O mundo de Lísias: estranho, familiar

por Adriano de Almeida*

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O mundo de Ricardo Lísias é um continuum entre Rio, São Paulo e as grandes capitais contemporâneas. É um lugar péssimo, onde reina a estupidez mais medonha, e onde os estetas, senhores do bem e do mal, regozijam-se em converter em alegria a realidade insolitamente desumana.

narrativa contemporânea

O insolitamente desumano, central em A vista particular, tem a ver com uma tendência da ficção do século XXI, presente tanto nas séries de TV – de Walking Dead a Black Mirror – quanto na literatura considerada mais culta, como Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

Nos filmes de suspense e de horror, o insólito também tem sido associado à representação hiper-realista. Existe um “neonaturalismo” até, no gosto pelos fenômenos médicos, fisiológicos ou escatológicos, “neonaturalismo” que comparece não só em American Horror Story mas também em O anticristo. Esse “neonaturalismo” não caberia na fria análise de Lísias, que parece empanar a realidade, oferecendo-nos uma visão enevoada e difusa, uma realidade que é incômodo experienciar como leitor, e esse incômodo me parece decisivo nos livros de Lísias.

lísias é para os fortes?

Esses elementos todos, frequentes nos diversos tipos de produção cultural, estão presentes e são combinados de modo específico em A vista particular.

O radicalismo realista – um primeiro exemplo de especificidade – se estabelece a partir do pacto singular de Lísias com a representação, pacto que embaralha a relação do leitor com o texto. Para o autor, não só a cidade do Rio e o século XXI são referentes verazes na narrativa, mas também a existência de pessoas, como o crítico Rodrigo Naves e a psicanalista Maria Rita Kehl, os quais são referidos no romance. Portanto, Lísias joga para o leitor o seguinte problema: por que apenas cidades, países, ruas, bares, pontes são apresentados como elementos da realidade?

O leitor talvez saiba que o autor conseguiu algumas dores de cabeça com a publicação de Delegado Tobias. Se não acompanhou o episódio, o link abaixo é altamente recomendável. Trata-se de um curioso evento na história das letras brasileiras: Livro de Ricardo Lisias leva à instauração de inquérito na Polícia Federal por falsificação de documento.

ficção como realidade

Outra escolha estética contemporânea de A vista particular é a oscilação entre ficção e realidade. Esse é outro elemento muito explorado pelo cinema em seus mais diversos segmentos – de Atividade paranormal a Ninfomaníaca, passando por A Bruxa de Blair. Uma referência clássica dessa combinação é Citizen Kane, de Orson Welles, e ela encontra outros exemplos notáveis no cinema: Aguirre, de Herzog; o documentário que parece ficção Iracema, uma transa amazônica, de Jorge Bodansky e Orlando Senna. E há também o caso notável de O bandido da luz vermelha. Ainda os inúmeros filmes de Woody Allen.

Lísias comenta sobre sua filiação ao nouveau roman (ver entrevista em Literatorios #15) e, propõe, como aqueles autores, um verdadeiro desafio lúdico, marcadamente metalinguístico, que não é simplesmente entrega à estesia, porque chama a atenção para a engenharia da literatura como fenômeno análogo à vida social: estetiza o horror de uma arte que estetiza o horror – o que me obrigaria a comentar sobre o pintor José de Arariboia, o herói do romance, e isso será feito só mais para a frente.

simulação e negaceio

Mas, ainda que evoque o jogo e a brincadeira, A vista particular não é uma atração apenas agradável. Não mesmo. O livro desconcerta o leitor, traindo-o logo no início, quando, por exemplo, apresenta um espaço para a citação que não traz texto algum. Como neste caso:

Como o texto é claro e ele autorizou a reprodução, copio literalmente:
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
(LÍSIAS, Ricardo. A vista particular. Alfaguara, 2016, p. 14)
Acho que o Lísias criou uma forma quase impossível de citação, um verdadeiro desafio para os mestres da ABNT e citadores mundo afora.

Na página 15, o leitor encontra o seguinte trecho:

“O mar e a favela, por exemplo, amalgamam-se em um conjunto de quatro telas de tons azulados muito intensos, todas em acrílico. Uma delas está reproduzida na próxima página”.
(LÍSIAS, Ricardo. A vista particular. Alfaguara, 2016, p. 14)

No entanto, a “próxima página”, a 16, não traz nenhuma imagem. Aliás o livro, que tem um grande apelo à visualidade, trabalhando a trama narrativa em diálogo com referências a vídeos e pinturas não apresenta, por exemplo, uma ilustração sequer. Esse não é um dado banal no caso de Lísias, porque as imagens recebem capítulos exclusivos para elas, como é o caso da página 16:

“VIII
Cidade Brava: mar Brasil
Acrílico sobre tela
2014
(coleção particular)

Na página da “imagem”, aparece apenas essa legenda.

E o leitor recebe uma bela trollagem, e fica a ver navios. Sim, estamos na tradição machadiana dos narradores nada confiáveis.

romance sacana

A capa de A vista particular é uma sacanagem à parte. O trabalho é de Claudia Espínola de Carvalho, e deve ter rendido muitos elogios, todos merecidíssimos. É um lindo trabalho. A ilustração é de Celso Koyama: um naif revisitado por um traço rústico de HQ. É um desenho muito bonito. Então você repara que são casas pobres, de bairros pobres. Então você repara que aquele colorido de HQ é um enfeite para encobrir a realidade das habitações precárias, é um colorido que engana a percepção, mostra a pobreza de modo sorridente, harmônico, como se fosse um belo projeto urbanístico-estético. Cores modernas, árvores, predomínio da verticalidade…

O título também é enganador. Veja lá: uma boa vista da cidade do Rio, um ângulo privilegiado, uma janela com vista para a mata, para a montanha ou para o mar. Até parece ser uma crítica, ou pelo menos uma provocação, ao privilégio de poucos cuja vista agrega valor.

arariboia

A história registra o nome do índio Arariboia, dos temiminós, grupo tupi que habitava o litoral brasileiro no século XVI e ajudou os portugueses na luta contra tamoios e franceses na disputa pela Baía da Guanabara.

Já o José de Arariboia de A vista particular é um artista reputado, considerado pelos críticos como conhecedor do espírito do Rio de Janeiro.

José de Arariboia só tem olhos para a sua arte. Mas, em vez de enfurnar-se numa torre de marfim – como seus antepassados da arte pela arte, no Rio de Janeiro do início do século XX -, ele é cínico o suficiente para frequentar o morro Pavão-Pavãozinho, em plena boca do tráfico e, a partir de lá, construir sua espetacularização da pobreza e da violência.
É o espírito de beleza da Belle Époque carioca atualizada na “cosmética da fome” (Ivana Bentes). Esse termo, aliás, “cosmética da fome”, é bastante útil para se pensar a crítica de Lísias aos postulados de uma arte como a de Arariboia. É uma arte que dialoga com a “cosmetização” da violência e da miséria, tornando a condição dos pobres do morro um exótico material de fetiche, excitador dos mais doentios orgasmos estéticos – aquele de Tropa de Elite e de Cidade de Deus, que entre o choque e o gozo se confundem para no fim apresentarem heróis dos mais duvidosos: respectivamente, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e a grande imprensa, destacados como “caminhos do bem”, para lembrarmos a música de desfecho do filme Cidade de Deus – contrariando as escolhas do autor do romance, o escritor Paulo Lins.

Se o Arariboia de Lísias não é o temiminó que entregou outros indígenas aos colonizadores estrangeiros, que afinal triunfaram na peleja, é o artista que delicia as classes abastadas com a exibição dos sofrimentos dos pobres do Rio de Janeiro – os moradores da favela de Pavão-Pavãozinho – e sua realidade miserável e violenta. José de Arariboia simboliza o artista que, envolvido com seus próprios processos criativos, passa ao largo dos problemas do mundo, um evasionismo que infelizmente é bem forte nas artes plásticas. Se a favela for estilosa, se for capaz de atrair, de gerar frisson com seus ratos, crianças mortas, uso de crack, então ela é interessante.

Horror com legendas de realidade é fascinante para o público. E ninguém precisa defender que cultiva o horror, uma vez que a diversão artística ou o entretenimento é um salvo-conduto para comentários de qualquer teor, como acontece com a misoginia, o racismo, o bairrismo e outros preconceitos que passam de boca em boca, nas piadas, ou são transmitidos pela televisão e o cinema, além de frequentemente mencionadas nos palcos de alguns teatros. Isso para não falar nos rádios, que fazem piadas com vinhetas satirizando jogadores homossexuais.

Tudo parece apontar para o caso do protagonista machadiano do conto “O caso da vara” (publicado originalmente em Gazeta de Notícias, de 1891), que afirma que não há culpa em “ter chiste”.

em outras palavras

A farsa assume, na narrativa, a forma de um incômodo difícil de entender. Seguindo uma linha impressionista, diria que percebo um problema que o autor joga para seu interlocutor de modo incrivelmente eficiente, o qual pode ser apresentado da seguinte forma: o leitor sensível às injustiças e à “banalidade do mal” (Hannah Arendt) ficará indignado com Arariboia e sua estetização da desgraça, mas ao mesmo tempo vai se espantar com o modo eficiente com que Lísias representa esse tipo de canalhice na arte. O ético e o belo se conflitam constantemente no livro, como na vida social.

todorov

O narrador prega uma peça de humilhação à banalidade burguesa do mundo contemporâneo. Sim, ele faz isso mesmo. E nunca é demais insistir que ainda existem leitores para quem o prazer estético reside justamente na eficácia com que alguns livros captam a dinâmica da realidade. No caso de A vista particular, a narrativa procura despistar a desfaçatez de caráter de Arariboia e, no fim das contas, a do próprio narrador. Essa desfaçatez e a tentativa (muitas vezes preguiçosa) de ocultá-la são tônicas da vida brasileira.

Todorov acaba de morrer (7 de fevereiro de 2017) e, já tendo deixado um legado de alta importância, fechou o seu percurso de modo surpreendente, com A literatura em perigo (2009), livro em que Todorov adverte que a literatura, mais que um conjunto de combinações linguísticas ou de achados poéticos, é uma forma de representação da realidade, uma forma de diálogo crítico com ela.

Ninguém me perguntou. Mas se me perguntarem direi:

É esse o papel mais importante da literatura – falar a língua do tempo e gritar as dores da humanidade -, eu acredito, mais do que nunca.

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* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor, educador e pesquisador em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Autor do livro Entulhos, que pode ser adquirido aqui.

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