserto. Como massa, será sempre o exterminador da individualidade, da livre iniciativa, da originalidade. Assim como Emerson, acredito que “as massas são grosseiras, coxas, perniciosas em suas demandas e influências, e não precisam ser elogiadas, mas educadas. Eu desejaria não ter que conceder nada a elas, mas ensinar, dividir, quebrá-las e transformá-las em indivíduos. Massas! A calamidade são as massas. Eu não desejo massa alguma, mas apenas homens honestos, e mulheres doces, amáveis e completas.”

Em outras palavras, a verdade viva e vital do bem-estar econômico e social só se tornará realidade diante o zelo, coragem, determinação sem obrigações, de minorias inteligentes, e não por meio da massa.

Texto originalmente compartilhado por anarquistas.net neste link

.

*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

À alma de minha mãe

por Auta de Souza*

Partiu-se o fio branco e delicado
Dos sonhos de minh’alma desditosa…
E as contas do rosário assim quebrado
Caíram como folhas de uma rosa.

Debalde eu as procuro lacrimosa,
Estas doces relíquias do Passado,
Para guardá-las na urna perfumosa,
Do meu seio no cofre imaculado.

Ai! se eu ao menos uma só pudesse
D’estas contas achar que me fizesse
Lembrar um mundo de alegrias doidas…

Feliz seria… Mas minh’alma atenta
Em vão procura uma continha benta:
Quando partiste m’as levaste todas!

Natal – Março de 1895

.

* Auta de Souza (1876 – 1901) foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica (ultrarromântica, byroniana ou Mal do Século), autora de Horto. Escrevia poemas românticos com alguma influência simbolista, e de alto valor estético. Segundo Luís da Câmara Cascudo, é “a maior poetisa mística do Brasil”.

Naturezas-mortas de Anne Vallayer-Coster

por Anne Vallayer-Coster*

Veja post em Female Artists in History

10551025_1452123511739200_3806483852515767745_n
Still Life with a Ham, 1767

 

10557672_1447741055510779_6088666839549546695_o
Still-life with Seaplumes, Lithophytes and Seashells, 1769

 

10515133_1444487179169500_9120693263407606623_o
Basket of Plums, 1769

 

10453061_1436029486681936_3901685031517627555_o
Attributes of Painting, Sculpture, and Architecture, 1769

 

1655720_1439290966355788_251561567400627563_o
Attributes of Music, 1770

 

10647233_1464914337126784_4445427963054066979_n
Still Life with Round Bottle, 1770

 

14947605_1799325397019008_4013532030319353396_n
Garden Still Life with Implements, Vegetables, Dead Game and a Bust of Ceres (The Attributes of Gardening), 1774

 

14889815_1801522023466012_1251211610693449506_o
Parsnips, a Loaf of Bread, Eggs and a Bottle on a Stone Ledge, 1774

 

16715876_1851722411779306_5274523344644051777_o
Still Life with Brioche, Fruit and Vegetables, 1775

 

15800016_1829620433989504_564039988681225247_o
Nature Morte aux Lièvres, Perdrix et Jambon (Still Life with Rabbit), 1778

 

15780673_1829626777322203_4159400419331166331_n
Still-life with Peaches and Grapes, ca. 1779

 

15723594_1829637963987751_2081953271491542300_o
Still Life with Lobster, 1781

 

10985553_1552411151710435_3207564243615216436_o
A Still Life of Mackarel, Glassware, a Loaf of Bread and Lemons on a Table with a White Cloth, 1787

 

14902925_1801520783466136_6506125926224360511_o
La Jatte Blanche, 1810

.

*Anne Vallayer-Coster (1744 – 1818) foi uma pintora francesa. Foi admitida na Academia Real de Pintura e Escultura em 1770 como pintora. Especialista em retratos e naturezas-mortas, também se distinguiu na pintura de género e nas miniaturas.

Meiguice

por Adelina Lopes Vieira*

Deram à linda Clarisse
uma gatinha mimosa,
tão branca, tão carinhosa,
tão engraçada, tão mansa
que a encantadora criança
por nome lhe pôs — Meiguice.

Tinha bom leite ao almoço
e biscoitos e bolinhos;
dormia em sedas e armarinhos,
e ronronava fagueira
quando sentia a coleira
de fita azul, no pescoço.

Clarisse amava deveras
a bichinha cor de neve
e a gata, nervosa e leve,
adorava a pequenita;
e tinham graça infinita,
estas amigas sinceras!

Veio Raul, o mais louro
e traquinas dos rapazes,
forte e audaz entre os audazes,
fanfarrão e desordeiro;
correu a casa ligeiro
indo encontrar o tesouro,

a doce e branca Meiguice,
deitada comodamente
na cama fofinha e quente
da prima, e gritou: — Que vejo?
um bicho tão malfazejo,
sobre o leito de Clarisse!

E… zás, suspendeu a gata
pela coleira de fita,
atirou a pobrezita,
ao jardim e, satisfeito,
à priminha o heróico feito
foi contar como bravata.

Debatia-se Meiguice,
no lago, fria, transida,
a morrer.
O gaticida
sentiu remorso pungente
ao ver o pranto tremente
no olhar azul de Clarisse.

E… correndo, denodado,
deitou-se ao lago profundo,
(dois palmos d’água); do fundo
tirou Meiguice, e ofegante
disse em tom dilacerante:
— Salvei-a!
— Estou perdoado?

.

*Adelina Amélia Lopes Vieira (1850 — 1923) foi uma escritora, poeta, contista, teatróloga e educadora brasileira.