Facada 76 – Abalone (Boardgames)

Pensa um joguinho estratégico. Nesta edição explicamos um pouco o conceito de jogo abstrato enquanto apresentamos o Abalone! A ideia é empurrar as bolinhas do adversário para fora do tabuleiro. E isso não é tão fácil quanto parece!

Facada 75 – BENDITA CURA – RESENHA (HQ)

Ainda na sombra do Dia Internacional de Combate à LGBTQIA+fobia, o Facada traz uma resenha da contundente – e necessária – HQ de Mário César: Bendita Cura.

Alma não tem cor: uma falsa medida do homem

por Carla Lisboa*

Passadas as “comemorações” sobre o dia em que foi assinada a Lei Áurea, que extingue a escravidão no país (mas não a mentalidade escravista), tudo volta ao “normal”: violência e/ou discriminação racial, racismo, silenciamento, necropolítica… você escolhe, o repertório é vasto. Tudo acaba em extermínio, em invisibilidade social, em uma memória apagada, numa denúncia deslegitimada.

Tá, mas… E daí?

O historiador francês Pierre Norah, propôs um debate importante sobre memória, por ocasião do bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, mas também sobre o papel dos arquivos, datas comemorativas, monumentos e do patrimônio do país. O que deve ser preservado, ou esquecido? De qual passado falamos? Quais memórias são dignas de serem levadas adiante? Entre outras questões (e incômodos) levantados por Norah, está a memória como espaço de DISPUTA.

Tá, mas… E daí?

Daí que os debates sobre a desigualdade e a discriminação racial têm data certa no calendário, como se só morressem pretas e pretos no 13 de maio ou no 20 de novembro… É como se afrodescendentes só existissem a partir da perspectiva da miséria, da exclusão social e da violência, e essas duas datas servissem para um mea culpa, mea maxima culpa, mas que, na prática, não muda nada. Mas enfim, Pierre Norah está aí para explicar sobre esse processo de apagamento de memória e como ele acontece. E, apesar de me basear nas reflexões de um historiador europeu e branco, ele ajuda a organizar minhas reflexões sobre o assunto. Em tempo: Isso não quer dizer que não haja outros intelectuais falando sobre isso, mas que é uma escolha minha para falar sobre o tema partir das datas comemorativas, criadas por brancos. É uma discussão longa, válida, necessária, mas que pretendo fazer em outro momento, abordando especificamente intelectuais negros.

Todo lugar de memória é, antes de tudo, um espaço de disputa, não de concessão. Assim como a Lei Áurea não foi uma concessão, mas resultado de uma série de disputas em diversos níveis, seja no aspecto político, econômico e, claro, o social. Para que um grupo social seja lembrado é preciso silenciar o outro, ou “conceder” uma data, monumento, homenagem, para compensar esse silenciamento. Explico: não é uma data para reconhecimento das lutas por liberdade e reconhecimento da humanidade de milhões de pessoas escravizadas, muito menos de seus descendentes. Deveria ser, mas não é. Se houvesse, realmente, uma vontade de reconhecer historicamente a miséria vivida cotidianamente por essas pessoas, hoje, não seria necessário criar essas datas “de reflexão”. Sabe por quê? É simples: porque essas pessoas teriam sido integradas à sociedade depois do glorioso 13 de maio de 1888. Mas quem quer reconhecer que pisou na bola e construiu seu patrimônio financeiro à custa da exploração do trabalho alheio, não é mesmo?

Sem políticas de inserção social, sem acesso à escola e ao aprendizado de outros ofícios (além daqueles que exerceram enquanto escravizados), sem moradia, não haveria muitas alternativas além do alcoolismo, da mendicância, da fome e do subemprego. E nem venha me dizer que alguns conseguiram subir na vida, porque essa exceção só confirma a regra miserável que permanece ainda hoje. E digo mais: estes poucos que “subiram na vida” ou que não são miseráveis, só conseguiram graças ao ocultamento de sua identidade e ancestralidade africana. Só conseguiram o passaporte do sucesso porque se submeteram a uma série de códigos (brancos) de aceitação: modo de vestir, de falar, de se comportar, enfim, se embranquecer como é possível. Uma violência tamanha, que nenhum branco é capaz de imaginar, muito menos de sentir.

Mas, antes que eu me perca, quero evidenciar alguns pontos “nebulosos” sobre o racismo nosso de cada dia. Porque, sim, apesar de não ser branca, eu também cometo erros e tento aprender com eles. É uma luta desgastante, injusta e cheia de armadilhas e devemos estar preparados para elas. É preciso estar atento e forte, já alertava Gal, sob os ventos tropicalistas. E o mundo está cheio de armadilhas, acredite. A primeira delas, quiçá a mais frequente e que me deixa profundamente irritada (e até já adoeci por isso) é o famigerado “Somos todos iguais”. Iguais!? ONDE, alguém me explica?

Agora, neste exato momento de isolamento social, nem todos têm o privilégio de ter uma casa para se isolar, tampouco uma torneira para lavar as mãos. Não deveria ser assim, óbvio que não. Ter empatia e compaixão são indicadores da nobreza das pessoas, mas se esses sentimentos não levam a uma ação efetiva, de pouca valia será a indignação com o racismo. Nossa humanidade nos faz iguais em generosidade, respeito e, até mesmo, na fragilidade com relação às doenças, a solidão e a morte, mas como acreditar nisso com tanta gente dizimada, deslegitimada, desacreditada, calada, presa sem saber por quê? Como acreditar nisso se, quando estamos dizendo que não somos socialmente iguais, embora devêssemos ser, insistem na ideia de vitimismo? Quando vão entender que existe uma história do CONTINENTE AFRICANO anterior à escravidão e que a diáspora negra para o Brasil foi e é cruel porque tira, HOJE, direitos constitucionais dos descendentes de escravizados, porque não têm acesso a eles, como quaisquer outros cidadãos? Como essas pessoas vão ter uma formação e conseguir “ser alguém na vida”, se não conseguem se manter frequentando a escola? Como essas crianças e adolescentes vão se sentir acolhidos e aceitos com TODAS as limitações, traumas e violências sofridas dentro e fora de casa (quando há uma), quando tudo que recebem é julgamento? Se ouvem, desde a mais tenra idade, que são caso perdido, preguiçosos, acomodados, vagabundos?

Somos todos iguais, mesmo? Iguais a quem?

E seu eu te disser que, essa frase contém uma crueldade imensa?

Não somos iguais fisicamente, embora milhares de pessoas maltratem os cabelos para que pareçam lisos; não somos iguais espiritualmente porque muitos de nós têm um sistema de crenças diferente do cristianismo e que cotidianamente é vilipendiado, desprezado, dilapidado e destruído em nome de um Deus (branco) e salvador; não somos iguais filosoficamente porque pensamos o mundo diferentemente, com ênfase no coletivo e em respeito à ancestralidade; Não somos iguais porque ubuntu é muito mais sofisticado, complexo e profundo do que um sistema operacional de computador. Vou ficar por aqui, porque tenho exemplos e cansaço demais para esse espaço.

Numa sociedade extremamente violenta como a brasileira, é curioso observar esse fenômeno: a (falsa) crença de que somos iguais e suas variantes, tais como raça humana, não vejo cor, preto de alma branca, branco de alma negra, ou outra mais espiritual: alma não tem cor. Esta última soa mais cínica aos meus ouvidos. Considerando que há pouco menos de 150 anos, negros não tinham alma, tampouco eram considerados gente, a menos que fossem batizados com um nome cristão, obviamente… isso dói ouvir, sabe? Há quem argumente que se deva superar esse triste passado e buscar uma unidade espiritual, uma unidade branca e cristã, que fique bem entendido.

Então, eu te pergunto: por que deveríamos ser iguais, pasteurizados como um enorme pote de iogurte? Por que AINDA não somos aceitos por ser quem somos, como somos e queremos ser e ainda não podemos ser em plenitude e com dignidade?

Porque existe uma maioria que não quer assumir que tem privilégios. Sim, ser branco no Brasil é privilégio, não porque eu quero, mas porque vivemos num mundo em que aparência é importante. Veja, o código de “normalidade” é ocidental e branco. Não se trata de culpa, mas de responsabilidade social. Dizem que os negros e afrodescendentes não têm educação, são agressivos, irascíveis, histéricos, encrenqueiros, indisciplinados, se vitimizam… Você branco, cristão etc., já questionou sobre o porquê desse comportamento? Se não, deveria. Não estou falando em caridade, mas em fazer autocrítica para ser capaz de aceitar valores, estéticas e formas de expressão artística e religiosa diferentes das suas, para que outras pessoas tenham acesso às oportunidades que você tem. Começa por aí… O primeiro passo é reconhecer os privilégios.

Dói, né? Imagina quando negam o direto de se manifestar sobre a discriminação e violência vividas por causa da cor da pele… Quando um afro-brasileiro diz que determinada postura, fala, brincadeira é racista, não é opinião, nem vitimismo. É uma afirmação que é imediatamente deslegitimada com o mais puro achismo. Racismo não é sobre (sua) opinião, é sobre sua postura com quem é diferente de você, mesmo que você não perceba. Quando alguém lhe disser “isto é racismo”, aceite humildemente e se emende.

Outra coisa: quando acreditamos na ideia de “dar voz às minorias”, na verdade, estamos dizendo que essas pessoas não são capazes de falar por elas mesmas de suas mágoas, frustrações e injustiças sofridas. E isso é silenciá-las mais uma vez. Olha aí, Pierre Norah acenando para mostrar o apagamento simbólico e histórico novamente! Não basta homenagear a cultura negra, exaltar sua beleza e sabedoria ancestral é preciso que ela exista e seja respeitada per se, sem ser esvaziada de significados, tampouco tornado produto. Essa luta é multifacetada e cheia de armadilhas, como já disse. É política, econômica, religiosa, social, semântica, mas também está presente no nível dos afetos, nos ritos cheio de significado e riqueza, nas memórias, histórias e seus múltiplos sentidos. É cruel, porque inviabiliza o discurso de quem mostra o racismo que estrutura nossa sociedade e as redes de relações. É tão grave que foi tornada crime, apesar de banal.

É aqui que nosso compromisso como cidadão deve se reafirmar, principalmente em tempos de terras planas, pistolas e “Zumbi dos Palmares dono de escravos” e outros negacionismos perigosos, do passado e do presente. Esse compromisso, nada fácil de ser mantido, pouco tem a ver com conceder algo que já está previsto na Constituição de 1988. Diz mais sobre como, nas diferenças, todos tenham acesso às mesmas oportunidades e direitos que você tem, desde que nasceu, e muitos nem sabem que existe. É sobre respeitar o ser humano, suas diferenças e, acima de tudo, agir com justiça. Só assim, a diversidade de identidades, credos, cores e crenças farão parte de ser brasileiro verdadeiramente.

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* Carla Lisboa é mestre e doutora em História Social pela Unesp/Assis e professora convidada do Centro Universitário Sagrado Coração. Capricorniana, corinthiana (sem muita convicção), de “de esquerda” e voltou a tricotar na quarentena.

O fracasso em meio ao caos

por Roberta AR

Sonhei que estava no cruzamento de uma grande avenida, um lugar que me foi tão familiar por tanto tempo, mas que não vou há anos. Perguntei para quem estava comigo, uma amiga que se distanciou, coisas da vida, se não tinha problema eu dar um pulinho por lá no meio do isolamento. “Está cheia de gente passeando, não tem problema”. Acordei assustada.

Este ar de normalidade no meio do absurdo é algo que sempre me assusta, não é um sentimento novo. As pessoas naturalizam as piores coisas de um jeito quase sereno, digo quase porque esta serenidade é mantida artificialmente com alguma compulsão, remédios controlados ou drogas. Os que não naturalizam, viram esses seres estranhos inadaptados que precisam ser consertados. 

Eu tenho sido essa pessoa quebrada faz uns anos já. Em isolamento, sem conseguir ser funcional nas condições que o mundo quer. Não sou mais produtiva, pois não gero riqueza. Estou aqui dedicada a manter uma criança mentalmente, emocionalmente e fisicamente saudável no meio da violência emocional e patrimonial que vem de todo o lado. E minha energia tem sido toda consumida por isso e pela feridas emocionais de uma vida de abandonos. Esteja materialmente vulnerável e se veja ser tratada como incapaz, com condescendência e até tentarem tirar seu poder familiar. 

É difícil e pesado viver neste mundo. Para todo mundo. Este é um mundo violento e nós, pobres, dividimos entres nós metade da riqueza do planeta, a outra metade está na mão dos 1%. Esse valor deve ter aumentado depois que esta marca foi atingida há quatro anos (pros mais ricos). E são esses 1% que dizem quem vai mandar em cada canto do mundo, ou você acha que foi o porteiro com seu voto que escolheu este presidente?

Acho interessante como se gasta tempo falando mal do pobre de direita e não se fala nunca destes ultra-ricos. Será que é porque as fundações deles dão uns troco para as artes, bancam políticos “de esquerda”? Usam até os mortos desta epidemia para chamar pobres de burros: “a maioria desta cidade votou em…”. Merecemos morrer por isso. Mas falar da fundação lá do cara mais rico do país, que tem aquela fast food das propagandas descoladas, junto com aquele apresentador que quer ser presidente nem pensar. E eles se juntaram para eleger muita gente no parlamento. Normal, né? Dinheiro bem gasto que vai nos beneficiar… Aqui eu acordo assustada, de novo, mas desta vez não estava nem dormindo. 

Precisamos buscar o sucesso. Pensar em sucesso traz o sucesso até você. Mentalize a riqueza, o que você quer ter, onde você quer estar. Mesmo sabendo que tem que dividir metade da riqueza do mundo com quase sete bilhões de pessoas, porque a outra metade tá na mão de umas duas mil. Alguém sugeriu que eu monte meu negócio agora. Acordo já acordada de novo. Mas assustada. “Fulano doou um milhão para pesquisa do corona vírus”. Dinheiro do papel higiênico, né? Cês me poupem. 

Eu vejo muita gente sem conseguir se encaixar neste mundo. Estou assim faz pouco tempo, focando minha energia em sobrevivência primária, mas sinto essa dor de todos como a minha. Pessoas que sentem o peso de ter que levantar de manhã para exercer atividades absolutamente inúteis e dispensáveis no meio de gente abusiva e que se dá um valor maior do que lhe é de direito. Nunca tinha chegado neste estado em que o peso é maior que a minha força, mas sempre tive que lidar com ele. E ainda temos que ouvir que isto é fracasso.

O sucesso do 1% é o total desprezo ao resto do planeta. Estamos neste caos sanitário porque tem gente sugando nossa existência (nossa como parte da natureza, somos todos uma coisa só) e a transformando em moeda corrente. Lidar com o fracasso não pode ser um problema, neste contexto. Somos todos fracassados, nesta perspectiva. O fato de alguém ter um salário um pouco maior não o torna uma pessoa de sucesso, porque o salário pode sumir a qualquer momento. Aquela empresa de sucesso também não sobreviveu agora.

Hoje, me sinto reconectada ao mundo. A minha dor agora tem legitimidade. O absurdo está bem visível, para quem quiser enxergar. Não é uma sensação boa, este pertencimento. Mas me tira do lugar da louca que se nega a cair na real. O que é real?

Ontem, li um artigo, que tava numa fila pra ler faz tempo (você está sendo produtivo na pandemia? eu não). Ele falava de moda, mas veja este trecho: “O tempo urge. Defendo a cura pelo respeito ao coletivo, às pessoas. Acredito que vamos precisar nos preparar para organizar uma nova ordem feita de variações mínimas (…) com respeito irrestrito ao planeta. Será preciso o indivíduo desprender-se das normas antigas e apreciar cada vez mais o coletivo, para aí sim conseguir afirmar um gosto mais pessoal.” (o texto do Jackson Araújo está completo aqui

Ele fala de coletivo, mas não como estes grupos contemporâneos que pretendem ser vanguarda, mas têm essa cara de empreendedorismo meritocrático. Coletivo como estar junto, de verdade. Precisamos nos ver a partir do outro, da troca, não do julgamento. E eu pensei aqui nas tantas vezes que estive com amigues e até em coletivos, mais de um, pessoas incapazes de pensar a troca de potencialidades sem isso virar recurso financeiro. Pessoas que não aceitam que você faça algo que é sua especialidade sem pagar por isso, provavelmente por não querer “ficar devendo”. Ou que acha que qualquer coisa que ela faça tem preço. A impensável, para elas, gratuidade nos gestos. Eu faço parte de um núcleo da Comunidade que Sustenta a Agricultura (saiba mais o que é clicando aqui) e um dos lemas desse grupo é substituição da “cultura do preço pela cultura do apreço”. Agora é tempo de pensarmos estas relações sociais. Isso é muito sério.

Vejo iniciativas como Artistas em Quarentena, da Lila Cruz, que pensa concreto e pontual, neste momento difícil, para citar uma de um grupo com que tenho trabalhado nos últimos anos. Como esta, temos milhares de ações em todo o país, indígenas, periferia, catadores, artesãos, quilombolas, estão todos se articulando para sobreviver apesar de. Mas, mais do que doar, precisamos criar nossas próprias redes de apoio. Material e emocional. Gente com a qual você possa estar nas vacas gordas e vacas magras te olhando do mesmo jeito, com respeito, amor e carinho. Que a gratuidade do gesto seja recíproca. Que o cuidado seja sincero e te deixe tranquila por ter um colo no meio do caos. Precisamos sobreviver para o depois.

Está difícil, mas eu tenho o sonho com um abraço apertado na amiga querida que nunca vi pessoalmente. Tenho a mensagem de quem sempre esteve aqui do meu lado quando eu quebrei de verdade. O carinho de quem me ajuda a descobrir quem eu sou. O amigo que divide minhas iniciativas de conteúdo gratuito “creative commons”. O companheiro que está aqui, mesmo sendo tudo tão difícil. A criança que me ama. Somos coletivo. Comunidade, porque acho mais bonito. 

Facada 72 – Cathedral (Boardgames)

Dorimeeeeeeeeeee… Em Catehdral, os jogadores competem por espaço. As belíssimas peças de madeira se encaixam para bloquear territórios. Ganha quem ficar com menos pedras fora!

Facada 71 – Era: Idade Medieval (Boardgame)

Crie sua própria cidadela medieval e aprenda a driblar pestes e ataques de reinos vizinhos! Esse é Era: Idade Medieval, um jogo de construção e rolagem de dados!

Mas ele diz que me ama – graphic novel de uma relação violenta

por Roberta AR

Uma das coisas mais difíceis para quem está num relacionamento afetivo é admitir que vive uma relação abusiva. Para as mulheres isso é ainda mais complicado, pois somos educadas a encarar a brutalidade dos parceiros como um tipo de amor. Por esses dias, rodou nas redes sociais a foto de uma menina de quatro anos que foi agredida por um colega de escola e teve que levar quatro pontos no rosto. Seria apenas mais uma história de briga entre colegas, se não fosse o comentário do enfermeiro que atendeu o caso e disse para a garotinha que o menino que a agrediu provavelmente tem uma “quedinha” por ela. Desde crianças somos educadas a acreditar que homens amam com violência.

Essa longa introdução é para justificar a resenha desta novela gráfica que já tem quase dez anos de publicação no Brasil, mas acredito ser uma leitura obrigatória: Mas ele diz que me ama – Graphic novel de uma relação violenta, de Rosalind B. Penfold.

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Rosalind, na verdade, é um pseudônimo usado pela autora que decidiu preservar sua privacidade, mas achou fundamental expor passo a passo o desenrolar de uma relação abusiva, a sua própria, como forma de alerta para as mulheres.

Uma publicitária de sucesso, Roz, que tinha sua empresa, um apartamento, entre outras coisas, com apenas 35 anos de idade, começa a se relacionar com Brian, um homem recém viúvo, com quatro filhos pequenos. Uma relação intensa, irresistível, com muitas flores e bilhetes românticos. Os episódios abusivos começam a aparecer já no início da relação, mas ela se recusa a ver, pois o ama e acredita que é um exagero de sua parte, pois ele sempre se desculpa e a “compensa” de alguma forma.

Segundo Rosalind, um relacionamento abusivo é assim: “ Quando conheci Brian, me apaixonei profundamente. Imaginei que viveríamos um romance de conto de fadas. E vivemos… por algum tempo… ATÉ QUE AS COISAS COMEÇARAM A MUDAR. Ignorei as primeiras frustrações, os joguinhos sutis e me recusei a acreditar no que acontecia até perceber que estava afundando em uma areia movediça de ABUSOS VERBAIS, EMOCIONAIS, SEXUAIS e, por fim, FÍSICOS”.

Com um traço simples, direto, fruto dos diários de Roz durante a relação, esse quadrinho vai relatando ao longo das suas mais de duzentas páginas, como podemos nos recusar a ver que estamos numa relação abusiva e como essas feridas vão se intensificando, tornando cada vez mais difícil nos desvencilhar e encerrar o ciclo.

Roz também deixa claro que é fundamental o apoio de pessoas queridas, amigas, amigos e de profissionais, que uma mulher dificilmente consegue sair disso sozinha.
Fruto desse livro, está no ar o site Dragonslippers (o nome original do livro) – Friends of Rosalind, que disponibiliza para impressão uma lista de alertas para quem quiser saber se está vivendo uma relação abusiva ou não (em inglês) e indica instituições de apoio a mulheres que sofrem violência doméstica em várias partes do mundo.

O livro está disponível em nove línguas e ainda está à venda no Brasil, já presenteei algumas amigas com ele recentemente (possivelmente assustei alguma com a HQ, mas achei importante dar).

Acompanhar a história de Rosalind nos faz perceber o como é comum e o quanto é difícil se perceber como protagonista de uma história como essa. No meu caso a coisa é bem estranha, porque ganhei meu exemplar deste livro de um namorado que estava todo empolgado com essa HQ que poderia ajudar tantas mulheres a poupar um longo período de sofrimento, mas que ao mesmo tempo fazia gaslighting comigo, o que demonstra que precisamos estar sempre alerta, pois o machismo é algo que se pratica (ou se reproduz, no caso das mulheres) no piloto automático e muitas vezes não nos damos conta.

 

Mas ele diz que me ama – Graphic novel de uma relação violenta
Rosalind B. Penfold
Ediouro
264 páginas
http://www.dragonslippers.com/