New Fé

por Biu*

2020. Foi quando os mutantes entraram na moda. Todos queriam ter um Coelhalado. Ratorelhas já eram out. A biotecnologia avança rápido. Está a uma cabeça de vantagem das demais ciências, de apenas uma cabeça, e a duas voltas de vencer o páreo. Apostas encerradas.

2020. Os Engenheiros de  Crick e Watson, metalúrgicos da carne, erigem seus novos templos orgânicos e atestam a nova fé.

2020. Em que estamos nos transformando? Não é em nós mesmos, certamente. Então, nos outros? Estamos nos transformando nos outros? E eles, por sua vez, em nós? A humanidade é autoreferente? Isso é saudável?

– Oh, mas eles são tão fofos. Eu vou querer dois. Daqui a pouco é Natal, só vão sobrar Ratorelhas…

Durante a noite sonhou com um homem  coruja verde de olhos de girassóis que vivia em um tronco oco da mata. Ele ora aproximava-se ora fugia da criatura que o observava imóvel.

– Não aceitamos devolução.

2020. 14/12. O Sol se põe na praça. Kin Xu Pao observa a luz escorrendo pelos paralelepípedos e não consegue parar de perguntar-se onde porra tudo isso vai dar. Ele mesmo não conhece seus pais biológicos, mas agora até essa expressão perdeu o sentido. Já outras, como Eugenia, voltaram ao léxico. Talvez, sem pais, pensa Kin, deixe de haver país, quem sabe? Como os índios. Todos tornem-se realmente responsáveis por todos, e por tudo. Mas acha que não, acha que ninguém quer isso não. Então pensa logo no pior: Escravidão 2.0!

É difícil pensar nisso, quando a gente dá-se o trabalho de pensar nisso.

Então Kin foi até um lugar mais reservado, desfez o embrulho, abriu as duas grades da caixa e mandou-se. A primeira coisa que aconteceu foi um sair, o outro não, e o que saiu entrar no lado do outro e o devorar. Mas Kin já estava longe da praça, quase em casa. Infelizmente para Kin em se tratando da humanidade nunca se está longe o suficiente. Antes de chegar em casa, parou em um bar, lá aproximou-se de um cara por achar tratar-se de um velho amigo de infância, desfeito o mal entendido acabaram continuando a conversa, este lhe pagou uma dose, Kin retribuiu a gentileza com outra rodada, e várias delas depois Kin e seu novo amigo estavam trocando confidências.

– Ei, Kin, meu amigo, tenho que lhe confessar uma coisa… Eu matei minha mulher.

– Certo. E transgenia, o que tu acha de transgenia?

– Acho coisa de viado. Para mim, se o sujeito nasceu homem tem que morrer homem.

– Não, você não entendeu.

– Quem não entendeu foi você. Eu disse que matei minha mulher. Eu fiz isso e vim para cá.

– Tem certeza que você não é o Serginho, da oitava bê do Salusiano?

– Não.

– Não? Bem, é que hoje eu não soube o que fazer com as últimas novidades da ciência, sabe…

– Eu tenho um i pod.

– E eu tinha dois coelhalados, mas abandonei-os. Fiquei sem poder olhar para eles.

– Foi mais ou menos isso que senti em relação à minha mulher, também.

– Nós estamos a acelerar um trem descarrilhado, percebe?

– Não, até que era bonita. Mas peguei nojo. Ontem chamou-me de egoísta. Foi a gota d’agua… Agora tenho de livrar-me do corpo.

– Exatamente. Livrar-se do corpo. É o que acabaremos fazendo. Informação pura, sem interferências…

– Ela era muito intrometida mesmo.

– Cara, nós vamos acabar preservando nossa memória em um chip, clonando nossos corpos e vivendo para sempre.

– Tipo Faraó? Que original.

– Tu não tá entendendo o que eu digo mesmo, né?

– Se você diz…

Na saída do bar, depois que se despediram, o novo amigo de Kin  abateu-o pelas costas com uma coronhada e esvaziou-lhe os bolsos. Kin amaldiçoou o bandido que o roubou? Não. Kin Xu Pao amaldiçoou a sorte.

No leito do hospital para onde foi levado por um casal de velhos que na volta do Bingo toparam com seu corpo vazio, Kin rumina a notícia recente de que não voltará a andar sem a valorosa ajuda da ciência, se puder pagar por ela, claro. Em um canto, da tv ligada os neoprofetas mastigam chicletes de gafanhotos enquanto pregam no deserto do quarto de Kin:

“Irmãos, estamos  aqui reunidos para celebrar uma missa negra. Haverá sangue e orgia. Vai passar sábado na tv à cabo. A coisa toda consiste em auto exultar-se, o resto vem rápido e muito naturalmente. Aleluia.”

Kin muda o canal, engole alguns analgésicos opiáceos e desconecta-se. O mundo lá fora, cheio de ruído e caos entra em seu quarto de hospital pela janela de plasma. Aquilo não lhe diz respeito, absolutamente. Kin quer voar para longe da gravidade, ele quer ir para um lugar longe das leis de Newton. Mas quando fecha os olhos e a realidade dobra-se sobre si mesma, sonha com engrenagens ruidosas debulhando um terço conta à conta, lentamente, eternamente.

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

3 comentários em “New Fé

  1. Me avisem quando estiver perto de toda essa loucura! ahsuahsuash… Isso é a tecnocracia! Assim como Descartes foi acusado de transformar o homem em uma mera peça de máquina (muito mal interpretado por sinal) o homem moderno se desprende dos paradigmas da fé antiga e procura ser aquilo que sempre quiz ser, o que não se sabe, mas ele acredita que sabe o que é! Como no filme 2012 o mundo tem que acabar para ser refeito pelo hemi$fério Norte e como $e um poder $upremo de$$e aos Branco$ Rico$ e poluidore$ homen$ carta branca para $ucederem o cargo de criador da criatura! __
    O Ser humano não evolui, mas é conduzido a tosa dos Estados Mecanicistas meta alguma coisa. Já somos Números e no futuro seremos 1/2 do que somos hj (e o que é o futuro?) para sermos metade do que vendem na Tv do amanhã!
    Doideira demais esse texto! Persebo um tom de desalento recobrindo uma enormidade de pessoas fazedoras de opinião. Estão sem esperança porque não veem um futuro laico onde o simples seria uma reta? Quem manda confiar nas máquinas!! kkkkkkk, computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro… “Esses… é o nosso rebanho, cuidemos bem deles”. Vampiro a máscara.

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