A chalga do meu coração

por Roberta AR

Um dia cheguei no trabalho contando de um show do Varukers que tinha assistido no Conic (quem é de Brasília sabe que esta sempre foi uma quadra underground, um pouco menos agora que começa a ser gentrificada por hipsters, lojas de vinis e coisas do tipo). Uma colega, assustada, me disse que nunca me imaginaria num show punk, que eu tinha cara de quem gostava de Vanessa da Mata. Acho que são meus cabelos cacheados e o fato de eu ser de humanas que dão essa impressão de que eu gosto de nova mpb (ainda chamam assim?).

Mas minha vida musical nunca foi assim só underground, tem os pop que me tocam fundo, sempre gostei de Robertão (chorei horrores nos dois shows que fui) e David Bowie é ainda um grande amor da minha vida.

Quando conheci meu companheiro, nossa primeira conversa foi sobre Rammstein, ainda morro de inveja que ele foi num show e eu não. Ficamos juntos num show do Gangrena Gasosa. Tudo caminhava para sermos um casal camisa preta, quando, num belo dia, o Pedro me apresenta Azis, que conheceu nas zueiras de internet, ele é de uma geração depois da minha e conhece coisas que eu demoro um pouco mais para ter contato.

E a primeira coisa que vi do Azis foi o clipe de Hop. É difícil descrever a sensação que tive enquanto ouvia e via. Uma empolgação, comecei a rebolar discretamente na cadeira (estava no trabalho, com meus melhores amigos, os fones de ouvido), mas por dentro me senti numa noitada nA Lôca*. Vou tentar descrever aqui o que vi e ouvi.

Azis é um cantor pop da Bulgária. Ele canta chalga, que mistura ritmos tradicionais búlgaros com batidas eletrônicas, considerado brega no leste europeu. É muito popular, o vídeo de Hop, na página da Diapason Records do youtube, tem mais de doze milhões de visualizações. A primeira imagem que vemos, é uma casa de madeira coberta de neve, corata para a foice e martelo, símbolo do comunismo, num fundo preto, seguida de uma animação com o nome da música em letras brancas HOP, até agora ao som de uma sanfona, ou algum instrumento tradicional. E aí a diversão começa.

Damos de cara com o Azis ricamente maquiado em um ofurô, rodeado de lindos homens seminus numa sauna, cantando “Lover, lover / Fucker, fucker / Lover” e depois entra o trecho em búlgaro. Imagens de um dançarino folclórico se alternam com a sauna e closes de Azis em roupas mínimas, cheias de lantejoulas.


(clique e veja o clipe de Hop)

Seus hits são contagiantes, outra música que recomendo para quem quiser conhecer é Sen Trope, que, na página azisofficialmusic, tem mais de três milhões e meio de acessos.

Seu visual andrógino exageradamente elaborado pode parecer de alguém fútil, mas ele é uma personalidade política importante na Bulgária, se casou com um, agora, ex-companheiro com quem tem uma filha e não teve sua união reconhecida no país, foi vice líder do Euroma, partido ultraliberal búlgaro, e luta pela visibilidade e direito dos ciganos na Europa.

Vi poucas coisas em português sobre ele nas minhas pesquisas, mas sei que tem uma geração que o conhece por essas bandas, muito pela zueira, mas alguns foram curtindo de verdade. Apresentei para uma colega de trabalho que ficou simplesmente alucinada por ele, com planos de ir para a Bulgária e tudo e eu ainda nem sei o quanto tinha de brincadeira ou verdade nessa história toda.

Mas Azis é pra isso tudo mesmo. Delícia demais!

*boate de São Paulo

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Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #3

Ilustrações de Julie de Graag

por Julie de Graag*

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Boerderij in de Sneeuw, 1918
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Zwemmende Eend, 1917
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Varken, 1917
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Eend, 1917

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Kale boom in Landschap, 1919
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Voor Elsje, 1916
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Kop van een Hond, 1920
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Twee Kinderschoentjes, 1921
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Spin in Web, 1918
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Boerenschuur, 1919
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Twee Uilen, 1921
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Bloem in Rozet, 1920
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Boerderij in de Sneeuw, 1920
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De Knop van een Zonnebloem, 1917

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*Anna Julia “Julie”de Graag (1877 – 1924) foi uma artista gráfica holandesa, ilustradora e pintora.

Paisagens de Ida Gisiko-Spärck

por Ida Gisiko-Spärck*

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Coastal Landscape with Cabbage Field, Onningeby, Aaland, 1890
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Blommande Fruktträd (Blossoming Trees), 1889
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Sommarlandskap, 1892
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Blommande Träd, 1890
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Flicka Vallande Gäss vid Kustväg, s.d.
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Kustlandskap, Skagen, 1893 (?)
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I Väntan på Stranden, Blidö, s.d.
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Sommaräng vid Havet, 1889
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Kvinna med Parasoll på en Bro, 1887
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Strandbild från Skagen, 1893

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* Ida Emma Charlotta Gisiko-Spärck (1859-1940) foi uma pintora sueca que se tornou membro da colônia de artistas Önningeby nas Ilhas Åland. Ela é lembrada por suas paisagens em óleos.

Facada no Além do Muro

Anote na agenda! Em 26/8, sábado, acontece o 40º Além do Muro (ADM), um dos maiores encontros de jogos de tabuleiro de São Paulo. Promovido bimestralmente em Jundiaí, reúne jogadores de várias partes do interior paulista.

O Facada X é um dos patrocinadores do evento e traz uma novidade: o próximo ADM terá um convidado especial Jack Explicador, do Canal Meeple Maniacs, um pioneiro na produção de vídeos de regras e gameplays sobre boardgames.

JACK no ADM

A ação é uma parceria dos organizadores do ADM com All The Things, Arcano Games, BG Express, Facada x, Flick Game Studio, Kronos Games e Redbox Editora.

Relembre da nossa cobertura sobre o ADM de fevereiro!

E aí? Vamos nos encontrar lá?

Mais informações: Além do Muro

Acho que ele me chamou

por Roberta AR

Acho que ele me chamou de novo. Será que foi ele? Vou lá olhar. Está dormindo, deve ter sonhado algo. Tão bonito assim, dando risadinha sonhando.

Estou cansada, não consigo falar frases compostas mais. O pensamento não acompanha. Nunca mais uma noite com mais de cinco horas de sono consecutivas. E essas cinco horas são raras, bem raras.

Eu gosto de dormir, preciso, isso me deixa meio paranoica, isso de não dormir decentemente. Aliás, me deixa mais paranoica. Mas me dá uma satisfação ver que estou dando conta, que está crescendo saudável, fisicamente, emocionalmente, mentalmente.

Ele acorda e me chama, angustiado porque está crescendo e isso é difícil. Tentamos deixar as coisas mais fáceis para ele, mesmo que sejam pesadas para a gente, mas isso não tem nada a ver com ele.

Ah, sim, a paranoia. Eu sinto medo do abandono o tempo todo. Sinto que ele vai ser abandonado quando chora, mas não por mim, é um abandono ancestral, o que eu sinto. O abandono que eu mesma sofri. “É melhor ter pais ausentes do que nenhum”, diz a pessoa que não tem ideia do que está falando.

Eu tinha sonhos estranhos quando era criança, desde muito pequena. Um dia sonhei que uma equipe de agentes federais invadia a minha casa e me dizia que aqueles não eram meus pais, mas robôs disfarçados que me roubaram. E que iam me levar para casa, finalmente. Acordava sobressaltada, uma alegria que se dissipava assim que eu percebia que era só sonho. E foram vários do tipo, com variações dos sequestradores, que eram alienígenas, agentes soviéticos (ah, os filmes americanos…).

Uma vez sonhei que estava no quintal, era uma noite muito fria, daquelas que dava geada na madrugada, o céu bem limpo e eu pedia ajuda para alguém, qualquer um, e o vira-lata, aquela paródia do super homem que em inglês chama underdog, descia e me resgatava. A sensação de estar voando para longe, qualquer lugar, era maravilhosa. Ainda lembro direitinho.

Hoje, aqui, em casa, sinto o sobressalto do abandono quando olho para ele pequeno dormindo na cama. Medo de que ele sinta isso. Será que meu afeto basta? Será que tem afeto em mim? Sinto que secaram minha fonte lá atrás, me deixaram seca de afeto, mas sei, e isso é diferente de sentir, que não é assim. O que falta, falta para mim e daquelas pessoas. A mãe que está em mim é meio capenga e está fazendo tudo surgir do zero, reflexivamente, racionalmente, deixando brotar algo que alimente a si mesma também.

É uma oportunidade de cicatrizar, sinto que estamos nesse caminho, mas não sem ficar uma quelóide ou algo assim que poderia ilustrar o que sinto.

E ainda tem que proteger das cobranças emocionais de relações tóxicas o tempo todo, da chantagem de quem acha que afeto é um direito e não algo a ser cultivado com respeito e cuidado. Ter que ser a vilã num mundo que não está nem aí para a saúde emocional e mental de ninguém. Tem gente realmente interessada em desequilibrar a vida alheia e assistir a tudo desabando. Eu sei que isso vem de quem está em sofrimento profundo, o que torna tudo ainda mais difícil.

Quanto tempo desde que ele me chamou? Cinco minutos? Será que consigo relaxar e dormir agora ou será mais quanto tempo pensando nisso tudo de novo e de novo? Amanhã tem que lavar aquela roupa, o texto que estou devendo…

Ah, Onde Estou

por Álvaro de Campos*

Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser…

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* Álvaro de Campos é um heterônimo do poeta português Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Universal.

Feminismo? Caridade?

por Maria Lacerda de Moura*

A palavra “feminismo”, de significação elástica, deturpada, corrompida, mal interpretada, já não diz nada das reivindicações feministas. Resvalou para o ridículo, numa concepção vaga, adaptada incondicionalmente a tudo quanto se refere à mulher.Em qualquer gazela, a cada passo, vemos a expressão “vitórias do feminismo” – referente, às vezes, a uma simples questão de modas! Ocupar uma posição de destaque em qualquer repartição pública, cortar os cabelos “à la garçonne”, viajar só, estudar em academias, publicar um livro de versos, ser “diseuse”, divorciar-se três ou quatro vezes, pelas colunas do “Para Todos”, atravessar a nado o Canal da Mancha, ser campeã de qualquer esporte. – tudo isso consiste “nas vitórias do feminismo”, vitórias que nada significam perante o problema da emancipação integral da mulher.

A verdadeira emancipação é posta de lado

É uma tática bem manejada. Enquanto as mulheres se contentam com essas “vitórias”, a sua emancipação é posta de lado ou nem chega a ser descoberta pelos tais reivindicadores de direitos adquiridos… E essas reivindicações não se podem limitar a ação caridosa ou a um simples direito de voto que não vem, de modo algum, solucionar a questão da felicidade humana e se restringirá a um número limitadíssimo de mulheres. Aliás, quando os homens sérios retiram-se, num ostracismo voluntário, dessa política de latrocínios oficializados, desse bacanal parasitário, desse despudor em se tratando dos negócios públicos; quando se decreta, positivamente a falência, o descrédito do parlamentarismo em toda uma sociedade em plena decomposição, – é agora que a mulher acorda e sai correndo atrás do voto, coisa que deveria ser reivindicado a cem ou duzentos anos atrás… o supõe, ingenuamente, estar cuidando dos interesses femininos ou dos interesses sociais.

A solução para os problemas humanos não é a caridade

E quando chegamos à conclusão de que a caridade humilha, deprecia, desviriliza; desfibra a quem dá e a quem recebe; quando sentimos que a solução para os problemas humanos não é a caridade que sufoca todas as fibras interiores de que tira, às faces escancaradas da miséria, as sobras, o supérfluo; a caridade que estrangula todas as energias latentes daquele que estende as mãos para receber, servilmente, o que sobra das orgias e da exploração dos que vivem à custa do trabalho alheio; quando por si mesma, a moral de que se alimenta a sociedade vigente decreta a falência, essa moral odiosa, de classes de ricos piedosos e de pobres a receberem esmolas, de exploradores caridosos e explorados calculadamente vigiados pela força armada, mantenedora da passividade exterior e da revolta latente dos ilótas modernos; essa moral farisaica que, para os ricos aconselha a caridade, a distribuição ostentosa do supérfluo adquirido à custa do suor proletário, e para os pobres recomenda a resignação passiva, o receber humildemente as sobras que espirram, por acaso, das mesas dos ricos e olhar ainda agradecidos, para essas mãos orgulhosas que se divertem nas caridades exibicionistas dos salões elegantes, tirando partido das misérias sociais para o seu prazer; quando novas fórmulas de uma moral mais pura se nos apresentam para outra organização social de mais eqüidade, – ainda a mulher está convencida de que a sua mais alta missão na vida é a caridade e só conhece a questão social através da caridade, mas, dessa caridade de chás, tangos e requebros nos salões…

Gastam somas fabulosas com a construção de igrejas e exploram torpemente os criados

Essa mesma mulher que reparte altas somas para a construção de igrejas ou “creches” religiosas, explora, torpemente, os criados, a cozinheira, a lavadeira, a costureirinha contratada para trabalhar em sua casa, horas e horas, sob o olhar impertinente da mundana ociosa, da criatura virtuosíssima que, pelas colunas da imprensa, espalma as mãos dadivosas consolando os infelizes, os mal instalados na vida… Dá por um chapéu, por uma pluma, um brinco, um vestido de baile, um leque, uma sombrinha, uma jóia, por qualquer fantasia, somas fabulosas, inacreditáveis, entretanto, exerce pressão vergonhosa sobre a sua bordadeira que lhe cobra uma miséria por qualquer trabalho feito com sacrifício inaudito, em horas triturantes de agonia, à noite depois de exausta do trabalho diário do atelier – no qual também já lhe tiraram gotas de sangue, na amargura da exploração pelo salário quotidiano.

Chora ante o ecran do cinema e fica impassível ante as injustiças sociais

Sentimentalismo de epiderme que faz chorar ante o écran do cinema e, todavia, soluça em torno da elegância caridosa, toda a miséria ciclópica da luta pela vida e ela não vê, não quer ver o sofrimento milenar da mulher proletária , calculadamente cultivada a sua ignorância através do pão duro de cada dia, no trabalho exaustivo da fábrica, das oficinas e no lidar doméstico – servindo à ociosidade farta da alta sociedade ou dos bordéis do vício elegante.A piedade das senhoras caridosas não vê, não sabe da luta dantesca de uma pobre moça do povo que resvala na miséria mais negra se não cai nos braços escancarados da prostituição “necessária” nesta sociedade bestial e moraliteísta. A atividade da mulher elegante só sabe votar-se a essa caridade exibicionista dos salões iluminados, onde ostenta a sua beleza e sentimentos problemáticos de uma bondade estudada no espelho… A mulher é vaidosa e comodista e os psicólogos femininos preocupados em agradar, em fazer psicologia de “boudoir” – não perscrutam, não querem ver a falsidade dos altos sentimentos caridosos do mundanismo elegante. Prefere continuar a sofrer as conseqüências do seu servilismo, da sua submissão a desenvolver o caráter, as faculdades de iniciativa para lutar contando com as suas próprias energias. Procura conservar o seu parasitismo dourado, indiferente aos males sociais: é odalisca e cortesã, mas, vai à Igreja, em horas chics, rezar pelo próximo e, dançando um passo moderno, exerce a caridade. Como é odiosa e perversa essa caridade!

Civilização de protetores e protegidos

E a mulher duplamente escravizada não compreendeu que é necessário sim, alevantar o ânimo abatido do que luta, do que pensa sucumbir aos embates da injustiça social, dar-lhe meios de subsistência pelo próprio esforço e fazer dele um indivíduo capaz de ver a casta civilização de fartos e famintos, de ociosos parasitas vivendo à custa do sacrifício alheio, civilização de protetores e protegidos, de lobos e cordeiros, em que os mais altos sentimentos se confundem com as mais torpes baixezas, de chibata azorrague, de avariose e cafetismo, de excesso de ociosidade e excesso de miséria. E tudo, inclusive, principalmente a literatura, essa literatura nefasta, de elogios, de louvores incondicionais, literatura odiosa endeusando a fêmea, literatura à Júlio Dantas tudo contribui para o cultivo sistemático da pieguice, de chiliques e requebros, do falso sentimento, do sentimentalismo para o público. E o raciocínio, por si obscurecido através da escravidão feminina secular, da tutela dos dogmas e da moda, dos prejuízos e da rotina, fecha-se sob a chuva de galanteios, de frases feitas. E a mulher esquece-se de que tem mais alguma coisa além da sua carne, do seus contornos perturbadores. Deixa de ser mulher para ser apenas o animal do homem. A grande miséria, a enorme dor das injustiças sociais vive ao seu lado e a mulher desvia o olhar para poder divertir-se, gozar das regalias e do seu comodismo de “bibelot”, de lulu número 1, prisioneira nas gaiolas douradas das avenidas elegantes, sempre a mesma escrava, odalisca e cortesã.

Adormecida dentro dos trapos

A alma feminina jaz adormecida dentro dos trapos, das jóias, do império da moda, – a eterna sultana desse harém de civilizados que ainda compram, vendem, exploram, seduzem, abandonam por imprestável a mesma mulher, cuja posse exclusiva consiste a sua preocupação única. É deprimente a situação da mulher superior, neste meio de cafetismo social, em que os homens não sabem olhar uma mulher senão desrespeitando-a.

E para quê enumerar essas associações atrasadas do feminismo de caridades?

Sem dúvida é doloroso perscrutar as misérias dos famintos, da nudez, dos cortiços.

Mas, não se trata de esverrumar a causa da chaga sangrenta da miséria, mesmo do coração da opulência, ao lado da ociosidade que se diverte cinicamente, depois de atirar uns níqueis para os esfaimados, níqueis roubados ao trabalho árduo dos explorados do salário.

Divertimentos à custa da dor

Há apenas a preocupação de se jogar migalha na boca escancarada da fome, talvez para que nos deixem em paz… E, divertir-se a custa da dor, da amargura, da fome, é insultar o sofrimento.

E a miséria está de tal modo humilhada, deprimida, que nem forças tem para devolver, orgulhosamente, os restos que se lhe atiram através dos esplendores dos salões elegantes, por entre as pontas dos dedos enluvados para que não volte um salpico das calçadas a enlamear-lhes as mãos dadivosas. Não houvesse ociosos fartos, degenerados pelo tédio e pelos vícios elegantes, não houvesse a exploração do homem pelo homem, não houvesse a exploração da mulher pelo homem, e certo não seria “necessária” a prostituição, essa perversidade inominável em nome da virtude.

A caridade é “a janela da consciência”, aberta para a exploração diurna e noturna do proletariado nas oficinas, nas fábricas e do camponês, do colono na agricultura. Para que a elegância brilhe, para que triunfe o mundanismo, para que os “cabarets” e os “cassinos chics” regorgitem de ociosos – é preciso que o colono, campônio e o operário de ambos os sexos seja triturado, dobrado, esmagado nas oficinas, na lavoura, nas fábricas, dia após dia, sem tréguas, sem nenhum direito a não ser o direito ao trabalho obrigatório.

As várias superstições

É a escravidão moderna do salário para matar a fome e cobrir a nudez dos filhos, também cedo destinados à exploração torpe e miserável do parasitismo social, incansável na sua faina, de acumular bens para gozar à custa do suor exaustivo das máquinas de trabalho, dos animais de tiro, do proletariado mundial. Devemos à superstição governamental, à superstição religiosa sectarista, à superstição patriótica, à superstição nacionalista, à superstição do progresso material, à ganância de uns e ao servilismo da maioria – o predomínio desta civilização de duas classes sociais: a dos ricos e a dos pobres.

A humanidade custará a compreender que a vida social poderia desdobrar-se num ambiente de solidariedade, de auxílio mútuo, sem amos nem escravos, sem protetores e protegidos, sem representações parlamentares em mediocracias diplomadas…

Religiões – instrumentos de explorações dos incautos

Levará ainda tantos séculos a perceber que as religiões organizadas, política e economicamente, não são senão instrumentos de exploração dos ignorantes, dos desfibrados, dos ambiciosos, dos moluscos, dos que carecem de espinha dorsal… Ninguém cresce na sua individualidade através da consciência ou, talvez, da inconsciência de outrém. Não é demais repetir que a atual organização social baseia-se na ignorância de uns, no servilismo da maioria, na astúcia de outros, no comodismo de muitos, na exploração dos espertos, na felicidade dos “proxenetas” e “souteneur “, desse cafetismo, desse regime de concorrência, em que se compra e vende tudo, inclusive o Amor e a Consciência – as mais altas manifestações do que é nobre e belo e grande, do que tumultua na vibração interior da nossa vida profunda.

Representação parlamentar: circo de cavalhinhos

Sentimos que as mentalidades de “elite” ultrapassaram de há muito a moral atual que tenta acorrentar ainda as aspirações humanas libertárias. Tudo faliu: a igreja, o parlamentarismo, a academia, a instituição legal do casamento, o ensino universitário, o patriotismo. Pois bem: é agora que a mulher vem reivindicar o direito do voto – quando a representação parlamentar é circo de cavalinhos, o sufrágio universal uma mentira. A mulher, essa energia latente formidável que vem despertando para a atividade social, já foi enlaçada pelo passado reacionário – para dispersar todas as suas forças na corrente das “verdades mortas”.

Feminismo de votos e feminismo de caridades

É a razão por que não posso aceitar nem o feminismo de votos e muito menos o feminismo de caridades. E enquanto isso a mulher se esquece de reivindicar o direito de ser dona de seu próprio corpo, o direito da posse de si mesma. Sou “indesejável”, estou com os individualistas livres, os que sonham mais alto, uma sociedade onde haja pão para todas as bocas, onde se aproveitem todas as energias humanas, onde se possa cantar um hino à alegria de viver na expansão de todas as forças interiores, num sentido mais alto – para uma limitação cada vez mais ampla da sociedade sobre o indivíduo. Que representa uma “creche”, um hospital ou o direito de voto ante a vastidão dos nossos sonhos de redenção humana pela própria humanidade? É subir mais alto o coração e o cérebro, ver horizontes mais dilatados -além do sectarismo religioso ou da superstição social governamental. Isso é feminismo? Dêem o nome que quiserem, pouco importa: o que esse feminismo (não me agrada a expressão tão estreita para ideal tão amplo) reivindica é o “Direito Humano”, o Direito Individual, acima de qualquer outro direito, além dos direitos limitados ao parlamentarismo, além dos direitos de classe.

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Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945) foi uma anarquista brasileira que se notabilizou por seus escritos feministas.