Gravuras de Suor Isabella Piccini

por Suor Isabella Piccini*

 

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Leonardus Lessius (1554–1623), s.d.
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Sts Peter and Paul, s.d.

 

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praelatorum solemniter vel private celebrantium, 1734

 

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Anbetung der Hirten, 1713

 

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Santa Teresa di Giesù, commentati, 1720

 

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Jesus Recumbans cum Duobus Discipulis in Castello Emaus, 1705

 

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Bernardo Lodoli, Serenissimo Venetiarum Dominio – III, 1703

 

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Bernardo Lodoli, Serenissimo Venetiarum Dominio – II, 1703

 

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Bernardo Lodoli, Serenissimo Venetiarum Dominio – I, 1703

 

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Frontispiece Vita beatae Zitae virginis Lucensis, 1688

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*Suor Isabella Piccini, nascida Elisabetta Piccini (1644 – 1734) foi uma gravadora italiana. Era descendente de uma família veneziana de artistas gráficos. Seu pai Jacopo e seu tio Guglielmo gravaram reproduções de pinturas de Ticiano e Rubens, mas também fizeram ilustrações para impressores e editores.

Gaslight (filme de 1940)

 

com legendas em português, basta ativar no menu inferior no próprio vídeo

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*Gaslight é um filme britânico de 1940 dirigido por Thorold Dickinson, estrelado por Anton Walbrook e Diana Wynyard, e conta também com Frank Pettingell.

Alice Barlow (Marie Wright) é assassinada por um homem desconhecido, que então rouba sua casa, procurando por seus valiosos e famosos rubis. A casa permanece vazia por anos, até que os recém-casados ​​Paul e Bella Mallen se mudam. Bella (Diana Wynyard) logo se vê perdendo objetos pequenos; e, em pouco tempo, Paul (Anton Walbrook) acredita que ela está perdendo sua sanidade. B. G. Rough (Frank Pettingell), um ex-detetive envolvido na investigação do assassinato original, imediatamente suspeita do assassinato de Alice Barlow.

Paul usa as lâmpadas a gás para procurar os andares superiores fechados, o que faz com que o resto das lâmpadas da casa diminua levemente. Quando Bella comenta sobre o escurecimento das luzes, ele diz a ela que ela está imaginando coisas. Bella está convencida de que está ouvindo ruídos, sem saber que Paul entra nos andares superiores da casa ao lado. A interpretação sinistra da mudança nos níveis de luz é parte de um padrão maior de fraude ao qual Bella está sujeita.

Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima.

O termo deve a sua origem à peça teatral Gaslight e às suas adaptações para o cinema (essa aqui inclusa), quando então a palavra popularizou-se. O termo também tem sido utilizado na literatura clínica.

Saudade

por Gabriela Frederica de Andrada Dias Mesquita*

Da vida na manhã tudo é bonança,
Tudo é luz, tudo flor, tudo harmonia:
São cantos de suavíssima poesia,
Que nos embala em sonhos de esperança.
Ri a ventura ao lábio da criança;
Da mocidade a alegre fantasia,
Escrava da ilusão que a inebria,
Em vão busca o prazer, em vão se cansa.
Passam os anos, e com eles passam,
Uma por uma, todas as quimeras,
Chegam invernos, fogem primaveras…
Além no azul do céu, onde esvoaçam,
Tristes saudades das passadas eras,
São os sonhos da vida que perpassam…

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*Gabriela Frederica de Andrada Dias Mesquita (1852 – 1922). O grande tema da poetisa Gabriela, muito comum ao Barroco e ao Romantismo, é a fugacidade da vida e, em consequência, a crítica à ausência do desejo na velhice e a interrogação acerca da morte, para ela um tenebroso e tormentoso mistério. O topos do ubi sunt, entrelaçado ao passado erotismo e ao desejo da morte frequenta praticamente todos os poemas. Os temas da saudade e da solidão são também bastante frequentes. 

Pinturas de Broncia Koller-Pinell

por Broncia Koller-Pinell*

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Breite Föhre,1900
Broncia_Koller-Pinell_Alte_Dächer_-_Freihaus
Alte Dächer – Freihaus, 1934
Broncia_Koller-Pinell_Eva
Eva, 1934

Koller-Pinell_Silvia-Birdcage
Silvia birdcage, 1907-1908
Broncia_Koller-Pinell_-_Selbstbildnis
Selbstbildnis, 1930
Broncia_Koller-Pinell_Bildnis_Anna_Mahler
Portrait of Anna Mahler, 1921
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Frau mit blauem Kopftuch, 1934
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Kniender Akt, 1934
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study, 1934
Broncia_Koller-Pinell_Sitzende
Sitzende, 1907

 

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*Broncia Koller-Pinell (1863 – 1934) foi uma pintora austríaca expressionista que se especializou em retratos e naturezas-mortas.

Adiamento

por Álvaro de Campos*

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…

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* Álvaro de Campos é um heterônimo do poeta português Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Universal.

 

Tenho esperança que…

por Lima Barreto*

Certas manhãs quando desço de bonde para o centro da cidade, naquelas manhãs em que, no dizer do poeta, um arcanjo se levanta de dentro de nós; quando desço do subúrbio em que resido há quinze anos, vou vendo pelo longo caminho de mais de dez quilômetros, as escolas públicas povoadas.

Em algumas, ainda surpreendo as crianças entrando e se espalhando pelos jardins à espera do começo das aulas, em outras, porém, elas já estão abancadas e debruçadas sobre aqueles livros que meus olhos não mais folhearão, nem mesmo para seguir as lições de meus filhos. Brás Cubas não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria; eu, porém, a transmitiria de bom grado.

Vendo todo o dia, ou quase, esse espetáculo curioso e sugestivo da vida da cidade, sempre me hei de lembrar da quantidade das meninas que, anualmente, disputam a entrada na Escola Normal desta idade; e eu, que estou sempre disposto a troçar as pretensões feministas, fico interessado em achar no meu espírito uma solução que satisfizesse o afã do milheiro dessas candidatas a tal matricula, procurando com isso aprender para ensinar, o quê? O curso primário, as primeiras letras a meninas e meninos pobres, no que vão gastar a sua mocidade, a sua saúde e fanar a sua beleza. Dolorosa coisa para uma moça…

A obscuridade da missão e a abnegação que ela exige, cercam essas moças de um halo de heroísmo, de grandeza, de virtudes que me faz naquelas manhãs em que sinto o arcanjo dentro da minha alma, cobrir todas elas da mais viva e extremada simpatia. Eu me lembro também da minha primeira década de vida, de meu primeiro colégio público municipal na rua do Resende, das suas duas salas de aula, daquelas grandes e pesadas carteiras do tempo e, sobretudo, da minha professora – Dona Teresa Pimentel do Amaral – de quem, talvez se a desgraça, um dia, enfraquecer-me a memória não me esqueça de todo.

De todos os professores que eu tive, houve cinco que me impressionaram muito; mas é,dela que guardo mais forte impressão.

O doutor (assim o tratávamos) Frutuoso da Costa, um deles, era um preto mineiro, que estudara para padre e não chegara a ordenar-se. Tudo nele era desgosto, amargor; e, as vezes, deixávamos de analisar a Seleção, para ouvirmos de sua feia boca histórias polvilhadas dos mais atrozes sarcasmos. Os seus olhos inteligentes luziam debaixo do pince-nez e o seu sorriso de remoque mostrava os seus dentes de marfim de um modo que não me atrevo a. qualificar. O seu enterro saiu de uma quase estalagem.

Um outro foi o Senhor Francisco Varela, homem de muito mérito e inteligente, que me ensinou História Geral e do Brasil. Tenho uma notícia de polícia que cortei de um velho Jornal do Comércio de 1878. Desenvolvida com a habilidade e o savoirfaire daqueles tempos, contava como foi preso um sujeito por trazer consigo quatro canivetes. “Explorava-a”, como diz hoje nos jornais, criteriosamente o redator dizendo que “ordinariamente basta que um homem traga consigo uma única arma qualquer para que a polícia ache logo que deve chamá-lo a contas”.

Isto era naquele tempo e na Corte, pois o professor Chico Varela usava impunemente não sei quantos canivetes, quantos punhais, revólveres; e, um dia, apareceu-nos com uma carabina.

Era no tempo da Revolta. Gabava-se, no que tinha muita razão, de ser parente de Fagundes Varela; mas sempre citava a famosa metáfora de Castro Alves, como sendo das mais belas que conhecia: “Qual Prometeu tu me amarraste um dia”…

Era um belo homem e, se ele ler isto, não me leve a mal. Recordações de menino…

Foi ele quem me narrou a lenda dos começos da guerra de Tróia, que, como sei hoje, é da autoria de um tal Estásinos de Chipre. Parece que é fragmento de um poema deste, conservado não sei em que outro livro antigo. O filho do rei de Tróia, Páris, foi chamado a julgar uma contenda entre deusas, Vênus, Minerva e Juno.

Houvera um banquete no céu e a Discórdia, que não havia sido convidada, para vingar-se, atirou um pomo de ouro, com a inscrição – “À mais bela”. Páris, chamado a julgar quem merecia o prêmio, entre as três, hesitou. Minerva prometia-lhe a sabedoria e a coragem; Juno, o poder real e Vênus… a mulher mais bela do mundo.

Aí, ele não teve dúvidas: deu o “pomo” à Vênus. Encontrou-se com Helena, que era mulher do rei Menelau, fugiu com ela; e a promessa de Afrodite foi cumprida. Menelau não quis aceitar esse rapto e declarou guerra com uma porção de outros reis à Tróia. Essa história é da mitologia; pois hoje me parece do catecismo. Naqueles dias, ela me encantou e fui da opinião do troiano; atualmente, porém, não sei como julgaria, mas certo não desencadearia uma guerra por tão pouca coisa.

Varela contava tudo isto com uma eloqüência cheia e entusiasmo, de transbordante paixão; e, ao me lembrar ele, comparo-o sempre com o doutor Ortiz Monteiro, que foi meu lente, sempre calmo, metódico, não perdendo nunca um minuto para não interromper a exposição da sua geometria descritiva. A sua pontualidade e o seu amor em ensinar a sua disciplina faziam-no uma exceção no nosso meio, onde os professores cuidam pouco nas suas cadeiras, para se ocuparem de todo outro qualquer afazer.

De todos eu queria também falar da Senhor Oto de Alencar, mas que posso eu dizer da sua cultura geral e profunda, da natureza tão diferente da sua inteligência da nossa inteligência, em geral? Ele tinha alguma coisa daqueles grandes geômetras franceses que vêm de Descartes, passam por d’Alembert e Condorcet, chegam até nossos dias em Bertrand e Poincaré. Podia tocar em tudo e tudo receberia a marca indelével do seu gênio. Entre nós, há muitos que sabem; mas não são sábios. Oto, sem eiva de pedantismo ou de insuficiência presumida, era um gênio universal, em cuja inteligência a total representação científica do mundo tinha lhe dado, não só a acelerada ânsia de mais, saber, mas também a certeza de que nunca conseguiremos sobrepor ao universo as leis que supomos eternas e infalíveis. A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas ou gafanhotos. Ela não é uma deusa que possa gerar inquisidores de escalpelo e microscópio, pois devemos sempre julgá-la com a cartesiana dúvida permanente. Não podemos oprimir em seu nome. Foi o homem mais inteligente que conheci e o mais honesto de inteligência.

Mas, de todos, de quem mais me lembro, é de minha professora primária, não direi do “abc”, porque o aprendi em casa, com minha mãe, que me morreu aos sete anos.

É com essas recordações em torno das quais esvoaçam tantos sonhos mortos e tantasesperanças por realizar, que vejo crepitar esse matutino movimento escolar; e penso nas mil e tantas meninas que todos os anos acodem ao concurso de admissão à Escola Normal.

Tudo têm os sábios da Prefeitura imaginado no intuito de dificultar a entrada. Creio mesmo que já se exigiu Geometria Analítica e Cálculo Diferencial, para crianças de doze a quinze anos; mas nenhum deles se lembrou da medida mais simples. Se as moças residentes no Município do Rio de Janeiro mostram de tal forma vontade de aprender, de completar o seu curso primário com um secundário e profissional o governo só deve e tem a fazer uma coisa: aumentar o número das escolas de quantas houver necessidade.

Dizem, porém, que a municipalidade não tem necessidade de tantas professoras, para admitir cerca de mil candidatas a tais cargos, a despesa, etc. Não há razão para tal objeção, pois o dever de todo governo é facilitar a instrução dos seus súditos.

Todas as mil que se matriculassem, o prefeito não ficava na obrigação de fazê-las professoras ou adjuntas. Educá-las-ia só se estabelecesse um processo de escolha para sua nomeação, depois que completassem o curso.

As que não fossem escolhidas, poderiam procurar o professorado particular e, mesmo como mães, a sua instrução seria utilíssima.

Verdadeiramente, não há estabelecimentos públicos destinados ao ensino secundário às moças. O governo federal não tem nenhum, apesar da Constituição impor-lhe o dever de prover essa espécie de ensino no Distrito. Ele julga, porém, que só são os homens que necessitam dele; e mesmo os rapazes, ele o faz com estabelecimentos fechados, para onde se entra à custa de muitos empenhos.

A despesa que ele tem, com os Ginásios e o Colégio Militar bem empregada daria para maior número de externatos, de liceus. Além de um internato no Colégio Militar do Rio, tem outro em Barbacena, outro em Porto Alegre, e não sei se projetam mais alguns por aí.

Onde ele não tem obrigação de ministrar o ensino secundário, ministra; mas aqui, onde ele é obrigado, constitucionalmente, deixa milhares de moças a impetrar a benevolência do governo municipal.

A municipalidade do Rio de Janeiro que rende cerca de quarenta mil contos ou mais, podia ter há muito tempo resolvido esse caso; mas a política que domina a nossa edilidade não é aquela que Bossuet definiu. A nossa tem por fim fazer a vida incômoda e os povos infelizes; e os seus partidos têm por programa um único: não fazer nada de útil.

Diante desse espetáculo de mil e tantas meninas que querem aprender alguma coisa, batem à porta da Municipalidade e ela as repele em massa, admiro que os senhores que entendem de instrução pública, não digam alguma coisa a respeito.

E creio que não é fato insignificante; e, por mais que fosse e capaz de causar prazer ou dor à mais humilde criatura, não seria demasiado insignificante para não merecer a atenção do filósofo. Creio ser de Bacon essa observação.

O remédio que julgo tão simples, pode não sê-lo; mas, espero despertar a atenção dos entendidos e serão eles capazes de achar um bem melhor. Ficarei muito contente e tenho esperança que tal se dê.

Bagatelas, 3-5-1918

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* Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), mais conhecido apenas como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

Meu não é a muitos eles

por Roberta AR

Eu sinto um medo constante desde que me entendo por gente. Medo de ser agredida quando eu menos espero, verbalmente ou fisicamente. Não tem um momento de alegria pura que não seja tomado por esse sentimento, de que algo muito ruim vai acabar acontecendo.

Toda a minha infância foi vivida na ditadura militar, nasci num subúrbio operário, como diz a música. Muito nova, participei de mobilizações de legalização de loteamentos, o que hoje poderia ser chamado de MTST, o terreno que meu pai comprou em Parelheiros era ilegal. O medo das “autoridades” era constante, não podíamos ter conversa sobre política em casa, que eu ouvia um “shhhhhhh” retumbante da minha mãe. Foi um tanto de tempo depois que fui entender o que era aquilo.

Mas o medo que me acompanha não é só esse, de fora. O meu maior medo vinha de dentro de casa, de um homem que deveria cuidar de mim e que me dizia sempre que podia: “você pensa que você é gente? você não é gente não!”. Ou então me proibia de quase tudo dizendo que “se eu fosse homem poderia”, rindo. Uma vez ele me trancou em casa por dois meses, porque achou que eu tinha sido cantada na rua. Ele começou a me bater, minha mãe deixou de ser exclusiva nessa violência. E foi aí que comecei a ter medo de morrer cada dia que ficava em casa.

Nesse tempo, comecei a participar de um grupo de jovens na igreja, acho que meus pais achavam que ali seria um ambiente seguro para uma “menina de família”. Mas eis que eu caio num grupo Pastoral, de uma Comunidade Eclesial de Base e a partir dali minha história mudou completamente. Uma nova constituição foi aprovada no país e, pela primeira vez na minha vida, alguma lei garantia que eu era igual aos homens em direitos e deveres. Colei o artigo em toda a parte de casa, apavorada com a violência que sofreria, mas realizada de ter um papel ao meu favor.

Eu fui engajadíssima na aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, tinha dezesseis anos e ainda teria alguns anos de cobertura da primeira lei que interveio na violência doméstica nesse país. Foi uma alegria imensa ver o texto aprovado e os primeiros conselhos tutelares funcionando. Alguns dos conselheiros eram meus amigos de pastoral e olhavam por mim. Meu pai foi veemente contra a lei: “onde já se viu não poder fazer o que eu quiser com minha própria filha!”. Não podia mais. Ainda não pode. Mas mesmo assim me torturou psicologicamente por anos ainda. Me ameaçou jogar na rua porque comecei a trabalhar, mesmo ganhando pouco, me proibiu de comer a comida da casa.

Meu pai era metalúrgico, fez parte do nascimento daquele partido do período das greves, foi membro de diretório da instituição. De esquerda.

Hoje, vivemos esse momento em que um candidato a presidente diz querer acabar com o Estatuto que eu lutei tanto para que fosse aprovado, e que provavelmente me salvou. Que fala das mulheres como se fôssemos lixo.

O medo me toma.

Tenho medo de ser abordada na rua e agredida por fanáticos. Tenho medo até de escrever esse texto.

Mas hoje não tenho mais o medo que me tomou a maior parte da minha vida, o de voltar para casa e não saber se eu ia sair de lá viva. Ainda hoje a própria casa é o lugar mais perigoso para as mulheres, mais da metade das assassinadas o são lá. Imagina só quando matar mulheres e filhas não gerava condenação nenhuma?

Faz tão pouco tempo que começamos a superar isso, não podemos deixar que isso volte a ser nossas vidas. NÃO VAMOS!