Resignação

por Narcisa Amália*

No silêncio das noites perfumosas,
Quando a vaga chorando beija a praia,
Aos trêmulos rutilos das estrelas,
Inclino a triste fronte que desmaia.
E vejo o perpassar das sombras castas
Dos delírios da leda mocidade;
Comprimo o coração despedaçado
Pela garra cruenta da saudade.
Como é doce a lembrança desse tempo
Em que o chão da existência era de flores,
Quando entoava o múrmur das esferas
A copla tentadora dos amores!
Eu voava feliz nos ínvios serros
Empós das borboletas matizadas…
Era tão pura a abóbada do elísio
Pendida sobre as veigas rociadas!…
Hoje escalda-me os lábios riso insano,
É febre o brilho ardente de meus olhos:
Minha voz só retumba em ai plangente,
Só juncam minha senda agros abrolhos.
Mas que importa esta dor que me acabrunha,
Que separa-me dos cânticos ruidosos,
Se nas asas gentis da poesia
Eleva-me a outros mundos mais formosos?!…
Do céu azul, da flor, da névoa errante,
De fantásticos seres, de perfumes,
Criou-me regiões cheias de encanto,
Que a luz doura de suaves lumes!
No silêncio das noites perfumosas
Quando a vaga chorando beija a praia,
Ela ensina-me a orar, tímida e crente,
Aquece-me a esperança que desmaia.
Oh! Bendita esta dor que me acabrunha,
Que separa-me dos cânticos ruidosos,
De longe vejo as turbas que deliram,
E perdem-se em desvios tortuosos!…

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*Narcisa Amália ( 1856 — 1924) foi uma poetisa brasileira. Foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Movida por forte sensibilidade social, combateu a opressão da mulher, o regime escravista, segundo Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional” e busca sua própria identidade “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”. Colaborou na revista A leitura (1894-1896)

Facada 37 – Season finale – BSB

A primeira temporada do nosso videocast tem seu apoteótico fim! Okay… poderia ser mais apoteótico! Aqui conto (e mostro um pouco) sobre nossa viagem a Brasília para a reunião da Família Facada! Aproveito para deixar aqui meu amor à essa patota encapetada e corrigir uma injustiça: me esqueci de destacar no vídeo sobre o prazer de encontrar pessoalmente a Luda, brilhante artista das aquarelas! O que você está fazendo aí que ainda não foi atrás das ilustrações dela?

Pinturas de Abigail de Andrade

por Abigail de Andrade*

Abigail_de_Andrade_-_Trecho_de_paisagem

 

Abigail_de_Andrade_-_Um_canto_no_meu_ateliê,_1884

 

Abigail_de_Andrade,_1885,_Niterói

 

Abigail_de_Andrade,_1888,_Estrada_do_Mundo_Novo_com_Pão_de_Açúcar_ao_Fundo

 

Abigail_de_Andrade,_1889,_Zeit_für_Brot

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*Abigail de Andrade ( 1864 —  ?) foi uma pintora e desenhista brasileira, premiada com a medalha de ouro por trabalhos expostos no Salão Imperial de 1884.

Facada 36 – Jogos de tabuleiro – Bang!

Se você caiu aqui procurando o clip da Anitta… pode clicar… estamos precisando de views – rs… Brincadeiras à parte, Bang! é um jogo de faroeste, com tudo o que tem direito: tiros, índios, saloon, xerife e bandidos da pior espécie!

Com apoio: Caixinha Boardgames, Tortuga Jogos e Encontro Boardgames SP.

Os cravos rubros

por Louise Michel*

Quando ao negro cemitério eu for,
Irmão, coloque sobre sua irmã,
Como uma última esperança,
Alguns ‘cravos’ rubros em flor.
Do Império nos últimos dias
Quando as pessoas acordavam,
Seus sorrisos eram rubros cravos
Nos dizendo que tudo renasceria.
florescerão nas sombras
de negras e tristes prisões.
Vão e desabrochem junto ao preso sombrio
E lhe diga o quanto sinceramente o amamos.
Digam que, pelo tempo que é rápido,
Tudo pertence ao que está por vir
Que o dominador vil e pálido
Também pode morrer como o dominado.

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*Louise Michel (1830 – 1905) cujo apelido era Enjolras, foi professora, poetisa, enfermeira, escritora e blanquista da França. Reconheceu-se anarquista durante a Comuna de Paris na qual foi uma das mais importantes communards. Foi também primeira a deflagar a bandeira negra como símbolo dos ideais libertários, popular nos séculos seguintes entre os adeptos do Anarquismo.
Este poema foi escrito em homenagem a seu companheiro e namorado Théophile Ferré, executado juntamente em novembro de 1871.

Facada 35 – Jogos de Tabuleiro – Gloom

Manja aquela de “quanto pior, melhor”? Então! Esse é o mote de Gloom! Ganha o jogador que encher a vida de seus personagens de tristeza a ponto de matá-los!

Com apoio: Caixinha Boardgames, Tortuga Jogos e Encontro Boardgames SP.

Retratos de Bertha Worms

por Bertha Worms*

Dama com revista

Dama com revista

 

Figos

Figos

 

Bertha_Worms_-_Recordas-te,_1906

Recordas-te?, 1906

 

Retrato de criança

Retrato de criança

 

Rua Tabatinguera

Rua Tabatinguera

 

Retrato de Beduíno

Retrato de Beduíno

 

Saudades de Nápoles, 1895

Saudades de Nápoles, 1895

 

Canção Sentimental

Canção Sentimental

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*Anna Clémence Berthe Abraham Worms (Uckange, França, 26 de fevereiro de 1868 – São Paulo, 27 de junho de 1937), mais conhecida como Bertha Worms foi uma professora e pintora de gênero e de retratos franco-brasileira.

Facada 34 – Jogos de tabuleiro – Colonizadores de Catan (mencionado em Nerdologia 161)

Apresentamos um dos melhores gateways (jogos de entrada). O Colonizadores de Catan foi referenciado no vídeo 161 do canal Nerdologia e aqui comentamos um pouco das regras.
OBS: Assistam até o fim! Tem cena pós-créditos.

Com apoio: Caixinha Boardgames, Tortuga Jogos e www.facebook.com/BoardGamesSP.

O bem-estar para todos

por  Piotr  Kropotkin*

I

O bem-estar para todos não é um sonho. É possível, realizável, depois do que os nossos maiores fizeram para fundar a nossa força de trabalho.

Sabemos com efeito que os produtores, que apenas constituem um terço dos habitantes dos países civilizados, já produzem o bastante para levar um certo bem-estar ao seio de cada família. Sabemos, por outro lado, que se todos os que hoje esbanjam o fruto do trabalho alheio fossem obrigados a empregar os seus ócios em trabalhos úteis a nossa riqueza cresceria em proporção múltipla dos braços produtores. E sabemos, finalmente, que contra a teoria do pontífice da ciência burguesa, – Malthus, – o homem aumenta a sua força de produção bem mais rapidamente do que a si mesmo se multiplica.

Quanto mais apertados estão os homens num território, mais rápido é o progresso das suas forças produtivas. Com efeito enquanto a população na Inglaterra só aumentou 62% desde 1844, a sua força de produção cresceu, pelo baixo, numa proporção dupla, ou seja 130%. Em França, onde a população aumentou menos, o acréscimo é, entretanto muito rápido. Apesar da crise em que se debate a agricultura, a ingerência do Estado, o imposto de sangue, a finança e a indústria, a produção do trigo quadruplicou e a produção industrial mais do que duplicou no correr dos últimos oitenta anos. Nos Estados Unidos o progresso é ainda mais frisante: apesar da imigração, ou antes precisamente por causa deste acréscimo de trabalhadores, da Europa, os Estados Unidos decuplicaram a sua produção.

Mas estas cifras dão apenas uma idéia bem fraca do que poderia ser, em melhores condições, a nossa produção. Hoje, a medida que se desenvolve a capacidade de produção, o número dos ociosos e dos intermediários aumenta prodigiosamente. Tudo ao contrário do que se dizia antes entre socialistas, que o capital chegaria a concentrar-se num tão pequeno número de mãos que não haveria mais senão expropriar alguns milionários para entrar na posse das riquezas comuns, o número dos que vivem à custa do trabalho alheio é cada vez mais considerável.

Em França não há dez produtores diretos em trinta habitantes. Toda a riqueza agrícola do país é obra de menos de sete milhões de homens e nas duas grandes indústrias, – minas e tecidos, contam-se menos de dois milhões e meio de obreiros.

Ainda mais. Os detentores do capital reduzem constantemente a produção, não deixando produzir. Não falemos já dos tonéis d’ostras atiradas ao mar, para impedir que a ostra passe a ser alimento da plebe? e deixe de ser a guloseima da gente de teres; não falemos já dos milhares e milhares de objetos de luxo: estofos, alimentos etc. etc., tratados do mesmo modo que as ostras. Lembremos somente a maneira como se limita a produção das coisas necessárias a todos. Exércitos de mineiros desejam trabalhar para mandarem carvão aos que tremem de frio; mas a maior parte do tempo um ou dois terços são impedidos de trabalhar mais de três dias por semana para manter os altos preços. Milhares de tecelões não podem bater os seus teares enquanto as mulheres e os filhos só tem farrapos para se cobrirem e três quartas partes dos europeus não tem uma roupa que mereça esse nome.

Das centenas de altos fornos milhares de manufaturas ficam constantemente paradas e nas nações civilizadas há permanentemente uma população de dois milhões de indivíduos que não pedem senão trabalho.

Milhões de homens seriam felizes transformando os espaços incultos ou mal cultivados em campos cobertos de ricas searas. Um ano de trabalho inteligente bastaria para levar ao quíntuplo o produto de terras que hoje não dão mais de oito hectolitros de trigo por hectare; mas tem que estar ociosos, porque os donos da terra preferem entregar os seus capitais, roubados à comunidade, em especulações financeiras.

É a limitação direta da produção, mas há também a limitação indireta que consiste em gastar o trabalho humano em objetos absolutamente inúteis e destinados a favorecer a tola vaidade humana.

Nem se poderia avaliar em números a que ponto é reduzida a produtividade pelo esbanjamento das forças que poderiam servir para preparar e produzir o aparelho necessário a essa produção. Basta citar os milhões gastos pela Europa em armamentos, sem outro objeto mais que conquistar mercados para impor a lei econômica aos vizinhos e facilitar a exploração no interior; os milhões pagos por ano aos funcionário de toda a espécie; os milhões pagos aos juízes, às prisões, para propagar pela imprensa idéias nocivas, noticias falsas no interesse de um partido de um personagem político ou de uma campanha de especuladores.

Ainda mais; mais trabalho se despende ainda em pura perda, em manter a estrebaria, o canil, a criadagem do rico, aqui para corresponder aos caprichos das mundanas, ao luxo depravado da alta sociedade, ali, para impor um artigo de má qualidade. O que estraga deste modo bastaria para duplicar a produção útil ou para guarnecer manufaturas e oficinas que em pouco inundariam os armazéns de tudo o necessário para o abastecimento de tudo quanto carecem duas terças partes da nação.

Donde resulta que dos que se aplicam aos trabalhos produtivos uma quarta parte esta sem trabalho três a quatro meses cada ano.

Assim, se tomarmos em consideração por um lado a rapidez com que as nações civilizadas aumentam sua força produtiva e por outro lado os limites traçados a essa produção, conclui-se que seria necessária uma organização econômica que permitisse as nações civilizadas amontoar em poucos anos tantos produtos úteis que chegariam fartamente para toda a gente. Não, o bem-estar para todos não é um sonho… Não é um sonho desde que o homem inventou o motor que, com um pouco de ferro e uns quilos de carvão, lhe dá a força dum cavalo, capaz de por em movimento a máquina mais complicada.

Mas para que o bem-estar seja uma realidade é necessário que esse imenso capital: cidades, casas, campos, oficinas, vias de comunicação, deixe de ser considerado propriedade privada de que o açambarcador dispõe ao seu bel-prazer. É preciso que tudo isso, obtido com tanto trabalho, se torne propriedade comum. É preciso um EXPROPRIAÇÃO.

II

Expropriação, tal é, pois o problema que a história pôs diante de nós, homens do fim do século XIX. Regresso à comunidade de tudo o que servir para se obter o bem-estar.

Mas este problema não poderia ser resolvido por meio da legislação. Ninguém pensa nisso. Tanto o pobre como o rico compreendem que nem os governos atuais nem os futuros seriam capazes de lhe encontrar uma solução. Sente-se a necessidade duma revolução social e ricos e pobres não dissimulam que ela está próxima e que pode rebentar dum dia para o outro.

Donde virá? Como se anunciará? Ninguém sabe, é o incógnito; mas os que observam e refletem não se enganam. Trabalhadores e explorados, revolucionários e conservadores, pensadores e gente prática, todos sentem que está à porta.

Pois bem! Que faremos quando a revolução tiver rebentado?

Todos nós temos estudado tanto o lado dramático das revoluções e tão pouco a sua obra verdadeiramente revolucionária, que muitos dentre nós vêem nestes grandes movimentos senão a “mise-en scêne”, a luta dos primeiros dias, as barricadas. Mas esta luta, a primeira escaramuça depressa acaba e é só depois da derrota dos antigos governos que começa a obra real da revolução.

Incapazes e impotentes, atacados por todos os lados, depressa são arrastados pelo sopro da insurreição. Em alguns dias a monarquia burguesa de 1848 não existia mais e quando um carro de praça conduzia Luís Felipe para fora de França já Paris se não importava com o ex-rei. Em algumas horas desaparecia o governo de Thiers a 18 de março de 1871 e deixava Paris senhora dos seus destinos. Todavia 1848 e 1871 não eram senão insurreições. Ante uma revolução popular os governos eclipsam-se com uma rapidez surpreendente. Começam por fugir, salvo o direito de conspirarem noutro lugar, tentando preparar um regresso possível.

Desaparecido o antigo governo, o exército, hesitando ante a onda do levantamento popular, deixa de obedecer aos seus chefes; estes, aliás, também se rasparam prudentemente. A tropa de braços cruzados, deixa correr o marfim, ou de coronha para o ar junta-se aos insurretos. A polícia, braços pendentes, não sabe já se deve carregar ou gritar: “Viva a Comuna!” e os guardas-civis metem-se em casa. Os burgueses ricos fazem as malas e escapam-se para lugar seguro. O povo fica. – Eis como se anuncia uma revolução.

Tudo isso é belo e sublime, mas ainda não é a revolução. Pelo contrário, agora é que vai começar a missão do revolucionário.

Haverá com certeza vinganças satisfeitas. Alguns Watrin e Tomás pagarão a sua impopularidade.

Mas isso será um acidente da luta e não da revolução.

Os socialistas governamentais, os radicais, os gênios ignorantes do jornalismo, os oradores de efeito burgueses ex-trabalhadores – correrão à casa municipal e aos ministérios tomar posse dos lugares abandonados, tomarão os galões de coração alegre, admirar-se-ão nos espelhos ministeriais, ensaiar-se-ão para dar ordens com um ar de gravidade à altura das circunstâncias. Precisam de um cinto vermelho, um quepe agaloado e um gesto magistral para se imporem ao ex-camarada de redação ou de atelier. Os outros enterrar-se-ão na papelada com a melhor vontade de perceberem alguma coisa. Redigirão leis, lançarão decretos com palavrões bombásticos, que ninguém pensará em executar, justamente por estar em revolução.

Tomarão os nomes de Governo Provisório, de Comitê de Salvação Pública, de Maire, de Comandante da Municipalidade, de Chefe de Segurança e que sei eu? Eleitos e aclamados reunir-se-ão em Parlamento ou em Conselhos da Comuna. Ali encontrar-se-ão homens pertencentes a dez, a vinte escolas diferentes, que não são “capelas” pessoas, como se diz muitas vezes, mas que correspondem a maneiras particulares de conceber a extensão e alcance, o dever da revolução. Partidários de todos os matizes, gente honesta confundindo-se com os ambiciosos: todos apresentando-se com idéias diametralmente opostas, fazendo alianças fictícias para constituir maiorias, disputando, tratando-se de reacionários, de autoridades, de bandalhos, discutindo asneiras, não publicando senão proclamações roncantes; tomando-se todos a sério, enquanto a verdadeira força do movimento está na RUA.

Tudo isto pode divertir os aficionados do teatro. Mas ainda não é a revolução. Nada está feito.

Entretanto o povo sofre. As oficinas não têm trabalho, os atelieres estão fechados; o comércio não vai. O trabalhador nem mesmo vence o salário mínimo que ganhava antes; o preço dos gêneros aumenta.

Com esse devotamento heróico que sempre o caracterizou e que chega ao sublime por ocasião das grandes épocas, o povo pacienta. É ele quem exclama em oitocentos e quarenta e oito: “Nós pomos três meses de miséria ao serviço da República” enquanto os “representantes” e os senhores do novo governo até ao último, recebiam religiosamente os seus vencimentos! O povo sofre. Com a sua confiança pueril, com a bonhomia da massa espera que em cima, na câmara, no Hotel de Ville, no Comitê de Salvação Pública se ocupem dele.

Mas lá em cima pensa-se em tudo, menos nos sofrimentos da multidão. Quando a fome corrói a França em 1793, comprometendo a revolução, quando o povo está reduzido à última miséria; enquanto os Campos Elísios são cortados por fáetons soberbos, em que mulheres exibem suas soberbas “toilettes” Robespiére insiste nos Jacobinos para fazer discutir a sua memória sobre a Constituição inglesa! Quando o trabalhador sofre em 1845 da suspensão geral da indústria, o governo provisório e a Câmara tagarelam sobre as pensões militares e o trabalho das prisões, sem perguntarem do que vive o povo nesta época de crise. E se é censurável a Comuna, que nasceu sob os canhões do Prussianos e não durou senão setenta dias, é de não ter compreendido que a revolução comunal não podia triunfar sem combatentes bem alimentados e que com 30 soldos por dia não se pode ao mesmo tempo pelejar nas fortalezas e alimentar uma família.

O povo sofre e pergunta: “Que fazer para sair deste caso?”

III

Ora pois; parece-nos que não há senão uma resposta a esta pergunta:

– Reconhecer e proclamar bem alto que cada um, seja qual for o seu passado, seja qual for a sua força ou a sua fraqueza, suas aptidões ou a sua incapacidade, possui antes de tudo o “direito de viver”?; e que a sociedade deve repartir, entre todos sem exceção, os meios de que dispõe. Reconhecê-lo, proclamá-lo e agir de conformidade!

Fazer de modo que desde o primeiro dia da Revolução o trabalhador saiba que se abre diante dele uma nova era: que desde agora ninguém será obrigado a dormir debaixo das pontes, ao lado dos palácios; a ficar em jejum enquanto houver que comer; tremer de frio ao lado dos armazéns de peles. Que tudo seja de todos na realidade, como em princípio e que enfim na história se produza uma revolução que cuide das “necessidades” do povo antes de lhe ensinar a lição dos seus “deveres”.

Isto não se pode fazer com decretos, mas unicamente tomando posse imediata, efetiva de tudo o que é necessário para assegurar a vida de todos. Tal é a única maneira verdadeiramente científica de proceder, a única que seja compreendida e desejada pela massa do povo.

Tomar posse, em nome do povo revoltado, dos depósitos de trigo, dos armazéns que regurgitam de vestuários, das casas habitáveis. Não esbanjar coisa alguma, organizar-se logo para preencher os claros, fazer face a todas as necessidades, satisfazer todas as precisões, produzir, não mais para dar benefícios a quem quer que seja, mas para fazer viver e desenvolver-se a sociedade.

Fora com essas fórmulas ambíguas como o “direito ao trabalho”, com que lograram o povo em 1848 e que ainda lográ-lo. Tenhamos a coragem de reconhecer que o bem-estar, desde já possível, deve realizar-se a todo o custo.

Quando em 1848 os trabalhadores reclamavam o direito ao trabalho organizavam-se atelieres nacionais ou municipais, e mandavam-se os homens penar nesses atelieres à razão de quarenta soldos por dia! Quando pediam a organização do trabalho, respondiam-lhes: “Esperem, meus amigos, o governo vai-se ocupar disso e por hoje aqui estão quarenta soldos. Descanse, rude trabalhador, que penou toda a sua vida”. E enquanto esperavam, apontavam-lhes os canhões. E um belo dia disseram-lhes: “Partam para colonizar a África, senão vamos metralhá-los”.

Muito outro será o resultado se os trabalhadores reivindicarem o “direito ao bem-estar”! Desse modo, proclamam o direito de se apoderarem de toda a riqueza social; de tomar as casas e instalar-se nelas conforme as necessidades da família; de tomar os víveres acumulados e de servir-se deles de modo a conhecer o bem-estar, depois de ter demasiadamente conhecido a fome. Proclamam o seu direito a todas as riquezas – fruto do labor das gerações passadas e presentes e usam delas de modo a conhecer o que são os altos gozos da arte e da ciência, demasiado tempo açambarcados pelos burgueses. E afirmando o seu direito ao bem-estar, declaram o seu direito de decidirem eles mesmos o que deve ser esse bem-estar.

O direito ao bem-estar é a possibilidade de viver como seres humanos e criar os filhos para os fazer membros iguais duma sociedade superior à nossa, enquanto o direito ao trabalho é o direito de ficar sempre escravo assalariado, “homem de pena” governado e explorado pelos burgueses de amanhã. O direito ao bem-estar é a revolução social; o direito ao trabalho é quando muito um degredo industrial.

É tempo do trabalhador proclamar o seu direito à herança comum e de tomar posse dela.

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* Piotr Alexeyevich Kropotkin (1842 – 1921) foi um geógrafo e escritor russo, um dos principais pensadores políticos do anarquismo no fim do século XIX, considerado também o fundador da vertente anarco-comunista.

Facada 33 – Música – Freddie Mercury 70 anos

Uma homenagem emocionada e desconexa à maior voz do rock. Em 5/9/16, Freddie Mercury completaria 70 anos. O blog Facada X dá, assim, sua contribuição à campanha Freddie For a Day, aumentando a conscientização sobre o HIV e a Aids.  #ffad70 #ffadbrazil70

A morte é parte da vida

por Roberta AR

Eu era ainda muito pequena quando fui a um funeral, o primeiro. Nem lembro que idade tinha, porque minha família nunca protegeu as crianças dessas cerimônias funestas, nem de muitas outras coisas que não vêm ao caso agora.

Foi a perda de uma irmã que me fez entender que a morte pode mudar tudo na vida, dentro de uma casa, na dinâmica das relações. Mas nem assim sua presença, da morte, passou a me acompanhar, era algo que existia, que eu sabia ser repentina em muitos casos, que doía e que deveria ser superada, pois a vida continua, mesmo que acabe para alguns.

Nem todo mundo é assim, vivo e querendo viver, tem aqueles que invocam a presença da morte todo o tempo, que fazem dela sua mais preciosa companheira imaginária, claro, pois se estão vivos, a companhia real é a da vida. E isso me faz pensar em Júlio.

Era uma fase de mudanças intensas na minha vida e ele apareceu. A minha empolgação com tudo, com novas pessoas, novas possibilidades de trabalho, minhas pretensões artísticas nas horas vagas, novos lugares, sabores, tudo isso parecia atraí-lo e algo que poderíamos dividir. Ele falava muito de morte, brincando, era o que eu pensava naquele tempo, e eu achava divertido, irônico, como um desprezinho à cultura de que temos que estar alegres o tempo todo. Mas eu estava muito enganada com esse julgamento, totalmente enganada.

Então estava lá eu, toda entusiasmada com a nova vida que se desenhava à frente e nem me dava conta de que entrava numa história completamente diferente do que eu esperava. Fui colocada em companhia da morte.

Sua familiar mais próxima decidiu desistir do próprio corpo e parecia brincar de querer morrer. Uma pessoa me disse uma vez que morrer não é algo tão fácil quanto parece, decidir morrer enfraquecendo o próprio corpo leva muito tempo, neste caso foram anos de dedicação. Esse foi mais um passo para que a morte fosse uma presença constante na vida e sua influência, desta mulher que desistiu de viver, continuou mesmo depois que ela alcançou o que achava que queria.

Assim como ela, ele gostava de correr riscos, de uma maneira um pouco diferente no começo, e também não cuidava do próprio corpo. Eu achava divertido isso de correr riscos, porque é preciso sair do confortável, da monotonia, para que a vida seja mais. Diversão é necessária numa vida saudável. Mas a busca ali não era a da saúde e eu nem me dava conta, ou fingia não perceber.

Com a convivência cotidiana, passei a me sentir triste todo o tempo e não entendia porquê. Ele ficava indignado, porque não era de uma mulher triste que ele tinha se aproximado e eu, confusa por conta dessa tristeza que não sabia como combater, falava sobre isso de que não se pode ser alegre o tempo todo, o que pensei que ele sabia, mas ouvia impropérios e apologias à festa eterna, à diversão acima de todas as deusas. Era uma alegria artificial, proporcionada por aditivos químicos de todo o tipo e que anestesiavam a vida.

Fui arrebatada para este mundo em que vida ficava em suspensão, uma espécie de coma induzido, em que nada parecia real e nenhum sentimento era sincero. Fui tomada pela tristeza, meus dias se arrastavam, minha saúde foi afetada, fiquei inchada, indisposta, insone. Mas ele sorria o tempo todo e devia achar que isso era felicidade. Ou apenas encarava isto cinicamente, o mesmo cinismo com que passou a me tratar com o passar do tempo.

A presença da morte era tão constante, que não foi possível uma nova vida vingar em mim, parecia impossível pro meu corpo lidar com aquilo, eu tinha medo desse legado de tristeza que dava a impressão de ser intransponível. Trazer vida para morte era algo incompreensível e inaceitável.

Eu me sentia entregue a esta vida fúnebre, mas algo em mim reagia mesmo sem eu perceber. A vontade de viver, de me atirar ao novo e bonito e saudável estava lá, no fundo da minha alma, e começou a me empurrar para a ação. Isso foi logo depois que comecei a temer pela vida dele todos os dias, a vida física, o corpo, que estava prestes ao colapso. Meu medo era de um mal incapacitante, que me tornasse uma babá para o resto da vida. Sim, fui egoísta e sem nenhuma vergonha disso, ainda mais depois de ter sido tragada para um abismo. Um belo dia, desisti dele e acabamos nos afastando.

Foi chocante ver que, mesmo depois de não mais convivermos cotidianamente, ele ainda tentava me puxar para o seu abismo pessoal. As poucas conversas que aconteceram foram sobre como sua vida era uma grande tragédia ou para me humilhar nas minhas fraquezas pessoais.

E foi assim que percebi que só quero estar morta quando morrer efetivamente. A morte faz parte da vida, mas é preciso estar vivo para entender o que isto significa.

Facada 32 – Jogos de tabuleiro – Five tribes

Pensa uma mecânica de jogo mais antiga que o Brasil? Pois Five Tribes parte dela – a mancala – para desafiar a lógica e pensamento estratégico dos jogadores.

Com apoio: Caixinha Boardgames, Tortuga Jogos e Encontro Boardgames SP.

“O diabo mora aqui”, ou “Ó o bixo vino mulek”

por André Rafaini Lopes

(Aviso: o texto contém spoilers sinalizados no penúltimo parágrafo)

Tínhamos tirado o sábado para descansar quando o amigo Reinaldo Cardenuto (ele já participou do finado podcast, lembra?) chama para um jantar seguido de cinema. Que filme? “Terror”. Troquei olhares com a Ju (esposíssima), que não é tão fã do gênero. Olhei pro dia frio lá fora. Olhei pro sofá com uma cobertinha aconchegadamente amarfanhada e uma cã preguiçosa deliciosamente dormindo. Olhei para a TV e os jogos olímpicos que passavam convidando para ver a próxima modalidade… e a próxima… e a próxima… No final, a saudade do amigo falou mais alto. Fumos.

No meio do hambúguer descubro o título do filme “O diabo mora aqui”.

Olho de novo pra Ju. E Reinaldo complementa: “Feito por uns ex-alunos meus… os mesmos que fizeram Nerd Of The Dead”. Aí é a Ju que olha pra mim sabendo que o programa já tinha me conquistado ali. (Até tínhamos pensado em voltar para casa depois do jantar… Naquela noite, o time masculino brasileiro de vôlei ia pegar a Itália vindo de uma derrota! Eles precisavam da gente!) Tarde demais. O time do Bernardinho começou a perder a partida naquela mesa da lanchonete. Nerd of The Dead foi uma inspirada minissérie veiculada pelo Omelete sobre dois moleques (nerds, duh!) no meio do apocalipse zumbi.

Um resquício do trailer de Diabo voltou à lembrança. Nada muito concreto. Bem, caímos de cabeça na produção de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini, sobre história de Guilherme Aranha, Rafael Baliú e MM Izidoro. E devo dizer que foi a decisão mais acertada. Aquela provavelmente seria a última exibição nos cinemas em São Paulo, partindo dali para Net Now e Telecine. Ah, e claro, o mais legal: um dos diretores – Dante – estava na sessão. Sentou-se no fundo da sala para eventuais escapadelas… ao que parece o trabalho de edição foi extenuante e ele duvidava que conseguiria ver novamente o filme inteiro. Fiquei entre a Ju e Reinaldo. Ele foi professor de parte da turma que fez o filme e, não sei se é coisa da minha cabeça, parecia não esconder um certo contentamento destacando os inúmeros prêmios que os meninos já tinham ganhado e perguntando um par de vezes no meio do filme mesmo: “Está gostando?”.
Não dava para não estar…

A premissa não foge do clichê do gênero. Turma de jovens se instalam em casa amaldiçoada. O grande trunfo, no entanto, é partir desse ponto comum para contar uma história com cores e texturas genuinamente brasileiras. Mojica ficaria orgulhoso. No passado, um sádico criador de abelhas engravida sua escrava, mata o filho adulto dela e depois é morto pela mãe do bastardo. A alma do escravocrata é presa à do bebê, sacrificado em um ritual no porão da casa, deixando até os dias atuais a prova: um prego cravado no concreto do chão. Claro que os moleques mexem com o que não deve e o caldo entorna. O clima de tensão e terror criado por Dante e Rodrigo não parece ter precedente no cinema recente. Sabiamente fugiram do gore para investir no thriller. Até a Ju, que não se impressiona nada nada com as produções americanas – NEM MESMO COM O ATIVIDADE PARANORMAL COMO ALGUÉM NÃO FICA COM MEDO DAQUELAS ASSOMBRAÇÕES PELAMORDEDEUS? -, ficou sem respirar em vários pontos do Diabo.

A caracterização dos personagens é fantástica: compraria fácil fácil as action figures do Barão do Mel (ele usa uma roupa antiga de apicultor: ao invés da máscara de tela, tem em seu rosto uma espécie de cesta de treliça siniSHtra) e do Bento (o filho adulto morto, que também volta como um zumbi… não desses zumbis walkindeadianos… volta numa pegada vudú haitiano… convocado pelos seus descendentes para conter o Mal). Ixi… será que estou dando spoilers? Vou parar por aqui a parte da história. A interpretação de todos está ótima, canastreando quando tem que canastrear – pra mim, uma deliciosa homenagem aos slashers dos anos 80 – e carregando em realismo quando o bixo tá vino. O destaque fica com Pedro Caetano, um dos parentes de Bento. Em vários momentos, com ele em cena e arma em punho (ó o spoiler… Ó O SPOILER, ANDRÉ), a imagem se convertia em preto e branco na minha mente e via o frame como algo vindo de um filme perdido do Zé do Caixão ou George Romero. Algo em sua presença em tela… em sua bata branca. Não sei dizer.

Já que estamos falando nisso, a fotografia da produção é phoda (entreguei a idade, né? Não se fala mais fotografia hoje, né? É cinematografia, né? SUE ME). Alguns enquadramentos tirados das histórias em quadrinhos quase que reservavam espaços para balões ou recordatórios. A trilha sonora é outro ponto altíssimo. Perfeita para os momentos de tensão. Dissonante… mesclada a incômodos sons quase subliminares de abelhas e outros ruídos indizíveis, mas que seu subconsciente identifica como algo muito ruim.

Com o final do filme e acender das luzes, voltamos ao mundo real e o pulmão voltou a se encher de ar. Dante realmente já não estava na sala. Pensei que tinha concretizado a intenção inicial até voltar a encontrá-lo já na rua, fumando ao lado de Rodrigo e seus amigos. Reinaldo se uniu ao grupo. Os diretores ainda se mostravam inseguros com relação ao roteiro, mas receberam todos os elogios nossos. A história tinha sido muito bem contada. O cansaço acumulado da semana, uma certa timidez nossa e uma cachorrinha idosa que precisava dar mais uma volta na rua para o pipi noturno nos fizeram abandonar a discussão que acompanhávamos como orelhas.

Só no caminho de volta é que nos demos conta: Rodrigo era um dos atores principais de Nerd Of The Dead (Pô… cadê a segunda temporada?) e duas ressalvas com relação ao Diabo. Aqui você pode pular para não saber o final da história. Pulou? Acho que não, né? Afinal você ainda está lendo isso. Bom… TEJE avisado. Ao longo de todo o filme, exaltam a figura de uma personagem feminina poderosíssima chamada Rainha ou Maia. Poxa. Foi uma escorregão meio sério não tê-la usado (ou será que ela aparece em Diabo 2 se um dia sair?). Quando tudo foi pras cucuiA – o filme todo se passa em uma única noite – e a única sobrevivente escapa da casa carregando um novo filho amaldiçoado, poderia ser Malia a aparecer junto com o dia para eliminar o último vestígio do horror. Na minha cabeça, seria uma poderosa entidade azulada, um misto de algum orixá com um tenebroso elfo das sombras. Uma figura que exala ao mesmo tempo bondade e maldade. Uma Nossa Senhora dos perdidos. Uma Galadriel do inferno. Uma Lilith do paraíso. Outro ponto. Até entendo como dialoga com a história do nosso cinema de terror, mas não curti a referência ao diabo no título. Pode ter sido uma decisão comercial ou mesmo a tal homenagem ao passado. Taí uma pergunta a ser feita caso um dia encontrar os jovens (ainda não batem na casa dos 30!!!) e tão promissores diretores.

Ainda sobre promessas… pelo jeito já estão com um curta novo a circular. Loira do Banheiro. Olha só que demais.