Single Shot Songbook: Meu Samba de Uma Nota Só.

por Biu*

Eu não morri nem escapei, eles estão mortos. Eu tentei tirá-los de lá, os que restaram, mas eles não queriam mais viver. Quando cheguei lá, parecia estar tudo como antes, então fiz o que fui fazer, eu fiz o que tinha de fazer, mas, o que foi que fiz?

… agora tanto faz.

E quando saía, da rua, abri mais uma vez a janela… Lá estava como antes, tudo calmo, na penumbra, como antes, mas aos poucos meus olhos foram acostumando-se à escuridão e vi uma criança brincando com uma arma, tentando brincar, pois estava movendo-se muito lentamente, apesar de estar se empenhando ao máximo naquilo, então entrei correndo novamente, assustado, e a ajudei a levantar-se, ela parecia preocupada só em escrever uma história sobre um homicídio e vinha daí seu interesse pela arma, explicou-me, mas eu só ficava cada vez mais confuso, aí chequei a arma, estava quase completamente descarregada, lembro-me bem das balas girando no tambor, duas das seis, piedade e culpa, eram seus nomes, e a tomei dela. Foi quando da cozinha veio o segundo, sangrando, e percebi que ela também estava ferida, e entendi que algo horrível aconteceu ali.

Eu tentei arrancá-los de lá, mas eles pareciam zumbis, eles não escaparam, foi ainda pior para eles não terem sido mortos com os outros, e como então não entendia nada, e como queria viver, voltar a sorrir acho que nunca mais, mas viver, definitivamente, corri de volta para cá, deixei os dois que restaram no caminho depois que um deles tentou me arrastar junto para a vala onde se meteu, pois é ainda pior para quem escapa, a culpa por terem sobrevivido torna-os como buracos negros, não há mais salvação para os que estavam lá e não compartilharam do mesmo destino que seus semelhantes, entenda: se você vai à guerra, se decidiu-se por isso, é melhor morrer por lá, aliás, não há escolha, se você não morre como e quando deve morrer você vira um zumbi, ou um vampiro. Eu não fui à guerra, nem ela veio até mim, como para eles, os que restaram, eu só caminhei pelos escombros, foi o suficiente, eu não escapei de meu destino, eu, aliás, acabo de olhá-lo nos olhos, eu, agora, sei exatamente o que tenho de fazer, e eu não procurei por essa informação, ela chocou-se comigo, assim: quando entendi que não haveria sobreviventes, e dei as costas aos que restaram, ouvi mais um disparo, na verdade o percebi, pois ele zune já desde tempos imemoriais, um tiro seco, oco, monótono e infinito, que ecoará por toda minha vida e que vai me arrancar de meu sono muitas vezes ainda enquanto viver… Ele estava em minha cabeça enquanto corria e chorava e rezava para encontrá-los como os deixei, felizes, ou ao menos vivos, e está em minha cabeça agora enquanto lhes conto isso: eles estão mortos. Foi uma chacina. Nós não podemos mais voltar para casa, ela não é mais nossa casa, suas paredes azuis estão vermelhas do sangue de inocentes que pagaram pelos crimes da guerra de seus pais e voltar lá agora significa morrer, ou algo ainda pior, pois, olhem para mim, decidam-se de uma vez: esse disparo, que é a trilha de meu desastre, é o meu canto da sereia, será o do cisne. Não há volta, eis o que diz o tambor enquanto gira, e eu repito, e vocês, que restaram, entendam enquanto é tempo, enquanto recarrego, antes que faça mira, engatilhe e volte a explicar…

E se em minha jornada passar por tua casa e resolver te visitar…

Bem, meu amigo, é melhor você se armar.

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

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