Prefácio de: Fascismo, filho dileto da igreja e do capital

por Maria Lacerda de Moura*

Enquanto o homem estiver armado, é um tirano e um covarde. Enquanto não fizer a revolução interior para a realização profunda, ninguém tem o direito de encher a boca com as palavras “revolução social” – porque só pode semear a verdade quem já fez a sua colheita.

Quanto ao mais, palavras lindas e lições aviltantes. Os homens e mulheres “de ideia”, deixam muito a desejar. O pensamento, em absoluta dissonância com as ações.

Só quando o homem realizar um ser superior, tendo abandonado a violência aos impotentes e aos degenerados, aos fracos e aos trogloditas, só então terá direito de exigir dos outros o respeito a sua dignidade de ser humano.

A violência é estéril. Nada cria. É força desordenada, destruidora. Fere ao acaso e gera a violência. Estéril? – Não! É a mãe do Ódio.

Quando o homem souber respeitar o outro homem, sem necessidade da policia ou das leis escritas; quando desaparecer a violência e a autoridade, por imprestáveis, – porque o homem não condenará mais a tirania com o objetivo do assalto ao poder, para se aboletar, gostosamente, no trono do tirano… já não será necessária a revolução social.

Mas, enquanto os “escultores de montanhas” teimarem em obrigar os homens todos a pensar segundo o seu pensamento, a crer no que eles creem, inutilizando, massacrando os sonhos ou o pensamento dos outros – para assegurar o predomínio das suas verdades – prendendo, exilando, fuzilando ou mutilando os corpos e as consciências dos que pensam de maneira diversa: – as guerras e as revoluções sociais, uma após outras, hão de ensanguentar a terra, inutilmente, perversamente, degenerando, enlouquecendo a todo o gênero humano. Isso será até o suicídio coletivo da humanidade, através da técnica moderna da ciência – a serviço do canibalismo das verdades organizadas.

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Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945) foi uma anarquista brasileira que se notabilizou por seus escritos feministas.

Pinturas de Hale Asaf

por Hale Asaf*

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Jeune Femme, s.d.

 

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La Charrette, s.d.

 

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La Lecture au Coin du Feu, s.d.

 

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Autorretrato

veja post em Female Artists in History

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*Hale Asaf, originalmente Salih, (1905 – 1938) foi uma pintora turca de ascendência georgiana e circassiana. Ela era sobrinha da primeira artista mulher da Turquia, Mihri Müşfik Hanim. Ao contrário de muitos artistas turcos de sua época, inspirados pelo impressionismo e pelos movimentos de arte clássica, ela foi uma importante defensora do cubismo na Turquia. Essa influência é vista especialmente em seus autorretratos, retratos e pinturas de natureza-morta.

Casamento e amor

por Emma Goldman*

A noção popular em torno do casamento e do amor é a de que eles são sinônimos, que eles afloram das mesmas razões e preenchem as mesmas carências humanas. Como tantas outras noções populares, também esta não repousa em fatos concretos, mas sob superstições.

Casamento e amor não possuem nada em comum; estão tão apartados como pólos; e de fato, são antagônicos entre si. Sem dúvidas, certos casamentos são resultado do amor. Entretanto, não é porque o amor só se afirma em casamento; é antes porque poucas pessoas conseguem superar completamente uma convenção. Para um grande número de homens e mulheres hoje em dia, o casamento nada é senão uma farsa, mas a ele se submetem por amor à opinião pública. Em todo caso, enquanto é verdade que certos casamentos baseiam-se no amor e enquanto é igualmente verdade que certas vezes o amor continua durante a vida conjugal, eu sustento que isso se dá independentemente do casamento e não devido a ele.

Por outro lado, é completamente falso que um casamento possa resultar em amor. Um caso milagroso se faz ouvir, em raras ocasiões, de cônjuges se apaixonarem depois de já estarem casados, mas num exame minuncioso encontraremos aí um mero ajuste ao inevitável. Certamente a habituação mútua estará bem distante da espontaneidade, da intensidade e da beatitude do amor, sem os quais a intimidade do casamento se revelaria degradante para ambos homem e mulher.

O casamento é em primeiro lugar um arranjo econômico, um contrato de seguro. Só difere do contrato comum precisamente naquilo que este tem de mais compulsório, de mais exigente. Os retornos são insignificantemente pequenos se comparados ao investimento. Quando contratamos uma apólice de seguro, pagamos por ela em dólares e centavos, mas sempre nos resta a liberdade de descontinuar o pagamento. Contudo, se o prêmio do seguro for um marido, a mulher pagará por isso com o seu nome, com a sua privacidade, com a sua auto-estima e com sua própria vida “até que a morte os separe”. Além do que, o contrato do casamento a condena a uma dependência vitalícia, ao parasitismo, a completa inutilidade individual bem como social. O homem paga também a sua parte, mas como sua esfera é maior, o casamento não o limita tanto como à mulher. Ele sente suas correntes pesarem mais num sentido econômico.

E assim o mote do Inferno de Dante se aplica ao casamento com a mesma força. “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”.

Somente alguém coompletamente estúpido negaria que o casamento é um fracasso. Basta relancear a vista sobre as estatísticas do divórcio para compreender como é verdadeiramente amargo um casamento fracassado. Tampouco o argumento filisteu estereotipado, o da lassidão das leis do divórcio e o da crescente frouxidão da mulher, dará conta do fato de que: em primeiro, cada décimo segundo casamento termina em divórcio; segundo, que desde 1870 os divórcios cresceram de 28 para 73 a cada população de cem mil; terceiro, que o adultério, desde 1867, como causa do divórcio cresceu 280.7 por cento; quarto, que a deserção aumentou em 369.8 por cento.

Somado a estes números surpreendentes, há ainda um vasto material dramático e literário melhor elucidando o assunto. Robert Herrick, em Together; Pinero, em Mid-Channel; Eugene Walter, emPaid in Full, e dezenas de outros escritores estão discutindo a aridez, a monotonia, a sordidez, e a inadequação do casamento como fator de harmonia e entendimento.

O estudioso social sério não se contentará com a superficial desculpa popular para este fenômeno. Ele terá de escavar a vida mesma dos sexos profundamente adentro para conhecer o porque de o casamento revelar-se tão desastroso.

Edward Carpenter diz que, por detrás de todo casamento, persiste uma ambiência vitalícia dos dois sexos; ambiências tão diferentes entre si que homem e mulher permanecem estranhos. Separados por uma muralha intransponível de superstição, costume, e hábito, o casamento não tem a potencialidade de desenvolver o conhecimento e o respeito mútuo, sem o que toda união está destinada ao fracasso.

Henrik Ibsen, o inimigo de toda farsa social, foi provavelmente o primeiro a conceber esta grande verdade. Nora largou o marido, não porque – como queria a crítica estúpida – estaria cansada de suas responsabilidades ou sentia a necessidade dos direitos da mulher, mas porque veio saber que, durante oito anos convivera com um estranho e agora deu a luz a uma criança sua. Pode haver qualquer coisa de mais humilhante, de mais degradante do que a proximidade vitalícia entre dois estranhos? Não é preciso que a mulher conheça nada do homem, salvo sua renda. Quanto ao conhecimento da mulher – o que há para se conhecer exceto se ela possui uma boa aparência? Não superamos ainda o mito teológico de que a mulher não possui alma, que ela é meramente um apêndice do homem, feita de sua costela apenas para sua conveniência, este que de tão forte ficara com medo da própria sombra.

Porventura da má qualidade do material, donde a mulher tornou-se responsável por sua própria inferioridade. Em todo caso, mulher não tem alma – o que há para se conhecer nela? Além do que, quanto menos alma tem uma mulher, maior seu tino para esposa, o mais prontamente irá absorver-se ao marido. É essa servil aquiescência à superioridade do homem que manteve a instituição do casamento aparentemente intacta por um tempo tão longo. Mas agora que a mulher está vindo a si, agora que ela está cada vez mais consciente de si como um ser exterior à graça do mestre, a sagrada instituição do casamento gradualmente vai sendo minada, e nenhum bocado de lamentação sentimental poderá evitá-lo.

Quase que desde a infância, é dito às garotas comuns que o casamento é o seu objetivo final; portanto seu treino e sua educação têm de ser direcionados para esse fim. Como a besta muda na engorda, vai sendo preparada para o abate. Mas para ela, estranho dizer, é permitido conhecer muito menos sobre sua função como esposa e mãe do que para o artesão comum sobre seu ofício. Para uma garota respeitável, é indecente e imundo conhecer qualquer coisa da relação marital. Oh, pela incoerência da respeitabilidade, requerer votos de casamento para tornar algo imundo no mais puro e sagrado arranjo que ninguém ousa questionar ou criticar. Mas é exatamente esta a atitude do entusiasta comum do casamento. A futura esposa e mãe é mantida na mais completa ignorância em torno de sua única inclinação no campo competitivo — o sexo. E assim ela entra numa relação vitalícia com um homem para ver-se chocada, repelida e ultrajada além da medida por seu instinto mais saudável e natural, o sexo. É seguro dizer que uma grande percentagem da infelicidade, miséria, aflição e sofrimento físico do matrimônio se devem à ignorância criminosa em matéria de sexo que anda sendo exortada como uma grande virtude. Tampouco é de todo um exagero quando digo que devido a este fato deplorável, mais de um lar foi desfeito.

Entretanto, se a mulher for livre e grande o bastante para aprender sem a sanção do Estado ou da Igreja o mistério do sexo, será condenada como absolutamente imprópria para ser esposa de um “bom” homem, sua bondade consistindo de um cérebro vazio e uma carteira cheia. Poderia haver alguma coisa mais ultrajante do que a ideia de que uma mulher saudável, em plena idade, cheia de paixão e vida, ter de negar as exigências da natureza, ter de reprimir seu desejo mais intenso, minar sua saúde e quebrantar seu espírito, ter de aturdir sua visão e abster-se da profundidade e da glória da experiência do sexo, até que venha um “bom” homem para tomá-la como esposa? É precisamente isto o que significa o casamento. Como poderia um arranjo como este terminar exceto em fracasso? Este é apenas um fator, embora não o menos importante, que diferencia o casamento do amor.

A nossa era é prática. O tempo em que Romeu e Julieta arriscaram-se à fúria dos pais por amor, em que Gretchen expôs-se ao falatório dos vizinhos por amor, já era. Se, em raras ocasiões, pessoas jovens se permitem à luxúria do romance, em seguida os mais velhos cuidam para que, após pregados e martelados, se tornem “sensatos”.

A lição moral instilada na garota não é a de se o homem arrebatou o seu amor, mas: o “Quanto?”. O único Deus importante da vida prática americana: o homem consegue ganhar a vida? Consegue sustentar uma esposa? Esta é a única coisa que justifica o casamento. Gradualmente isto de todo satura o pensamento da garota; seus sonhos já não são de luares e beijos, risos e lágrimas; agora sonha em ir às compras e às boas pechinchas. Tal sordidez e pobreza da alma são elementos inerentes à instituição do casamento. O Estado e a Igreja aprovam esse ideal e não outro, simplesmente porque esse é o ideal que necessita que o Estado e a Igreja controle homens e mulheres.

Indubitavelmente há as pessoas que continuam considerando o amor superior a dólares e centavos. E isto é particularmente verdade para a classe daqueles cuja necessidade econômica forçou a que se auto-sustentassem. A tremenda mudança na posição da mulher operada por este poderoso fator é, de fato, fenomenal quando refletimos que há só um curto período desde o ingresso da mulher na arena industrial. Seis milhões de mulheres assalariadas; seis milhões de mulheres com direitos iguais aos homens de serem exploradas, roubadas, ir à greve, e ai, até mesmo de passar fome. Algo mais, my lord? Sim, seis milhões de trabalhadoras em todas as ocupações, desde o mais elevado trabalho intelectual até as minas e ferrovias, até mesmo detetives e policiais. Com certeza a emancipação está completa.

Apesar disso tudo, só um número muito pequeno do vasto exército das mulheres trabalhadoras enxerga o seu trabalho como situação permanente, na mesma luz que um homem o faz. Não importa quão decrépito seja este último, ele foi ensinado a ser independente, a se auto-sustentar. Oh, eu sei que ninguém é verdadeiramente independente em nossa moenda econômica; e mesmo o espécime mais miserável de homem odeia ser um parasita; ou, em todo caso, pelo menos ser reconhecido como tal.

A mulher considera transitória sua posição como trabalhadora, a ser deixada de lado pelo primeiro pretendente. É este o porque de ser infinitamente mais difícil organizar mulheres do que homens. “Porque devo me filiar a um sindicato? Vou me casar, ter um lar”. Ela desde a infância não foi ensinada a enxergar isso como sua convocação última? Ela aprende cedo o bastante que, apesar de não tão grande como a prisão de uma fábrica, o lar tem portões e grades ainda mais sólidas. Possui um guardião tão fiel que nada lhe pode escapar. A parte mais trágica, entretanto, é que o lar não a liberta da escravidão assalariada; apenas aumenta seus afazeres.

De acordo com as mais recentes estatísticas submetidas diante de um Comitê “em torno do trabalho, salários e congestão da população”, apenas em Nova York, dez por cento das trabalhadoras assalariadas são casadas, ainda que continuem no trabalho mais mal pago do mundo. Some a esta visão horrível o peso do serviço doméstico e o que resta da proteção e da glória do lar? Como matéria de fato, até a garota classe-média não pode falar sobre um lar seu no casamento, desde que é o homem que cria sua esfera. Não é importante se o marido é um bruto ou um doce. O que desejo provar é que o casamento só garante um lar à mulher pela graça do marido. Ela gira em torno do lar dele, ano após ano, até que sua visão de vida e de relações humanas se torne tão rasa, estreita, e tediosa, como seu entorno. Pouco admira se ela vir a ser resmungona, trivial, arengueira, faladeira, insuportável, e expulsando assim o homem da casa. Se ela quisesse, não poderia ir; não há lugar para onde ir. Além do que, um curto período de vida conjugal, de completa rendição de todas as faculdades, incapacita absolutamente a mulher comum para o mundo exterior. Ela se torna indiferente à aparência, desajeitada em seus movimentos, dependente em suas decisões, covarde em seu julgamento, um fardo e um aborrecimento, cuja maioria dos homens cresce para odiar e desprezar. Atmosfera maravilhosamente inspiradora para o desenrolar da vida, não?

Mas e a criança, como será protegida sem o casamento? Afinal de contas, não é esta a consideração mais importante a se fazer? A farsa, a hipocrisia! O casamento protegendo a criança, mas centenas de crianças abandonadas e sem lar. O casamento protegendo a criança, mas orfanatos e reformatórios lotados, a Sociedade pela Prevenção de Crueldade a Criança ocupadíssima resgatando as pequenas vítimas dos pais “amorosos”, para colocá-las sob cuidados ainda mais amorosos, como os da Gerry Society. Oh, mas que pilhéria!

Pode até ser que o casamento leve o cavalo até a água, mas conseguirá fazer com que a beba? A lei coloca o pai na detenção, veste-o com uniforme penitenciário; mas alguma vez matou a fome de seus filhos? Se o pai não tem emprego, ou se oculta sua identidade, o que faz então o casamento? Invoca a lei para levar o homem à “justiça”, colocá-lo em segurança atrás dos portões fechados; seu trabalho, no entanto, não vai para criança, mas para o Estado. A criança só recebe uma memória enferrujada das listras do pai.

Com relação à proteção da mulher — aí reside a verdadeira maldição do casamento. Ele não as protege em absoluto, e essa ideia mesma é tão revoltante quanto um ultraje e um insulto à vida, tamanha degradação ele promove à dignidade humana, que se declara para sempre esta instituição como parasitária.

Bem como aquele outro arranjo paternalista — o capitalismo. Rouba os direitos do homem, aturde seu crescimento, envenena seu corpo, o submete à ignorância, à pobreza, à dependência, e então vai e promove caridades que vingam sobre os últimos vestígios do autorrespeito humano.

A instituição do casamento faz da mulher uma parasita completa, uma dependente absoluta. Incapacita-a para a luta da vida, aniquila a sua consciência social, paralisa a sua imaginação, e então vai e concede sua graciosa proteção que na realidade é meramente uma armadilha, travestida de caráter humano.

Se a maternidade é a mais elevada realização da natureza da mulher, que outra proteção exigiria além de amor e liberdade? O casamento só contamina, ultraja, e corrompe esta realização. Não é ele que diz à mulher: somente darás à luz se me seguires? Não é ele que a degrada e a humilha quando ela se recusa a vender-se junto com seu direito à maternidade? Não é o casamento apenas uma sanção para a maternidade, até mesmo quando a criança é concebida por ódio, por compulsão? Mas quando a maternidade é fruto da livre escolha, do amor, do êxtase, da paixão desafiante, não é o casamento que vai e encrava uma coroa de espinhos numa cabeça inocente e grafa em letras de sangue o epíteto hediondo de Bastardo? Posto que o amor contivesse o casamento todas as virtudes alegadas, seus crimes contra a maternidade bastariam para excluí-lo eternamente do reino do amor.

Amor, o mais forte e mais profundo elemento de toda a vida, o anunciador da esperança, da alegria, do êxtase; amor, o desafiador de todas as leis, de todas as convenções; amor, o libérrimo, poderosíssimo modelador do destino humano; como pode uma força que a tudo compele ser sinônimo daquela pobre erva daninha gerada pela Igreja e o Estado, o casamento?

Amor livre? Como se o amor pudesse ser de outro modo que não livre! O homem comprou cérebros, mas todos os milhões de cérebros do mundo fracassaram em comprar o amor. O homem subjugou corpos, mas todo o poder na terra foi incapaz de subjugar o amor. O homem conquistou nações inteiras, mas todos os seus exércitos não conseguiram conquistar o amor. O homem agrilhoou e acorrentou e o espírito, mas é absolutamente indefeso diante do amor. Do alto dos tronos, com todo o esplendor e a pompa que o ouro pode comandar, o homem ainda é pobre e desolado se o amor não o perpassa. Mas quando o amor permanece, o casebre mais pobre irradia calor, cor e vida. E assim, o amor possui o poder mágico de tornar um mendigo em um rei. Sim, o amor é livre; não pode habitar outra atmosfera. Em liberdade se dá sem reservas, abundantemente, completamente. Todas as leis nos estatutos, todos os tribunais do universo, não podem arrancá-lo da terra, uma vez que o amor finque suas raízes. Entretanto, se o solo é estéril, como poderia o casamento fazê-lo fruir? Seria como a última luta desesperada da fugacidade da vida contra a morte.

O amor não precisa de proteção; ele é sua própria proteção. Tão logo vidas sejam geradas pelo amor, nenhuma criança é desertada, passa fome ou vontade de afeto. Que isto é verdade, eu o sei. Conheço mulheres que se tornaram mães em liberdade dos homens que amaram. Poucas crianças na relação aproveitam o cuidado, a proteção e a devoção que a maternidade livre é capaz de conceder.

Os defensores da autoridade temem o advento da maternidade livre, com receio de que ela roube suas vítimas. Quem combateria nas guerras? Quem geraria a riqueza? Quem faria o papel do policial, do carcereiro, se a mulher se recusasse à reprodução indiscriminada de crianças? A raça, a raça! – grita o rei, o presidente, o capitalista, o padre. A raça deve ser preservada, embora a mulher degradada à mera máquina reprodutora — e a instituição do casamento é a nossa única válvula de segurança contra o pernicioso despertar sexual da mulher. Mas em vão todos estes esforços frenéticos para perpetuar um estado de sujeição. Em vão, também todos os éditos da Igreja, o enlouquecido ataque dos governantes, em vão, até mesmo os braços da lei. A mulher já não quer mais tomar parte na reprodução de uma raça de seres humanos doentis, débeis, decrépitos, miseráveis, que não possuem nem a coragem nem a força moral para se libertarem de seus fardos de pobreza e escravidão. Pelo contrário, ela deseja ter poucas crianças, mas crianças superiores, geradas e criadas no amor e pela livre escolha; não por compulsão, como imputa o casamento. Nossos falsos-moralistas ainda têm de aprender o profundo senso de responsabilidade com a criança que o amor em liberdade despertou no seio da mulher. Seria melhor renunciar para sempre a glória da maternidade do que dar à luz numa atmosfera onde só se pode respirar destruição e morte. E se ela se torna mãe, é para dar à criança o mais profundo e o melhor que seu ser pode oferecer. Crescer com a criança é seu mote; e ela sabe que somente desse modo é que pode ajudar a construir a verdadeira masculinidade e feminilidade.

Ibsen deve ter vislumbrado uma mãe livre, quando, num golpe de mestre, retratou Ms. Alving. Ela foi uma mãe ideal por superar o casamento e todos os seus horrores, por romper suas correntes, e libertar o espírito para voar, até que uma personalidade, regenerada e forte, lhe retornasse. Ai! Foi demasiado tarde para recuperar sua alegria de viver, seu Oswald; mas não demasiado tarde para compreender que o amor em liberdade é a única condição para uma vida bela. Aquelas que, feito Ms. Alving, que pagaram com sangue e lágrimas por seu despertar espiritual, repudiam o casamento como uma imposição e uma pilhéria sem graça, de baixo nível. Elas sabem que apenas o amor, quer dure apenas um breve espaço de tempo ou dure pela eternidade, é a única base criativa, inspiradora e elevada para uma nova raça e para um novo mundo.

Em nosso presente estado pigmeu, para a maioria das pessoas, o amor é, de fato, um estranho. Incompreendido e evitado, raramente finca suas raízes, e quando o faz, tão logo seca e morre. Suas fibras delicadas não suportam o stress e a tensão do cotidiano maçante. Sua alma é complexa demais para ajustar-se à trama viscosa de nosso tecido social. O amor lamenta, sofre e chora por aqueles que dele precisam, mas carecem da capacidade de elevar-se aos seus cumes mais altos.

Um dia, um dia homens e mulheres se elevarão, eles alcançarão o pico da montanha, se encontrarão grandes e fortes e livres, prontos para receber, partilhar, e refestelar-se nos raios dourados do amor. Que fantasia, que imaginação, que gênio poético pode entrever, ainda que aproximadamente, as potencialidades de tal força na vida dos homens e mulheres. Se o mundo alguma vez dará à luz a verdadeira união e companheirismo, não será o casamento, mas o amor a concebê-lo.

Texto originalmente compartilhado por anarquistas.net neste link

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*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

Fotos de Anna Atkins

por Anna Atkins*

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*Anna Atkins (1799 – 1871) foi uma botânica e fotógrafa inglesa. Muitos consideram-na a primeira pessoa a publicar um livro ilustrado com imagens fotográficas. Algumas fontes afirmam que ela foi a primeira mulher a criar uma fotografia.

Dói

por Roberta AR

Isso dói, já disse.
Deixa pra lá, ele me responde.
Mas dói, continua doendo.
Você é mais forte, ela diz.
Tá doendo muito!
Olha lá a louca!, ouço o coro.
Me afasto, respiro.
E vejo alguém que me olha sem julgar.
Sozinha.
E algo em mim dói menos

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poema resultado da oficina “Empoderamento Poético”, da poeta Marina Mara, e transformado em lambe-lambe

Fotografias de Harriet Brims

por Harriet Brims*

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autorretrato

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*Harriet Pettifore Brims (1864-1939) foi uma fotógrafa comercial pioneira em Queensland, Austrália.  Ela abriu um estúdio fotográfico em Ingham, Queensland, antes de se mudar para Mareeba em 1904. Seu trabalho fotográfico fornece informações sobre pessoas e lugares nos dias pioneiros de North Queensland.

Uma visão da Grécia por Vera Willoughby

por Vera Willoughby*

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Itea from Delphi

 

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Kithaeron

 

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Klytemnestra
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Marathonikes
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Mount Ida, Krete
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Olympus
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Philippides
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Salamis
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Salamis from Aegina
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Selene – The Parthenon
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The foothills of Pentelikon, Marathon
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The foothills of Pentelikon, Marathon

 

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The Lion Gate, Mycenae
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The toilette of Ariadne
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The vengeance of Orestes

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*Vera Willoughby (1870-1939) era um ilustradora, pintora e artista de cartaz britânica de origem húngara. Sob o nome de Vera Petrovna, ela também criou desenhos e ilustrações de bailarinas.