A morte é parte da vida

por Roberta AR

Eu era ainda muito pequena quando fui a um funeral, o primeiro. Nem lembro que idade tinha, porque minha família nunca protegeu as crianças dessas cerimônias funestas, nem de muitas outras coisas que não vêm ao caso agora.

Foi a perda de uma irmã que me fez entender que a morte pode mudar tudo na vida, dentro de uma casa, na dinâmica das relações. Mas nem assim sua presença, da morte, passou a me acompanhar, era algo que existia, que eu sabia ser repentina em muitos casos, que doía e que deveria ser superada, pois a vida continua, mesmo que acabe para alguns.

Nem todo mundo é assim, vivo e querendo viver, tem aqueles que invocam a presença da morte todo o tempo, que fazem dela sua mais preciosa companheira imaginária, claro, pois se estão vivos, a companhia real é a da vida. E isso me faz pensar em Júlio.

Era uma fase de mudanças intensas na minha vida e ele apareceu. A minha empolgação com tudo, com novas pessoas, novas possibilidades de trabalho, minhas pretensões artísticas nas horas vagas, novos lugares, sabores, tudo isso parecia atraí-lo e algo que poderíamos dividir. Ele falava muito de morte, brincando, era o que eu pensava naquele tempo, e eu achava divertido, irônico, como um desprezinho à cultura de que temos que estar alegres o tempo todo. Mas eu estava muito enganada com esse julgamento, totalmente enganada.

Então estava lá eu, toda entusiasmada com a nova vida que se desenhava à frente e nem me dava conta de que entrava numa história completamente diferente do que eu esperava. Fui colocada em companhia da morte.

Sua familiar mais próxima decidiu desistir do próprio corpo e parecia brincar de querer morrer. Uma pessoa me disse uma vez que morrer não é algo tão fácil quanto parece, decidir morrer enfraquecendo o próprio corpo leva muito tempo, neste caso foram anos de dedicação. Esse foi mais um passo para que a morte fosse uma presença constante na vida e sua influência, desta mulher que desistiu de viver, continuou mesmo depois que ela alcançou o que achava que queria.

Assim como ela, ele gostava de correr riscos, de uma maneira um pouco diferente no começo, e também não cuidava do próprio corpo. Eu achava divertido isso de correr riscos, porque é preciso sair do confortável, da monotonia, para que a vida seja mais. Diversão é necessária numa vida saudável. Mas a busca ali não era a da saúde e eu nem me dava conta, ou fingia não perceber.

Com a convivência cotidiana, passei a me sentir triste todo o tempo e não entendia porquê. Ele ficava indignado, porque não era de uma mulher triste que ele tinha se aproximado e eu, confusa por conta dessa tristeza que não sabia como combater, falava sobre isso de que não se pode ser alegre o tempo todo, o que pensei que ele sabia, mas ouvia impropérios e apologias à festa eterna, à diversão acima de todas as deusas. Era uma alegria artificial, proporcionada por aditivos químicos de todo o tipo e que anestesiavam a vida.

Fui arrebatada para este mundo em que vida ficava em suspensão, uma espécie de coma induzido, em que nada parecia real e nenhum sentimento era sincero. Fui tomada pela tristeza, meus dias se arrastavam, minha saúde foi afetada, fiquei inchada, indisposta, insone. Mas ele sorria o tempo todo e devia achar que isso era felicidade. Ou apenas encarava isto cinicamente, o mesmo cinismo com que passou a me tratar com o passar do tempo.

A presença da morte era tão constante, que não foi possível uma nova vida vingar em mim, parecia impossível pro meu corpo lidar com aquilo, eu tinha medo desse legado de tristeza que dava a impressão de ser intransponível. Trazer vida para morte era algo incompreensível e inaceitável.

Eu me sentia entregue a esta vida fúnebre, mas algo em mim reagia mesmo sem eu perceber. A vontade de viver, de me atirar ao novo e bonito e saudável estava lá, no fundo da minha alma, e começou a me empurrar para a ação. Isso foi logo depois que comecei a temer pela vida dele todos os dias, a vida física, o corpo, que estava prestes ao colapso. Meu medo era de um mal incapacitante, que me tornasse uma babá para o resto da vida. Sim, fui egoísta e sem nenhuma vergonha disso, ainda mais depois de ter sido tragada para um abismo. Um belo dia, desisti dele e acabamos nos afastando.

Foi chocante ver que, mesmo depois de não mais convivermos cotidianamente, ele ainda tentava me puxar para o seu abismo pessoal. As poucas conversas que aconteceram foram sobre como sua vida era uma grande tragédia ou para me humilhar nas minhas fraquezas pessoais.

E foi assim que percebi que só quero estar morta quando morrer efetivamente. A morte faz parte da vida, mas é preciso estar vivo para entender o que isto significa.

Facada 32 – Jogos de tabuleiro – Five tribes

Pensa uma mecânica de jogo mais antiga que o Brasil? Pois Five Tribes parte dela – a mancala – para desafiar a lógica e pensamento estratégico dos jogadores.

Com apoio: Caixinha Boardgames, Tortuga Jogos e Encontro Boardgames SP.

“O diabo mora aqui”, ou “Ó o bixo vino mulek”

por André Rafaini Lopes

(Aviso: o texto contém spoilers sinalizados no penúltimo parágrafo)

Tínhamos tirado o sábado para descansar quando o amigo Reinaldo Cardenuto (ele já participou do finado podcast, lembra?) chama para um jantar seguido de cinema. Que filme? “Terror”. Troquei olhares com a Ju (esposíssima), que não é tão fã do gênero. Olhei pro dia frio lá fora. Olhei pro sofá com uma cobertinha aconchegadamente amarfanhada e uma cã preguiçosa deliciosamente dormindo. Olhei para a TV e os jogos olímpicos que passavam convidando para ver a próxima modalidade… e a próxima… e a próxima… No final, a saudade do amigo falou mais alto. Fumos.

No meio do hambúguer descubro o título do filme “O diabo mora aqui”.

Olho de novo pra Ju. E Reinaldo complementa: “Feito por uns ex-alunos meus… os mesmos que fizeram Nerd Of The Dead”. Aí é a Ju que olha pra mim sabendo que o programa já tinha me conquistado ali. (Até tínhamos pensado em voltar para casa depois do jantar… Naquela noite, o time masculino brasileiro de vôlei ia pegar a Itália vindo de uma derrota! Eles precisavam da gente!) Tarde demais. O time do Bernardinho começou a perder a partida naquela mesa da lanchonete. Nerd of The Dead foi uma inspirada minissérie veiculada pelo Omelete sobre dois moleques (nerds, duh!) no meio do apocalipse zumbi.

Um resquício do trailer de Diabo voltou à lembrança. Nada muito concreto. Bem, caímos de cabeça na produção de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini, sobre história de Guilherme Aranha, Rafael Baliú e MM Izidoro. E devo dizer que foi a decisão mais acertada. Aquela provavelmente seria a última exibição nos cinemas em São Paulo, partindo dali para Net Now e Telecine. Ah, e claro, o mais legal: um dos diretores – Dante – estava na sessão. Sentou-se no fundo da sala para eventuais escapadelas… ao que parece o trabalho de edição foi extenuante e ele duvidava que conseguiria ver novamente o filme inteiro. Fiquei entre a Ju e Reinaldo. Ele foi professor de parte da turma que fez o filme e, não sei se é coisa da minha cabeça, parecia não esconder um certo contentamento destacando os inúmeros prêmios que os meninos já tinham ganhado e perguntando um par de vezes no meio do filme mesmo: “Está gostando?”.
Não dava para não estar…

A premissa não foge do clichê do gênero. Turma de jovens se instalam em casa amaldiçoada. O grande trunfo, no entanto, é partir desse ponto comum para contar uma história com cores e texturas genuinamente brasileiras. Mojica ficaria orgulhoso. No passado, um sádico criador de abelhas engravida sua escrava, mata o filho adulto dela e depois é morto pela mãe do bastardo. A alma do escravocrata é presa à do bebê, sacrificado em um ritual no porão da casa, deixando até os dias atuais a prova: um prego cravado no concreto do chão. Claro que os moleques mexem com o que não deve e o caldo entorna. O clima de tensão e terror criado por Dante e Rodrigo não parece ter precedente no cinema recente. Sabiamente fugiram do gore para investir no thriller. Até a Ju, que não se impressiona nada nada com as produções americanas – NEM MESMO COM O ATIVIDADE PARANORMAL COMO ALGUÉM NÃO FICA COM MEDO DAQUELAS ASSOMBRAÇÕES PELAMORDEDEUS? -, ficou sem respirar em vários pontos do Diabo.

A caracterização dos personagens é fantástica: compraria fácil fácil as action figures do Barão do Mel (ele usa uma roupa antiga de apicultor: ao invés da máscara de tela, tem em seu rosto uma espécie de cesta de treliça siniSHtra) e do Bento (o filho adulto morto, que também volta como um zumbi… não desses zumbis walkindeadianos… volta numa pegada vudú haitiano… convocado pelos seus descendentes para conter o Mal). Ixi… será que estou dando spoilers? Vou parar por aqui a parte da história. A interpretação de todos está ótima, canastreando quando tem que canastrear – pra mim, uma deliciosa homenagem aos slashers dos anos 80 – e carregando em realismo quando o bixo tá vino. O destaque fica com Pedro Caetano, um dos parentes de Bento. Em vários momentos, com ele em cena e arma em punho (ó o spoiler… Ó O SPOILER, ANDRÉ), a imagem se convertia em preto e branco na minha mente e via o frame como algo vindo de um filme perdido do Zé do Caixão ou George Romero. Algo em sua presença em tela… em sua bata branca. Não sei dizer.

Já que estamos falando nisso, a fotografia da produção é phoda (entreguei a idade, né? Não se fala mais fotografia hoje, né? É cinematografia, né? SUE ME). Alguns enquadramentos tirados das histórias em quadrinhos quase que reservavam espaços para balões ou recordatórios. A trilha sonora é outro ponto altíssimo. Perfeita para os momentos de tensão. Dissonante… mesclada a incômodos sons quase subliminares de abelhas e outros ruídos indizíveis, mas que seu subconsciente identifica como algo muito ruim.

Com o final do filme e acender das luzes, voltamos ao mundo real e o pulmão voltou a se encher de ar. Dante realmente já não estava na sala. Pensei que tinha concretizado a intenção inicial até voltar a encontrá-lo já na rua, fumando ao lado de Rodrigo e seus amigos. Reinaldo se uniu ao grupo. Os diretores ainda se mostravam inseguros com relação ao roteiro, mas receberam todos os elogios nossos. A história tinha sido muito bem contada. O cansaço acumulado da semana, uma certa timidez nossa e uma cachorrinha idosa que precisava dar mais uma volta na rua para o pipi noturno nos fizeram abandonar a discussão que acompanhávamos como orelhas.

Só no caminho de volta é que nos demos conta: Rodrigo era um dos atores principais de Nerd Of The Dead (Pô… cadê a segunda temporada?) e duas ressalvas com relação ao Diabo. Aqui você pode pular para não saber o final da história. Pulou? Acho que não, né? Afinal você ainda está lendo isso. Bom… TEJE avisado. Ao longo de todo o filme, exaltam a figura de uma personagem feminina poderosíssima chamada Rainha ou Maia. Poxa. Foi uma escorregão meio sério não tê-la usado (ou será que ela aparece em Diabo 2 se um dia sair?). Quando tudo foi pras cucuiA – o filme todo se passa em uma única noite – e a única sobrevivente escapa da casa carregando um novo filho amaldiçoado, poderia ser Malia a aparecer junto com o dia para eliminar o último vestígio do horror. Na minha cabeça, seria uma poderosa entidade azulada, um misto de algum orixá com um tenebroso elfo das sombras. Uma figura que exala ao mesmo tempo bondade e maldade. Uma Nossa Senhora dos perdidos. Uma Galadriel do inferno. Uma Lilith do paraíso. Outro ponto. Até entendo como dialoga com a história do nosso cinema de terror, mas não curti a referência ao diabo no título. Pode ter sido uma decisão comercial ou mesmo a tal homenagem ao passado. Taí uma pergunta a ser feita caso um dia encontrar os jovens (ainda não batem na casa dos 30!!!) e tão promissores diretores.

Ainda sobre promessas… pelo jeito já estão com um curta novo a circular. Loira do Banheiro. Olha só que demais.

Facada 31 – Jogos de tabuleiro – Insert

Cumprindo a promessa: mostramos como ficou a caixa de Terra Mystica com insert (espécie de separador de peças) da loja Bucaneiros.

Com apoio: Caixinha Boardgames, Tortuga Jogos e Encontro Boardgames SP.

Ilustrações de Kate Greenaway

por Kate Greenaway*

Woman Fleeing with Child, 1902

Woman Fleeing with Child, 1902

 

'The Fair One with Golden Locks', s.d.

‘The Fair One with Golden Locks’, s.d.

 

Winter, 1892

Winter, 1892

 

Sisters, Girl with a Blue Sash and Basket, With a Baby, s.d.

Sisters, Girl with a Blue Sash and Basket, With a Baby, s.d.

 

Three Women in a Garden Making Music, s.d.

Three Women in a Garden Making Music, s.d.

 

Woman and Child, 1883

Woman and Child, 1883

 

October, an Illustration for Almanack of 1890, ca. 1890

October, an Illustration for Almanack of 1890, ca. 1890

 

In the Chappells Cottage at Rolleston, the Kitchen, s.d

In the Chappells Cottage at Rolleston, the Kitchen, s.d

 

The Open Door, s.d.

The Open Door, s.d.

 

The Kitchen Pump and Old Cheese Press, Rolleston, s.d.

The Kitchen Pump and Old Cheese Press, Rolleston, s.d.

 

Chappell's Cottage, Farm and Croft at Rolleston. s.d.

Chappell’s Cottage, Farm and Croft at Rolleston. s.d.

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*Catherine “Kate” Greenaway (1846 – 1901) era ilustradora e escritora inglesa de livros infantis. É possível ver mais do seu trabalho online, clique aqui para ler uma antologia em fac-símile.

Facada 30 – Música – “Problema meu”, de Clarice Falcão

Não consigo lembrar da última vez que um CD me fez rir tanto como este recente lançamento de Clarice Falcão, sim… aquela do Porta dos Fundos. Sem querer dar spoiler, mas “Problema meu” é uma incrível surpresa! O álbum está à venda na Discole Música.

Duas Irmãs

por Délia*

I

Em um dia de fevereiro, quente e brilhante, um homem de 50 anos, forte e de feições acentuadas, achava-se em seu gabinete, passeando, agitado, nervoso, como quem deseja quebrar um obstáculo ou empreender uma luta.
Sua enérgica fisionomia, dominada pela apreensão de próxima resistência, tornara-se sombria.
A natureza sanguínea e imperiosa transparecia-lhe nos olhares duros, nos gestos convulsivos, na celeridade do andar.
Nascera para déspota, não o podia ser inteiramente e isso o torturava.
De repente, como quem toma uma decisão, tocou violentamente a campainha: um fâmulo acudiu.
– Previna á Deia que a estou chamando! disse com os dentes cerrados.
Passou, então, a mão pela fronte, procurou compor o semblante e sentou-se, mais serenos, diante da secretária…
Pouco esperou; o reposteiro ergueu-se, dando passagem á uma criatura, elegante, pálida, altiva: um desses seres, que se isolam, que se sustem nos transes da vida, rejeitando consolos banais e lágrimas, impotentes.
Entrou, sem temor, envolta nas dobras do peignoir de cambraia, soberana como verdadeira rainha, bela, radiante, no frescor de suas vinte primaveras.
Com voz grave, triste e contraltina, disse:
– Meu pai, aqui estou
– Sente-se, disse ele asperamente, designando-lhe uma cadeira; – temos que conversar.
A moça fitou-lhe o olhar profundo, viu-lhe a crispação da face, adivinhou o que lhe ia dizer, corou de leve e cruzou os braços, esperando acusação ou sentença.
– Sei que se desmandou, que esqueceu seus deveres, perdendo-se, loucamente, com seu primo Jorge, um miserável, além de toleirão, que abriguei em meu teto e a quem protegi! Julga, porém, que consentirei nesse casamento?
– Meu pai, perdão!… Aliás, Jorge promete reparar a nossa falta!
– Não casará: o seu pérfido sedutor, que eduquei, gastando tanto dinheiro, o é ainda mais. Você não é feia, pode e deve fazer melhor escolha e tenho alguém em vista. Cabe-me o direito de ser severo pela sua conduta. Fecho, porém, os olhos e procuro melhorar-lhe a sorte; já vê que deve obedecer ou será muito ingrata!
Casarei com Jorge… porque… nos amamos e porque só a ele poderei pertencer! disse ela, com ímpeto.
– Mas se desistisse, por ser mais ajuizado que você, por compreender que, duas pobrezas não se unem, para não cortar seu futuro? disse o pai com pérfida doçura.
– Ele?! Exclamou a moça; – impossível!
– É a verdade, disse o pai, quase triunfante; daqui a pouco, ele lhe dirá isso mesmo.
-Jorge ?… quero vê-lo, já! O senhor me ilude! Murmurou ela lívida.
O pai tocou o tímpano e mandou chamar o sobrinho.
Ergueu-se ela, apoiou, sem calor, sem luz, os braços no espaldar da cadeira, vivendo pelos olhos e pelo ouvido.
Perturbado, confuso, entrou Jorge, sem olhar para a moça, que procurava tudo lhe adivinhar no rosto.
Dor medonha, sensação de ferro em brasa mordeu-a no coração: começava a duvidar do amor desse homem a quem tudo sacrificara: a experimentar essa primeira decepção, essa primeira ferida, que não cicatriza nunca, reabre todas as vezes que a alma sofre novo embate e distila amargo vírus, que envenena as mais leves, alfinetadas.
Adiantando-se ao pai; interpelou, em tom vibrante ao primo:
– Jorge, concorda com, meu pai,- não quer casar comigo?
Empalideceu o moço; corou e balbuciou:
– Sim, meu tio tem razão, somos pobres, eu não a cercaria do bem-estar que merece… Pode ainda fazer um bom casamento e estimo-a bastante para desejar a sua felicidade, e não a estorvar.
Vendo que a moça não o interrompia, criou alguma coragem e prosseguiu, com mais calor:
– Esqueçamos o passado…. foram criançadas. Quanto á minha indiscrição, nada receie, poderá viver tranquila e respeitada: querer-lhe-ei como a uma irmã.
Enquanto ele falava, sentia Deia a razão vacilar no cérebro.
Seria sonho ou realidade? Pois aquele ente desprezível, egoísta e que, sem duvida, mirava algum interesse, fora o homem a quem votara afeição fraterna, afeição, que se fundira lentamente em sentimento ardente e avassalador ?
Quisera estar sonhando e, baixinho, como sob a ação de atroz pesadelo, seu coração bradava, trêmulo – meu Deus, faze-me despertar!
Era verdade: ante si, tinha a vil palidez do amante, sem afeto, sem decoro, sem generosidade; do homem que a desonrara, seduzido pela sua beleza,deixando-a, depois, inútil, despedaçada!
Fugira, como indigno ladrão que, ao roubar cintilantes pedras, esquece no pó da estrada o mimoso escrínio, que as guardava.
Era verdade: o abjeto pai quase sorria, regozijando-se com a sua angústia, em bárbara volúpia bebendo as lágrimas amargas do seu doido coração, vendo, mentalmente, o desmoronamento de todas as suas ilusões e esperanças!
Fustigaram-na, como um látego a baixeza de um e o sarcasmo do outro: a altivez sufocou a dor. Com a face marmórea e os negros olhos tempestuosos, dirigiu-se ao primo:
– O senhor é um miserável! nunca mais…. nunca mais, ouviu! me dirija a palavra, morri para o senhor, ou então morreu para mim; eu o desprezo!
Empalideceu o moço: compreendera quanto merecia aquela despedida e sentia uma espécie de pesar: habituara-se á grandeza daquela alma, que o repudiava, depois de o haver acariciado tanto tempo!
Curvou a fronte e saiu.
Deu ela rapidamente costas à essa porta, por onde desaparecia o seu passado e, cruzando o olhar com o do pai, como lâmina, de florete, disse serena, embora com lágrimas nos cílios:
Estou convencida; o que mais deseja?
– Firmar o seu futuro. Você conhece Maurício Barreto, um homem interessante, uma bela fortuna; pediu-a em casamento e eu o quero, o que, diz?
– Recuso! respondeu a moça, escandalizada.
– Não o acha digno de si? Inquiriu o pai com ironia.
– Pelo contrário; indigno-me com a ideia de o iludir. Se me apresentasse um homem, como tantos que há por ai, talvez, eu o aceitasse; porém o Maurício é melhor que os outros.
– Mas é ele que me convém por mil razões. Você há de casar, do contrário separá-la-ei de Julieta, contar-lhe-ei a sua falta, e verá a existência que lhe criarei!…Sabe, aliás, para quanto presto
Daqui há um ano, serei maior, poderei suportar este inferno até lá e depois me emanciparei….
– Sim, viverá, quem sabe como?
– Não! mas ensinarei o que aprendi e viverei, sem a sua presença, longe desta atmosfera maldita, respondeu ela, com desespero.
– Há de casar, digo-lhe, ainda que seja preciso empregar a força…. e caminhou para ela, hediondo, convulso.
Fulvo lampejo passou, pelos olhos da moça, um desses lívidos clarões, em que a dignidade humana se confunde com o instinto do crime, em vulcânica erupção da alma.
A febre de suas pupilas magnetizou a brutalidade do adversário.
Ergueu ela, mais altivamente a fronte contraída e ele deixou decair o braço ameaçador.
Afastaram-se, olharam-se de longe e a filha disse, com sarcasmo:
– Refleti e aceito; Maurício ou outro qualquer é sempre o mesmo, a infâmia não tem gradação, é ou não é! A minha será imposta pela sua vontade… Aceito-a, por zombaria, nojo, tédio pelo mundo e pelos homens, que nada valem aos meus olhos!…Mas, sobretudo, sufoco a minha dignidade pela ameaça de me separar de Julieta e perder-me em seu conceito!…O senhor bem sabia em que ponto sensível tocava, ameaçando-me!…Deixe-me, ao menos, naquele coração viver pura e santamente!
– Bem, murmurou o pai, com voz rouca, – tomou juízo, vivera feliz e há de me agradecer um dia!
Mas peço-lhe um favor, isto é, suplico-lhe que me diga a verdade… quem lhe revelou a minha desgraça? inquiriu a moça.
– Sua madrasta, que se interessa por você e que me obrigou a ser indulgente; sua madrasta, cujo afeto você não reconhece.
Indefinível sorriso passou mais pelos olhos do que pelos lábios de Deia, percebeu-o o pai e acrescentou:
– Duvida? Ah! não lhe perdoa ter vindo ocupar o lugar de sua mãe…
– Cale-se, não fale, hoje, em minha mãe! bradou a moça, fremente, dardejando um olhar de fogo.
Com voz afetadamente calma, perguntou o pai:
– Darei, então, a Maurício resposta satisfatória? Considere-se, nesse caso, noiva, desde já. Fez ela um sinal de sombrio assentimento e saiu.
O pai respirou mais desassombradamente.

Clique aqui para ler o romance Duas Irmãs na íntegra (versão em .pdf).

*Maria Benedita Câmara Bormann (1853 – 1895), conhecida pelo pseudônimo Délia, foi uma cronista, romancista, contista e jornalista brasileira.

Facada apresenta 29 – Jogos de tabuleiro – Unboxing Zona Mágica (com surpresa)

Nesta semana, desencaixamos mais um jogo: o primeiro de crowdfunding 100% brasileiro da coleção. Zona Mágica traz um torneio de feiticeiros com muita referência nerd!

Com apoio: Caixinha Boardgames, Tortuga Jogos e Boardgames SP.

Inverno

por Francisca Júlia da Silva*

INVERNO [1]

Inverno. A neve flutua,
Cai sobre tudo e se espalha,
Como uma branca toalha
Sobre a estrada imensa e nua.

O vento causa arrepio
Aos medrosos passarinhos,
Que se encolhem em seus ninhos
Desesperados de frio.

O vento assovia e chora;
Há como um coro de mágoas
No burburinho das águas
Que descem campina fora.

Mata a neve cada arbusto;
Rola dos ares, desfolha
As árvores, folha a folha,
Que se arrepiam de susto.

No céu há nuvens sombrias;
As roseiras das estradas
Estão todas desgalhadas
À fúria das ventanias.

O inverno é feio e inclemente;
Um velho mastim vadio
Todo transido de frio
Uiva ao céu sinistramente.

Não há calor nem conforto;
Não há rumor nem gorjeio;
Tudo parece tão feio!
Parece que tudo e morto!

De neve tudo coberto;
Os ventos correm às doudas;
Das quatro estações, de todas,
O inverno é a pior, de certo.

A neve desce, flutua,
Cai sobre tudo e se espalha
Como uma branca toalha
Sobre a estrada imensa e nua.

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INVERNO [2]

A João Luso

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
O ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
Mexiam-se, de manso, ao resfolego brando
Da brisa que passava em tudo derramando
O perfume sutil dos cravos e das rosas…

Mas veio o inverno; e vida e amor foram-se em breve…
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados…
As árvores do campo, enroupadas de neve,

Sob o látego atroz da invernia que corta,
São esqueletos que, de braços levantados,
Vão pedindo socorro à primavera morta.

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*Francisca Júlia César da Silva Münster (1871 – 1920) foi uma poetisa brasileira. Nasceu em Xiririca, hoje Eldorado Paulista. Colaborou no Correio Paulistano e no Diário Popular, que lhe abriu as portas para trabalhar em O Álbum, de Artur Azevedo, e A Semana, de Valentim Magalhães, no Rio de Janeiro. Foi lá que lhe ocorreu um fato bastante curioso: ninguém acreditava que aqueles versos fossem de mulher e o crítico literário João Ribeiro, acreditando que Raimundo Correia usava um nome falso, passou a “atacá-lo” sob o pseudônimo de Maria Azevedo. No entanto a verdade foi esclarecida após carta de Júlio César da Silva enviada a Max Fleiuss. A partir daí João Ribeiro empenha-se para que o seu primeiro livro seja publicado e, em 1895, Mármores sai pela editora Horácio Belfort Sabino. Já a essa altura era Francisca Júlia considerada grande poetisa nos círculos literários.

 

Facada apresenta 28 – Jogos de tabuleiro – Unboxing Merchants & Marauders

Deixem de lado a graça de Jack Sparrow: aqui não tem espaço para pirata bonzinho! Ou você é um mercador ou um sujo cão dos mares!

Com apoio: http://www.caixinhaboardgames.com.br, http://www.tortugajogos.com.br e http://www.facebook.com/BoardGamesSP.

Retratos de Anna Maria van Schurman

por Anna Maria van Schurman*

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Portret van Reinier de Graaf (Portrait of Regnier de Graaf), 1666-73

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*Anna Maria van Schurman (1607 – 1678) foi uma pintora, poeta e acadêmica teuto-holandesa. Ela foi extremamente educada para os padrões do século XVII. Sobressaiu-se em arte, música e literatura e auto-suficiente em 14 idiomas, incluindo línguas européias contemporâneas, latim, grego, hebreu, árabe, siríaco, aramaico e etíope.

Facada apresenta 27 – Jogos de tabuleiro – Codinomes

A regra é simples: 25 agentes em campo. Os espiões-chefes precisam informar sua equipe quais são usando apenas uma palavra e, se quiser, um número – para contar quantos se relacionam à aquele codinome.

Com apoio: http://www.caixinhaboardgames.com.br, http://www.tortugajogos.com.br e http://www.facebook.com/BoardGamesSP.

A Escrava

por Maria Firmina do Reis*

Em um salão onde se achavam reunidas muitas pessoas distintas, e bem colocadas na sociedade e depois de versar a conversação sobre diversos assuntos mais ou menos interessantes, recaiu sobre o elemento servil.

O assunto era por sem dúvida de alta importância. A conversação era geral; as opiniões, porém, divergiam. Começou a discussão.

– Admira-me, disse uma senhora, de sentimentos sinceramente abolicionistas; faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimento escravocratas, no presente século, no século XIX! A moral religiosa, e a moral cívica aí se erguem, e falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira!

Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me:

Para que se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro alento? Ah! Então não é verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a sociedade… Não vedes o abutre que a corrói constantemente!… Não sentis a desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói?

Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e sempre será um grande mal. Dela a decadência do comércio; porque o comércio, e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado. Ele ão tem futuro; o seu trabalho não é indenizado; ainda dela nos vem o opróbrio, a vergonha; porque de fronte altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres; por isso que o estigma da escravidão, pelo cruzamento das raças, estampa-se na fronte de todos nós. Embalde procurará um dentre nós, convencer ao estrangeiro que em suas veias não gira uma só gota de sangue escravo…

E depois, o caráter que nos imprime, e nos envergonha!

O escravo é olhado por todos como vítima – e o é.

O senhor, que papel representa na opinião social?

O senhor é verdugo – e esta qualificação é hedionda.

Eu vou narrar-vos, se me quiserdes prestar atenção, um fato que ultimamente se deu. Poderia citar-vos uma infinidade deles; mas este basta, para provar o que acabo de dizer sobre o algoz e a vítima.

E ela começou:

– Era uma tarde de agosto, bela como um ideal de mulher, poética como um suspiro de virgem, melancólica, e suave como sons longínquos de um alaúde misterioso.

Eu cismava embevecia na beleza natural das alterosas palmeiras, que se curvaram gemebundas, ao sopro do vento, que gemia na costa.

E o Sol, dardejando seus raios multicores, pendia para o ocaso em rápida carreira.

Não sei que sensações desconhecidas me agitavam, não sei!… mas sentia-me com disposições para o pranto.

De repente uns gritos lastimosos, uns soluços angustiados feriram-me os ouvidos, e uma mulher correndo, e em completo desalinho passou por diante de mim, e como uma sombra desapareceu.

Segui-a com a vista. Ela espavorida, e trêmula, deu volta em torno de uma grande mouta de murta, e colando-se no chão nela se ocultou.

Surpresa com a aparição daquela mulher, que parecia foragida, daquela mulher que um minuto antes quebrara a solidão com seus ais lamentosos, com gemidos magoados, com gritos de suprema angústia, permaneci com a vista alongada e olhar fixo, no lugar que a vi ocultar-se.

Ela muda, e imóvel, ali quedou-se.

Eu então a mim mesma, interroguei: Quem será a desditosa?

Ia procurá-la – coitada! Uma palavra de animação, um socorro, algum serviço, lembrei-me, poderia prestar-lhe. Ergui-me.

Mas no momento mesmo em que este pensamento, que acode a todo homem em idênticas circunstâncias, se me despertava, um homem apareceu no extremo oposto do caminho.

Era ele de uma cor parda, de estatura elevada, largas espáduas, cabelos negros, e anelados.

Fisionomia sinistra era a desse homem, que brandia, brutalmente, na mão direita uma azorrague repugnante; e da esquerda deixava pender uma delgada corda de linho.

– Inferno! Maldição! bradara ele, com voz rouca. Onde estará ela? E perscrutava com a vista por entre os arvoredos desiguais que desfilavam à margem da estrada.

– Tu me pagarás – resmungava ele. E aproximando-se de mim:

Não viu, minha senhora, interrogou com acento, cuja dureza procurava reprimir, – não viu por aqui passar uma negra que me fugiu das mãos ainda há pouco? Uma negra que se finge de douda… Tenho as calças rotas de correr atrás dela por estas brenhas. Já não tenho fôlego.

Aquele homem de aspecto feroz era o algoz daquela pobre vítima, compreendi com horror.

De pronto tive um expediente. – Vi-a, tornei-lhe com a naturalidade que o caso exigia; – vi-a, e ela também me viu, corria em direção a este lugar; mas parecendo intimidar-se com minha presença, tomou direção oposta, volvendo-se repentinamente sobre seus passos. Por fim a vi desaparecer, internando-se na espessura, muito além da senda que ali se abre.

E dizendo isto indiquei-lhe com um aceno a senda que ficava a mais de cem passos de distância, aquém do morro em que me achava.

Minhas palavras inexatas, o ardil de que me servi, visavam a fazê-lo retroceder: logrei meu intento.

Franziu o sobrolho, e sua fisionomia traiu a cólera que o assaltou. Mordeu os beiços e rugiu:

– Maldita negra! Esbaforido, consumido, a meter-me por estes caminhos, pelos matos em procura da preguiçosa… Ora! Hei de encontrar-te; mas, deixa estar, eu te juro, será esta derradeira vez que me incomodas. No tronco… no tronco: e de lá foge!

Então, perguntei-lhe, aparentando o mais profundo indiferentismo, pela sorte da desgraçada, – foge sempre?

– Sempre, minha senhora. Ao menor descuido foge. Quer fazer acreditar que é douda.

– Douda! Exclamei involuntariamente, e com acento que traía os meus sentimentos.

Mas o homem do azorrague não pareceu reparar nisso, e continuou:

– Douda… douda fingida, caro te há de custar.

Acreditei-o o senhor daquela mísera; mas empenhada em vê-lo desaparecer daquele lugar, disse-lhe:

– A noite se avizinha, e se a deixa ir mais longe, difícil lhe será encontrá-la.

– Tem razão, minha senhora; eu parto imediatamente, e cumprimentando-me rudemente, retrocedeu correndo a mesma estrada que lhe tinha maliciosamente indicado.

Exalei um suspiro de alívio, ao vê-lo desaparecer na dobra do caminho.

O Sol de todo sumia-se na orla cinzenta do horizonte, o vento paralisado não agitava as franças dos anosos arvoredos, só o mar gemia ao longe da costa, semelhando o arquejar monótono de um agonizante.

Ergui ao céu um voto de gratidão; e lembrei-me que era tempo de procurar minha desditosa protegida.

Ergui-me cônscia de que ninguém me observava, e acercava-me já da moita de murta, quando um homem rompendo a espessura, apareceu ofegante, trêmulo e desvairado.

Confesso que semelhante aparição causou-me um terror imenso. Lembrei-me dos criados, que eu tinha convocado a essa hora naquele lugar, e que ainda não chegavam. Tive medo.

Parei! Instantemente, e fixei-o. Apesar do terror que me havia inspirado, fixei-o resolutamente.

De repente serenou o meu temor; olhei-o, e do medo, passei à consideração, ao interesse.

Era quase uma ofensa ao pudor fixar a vista sobre aquele infeliz, cujo o corpo seminu mostrava-se coberto de recentes cicatrizes; entretanto sua fisionomia era franca, e agradável! O rosto negro, e descarnado; suposto seu juvenil aspecto aljofarado de copioso suor, seus membros alquebrados de cansaço, seus olhos rasgados, ora lânguidos pela comoção de angústia que se lhe pintava na fronte, ora deferindo luz errante, e trêmula, agitada, e incerta traduzindo a excitação, e o terror, tinham um quê de altamente interessante.

No fundo do coração daquele pobre rapaz, devia haver rasgos de amor, e generosidade.

Cruzamos, ele, e eu as vistas e ambos recuamos espavoridos. Eu, pelo aspecto comovente, e triste daquele infeliz, tão deserdado da sorte; ele, por que seria?

Isto teve a duração de um segundo apenas: recobrei ânimo em presença de tanta miséria, e tanta humilhação, e este ânimo procurei de pronto transmitir-lhe.

Longe de lhe ser hostil, o pobre negro compreendeu que ia talvez minorar o rigor de sua sorte; parou instantaneamente, cruzou as mãos no peito, e com voz súplice, murmurou algumas palavras que eu não pude entender.

Aquele atitude comovedora, despertou-me compaixão; apesar do medo que nos causa a presença dum calhambola, aproximei-me dele, e com voz, que bem compreendeu ser protetora e amiga, disse-lhe:

– Quem és, filho? O que procuras?

– Ah! Minha senhora, exclamou erguendo os olhos ao céu, eu procuro minha mãe, que correu nesta direção, fugindo ao cruel feitor, que a perseguia. Eu também agora sou um fugido: porque há uma hora deixei o serviço para procurar minha pobre mãe, que além de ser douda está quase a morrer. Não sei se ele a encontrou; e o que será dela. Ah! Minha mãe! É preciso que eu corra, a ver se acho antes que o feitor a encontre. Aquele homem é um tigre, minha senhora, – é uma fera.

Ouvia-o, sem o interromper, tanto interesse me inspirava o mísero escravo.

– Amanhã, continuou ele, hei de ser castigado; porque saí do serviço, antes das seis horas, hei de ter trezentos açoites; mas minha mãe morrerá se ele a encontrar. Estava no serviço, coitada! Minha mãe caiu, desfalecida; o feitor lhe impôs que trabalhasse, dando-lhe açoites; ela deitou a correr gritando. Ele correu atrás. Eu corri também, corri até aqui porque foi esta a direção que tomaram. Mas, onde está ela, onde estará ele?

– Escuta, lhe tornei então, tua mãe está salva, salvou-a o acaso; e o feitor está agora bem longe daqui.

– Ah! Minha senhora, onde, onde está a minha mãe e quem a salvou?

– Segue-me, disse eu – tua mãe está ali – e apontei para a mouta onde se refugiara.

– Minha mãe, sem receio de ser ouvido, exclamou o filho: minha mãe!…

Com efeito, ali com a fronte reclinada sobre um tronco decepado; e o corpo distendido no chão, dormia um sono agitado a infeliz foragida.

– Minha mãe, gritou-lhe ao ouvido curvando os joelhos em terra, tomando-a nos seus braços. Minha mãe… sou Gabriel…

A esta exclamação de pungente angústia, a mísera pareceu despertar.

Olhou-o fixamente; mas não articulou um som.

– Ah! redarguiu Gabriel, ah! Minha senhora! Minha mãe morre!

Concheguei-me àquele grupo interessante a fim de prestar-lhe algum serviço. Com efeito era tempo. Ela era presa dum ataque espasmódico. Estava hirta e parecia prestes a exalar o derradeiro suspiro.

– Não, ela não morre deste ataque; mas é preciso prestar-lhe pronto socorro, – disse-lhe.

– Diga, minha senhora, tomou o rapaz na mais pungente ansiedade, que devo fazer?

Volte eu embora à fazenda, seja castigado com rigor; mas não quero, não posso ver minha mãe morrer aqui, sem socorro algum.

– Sossega, disse-lhe, vendo assomar ao morro, donde observam tudo que acabo de narrar, os meus criados, que me procuravam; – espera, disse-lhe:

Vou fazer transportar a tua mãe, à minha casa, e lhe farei tornar à vida.

– Diga, minha senhora, ordene.

– Não moro presentemente longe daqui. Sabes a distância que vai daqui à praia? Estou nos banhos salgados.

– Sei, sim, senhora, é muito perto. Que devo então fazer?

– Tu, e estes homens – os criados acabavam de chegar – vão transportá-la, imediatamente à minha morada, e lá procurarei reanimá-la.

– Oh! Minha senhora, que bondade! Foi só o que disse, e, ato contínuo, tomou nos braços a pobre mãe, ainda entregue a seus dorido paroxismo, disse:

– Minha senhora, eu só levaria minha mãe ao fim do mundo.

Senti-me tocadade veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado.

– Siga-me então, – tornei eu.

Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo.

Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da casinha, que há dois dias apenas eu habitava.

Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: – recebia em meu lar dois escravos foragidos, e escravos talvez de algum poderoso senhor; era expor-me à vindita da lei; mas em primeiro lugar o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles infelizes.

Sim, a vindita da lei; lei que infelizmente ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco.

Mas, deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sossego, ou tranquilidade! Não.

Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.

Fiz deitar a moribunda em uma cama, fiz abrir as portas todas para que a ventilação se fizesse livre, e boa, e prestei-lhe os serviços, que o caso urgia, e com tanta vantagem, que em pouco recuperou os sentidos.

Olhou em torno de si, como que espantada do que via, e tornou a fechar os olhos.

Minha mãe!… minha mãe, de novo exclamou o filho.

Ao som daquela voz chorosa, e tão grata, ela ergueu a cabeça, distendeu os braços, e, com voz débil, murmurou:

– Carlos!… Urbano…

– Não, minha mãe, sou Gabriel.

– Gabriel, tornou ela, com voz estridente. É noite, e eles para onde foram?

– De quem ela fala? Interroguei Gabriel, que limpava as lágrimas na coberta da cama de sua mãe.

– É douda, minha senhora; fala de meus irmãos Carlos e Urbano, crianças de oito anos, que meu senhor vendeu para o Rio de Janeiro. Desde esse dia ela endoudeceu.

– Horror! exclamei com indignação, e dor. Pobre mãe!

– Só lhe resto eu, continuou soluçando – só eu… só eu!… Entretanto a enferma pouco, e pouco recobrava as forças, a vida, e a razão. Fenômenos da morte, por assim dizer: é luta imponente embora, da natureza, com o extermínio.

– Gabriel? Gabriel – és tu?

– É noite. Eu morro… E o serviço? E o feitor?

– Estás em segurança, pobre mulher, disse-lhe, – tu, e teu filho estão sob a minha proteção. Descansa, aqui ninguém lhes tocará com um dedo.

Como não devem ignorar, eu já me havia constituído então membro da sociedade abolicionista da nossa província, e da do Rio de Janeiro. Expedi de pronto um próprio à capital.

Então ela fixou-me, e em seus olhos brilhou a lucidez, esperança, e gratidão.

Sorriu-se e murmurou.

– Inda há neste mundo quem se compadeça de um escravo?

– Há muita alma compassiva, retorqui-lhe, que se condói do sofrimento de seu irmão.

Naquela hora quase suprema, a infeliz exclamou com voz distinta.

– Não sabe, minha senhora, eu morro, sem ver mais meus filhos! Meu senhor os vendeu… eram tão pequenos… eram gêmeos. Carlos, Urbano…

Tenho a vista tão fraca… é a morte que chega. Não tenho pena de morrer, tenho pena de deixar meus filhos… Meus pobres filhos!… Aqueles que me arrancaram destes braços… este que também é escravo!…

E os soluços da mãe, confundiram-se por muito tempo, com os soluços do filho.

Era uma cena tocante, e lastimosa, que despedaçava o coração.

Ah! Maldição sobre a opressão! Maldição sobre o escravocrata! Cheguei-lhe aos lábios o calmante, que a ia sustendo, e ordenei a Gabriel fosse tomar algum alimento. Era preciso separá-los.

– Quem é vossemecê, minha senhora, que tão boa é pra mim, e para meu filho? Nunca encontrei em vida um branco que se compadecesse de mim; creio que Deus me perdoa os meus pecados, e que já começo a ver seus anjos.

– E quem é esse senhor tão mau, esse senhor que te mata?

– Então, minha senhora, não conhece o senhor Tavares, do Cajuí?

– Não, tornei-lhe com convicção; estou aqui apenas há dois dias, tudo me é estranho: não o conheço. É bom que colha algumas informações dele: Gabriel mas dará.

– Gabriel! disse ela – não. Eu mesma. Ainda posso falar. E começou:

– Minha mãe era africana, meu pai de raça índia; mas eu de cor fusca. Era livre, minha mãe era escrava.

Eram casados e desse matrimônio, nasci eu. Para minorar os castigos que este homem cruel infligia diariamente à minha pobre mãe, meu pai quase consumia seus dias ajudando-a nas suas desmedidas tarefas; mas ainda assim, redobrando o trabalho, conseguiu um fundo de reserva em meu benefício.

Um dia apresentou a meu senhor a quantia realizada, dizendo que era para o meu resgate. Meu senhor recebeu a moeda sorrindo-se – tinha eu cinco anos – e disse: A primeira vez que for à cidade trago a carta dela. Vai descansado.

Custou a ir à cidade; quando foi demorou-se algumas semanas, e quando chegou entregou a meu pai uma folha de papel escrita, dizendo-lhe:

– Toma, e guarda, com cuidado, é a carta de liberdade de Joana. Meu pai não sabia ler; de agradecido beijou as mãos daquele fera. Abraçou-me, chorou de alegria, e guardou a suposta carta de liberdade.

Então furtivamente eu comecei a aprender a ler, com um escravo mulato, e a viver com alguma liberdade.

Isto durou dois anos. Meu pai morreu de repente, e no dia imediato meu senhor disse a minha mãe.

– Joana que vá para o serviço, tem já sete anos, e eu não admito escrava vadia.

Minha mãe, surpresa, e confundida, cumpriu a ordem sem articular uma palavra.

Nunca a meu pai passou pela ideia, que aquela suposta carta de liberdade era uma fraude; nunca deu a ler a ninguém; mas, minha mãe à vista do rigor de semelhante ordem, tomou o papel, e deu-o a ler, àquele que me dava as lições. Ah! Eram umas quatro palavras sem nexo, sem assinatura, sem data! Eu também a li, quando caiu das mãos do mulato. Minha pobre mãe deu um grito e caiu estrebuchando.

Sobreveio-lhe febre ardente, delírios, e três dias depois estava com Deus.

Fiquei só no mundo, entregue ao rigor do cativeiro.

Aqui ela interrompeu-se; agitou-lhe os membros um tremor convulso. A morte fazia os seus progressos. De novo cheguei-lhe aos lábios a colher do calmante, que lhe aplicava, e pedi-lhe, não revocasse lembranças dolorosas que a podiam matar.

– Ah! Minha senhora, começou de novo, mais reanimada – apadrinhe Gabriel, meu filho, ou esconda-o no fundo da terra; – olhe se ele for preso, morrerá debaixo do açoite, como tantos outros, que meu senhor tem feito expirar debaixo do azourrague! Meu filho acabará assim.

– Não, não há de acabara assim, – descansa. Teu filho está sob minha proteção, e qualquer que seja a atitude que possa assumir esse homem, que é teu senhor, Gabriel não voltará mais ao seu poder.

Ela recolheu-se por algum tempo, depois tomando-me as mãos, beijou-as com reconhecimento.

– Ah! Se pudesse, nesta hora extrema ver meus pobres filhos, Carlos e Urbano!… Nunca mais os verei.

Tinham oito anos.

Um homem apeou-se à porta do engenho, onde juntos trabalhavam meus pobres filhos – era um traficante de carne humana. Ente abjeto, e sem coração! Homem a quem as lágrimas de uma mãe não podem comover, nem comovem os soluços do inocente.

Esse homem trocou ligeiras palavras com o meu senhor, e saiu.

Eu tinha o coração opresso, pressentia uma nova desgraça.

A hora permitida ao descanso, concheguei a mim meus pobres filhos, extenuados de cansaço, que logo adormeceram. Ouvi ao longe rumor, como de homens que conversavam. Alonguei os ouvidos; as vozes se aproximavam. Em breve reconheci a voz do senhor. Senti palpitar desordenadamente meu coração; lembrei-me do traficante… Corri para meus filhos, que dormiam, apertei-os ao coração. Então senti um zumbido nos ouvidos, fugiu-me a luz dos olhos e creio que perdi os sentidos.

Não sei quanto tempo durou este estado de torpor; acordei aso gritos de meus pobre filhos, que me arrastavam pela saia, chamando-me: mamãe! Mamãe!

Ah! minha senhora! abriu os olhos. Que espetáculo! Tinham metido adentro a porta da minha pobre casinha, e nela penetrado meu senhor, o feitor e o infame traficante.

Ele, e o feito arrastavam sem coração, os filhos que se abraçavam a sua mãe.

Gabriel entrava nesse momento. Basta, minha mãe, disse-lhe, vendo em seu rosto debuxados todos os sintomas de uma morte próxima.

– Deixa concluir, meu filho, antes que a morte me cerre os lábios para sempre… deixa-me morrer amaldiçoando os meus carrascos.

– Por Deus, por Deus, gritei eu, tornando a mim, por Deus, levem-me com meus filhos!

– Cala-te! gritou meu feroz senhor. – Cala-te ou te farei calar.

– Por Deus, tornei eu de joelhos, e tomando as mãos do cruel traficante: – meus filhos!… meus filhos!

Mas ele dando um mais forte empuxão, e ameaçando-os com o chicote, que empunhava, entregou-os a alguém que os devia levar…

Aqui a mísera calou-se; eu respeitei o seu silêncio que era doloroso, quando lhe ouvi um arranco profundo, e magoado:

Curvei-me sobre ela. Gabriel ajoelhou-se, e juntos exclamamos:

– Morta!

Com efeito tinha cessado de sofrer. O embate tinha sido forte demais para suas débeis forças.

A lua percorria melancólica e solitária os páramos do céu, e cortava com uma fita de prata as vagas do oceano.

No mesmo instante, um homem assomou ªa porta. Era o homem do azorrague que eles intitulavam de feitor; era aquele homem de fisionomia sinistra, e terrível, que me interpelara algumas horas antes, acerca da infeliz foragida; e este homem aparecia agora mais hediondo ainda, seguido de dois negros, que, como ele, pararam à porta.

– Que pretendo o senhor? Perguntei-lhe. Pode entrar.

O pobre Gabriel refugiou-se trêmulo, ao canto mais escuro da casa.

– Anda, Gabriel, disse-lhe com voz segura, continua a tua obra, e voltando-me para o feitor, acrescentei:

Eu, e este desolado filho, ocupamo-nos em cerrar os olhos à infeliz, a quem o cativeiro, e o martírio desempenharam tão depressa na sepultura.

Comovidos em presença da morte, os dois escravos deixaram pender a fronte no peito; o próprio feitor, ao primeiro ímpeto, teve um impulso de homem: mas, recompondo de pronto na rude, e feroz fisionomia, disse-me:

– É hoje a segunda vez que a encontro, minha senhora, entretanto, não sei ainda a quem falo. Peço-lhe que me diga seu nome para que eu conheça o patrão, o senhor Tavares. É escandaloso, minha senhora, a proteção que dá a estes escravos fugidos.

Estas palavras inconvenientes mereceram o meu desdém; não lhe retorqui.

O meu silêncio lhe deu maior coragem, e, fazendo-se insolente, continuou:

– A senhora coadjuvou a mãe em sua fuga; acabou aqui, mais tarde saberemos de quê. Pretenderá também coadjuvar o filho?

E já o que havemos de ver?…

João, Félix! E com um aceno indicou-lhes o que deviam fazer.

Gabriel, que ao meu chamado voltara para junto do cadáver de sua mãe, sentindo que o vinham prender, levantou-se espavorido, sem saber o que fazer.

– Detém-te! lhe gritei eu. Estás sob a minha imediata proteção; e voltando-me para o homem do azorrague, disse-lhe:

Insolente! Nem mais uma palavra. Vai-te, diz a teu amo, – miserável instrumento de um escravocrata; diz a ele que uma senhora recebeu em sua casa uma mísera escrava, louca porque lhe arrancaram dos braços dois filhos; menores, e os venderam para o Sul; uma escrava moribunda; mas ainda assim perseguida por seus implacáveis algozes.

Vai-te, e entrega este cartão: aí achará meu nome.

Vai, e que nunca mais nos tornemos a ver.

Ele mordeu os beiços para tragar o insulto, e desapareceu.

No dia seguinte, era já de tarde, estava quase a desfilar o saimento da infeliz Joana, quando à porta da minha casinha, vi apear-se um homem. Era o senhor Tavares.

Cumprimentou-me com maneira da alta sociedade, e disse-me_

– Desculpe-me, querida senhora, se me apresento em sua casa, tão brusca e desazadamente; entretanto…

– Sem cerimônia, senhor, disse-lhe, procurando abreviar aqueles cumprimentos que me incomodavam.

Sei o motivo que aqui o trouxe, e podemos, se quiser, encetar já o assunto.

Custava-me, confesso, estar por longo tempo em comunicação com aquele homem, que encarava sua vítima, sem consciência, sem horror.

– Peço-lhe mil desculpas, se a vim incomodar.

– Pelo contrário, retorqui-lhe. O senhor poupou-me o trabalho de o ir procurar.

– Sei que esta negra está morta, exclamou ele, e o filho acha-se aqui: tudo isto teve a bondade de comunicar-me ontem. Esta negra, continuou, olhando fixamente para o cadáver – esta negra era alguma coisa monomaníaca, de tudo tinha medo, andava sempre foragida, nisto consumiu a existência. Morreu, não lamento esta perda; já para nada prestava. O Antônio, meu feitor, que é um excelente e zeloso servidor, é que se cansava em procurá-la. Porém, minha senhora, este negro! – designava o pobre Gabriel, com este negro a coisa muda de figura: minha querida senhora, este negro está fugido: espero, mo entregará, pois sou o legítimo senhor, e quero corrigi-lo.

– Pelo amor de Deus, minha mãe, gritou Gabriel, completamente desorientado – minha mãe, leva-me consigo.

– Tranquiliza-te, lhe tornei com calma; não te hei já dito que te achas sob a minha proteção? Não tem confiança em mim?

Aqui o senhor Tavares encarou-me estupefato – e depois perguntou-me:

– Que significam essas palavras, minha querida senhora? Não a compreendo.

– Vai compreender-me, retorqui, apresentando-lhe um volume de papéis subscritados e competentemente selados.

Rasgou o subscrito, e leu-os. Nunca em sua vida tinha sofrido tão extraordinária contrariedade.

– Sim, minha cara senhora, redarguiu, terminando a leitura; o direito de propriedade, conferido outrora por lei a nossos avós, hoje nada mais é que uma burla…

A lei retrogradou. Hoje protege-se escandalosamente o escravo, contra seu senhor; hoje qualquer indivíduo diz a um juiz de órfãos.

Em troca desta quantia exijo a liberdade do escravo fulano – haja ou não aprovação do seu senhor.

Não acham isso interessante?

– Desculpe-me, senhor Tavares, disse-lhe:

Em conclusão, apresento-lhe um cadáver e um homem livre.

Gabriel ergue a fronte, Gabriel és livre!

O senhor Tavares, cumprimentou, e retrocedeu no seu fogoso alazão, sem dúvida alguma mais furioso que um tigre.

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*Maria Firmina dos Reis (1825 —  1917) foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira, negra e maranhense.