Pele verde, máscaras negras

por Manoel Taylor*

As Tartarugas Ninjas conquistaram seu espaço como um fenômeno cultural desde sua estreia em 5 de maio de 1984, em que as humildes 3 mil cópias da, até então, volume único: The Teenage Mutants Ninja Turtles #1 tiveram vendas totais em menos de um mês, superando os consagrados Vingadores, emplacando uma sequência de sucessos sendo reconhecida como uma das franquias “underground” mais valiosas da história dos quadrinhos.

Criadas por Peter Laird e Kevin Eastman, a ideia foi abraçada pelo público leitor de quadrinhos e expandida para uma série animada em 1987, uma trilogia de filmes em 1990, jogos, bonecos e muitos outros produtos alinhados ao estúdio independente Mirage Studios em parceria com outras marcas, marcando por definitivo no imaginário popular quem eram Michelangelo, Rafael, Leonardo e Donatello, assim como seu pai/sensei, Mestre Splinter.

Os Quatro irmãos ganharam notoriedade por serem extremamente relacionáveis com o público. Antes de serem tartarugas, ninjas ou até mesmo mutantes, elas eram adolescentes! Fruto dos anos 80 criados como tais jovens da época, eles gostavam de festas, cultura pop, músicas, quadrinhos, filmes, livros, desenhavam, andavam de skate, jogavam jogos eletrônicos, assistiam basquete e outros esportes, brincavam uns com os outros e entre uma missão e outra tinham piadinhas e uma forma menos rigorosa de lidar com as situações. Partilhando da mesma energia de Clube dos 5, Curtindo a Vida Adoidado, ou De Volta Para o Futuro, mas com um toque extra de ficção científica e muito Ninjutsu.

Ao longo dos anos, os quatro irmãos foram objetos de estudo como os maiores ícones dos quadrinhos, Super Homem, Batman e até Wolverine e Demolidor de Frank Miller, que por sua vez foi inspirado por Lobo Solitário, os quais foram forte influência na criação da família ninja. Sempre como inspiração criativa pra nutrir subtextos e alimentar as analogias em suas narrativas e assim criar diversas teorias sobre a lore desse universo.

Uma das mais famosas, é a escolha das armas em contraste com a personalidade das tartarugas. Nunchakus do Michelangelo: A arma mais complexa para o mais “estabanado”. O par de Sais do Rafael: Uma arma defensiva para o mais agressivo. As Katanas do Leonardo: As espadas mais letais para o mais contido e cuidadoso e, o do Donatello: um simples bastão para o mais calmo e criativo. Essa teoria não tem um único criador creditado, mas uma análise contínua da narrativa ao longo de várias mídias, especialmente focada no contraste entre o temperamento e o equipamento de cada um.

Mas talvez a teoria mais polêmica que ganhou destaque nos últimos anos, é a codificação negra na composição das personalidades. Afinal, podemos dizer que As Tartarugas Ninjas são meninos negros? – não, elas são tartarugas! (ooh, jura??) Se for assim, então Gojira não é uma metáfora para os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki no pós segunda guerra mundial, e nem o King Kong uma Metáfora (extremamente racista, diga se de passagem) ao tráfico de pessoas negras às américas, como destaca Robin R. M. Coleman em Horror Noire (2019 Darkside Books)

Certo, Tartarugas Ninjas não são literalmente meninos negros, mas podem sim ser lidos como tal pelo arquétipo na composição. E note, estética faz parte do conjunto de elementos que definem suas características, sendo assim, muitas pessoas as conectam a partir do estereótipo, ou seja, gírias, o gestual, o vestuário composto pelas roupas, tênis, durag e outros acessórios associados a pessoas negras, gosto por basquete e uma gama de diversos elementos sinestésicos. Isso por si só já configura uma alusão direta, mas frágil, bastante rasa e que reforça o estigma sobre pessoas negras. Um dos aspectos a ser levantado é sobre narrativa da mutação ser desencadeada através de um experimento, abordada no reboot da IDW em 2011 que inspirou o filme de 2014, ai cabe uma alusão aos testes feitos em pessoas negras ao longo da história, mais especificamente ao experimento de Tuskegee para sífilis não tratada, quando, entre 1937 até 1972, 600 homens negros foram cobaias para teste de controle da doença, mas creio que também seria algo raso.

Sempre que tentam fugir desse debate, correm para outra associação, a de que as tartarugas seriam meninos asiáticos. Bem, pessoas negras e amarelas tem vivências similares como povos em diáspora no contexto de imigração, passaram por colonização, escravidão e segregação, principalmente falando em um cenario estadunidense. Há um vasto compartilhamento cultural entre ambas as etnias: Afro Samurai, Cowboy Bebop, Samurai Champloo, Gachiakuta e Boys run the Riot, são animes/mangás exemplo de como elementos de culturas distintas conversam entre si. Sobre as tartarugas serem asiáticas, isso deixou de ser uma teoria para ser confirmada em cânone, mas apenas no reboot da franquia pela editora IDW, publicado originalmente em Teenage mutant ninja turtles n°5, Dez/2011, e em 2024 no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim compilando as 12 edições originais. Mas até então nunca houve uma citação direta sobre.

O que temos é que na origem em 84 (de forma muito resumida), Splinter nasceu no Japão e era um rato de estimação do artista marcial Hamato Yoshi, qual tinha uma relação conflituosa com Oroku Nagi, ambos eram membros do Clã do pé. Yoshi e Nagi disputavam tudo, principalmente o amor da jovem Tang Shen, qual era apaixonada por Hamato. Após uma briga em que Ragi agride Shen, Yoshi revida e acaba matando Ragi, então eles precisam fugir para os EUA. Mas Ragi tinha um irmão mais novo, Oroku Saki, que ao completar 18 anos viaja para os Estados Unidos em busca de vingança e consegue, pondo fim na vida de Yoshi e Sheng. No processo ele destroi a casa deles causando a quebra da gaiola onde ficava Splinter, que buscou refúgio nos esgotos, mais precisamente no Brooklyn, um bairro geralmente associado a pessoas negras e vamos pontuar isso mais pra frente. Foi aí que Splinter encontrou as tartarugas, pouco tempo antes de sofrerem as mutações que os transformaram em seres antropomorfizados, e muito inteligentes. (Histórias publicadas no Brasil em 6 volumes pela editora Pipoca & Nanquim, em 2020 batizadas de Coleção Clássica ‘Mirage Studios’)

Bom, a partir disso podemos concluir que Splinter cabe na alusão de um homem amarelo, enquanto as tartarugas são afro-americanos, ou no mínimo, (por enquanto) apenas jovens estadunidenses.

Uma forma de enriquecer essa analogia é dialogando sobre a inspiração direta para Kevin e Peter, que tiveram como base os filmes de kung fu dos anos 70 e 80 com o auge no cenário mundial (e norte americano) com diversos sucessos estrelados por Jet Li em O templo de Shaolin (1982), Jackie Chan com Projeto A (1983) e Police Story (1985).

Mas um dos principais, que pavimentou caminho para esses sendo também um dos maiores referenciais para a criação das tartarugas, segundo o próprio Kevin Eastman, foi obviamente o Bruce Lee, com O Dragão Chinês (1971), A Fúria do Dragão (1972), O Vôo do Dragão (1973) e muitos outros dragões. A maioria desses filmes tinham uma boa inspiração na vida do artista marcial, um lance curioso é que Bruce Lee teve de fato um aluno negro, Jesse Glover, que virou parte fundamental de sua carreira em Seattle, além de ser reconhecido como um dos maiores mestres de artes marciais chegando a desenvolver seu proprio estilo, o Non-Classical Gung Fu, baseada em uma das formas de Wing Chun.

Glover foi referenciado em alguns filmes como Leroy Green (Taimak Guarriello) em Operação Dragão (1985) e algo mais fiel em Billy (Simon Shiyamba) em Ipman 4 (2018), lembrando que Ipman é baseado na história real de Ip-kai-man, o mestre de Lee.

Bruce Lee constantemente fazia filmes com artistas marciais negros, além de ser um dos pilares dessa união dos filmes de kung fu e o blaxploitation, foi responsável por batizar Ron Von Clieff de Dragão Negro (1974) qual estrelou o filme de mesmo nome, também contracenou com Jim Kelly em Operação Dragão (1973) e Kareem Abdul-Jabbar, o astro da NBA, no filme Jogo da Morte (1978).

O ponto é que podemos também expandir o debate para vários fatos históricos onde a cultura negra e asiática tiveram pontos em comum, desde o lendário Samurai Negro, Yasuke, na era Sengoku (1579 aprox.), até a era moderna com o tratamento que estrangeiros (imigrantes e/ou escravizados) recebiam em solo norte americano, o resultado da segregação que limitou acessos, empregos, troca e venda de mercadorias, limitações de moradia gerando a criação de bairros isolados quais foram destinados, bairros com o mesmo nome em diversos lugares como a famosa Chinatown em Nova Iorque/Manhattan, Filadélfia, Los Angeles, Washington e Boston, sendo equiparado ao que Brooklyn/Harlem, Bed-Stuy, Bronx, Queens são para a comunidade negra. Residindo movimentos organizados e parceiros entre asiáticos e negros no movimento Yellow Peril Supports Black Power, um elo marcado também pela amizade nas figuras de Malcom X e Yuri Kochiyama.

Esse recorte social é muito similar ao que aconteceu no Brasil do pós abolição em 1888, com a população negra sendo jogado para as favelas, sendo a primeira dela o Morro da Providência (RJ) em 1897, Morro de Santo Antônio (RJ), Favela do Vergueiro (SP) ou até o Largo da Forca, em 1907 originado de um abatedouro de pessoas negras junto ao Cemitério dos Aflitos, onde o processo de gentrificação (nome chique para etnocídio e epistemicídio no Brasil) começou abrigar imigrantes Japoneses até se tornar o Bairro da Liberdade nos anos 1970. visto na HQ: Indivisível, Marília Marz, (2017, Conrad)

Aqui conseguimos destacar outro aspecto muito importante na relação entre os personagens e a comunidade negra, uma vez em que, fora dos esgotos quais foram jogadas e obrigadas a constituir lar, As Tartarugas Ninjas, sofrem uma rejeição pelas pessoas da superfície, isso por si só ja é uma metáfora para a rejeição que negros, favelados sofrem fora da favela, como se houvesse um Lugar de Negro pré estabelecido pelo Pacto da Branquitude, seguindo os mesmos moldes que X-men trabalha a questão do Racismo e da Homofobia em sua narrativa.

O Mito Negro é um capítulo do livro Tornar-se Negro (Neusa Santos Souza, 2021, Zahar) que trabalha melhor essa ideia quando cita uma série de variáveis que resulta nas singularidades do problema negro estruturada por 3 pilares: 1- “Os elementos que entram em jogo na composição do mito”; qual foi a base de argumento desse artigo. 2- “Pelo poder que tem esse mito de estruturar um espaço, feito de expectativas e exigências, ocupado e vivido pelo negro enquanto objeto da história”; pontos que citamos mais pra frente, e 3- “Por um certo desafio colocado a esse contingente específico de sujeitos, os negros”, bem, cumprimos todos ao aludir as semelhanças de estrutura que compõe os arquétipos.

Em resumo, o rótulo é imposto pelo sistema dominante, mas estudado, moldado e aplicado pelos sujeitos e seus movimentos. Se a estrutura social é definida pela organização de indivíduos e grupos através de inter-relações, normas, papéis sociais e instituições como família, economia e política, quais criam padrões estáveis de comportamento e ela é determinada por fatores como status social, cultura, relações de poder, classe econômica e regras de convivência, então não haveria dúvida alguma de que se as tartarugas ninjas fossem humanos, se encaixariam perfeitamente como quatro adolescentes negros.

Essa é uma teoria que pode ter ganhado força após um esboço de história do Dwayne McDuffie, em uma sátira intitulada, Teenage Negro Ninja Trashers, de 13 de dezembro de 1989, qual visava criticar a Marvel pela falta de bom senso ao retratar personagens negros em suas histórias e quem sabe até o tratamento de artistas negros na editora.

• Tartarugas como retrato do desenvolvimento na perspectiva negra.

Durante esses meses de hiperfoco em Tartarugas Ninja, em meio a maratonas de documentários, leitura dos quadrinhos, séries animadas e filmes, principalmente os dois live-action (2014 e 2016), comecei a perceber alguns padrões na apresentação e desenvolvimento da personalidade de cada um dos irmãos; o que me levou a pensar numa teoria inexplorada, em que os 4 irmãos são retratos básicos de fases do desenvolvimento, mesmo que os quatro sejam adolescentes, eles ainda têm perspectivas diferentes e senso crítico diferentes entre si, o que diferencia o resultado no amadurecimento, então, assim seria a leitura: Michelangelo, representa à Infância, Rafael, a adolescência, Leonardo, a fase adulta e Splinter, a velhice. – Mas e o Donatello? Bom, nessa leitura mais simples, ele seria o equivalente a todas elas e também ao período de transição entre uma e outra, o que nos leva à algo mais complexo, a teoria do desenvolvimento psicossocial, e pra isso contei com a parceria de um especialista na análise.

Antes disso, devemos ressaltar que os aspectos sociais moldam a personalidade e mudam de pessoa pra pessoa de acordo com a autopercepção e a adaptação ao contexto do ambiente em que se vive. Partindo do ponto que as tartarugas são uma alusão a meninos negros, a percepção de mundo e autoconhecimento rompem a normatividade. Uma criança negra e uma criança branca, mesmo que vizinhas ou parte da mesma família, têm tratamento diferenciado baseado em suas raças sociais, podendo dividir experiências sob o viés de classe e de gênero, mas ainda há o fator raça, o que constitui o Racismo Estrutural. ( Livro por Silvio de Almeida, 2019)

Partindo do princípio que estamos refletindo sobre esse quarteto tão querido sob a perspectiva de quatro adolescentes negros, considero ser muito interessante fazermos uma reflexão sobre essas subjetividades com um olhar um pouco além da visão de teóricos como Lev Vygotsky e Albert Bandura que tem em comum nos seus trabalhos o desenvolvimento através das relações sociais. Afinal, qual pessoa negra também não viu o mundo lá fora da fresta de um bueiro social desejando fazer parte dele, ser aceito, amado e ter a sua existência respeitada como um ocupante desse espaço?

Frantz Fanon diz sobre essa fase da vida para negros e colonizados como o período que se tem a consciência do estigma racial, o momento que em nossa maioria temos consciência que existe uma estrutura social que vai nos rejeitar por não estarmos dentro do recorte racial do que é considerado o ideal ou confiável. Isso vai se conectar de forma profunda com a escola sócio-histórica de Vygotsky que considera que o desenvolvimento não se limita ao aspecto biológico como também através das nossas relações sociais formando o nosso processo de amadurecimento e contextualizando a visão de mundo.

Importante falar sobre esses conceitos para contextualizar como essa obra pode ser analisada e cada um dos seus protagonistas mostra como essa relação de fatores sociais é um elemento preponderante para a construção da subjetividade de cada um deles.

“Precisamos cuidar uns dos outros e não devemos isolar alguém por qualquer motivo que seja.” – Bárbara Carine, no livro: Educando Crianças Antirracistas (2024, Planeta)

Michelangelo: Geralmente é considerado o mais “infantil” do grupo, sendo o mais doce, gentil, brincalhão, festeiro e descontraído, nos passa um ar de pureza e inocência e, em alguns momentos, até assume uma postura de falta de responsabilidade, mas sendo extremamente consciente de quem ele é. Foi apartado da sociedade, nunca brincou com outras crianças além dos irmãos, não frequentou escolas, não tinha rolezinho com amigos e não se via em propagandas, revistas, jornais, quadrinhos e qualquer outra mídia.

Foi indiretamente condicionado a emular uma convivência social baseada no que consumia, muito teórico, nada prático, por medo da rejeição e preconceito fora dos esgotos. Educado desde cedo sobre quem é e como a sociedade o vê, para se precaver de ataques quais as artes marciais pouco tem efeito. Provendo uma aparência que contrasta com o que a sociedade determina como “ideal” de beleza normativo, comportamento inapropriado, postura condenável, linguajar desqualificado, roupas que denunciam um determinado estilo de vida, são os motivos quais Mike, vive idealizando o que viu em outras mídias consigo e o faz querer conviver na superfície. Sabe o quanto tem a oferecer e somar socialmente nutrindo uma idealização de aceitação que se sobrepõe à solidão. Vive espiando o mundo através de um bueiro, e fazendo piadas com as situações, descontraindo o tempo todo sem refletir sobre a problemática como um todo.

Esse afastamento não o impede de sentir empatia com aqueles diferentes, em uma história especial de natal de dezembro de 1985, intitulada “Os Alienígenas de Natal”, Mike está vagando escondido entre o caos da cidade em busca de presentes para seus irmãos, eis que para em uma loja de brinquedos e, após um bom tempo brincando, ele se põe em uma missão cujo objetivo é presentear crianças de um orfanato, destacando empatia gerada pela inocência e assimilação da infância.

Sua personalidade, apesar de ser a mais descontraída da família, reflete o aspecto da solidão oriunda da rejeição social das pessoas da superfície e esse desejo inconsciente de pertencimento, mesmo que ele tenha uma posição de acolhimento já estabelecida no círculo afetivo da sua família, algo dentro do esperado de um adolescente que está construindo a sua individualidade e pensamento crítico.

Quando pensamos no Mike como um adolescente negro, essa solidão se conecta com tantas outras que conhecemos, em que nessa fase da vida se busca ser recebido em um meio e mesmo que emule o máximo os comportamentos do que é considerado aceitável, ele o rejeita e na nossa realidade ainda temos o componente pertubardor de ver esse ambiente lutar para que essas existências não saiam das posições mais baixas ou sequer cresçam.

Outro ponto interessante na personalidade do irmão caçula é como a sua família se torna uma base sólida para que se permita a ingenuidade de ter uma visão otimista de um mundo que o aceite, apesar da consciência de que isso não pode acontecer.

Nós compreendemos o mundo de acordo com o que aprendemos das nossas relações familiares e essas características do Mike mostram que, apesar do isolamento, cresceu em um lar cujo o afeto é o elo mais forte para sobreviver, sendo o seu bom humor uma forma de demonstrar isso para os seus irmãos.

Através dessa visão de mundo, ele se torna um elemento muito interessante na sua relação com os outros irmãos muito diferentes em pensamento e apesar de ser considerado imaturo tem recursos emocionais para mediar as discussões familiares, usando do seu humor para aliviar as tensões nos conflitos também mostrando ser um elemento encorajador como parte da família.

Se fosse possível avaliar o Michelangelo além dos componentes da sua personalidade e relação social, poderia dizer que existe uma grande possibilidade que ele fosse um neurotípico com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) pelos sintomas demonstrados pelo seu comportamento, como a desatenção, a agitação e também a fala acelerada.

Nós pessoas negras somos educadas desde criança a se portar de forma passiva, para que possamos nos precaver de agressões direcionada a quem somos e como nos apresentamos, tipo sair com documento, traçar o caminho exato para não vagar perdido e nem andar tarde pela rua, rosto sempre à mostra, e nada de pôr as mãos no bolso ou mexer na mochila/bolsa em estabelecimentos. Somos condicionados a achar o normativo bonito, e tudo o que se afasta disso e feio, condenável e não nos reconhecemos em grandes mídias. É uma sensação constante de espiar o mundo por uma frestinha do bueiro para ver se podemos sair e ser aceito como somos, esse senso de responsabilidade é desde cedo posto em nossas costas como um fardo que não fica mais leve ao longo do tempo, mas vira costume, e mesmo que o letramento racial alivie um pouco ao nos ensinar sobre nossa história e nos permita amar e sentir orgulho de quem somos, a armadura ainda se faz necessária, afinal, a proteção é para com o outro, que vem de fora do nosso esgoto.

“Ser negro e minimamente consciente é viver o tempo todo com raiva.” – James Baldwin

Rafael: O reflexo perfeito da adolescência com o ímpeto da rebeldia. Velho demais para ser criança, imaturo demais pra ser adulto, impulsivo demais para ser responsável e reativo demais para ser uma referência, tudo é muito e nada é suficiente. Esse conjunto de sentimentos destacam um em específico, o sentimento de não pertencimento. Com os nervos à flor da pele, nessa época da vida qualquer coisa nos irrita, é tudo 8 ou 80, e se você for negro se torna 160, qualquer ato vai pesar mais para você, afinal, no mesmo cenário, Casey Jones (um homem branco) pode ser considerado um “cidadão de bem” como ele mesmo se denomina ou no máximo um “justiceiro mascarado”, enquanto o Rafael será visto como um monstro desequilibrado e radical. Rafa também foi educado para ter plena certeza de quem é e o que significa, mas talvez sua maior segurança seja suas habilidades e características como porte físico avantajado, envergadura proeminente e até um estilo mais despojado. Ele usa desses estereótipos a seu favor, reinventa narrativas, se apropria de rótulos para esconder a dor, mas se questiona o tempo todo sobre ser quem é ou quem deveria ser, sempre disposto a abrir mão da segurança, dos avisos, conselhos e até dos irmãos, para forçar uma integração a superfície ou a qualquer grupo social “normativo”.

Emmanuel Acho é um autor que fala sobre “o mito do negro raivoso” em seu livro Conversas desconfotaveis com um homem negro (leya, 2021). Onde basicamente põe em cheque as contradições do racismo, Destacando a agressividade dos senhores de engenho brancos ao violentar mulheres negras como o caso de Thomas Jefferson e Sally Hemings, e isso não refletir no imaginário coletivo social do homem branco, mas como se construiu a ideia de que o negro pode em sua maioria das vezes ser um abusador de mulheres brancas, citando o caso de Emmet Till, endossado principalmente pela mídia como nos filmes Nascimento de Uma Nação (1915) e King Kong (1933).

Essa integração forçada e sem cuidados, abre portas para comportamentos alheios a norma social a ponto de anular a própria negritude, que poderiamos justificar com o uso de dois livros: Pele Negra, Mascaras Brancas, de Frantz Fanon sobre negros e sua performance de branquitude, e O Homem que queria ser Branco, de Hamilton Borges (Reaja Editora, 2023) cuja citação consegue exemplificar exatamente alguns comportamentos de Rafael:

“Eu queria esse poder de não ser marcado, não ser notado, queria poder passar, transitar. Esse crime da raça que me faz ser um alvo, eu queria que a branquidade me salvasse.”

Aqui há dois pontos que conversam indiretamente, no filme de 2016, após Donatello fazer uma engenharia reversa no Ooze (produto que causou as suas mutações) e possibilitar que as tartarugas pudessem se tornar humanos, Leonardo fica sabendo e pede segredo, mas Rafael, ao descobrir se compromete em ir atrás de mais Ooze para que de fato deixe de ser tartaruga e se torne humano.

Já na edição especial: Rafael: Eu, mim e eu mesmo, de abril de 1985, temos a primeira das histórias focadas em apenas uma tartaruga, o que seria o início do desenvolvimento de personalidades individuais de cada uma, qual nos conta sobre o desequilíbrio do Rafael após um treino de combate com Michelangelo, que termina com o Rafa superando Mike, perdendo o controle e ameaçando de forma mais incisiva em um surto de raiva descontrolado. Assustado ele foge e vaga pelos prédios em meio a madrugada. Assim, ele encontra Casey Jones, um vigilante que não mede as consequências dos seus atos contra criminosos, no maior estilo “bandido bom é bandido morto”, e é aqui que ele se vê naquele lugar e como as pessoas o veriam. Desde então ele tem plena consciência de quem é e isso faz tomar mais cuidado nas suas ações, mas ainda ignora o contexto social geral ao sair constantemente para vagar pela cidade durante a madrugada a fim de emular uma falsa sensação de liberdade e inclusão.

Rafael talvez seja a tartaruga favorita da maioria dos fãs por superficialmente representar muito o ideal de masculinidade, destemido, furioso, forte, inconsequente, imparável e tudo o que a cartilha da masculinidade tóxica prega, mas na verdade, muito desses adjetivos vem para mascarar um sofrimento pela constante luta para existir em sociedade, o questionamento constante por essa segregação e condição de embate o tempo todo é atravessado por uma necessidade de aceitação, seguindo uma lógica parecida com a do Wolverine. Talvez nessa fase da vida, tudo o que realmente nos falta é um pouco de paciência pra entender que o problema não está em nós, mas na estrutura social, e que isso gera raiva, mas como cita Audre Lorde: “Focada com precisão, a raiva se torna uma poderosa fonte de energia servindo o progresso e mudança”.

O exercício de analisar o Rafael é algo que considero muito delicado porque falar sobre adolescência em sua totalidade tem sua complexidade, mas quando inserida a vivência negra é diferente porque o que para uma pessoa branca é interpretado como rebeldia, quando um negro é visto como violência e raiva não é um sentimento que se reprime, mas deve ser compreendido.

Raiva é um sentimento que funciona como um mecanismo de defesa para o afastamento de alguma situação relacionada ao mundo externo. No caso do Rafael, isso se conecta à rejeição do meio por ser quem é e, como citamos em outros pontos deste artigo, compreendendo que estamos falando de um adolescente negro, podemos entender que se trata sobre os lugares que não aceitam a nossa presença e o campo afetivo também é um deles.

Ser adolescente é pensar sobre muitas coisas e o campo amoroso também está entre elas, podendo refletir sobre a solidão através do aspecto afetivo, o medo de nunca encontrar alguém que o ame fora do seu ambiente familiar.

Rafael sente a raiva pela rejeição social, mas ainda encontra recursos para lidar com essa questão, como estamos falando ao longo da sua história como personagem, mas conviver com a solidão afetiva é muito mais difícil por ser nesse período que mais se procura pelo amor do outro e neste caso a sublimação, direcionar a energia oriunda desse sentimento para uma atividade, é o mecanismo de defesa inconsciente que surge justificando a sua dedicação em aperfeiçoar as suas habilidades. Importante ressaltar que a sublimação é um mecanismo de defesa positivo, uma forma construtiva de lidar com uma questão emocional.

Leonardo: Em diversos diálogos e mídias diferentes é posto como o irmão mais velho, às vezes de forma abstrata, às vezes dito de uma forma concreta, assim seria aqui, um retrato da fase adulta. Sendo o mais sereno dos irmãos, mesmo sendo adolescente tanto quanto os demais, há uma cobrança maior sobre ele, a de ser responsável pelos irmãos além de ser o líder da equipe. Constantemente sente a pressão de lidar com diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo, os treinos com Splinter, uma forma de parar o clã do pé, segurar a família e os amigos. Sabe bem quem é e sabem muito bem pelo que luta, mas sabe também que suas ações não falam por si só, o menor erro vai condenar todos aqueles que se parecem com ele, tal como ocorre a generalização nas vivências negras a partir da perspectiva branca: quando um preto vence, é mérito, mas quando um erra, toda raça leva a culpa, logo vem mais uma preocupação, a de ser uma referência, dar bons exemplos para os que estão sob sua tutela. Aqui o autoconhecimento é quase um fardo, chegando por diversas vezes se sabotar e questionar sua capacidade, algo que é extremamente comum na vivência de pessoas negras, historicamente postas como inferiores, tendo que fazer o dobro para receber o mínimo. Bem como diz Racionais na intro da música A Vida é Desafio:

“Por você ser preto, tem que ser 2 vezes melhor […] mas como fazer melhor se estamos 10 vezes atrasado?”

Leonardo não é só o espelho do Splinter, mas um ancestral, que na ausência do Mestre, passa o tempo delegando tarefas, observando comportamentos, corrigindo posturas, e se pondo nesse papel de referência que e por vezes pode ser visto a como um pai, aquele que cobra, é chato e irredutível, causa conflito por não compreender que nem todos tem a maturidade para entendê-lo, afinal, outra prática comum na vivência de pessoas negras é o amadurecimento precoce do irmão mais velho para cuidar dos menores na ausência dos pais. O roubo da infância traz consequências para vida adulta, o desequilíbrio social e desconexão com pensamento coletivo. Simplificando, Leonardo às vezes não consegue entender que seus irmãos não têm a mesma responsabilidade que ele, não passaram pelo mesmo que ele e muitas vezes isso é o que leva ao desentendimento, principalmente com Rafael.

Levando em consideração que Leonardo seja de fato o mais centrado, isso lhe daria também um entendimento sobre si com um letramento racial e social bastante evidente. Logo esse arquétipo se apresenta de forma diferente, as analogias vão para além do pessoal, e se desenrola para o coletivo. Com a maturidade vem a fundamental tarefa de compartilhar conhecimento e a necessidade de democratização ao acesso de tudo o que se aprendeu, para guiar e facilitar a trajetória de novas gerações.

Leonardo tem uma vivência que podemos considerar a mais característica do que estamos acostumados a encontrar quando se trata de um adolescente negro, como dizem por aí, uma dentre tantas experiências individuais vividas por muitas pessoas que sempre têm em comum a cor da sua pele, de ocupar uma posição de ser responsável pelos outros membros da família.

Isso acontece por causa de um superego rígido que vemos se manifestar na relação com os seus irmãos nos momentos em que o Mestre Splinter está ausente, como uma manifestação da vontade dessa figura paterna para com os membros da família.

O superego se forma após o complexo de Édipo, com a internalização das figuras parentais, os valores sociais e isso fica evidente quando vemos o comportamento de Leonardo ao longo de seu desenvolvimento, como a necessidade de ser o irmão exemplar, o perfeccionismo e uma autocrítica muito intensa.

Podemos comparar a jornada do personagem com algumas reflexões que nós, como pessoas negras, vemos na vida cotidiana. Afinal, quem não teve um irmão ou irmã mais velha que era visto como o mais centrado, que nunca errava, o exemplo a ser seguido, ou você era essa pessoa? Estar preocupado com o bem-estar dos mais novos, as dificuldades financeiras da casa ou até o quanto sua genitora está tendo dificuldade para lidar com todas essas questões sozinha, precisando de ajuda, sobrando apenas você como essa pessoa que pode compartilhar sendo uma questão que não se limita apenas a dinâmica familiar como também a uma questão social que reverbera em fases posteriores da vida.

Donatello: Este que é o mais complexo dos tartarugas, e mesmo que não tenha um grande aprofundamento de início, tem participações bastante pontuais e rouba a cena nesses momentos. Donnie se destaca na sutileza, não pelo que é dito, mas pelo que é mostrado e essa é uma das melhores sacadas no desenrolar das tramas. O seu arco evolutivo é muito bem pensado, por exemplo; nas primeiras histórias, Don, é muito mais próximo do Michelangelo, como retrato do período da sua infância. Os arcos: Dia de Quadrinho Novo e Pavor Tecnológico, de Novembro e Dezembro de 1986 respectivamente, destacam mais a personalidade de Donatello, quando na primeira, define a sua paixão por quadrinhos, e na segunda, seu apego por tecnologia. Em ambas as histórias seu companheiro é Michelangelo, o que reflete o tom mais descontraído dessa fase da vida.

Um dos pontos legais nessa análise é que Pavor Tecnológico, conta a história de como Donatello conseguiu um upgrade em seu computador, revirando lixo de uma assistência técnica e partes de segunda mão. Isso me faz lembrar da primeira vez em que eu tive um videogame, um Atari 2600 (lançado em 86 no Brasil), comprado a preço de restaurados de uma assistência técnica em meados dos anos 90, enquanto viamos propagandas de lançamento do Playstation 1, ou seja, é comum para crianças negras, nascidas na periferia, ter acesso tardio, por meio de terceiros, quando a patroa renovas os brinquedos e aparelhos dos filhos, garimpos em antiquários, sebos e assistências, ou apenas pagando uma horinha nas saudosas lan houses.

Seguindo, Don, é o elo mais forte entre sua família e amigos, esse é um ponto em específico que se intensifica ao longo das histórias, mas foi destacado na sua primeira edição solo: Donatello Especial: Kirby e o Cristal de dobra, em fevereiro de 86; quando Rafael quer tomar banho mas acabou a água quente do chuveiro, quem ele chama pra consertar? (isso ai, Donatello), nesse período, Donatello tem uma aproximação maior com Rafael, refletindo a transição da infância para a sua adolescência. Ele ainda brinca quando tem de brincar, mas se irrita quando é posto sob pressão, solta verdades mais diretas que os outros não estão prontos para encarar, se isola quando é incompreendido e pensa muito antes de agir, o que lhe confere um caráter mais “frio” algumas vezes e mais sentimental em outras. Cumprindo tudo o que lhe é solicitado, Don, constantemente posto no ideal de ombro amigo para todos e o responsável pelo desequilíbrio nas relações pela forma prática que lida com as situações. Normalmente visto como o mais recluso, paciente, analista e racional do grupo, postura que permite transitar entre todos os pontos de forma que nenhum outro faz.

Isso gera uma sensação de responsabilidade ímpar em questões mais simples, inserido em todo ambiente com algum debate como um árbitro ou validador de argumentos. Ou seja, Donnie age como a voz da consciência de cada um e um mediador entre todos, mas que pouco é ouvido e perguntado sobre seus sentimentos, o que lhe aproxima de Rafael, não de uma forma positiva, mas como antítese da rebeldia.

Esse é outro comportamento que pessoas negras vivenciam desde cedo em ambientes escolares e profissionais. Somos condicionados a servir e estar sempre de prontidão desde crianças, assim, nos tornamos adolescentes já com as responsabilidades de adulto.

Um exemplo clássico: Na pré escola, quando um aluno negro sabe ler (por ja ter sido pré preparado em casa), se torna o responsável por executar a tarefa para os demais colegas; mesmo que contra sua vontade. Há um ponto positivo, essa é uma tática usada para inspirar outros alunos e gerar reconhecimento na figura de liderança e moldar um orador para melhor interação social, o que acaba aprimorando nossas habilidades de conversa, debate e docência.

Mas também retira daquele aluno um lugar de mera existência objetiva de aprendizado em prol de uma obrigatoriedade corporativa.

Uma característica bastante marcante sobre o personagem, é a criatividade. Don, é um apaixonado por quadrinhos, filmes e séries de fantasia e ficção científica (um real nerdão, mas vamos detalhar melhor esse rótulo mais pra frente), isso lhe dá base de referência, repertório e um raciocínio lógico não linear sobre soluções em debates, conversas e até mesmo em missões e combate. A arte nos permite enxergar o mundo por outras perspectivas, um prisma de possibilidades se abre em nossa mente e ajuda a lidar com situações cotidianas, afinal, toda obra de ficção foi pensada pelo ponto de vista real, físico, e a perspectiva de quem narra é diretamente impactada pela sua vivência, ideologia, classe, raça, gênero e tudo o que compõe o ser criativo.

Em algumas histórias, Don é o consultor de como lidar com determinadas situações, geralmente depois que Leonardo e Rafael já tentaram de tudo e/ou não sabem como prosseguir, e aí, recorrem ao “olhar sábio” de Donatello.

Esse lance de ser a última opção, também é comum na adolescência e fase adulta de pessoas negras, principalmente em situações que envolvem beleza, criatividade ou intelectualidade. Grupo esse que ficava de fora da lista de mais bonitos da turma mas era sempre posto na lista dos mais feios, ou que só ganhava destaque se fosse bom em algum esporte e caso contrário era o último a ser escolhido se fosse cogitado a participar, ou então, o negro no lugar de servidão confundida com envolvimento, aquele que dominava materias ou alguma habilidade artística, só era solicidado para dar a resposta ou fazer algo para alguém.

Outro aspecto muito importante é o fato de Donatello ser considerado um dos personagens mais inteligentes dos quadrinhos. Como engenheiro, geralmente põe em cheque Lex Luthor, Reed Richards e Tony Stark, por fazer o mesmo que eles (e até mais, como construir um portal interdimensional com sucata), mas sem todo aquele aparato e o dinheiro. Então lhe é reservado sempre o papel de consertar, promover, pensar, idealizar e até mesmo criar soluções mirabolantes, mas sem que o reconhecimento de gênio ou líder (como o Leonardo) se faça presente. Afinal, uma tartaruga que luta ninjutsu, com “um simples bastão”, gosta de quadrinhos e seus personagens fantasiosos, aficionado por tecnologia com seus joguinhos eletrônicos, cabe em qualquer estereótipo, o atleta ou artista marcial, o nerdão leitor de gibizinho ou o geek dos aparatos tecnológicos, menos no lugar de gênio, uma discussão que pode ser exemplificada com uma citação de Bárbara Carine no livro: e eu, não sou intelectual?

“O Padrão de intelectualidade que estabelece autores brancos homens cis europeus e estadunidenses como os guardiões das “verdades” epistêmicas, esse padrão que prevê que intelectual não toma um porre, não ri de bobagens, não transa, não dança, não chora, não ama…”

Ao final da saga clássica, Cidade em Guerra, de 1993, após a série de eventos, cada personagem tem seu desenvolvimento concluído e tomam seus próprios rumos (evitando maiores detalhes para não estragar a experiência de quem pretende ler), Splinter não segue unido com as tartarugas, mas, Donatello, decide ficar com seu mestre a fim de aprimorar seu treinamento, concluindo assim, uma perfeita metáfora do processo de amadurecimento, qual passou pela infância com Mike, adolescência com Rafa, vida adulta com o Leonardo e finalizando com a velhice do Mestre Splinter.

Donnie é o último personagem que estamos analisando sendo mais um dos personagens que podemos considerar ter sido um processo bem desafiador analisá-lo pela sua posição na família, função como parte do grupo além de sua forma de compreender o mundo onde o seu saber é uma grande referência.

Partindo deste princípio podemos falar sobre ele através do Olhar do Outro, conceito lacaniano que fala sobre a constituição do sujeito através do outro sendo esse podendo ser entendido como a sociedade, a linguagem e o olhar que ela tem para o indivíduo.

A superfície isola as tartarugas por sua aparência e tom de pele, gerando para essas subjetividades um olhar hostil da perspectiva social. Cada uma delas vai reagir de forma diferente e no caso do Donatello vemos a sua resposta através da produção do conhecimento, tecnologia, ou seja, ele vai dominar o olhar do outro através do seu saber funcionando como sua proteção para essa rejeição.

Na sua relação familiar ele vai ocupar a posição daquele que sempre tem o conhecimento quando seus irmãos precisam recorrer tendo esse desejo atendido gera o reconhecimento e uma posição para si no espaço social, uma busca muito comum na adolescência, principalmente quando fazemos a comparação deste personagem tão querido com a adolescência de uma pessoa negra.

Esse recurso emocional é muito comum pois fomos crianças, adolescentes, nos tornamos adultos e posteriormente idosos negros precisando ter o domínio sobre o conhecimento, ter um saber que não se limita apenas ao acadêmico, mas a experiência de vida para poder nos proteger da rejeição de um meio social que não nos quer em posição de igualdade ou compartilhando o mesmo espaço.

• Menções honrosas e considerações finais:

Splinter:

Gostaríamos de ter expandido essa análise com a leitura do Mestre Splinter em alusão a velhice, mas sentimos que construir uma analogia ao homem amarelo e idoso do nosso lugar de fala, poderia ter sido bastante limitado e por muitas vezes, caricato e errôneo. Mas é válida a menção de que houve estudo, pesquisa e debate sobre o personagem nessa posição de análise.

April O’Neil:

Outro ponto que poderíamos ter debatido é negritude de April O’neil. Apresentada na segunda edição de Teenage Mutant Ninja Turtles, outubro de 1984, como uma mulher aparentemente branca, porém, nas edições seguintes é retratada como uma mulher negra. O caso é que, Kevin e Peter, não sabiam como retratá-la, a ideia inicial é de que ela fosse uma mulher amarela, Nipo-Americana, mas nenhum confirmou o design. Ao mesmo tempo havia um pré combinado qual Kevin queria homenagear sua esposa na época, April Fisher, uma mulher negra de pele clara. Essa edição que marca a estreia da personagem foi desenhada pelo Peter Laird sem qualquer referência, apenas seguindo o acordo com Kevin de nomear a personagem de acordo com a sua esposa. Nas edições seguintes, desenhadas por Kevin Eastman, além do nome, April ganhou também os traços de Fisher, e tal mudança drástica no visual foi rapidamente justificada como um procedimento estético nos cabelos (antes lisos, agora crespos) citados pela própria personagem nos quadrinhos e, assim permaneceu até a fase final, quando seu visual é alterado uma vez mais.
April é retratada como negra em outras mídias também, como na série animada, A Ascensão das Tartarugas Ninja, de 2018-2020 e seu filme derivado de 2022, também no mais recente filme animado TMNT: Caos Mutante de 2024 e sua série animada derivada em 2025.

Destruidor, Baxter, Skonk e Karai:

Dois japoneses e dois negros, os quatro maiores antagonistas/vilões humanos das Tartarugas Ninja serem pessoas não brancas é um ponto bastante curioso, mas acho que vale aprofundar o debate em outro momento, então, fica aqui o registro.

• Conclusão:

Enquanto pesquisava, encontrei diversos artigos sobre a codificação negra nas tartarugas ninja, mas nenhum deles abordando aspectos psicossociais diretamente atrelados às experiências narradas nas histórias, ou na personalidade das tartarugas, mas sempre na montagem do arquétipo de negritude idealizada pelos elementos de uma estética. Por tanto, o assunto não é algo inovador, mas a proposta busca ser autêntica, com novas abordagens e conceitos que nutrem a metáfora de que as Tartarugas Ninja podem ser lidas como quatro adolescentes negros.

Já esse debate de que Michelangelo, Rafael, Leonardo e Donatello são representações das fases do desenvolvimento, é uma ideia jamais explorada antes. O maior desafio foi mesclar a teoria baseada na experiência humana, isolando a biologia real delas para não cair em um debate filosófico sobre linhas interpretativas de maturidade em diferentes áreas fisiológicas e seus aspectos de desenvolvimento. Uma vez que as tartarugas comuns(reais), não possuem um córtex pré frontal, ou lobo frontal, amplamente desenvolvido como a maioria dos mamíferos e mais especificamente como o dos seres humanos, responsável por aprimorar funções cognitivas e executivas, em vez disso, há um maior desenvolvimento em seu córtex dorsal, responsável por funções executivas priárias, principalmente no processo de armazenamento da informação visual e seus padrões. Seus cérebros são vistos como uma forma ancestral dos mamíferos, com isso, seu desenvolvimento se lê de uma forma diferente. Então, considerando o fato de que as Tartarugas Ninja (fictícia) são mutantes e, o efeito do mutagênico transformou toda sua biologia a ponto delas se tornarem humanoides, justifica a leitura por essa perspectiva.

Pensando bem, essa leitura até contribui com a analogia que se levanta sobre a desumanização histórica de pessoas negras em paralelo as Tartarugas Ninja, desde a negação de sua intelectualidade até o pertencimento ao conjunto social, vindo como uma crítica ao racismo científico, geralmente atrelado ao médico francês François Bernier, que no século XVIII publicou uma série de “estudos” baseados em uma pseudociência que usa da antropometria para hierarquizar raças e justificar a escravidão e a segregação, afirmando que pessoas negras, não tinham intelecto “aprimorado” como de pessoas brancas. Ou seja, quando o julgamento pela aparência não se faz mais tão eficaz, recorrem a mentiras sobre cognição, intelectualidade e trato social.

Mas há uma referência muito legal nessa pesquisa sobre o desenvolvimento das tartarugas: A biologia marinha (dentre diferentes perspectivas pelas diversas espécies), veem Tartarugas como filhotes apenas nos 3 primeiros anos de vida, num processo que se dissolve para uma fase de infância/adolescência quando partem para uma jornada em mar aberto para aprimorar suas habilidades de nado, alimentação e reconhecimento de territórios, o que pode durar até 10 anos. Esse período é chamado de Anos Perdidos, o que nos leva até um dos subtítulos das HQs: O Último Ronin, Anos Perdidos, publicado originalmente em 2023, pela IDW e em 2024 pela Pipoca & Nanquim aqui no Brasil.

A escolha dos métodos para trabalhar conceitos e analogias através da antropologia e sociologia, é para transformar metáforas em algo mais lúcido, menos fantasioso e mais identificável. Quando Fanon usa máscaras brancas em seu livro, é uma metáfora para o comportamento de um negro “embranquecido”, que vive, age e discursa com tudo aquilo que corrobora com o que Cida Bento definiu como Pacto da Branquitude. O mesmo ocorre quando associamos personagens fictícios específicos à pessoas negras, partindo desse lugar de identificação de pontos que não são visuais, explícitos e óbvios para todo mundo. Seja o Piccolo de Dragon Ball, o Skeeter de Doug Funnie, o Panthro de Thundercats ou até o Bumblebee de Transformers, que se encaixam nessa visão de personagens negros que não são literalmente negros, mas que há neles uma codificação do que foi socialmente caracterizado como conjunto de elementos relacionado a pessoas negras e, mesmo de forma inconsciente, corroboram, agem e discursam com o que Neuza Santos definiu sobre a prática de Tornar-se Negro, afinal, ninguém nasce negro, é uma experiência baseado na construção social, até mesmo para aqueles com pele verde.

Analisar os personagens da obra As Tartarugas Ninjas foi uma experiência que foi prazerosa e ao mesmo tempo desafiadora, pois não é apenas a análise fria, voltada a um diagnóstico mas uma busca pela compreensão de uma subjetividade ficcional que pode ser interpretada por pessoas da nossa realidade.
Quando pensamos a respeito de criar, está depositada uma parte de quem está desenvolvendo esse processo, um diálogo íntimo entre o criador e sua produção. Durante a confecção deste artigo me permiti olhar a ficção como uma vivência coletiva real, que também vai atravessar a minha própria e espero que as minhas análises alcancem os leitores dessa perspectiva.

Sou um psicólogo que gosta de falar sobre a ficção e para analisar os quatro protagonistas dessa obra recorri ao meu conhecimento acadêmico, utilizando alguns conceitos de teóricos da psicologia sócio-histórica como Lev Vygotsky que em sua obra Pensamento e Linguagem defende que as funções psíquicas são construídas através da interação social. Além dele, utilizei Sigmund Freud e Jacques Lacan buscando uma compreensão do funcionamento psíquico destes personagens através das obras que constituem esse universo.

O que chamou muito a minha atenção ao concluir este artigo foi observar que todos os personagens têm em comum o sofrimento pela questão da exclusão, podendo ser comparada como uma vivência racial de forma muito enfática, mas cada um consegue lidar com os próprios recursos emocionais e com uma rede apoio formada pela própria relação entre eles.

Eu espero que essa experiência de leitura seja um incentivo a pensar de uma forma mais profunda a cultura pop que estão consumindo porque acredito que essa forma de arte não é apenas uma peça da grande indústria cultural que vai sugerir inconscientemente um desligamento da sua realidade, mas uma forma lúdica de nos conectarmos a ela em um processo de aprendizado e compreensão de mundo.

• Ricardo “Ricken Strand” dos Santos – Um Psicólogo (CRP 06 / 178211) que adora falar de cultura pop de forma reflexiva e diferenciada

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*Manoel Taylor é um quadrinista e pesquisador de quadrinhos com enfoque no ativismo racial com debates socio-histórico.
@omanoeltaylor / @comictaylor
tayllor11m@gmail.com

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