O Estado e seu papel histórico

(trecho)

por Piotr Kropotkin*

Mas, depois de um fracasso tão completo e em face de uma experiência tão dolorosa, ainda há quem se obstine em nos dizer que a conquista dos poderes do Estado pelo povo será o suficiente para levar a cabo a revolução social! – que a velha máquina, o velho organismo, lentamente elaborado no decurso da história, para triturar a liberdade, para esmagar o indivíduo, para cimentar a opressão sobre as chamadas bases legais, para engendrar monopolizadores, para habituar os cérebros ao servilismo e à escravidão, se prestará, à maravilha, às novas funções da sociedade! – e mais: que o Estado há de ser o instrumento, o arcabouço que fará germinar uma vida nova, que há de assentar a liberdade e a igualdade em bases econômicas para evitar os monopólios, para despertar os povos, levando-os à conquista de um futuro melhor!

Mas que grande, que imenso erro!

Para dar um voo livre ao socialismo vêm-nos dizer que é necessário reconstruir uma sociedade baseada, hoje em dia, no estreito individualismo do mercador, do negociante, do financista! E, como homenagem a uma vaga metafísica, acrescentam que é preciso “restituir ao trabalhador o produto íntegro do seu trabalho”!

Não, meus amigos. O que se torna imprescíndível é terminar com as diferenças, com as categorias que existem, presentemente, entre subalternos e superiores, tanto nas profissões como nos casais, tanto cidades como nas aldeias, como em quaisquer regiões. Em cada rua, em cada bairro, em cada agrupamento de indivíduos que vivam em torno de uma oficina, ou ao longo de uma via férrea, é necessário despertar o espírito criador, construtor, organizador, a fim de se resconstituir a vida inteira; – e a reconstrução dessa vida nova deve ser feita na oficina, no caminho de ferro, na produção, na distribuição, nos armazéns, nos entrepostos, no povoado, enfim, em todas as relações entre indivíduos e entre os aglomerados humanos, para, no dia em que se terminar com a organização social atual, comercial e administrativa, haver o necessário espírito de continuidade, as necessárias fontes de vida humana social e livre.

E pretende-se que este trabalho imenso, colossal, que requer o exercício livre do gênio popular, se faça dentro dos pequeninos limites do Estado, dentro da escala piramidal da organização que constitui a pura essência do mesmo Estado! Pretende-se, igualmente, que o Estado do qual acabamos de ver a sua razão de ser no esmagamento do indivíduo, no desprezo pelas iniciativas, no triunfo de uma ideia que é, forçosamente, a ideia da mediocridade, tranforme-se na alavanca do que há de se operar esta revolução profunda nas relações sociais!… Pretende-se, enfim, governar a renovação de uma sociedade à força de decretos e maiorias eleitorais!

Que infantilidade! Que inocência!

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* Piotr Alexeyevich Kropotkin (1842 – 1921) foi um geógrafo e escritor russo, um dos principais pensadores políticos do anarquismo no fim do século XIX, considerado também o fundador da vertente anarco-comunista.

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