Úrsula

por Maria Firmina do Reis*

I

Duas almas generosas

São vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma – branco lençol de espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brame irado, ameaçando insano quebrar os limites que lhe marcou a onipotente mão do rei da criação. Enrugada ligeiramente a superfície pelo manso correr da viração, frisadas as águas, aqui e ali, pelo volver rápido e fugitivo dos peixinhos, que mudamente se afagam, e que depois desaparecem para de novo voltarem – os campos são qual vasto deserto, majestoso e grande como o espaço, sublime como o infinito.
E a sua beleza é amena e doce, e o exíguo esquife, que vai cortando as suas águas hibernais mansas e quedas, e o homem, que sem custo o guia, e que sente vaga sensação de melancólico enlevo, desprende com mavioso acento um canto de harmoniosa saudade, despertado pela grandeza dessas águas, que sulca.
E às águas, e a esses vastíssimos campos que o homem oferece seus cânticos de amor? Não por certo. Esses hinos, cujos acentos perdem-se no espaço, são como notas duma harpa eólia, arrancadas pelo roçar da brisa ou como sussurrar da folhagem em mata espessa. Esses carmes de amor e de saudade o homem os oferece a Deus.
Depois, mudou-se já a estação; as chuvas desapareceram, e aquele mar, que viste, desapareceu com elas, voltou às nuvens formando as chuvas do seguinte inverno, e o leito, que outrora fora seu, transformou-se em verde e úmido tapete, matizado pelas brilhantes e lindas flores tropicais, cuja fragrância arrouba e só tem por apreciador algum desgarrado viajor, e por afago a brisa que vem conversar com elas no cair da tarde – à hora derradeira do seu triste viver.
E altivas erguem-se milhares de carnaubeiras, que balançadas pelo soprar do vento recurvam seus leques em brandas ondulações.
Expande-se-nos o coração quando calcamos sob os pés a erva reverdecida, onde gota a gota o orvalho chora no correr da noite esse choro algente, que se pendura da folhinha trêmula, como a lágrima de uma virgem sedutora, e que, arrancada do coração pelo primeiro gemer da saudade, se balança nos longos cílios. Depois vem a ardentia do sol, e bebe o pranto noturno, e murcha a flor, que enfeitiçava a relva, porque o astro que rege o dia reassumiu toda a sua soberania; mas ainda assim os campos são belos e majestosos!
E desce depois o crepúsculo, e logo após a noite bela, e voluptuosa recamada de estrelas; ou prateada pela lua vagarosa e plácida, que lhe branqueia o tapete de relva, derramando suave claridade pelos leques recurvados dos palmares. Então um vago sentimento de amor, e de uma ventura, que muito longe lobrigamos, arrouba-nos a alma de celestes eflúvios, e doce esperança enche-nos o coração, outrora mirrado e frio pela descrença, ou pelo ceticismo.
Quem haverá aí que se não sinta transportado ao lançar a vista por esses vastos páramos ao alvorecer do dia, ou ao arrebol da tarde, e não se deixe levar por um deleitoso cismar, como o que escuta o gemer da onda sobre areais de prata, ou o canto matutino de uma ave melodiosa!… A vista expande-se e deleita-se, e o coração volve-se a Deus, e curva-se em respeitosa veneração, porque aí está Ele.
O campo, o mar, a abóbada celeste ensinam a adorar o supremo Autor da natureza e a bendizer-lhe a mão; porque é generosa, sábia e previdente.
Eu amo a solidão; porque a voz do Senhor aí impera; porque aí despe-se-nos o coração do orgulho da sociedade, que o embota, que o apodrece, e livre dessa vergonhosa cadeia, volve a Deus e o busca – e o encontra; porque com o dom da ubiquidade Ele aí está!
Entretanto, em uma risonha manhã de agosto, em que a natureza era toda galas, em que as flores eram mais belas, em que a vida era mais sedutora – porque toda respirava amor –, em que a erva era mais viçosa e rociada, em que as carnaubeiras, outras tantas atalaias ali dispostas pela natureza, mais altivas, e mais belas se ostentavam, em que o axixá, com seus frutos imitando purpúreas estrelas, esmaltava a paisagem, um jovem cavaleiro melancólico, e como que exausto de vontade, atravessando porção de um majestoso campo, que se dilata nas planuras de uma das nossas melhores e mais ricas províncias do Norte, deixava-se levar ao través dele por um alvo e indolente ginete. Longo devia ser o espaço que havia percorrido; porque o pobre animal, desalentado, mal cadenciava os pesados passos.
Abstrato, ou como que mergulhado em penosa e profunda meditação, o cavaleiro prosseguia sem notar a extrema prostração do animal ou então fazia semblante de a não reparar; porque lhe não excitava os nobres estímulos. Dir-se-ia ter já concluído sua longa jornada.
Mas quem sabe?!… Talvez uma ideia única, uma recordação pungente, funda, amarga como a desesperação de um amor traído, lhe absorvesse nessa hora todos os pensamentos. Talvez. Porque não havia o menor sinal de que observasse o espetáculo que o circundava.
Que intensa agonia, ou que dor íntima que lhe iria lá pelos abismos da alma?! Só Deus sabe!
Prosseguia em tanto a marcha, e sempre abstrato, sempre vagaroso. Curvada a fronte sobre o peito, o mancebo meditava profundamente, e grande, e poderoso devia ser o objeto de seu aturado meditar. Arfava-lhe o peito sobre o qual descansava essa fronte acabrunhada, que parecia tão nobre e altiva? Quem o poderia dizer ao certo?
O mancebo ocultava parte de suas formas num amplo capote de lã, cujas dobras apenas descobriam-lhe as mãos cuidadosamente calçadas com luvas de camurça. Numa destas mãos o jovem cavaleiro reclinara a face pálida e melancólica, com a outra frouxamente tomava as rédeas ao seu ginete. Mas este simples traje, este como que abandono de si próprio, não podia arredar do desconhecido certo ar de perfeita distinção que bem dava a conhecer que era ele pessoa da alta sociedade.
De repente o cavalo, baldo de vigor, em uma das cavidades onde o terreno se acidentava mais, mal podendo conter-se pelo langor dos seus lassos membros, distendeu as pernas, dilatou o pescoço, e dando uma volta sobre si, caiu redondamente. O choque era demais violento para não despertar o meditabundo viajor: quis ainda evitar a queda, mas era tarde, e de envolta com o animal rolou no chão.
Houvera mais que descuido no incerto e indolente viajar desse singular desconhecido: não previa ele um acontecimento fatal nessa divagação de tanto abandono, de tão grande desleixo? E malgrado o langor do cavalo, sempre a prosseguir, cada vez mais submerso em seu melancólico cismar! Caiu, e de um jato perdeu o sentimento da própria vida; porque a queda lhe ofendeu o crânio e, aturdido e maltratado, desmaiou completamente. Para mais desastre, o pobre animal, no último arranco do existir, distendendo as pernas, foi comprimir acerbadamente o pé direito do mancebo, que inerte e imóvel, como se fora frio cadáver, nenhuma resistência lhe opôs.
Era apenas o alvorecer do dia, ainda as aves entoavam seus meigos cantos de arrebatadora melodia, ainda a viração era tênue e mansa, ainda a flor desabrochada apenas não sentira a tépida e vivificadora ação do astro do dia, que sempre amante, mas sempre ingrato, desdenhoso e cruel afaga-a, bebe-lhe o perfume, e depois deixa-a murchar, a desfolhar-se, sem ao menos dar-lhe uma lágrima de saudade! Oh! O sol é como o homem maligno e perverso, que bafeja com hálito impuro a donzela desvalida, e foge, e deixa-a entregue à vergonha, à desesperação, à morte! E depois, ri-se e busca outra, e mais outra vítima!
A donzela e a flor choram em silêncio, e o seu choro ninguém compreende!
Era apenas o alvorecer do dia, dissemos nós, e esse dia era belo como soem ser os do nosso clima equatorial onde a luz se derrama a flux – brilhante, pura e intensa.
Vastos currais de gado por ali havia; mas tão desertos a essa hora matutina, que nenhuma esperança havia de que alguém socorresse o jovem cavaleiro, que acabava de desmaiar. E o sol já mais brilhante, e mais ardente e abrasador, subia pressuroso a eterna escadaria do seu trono de luz, e dardejava seus raios sobre o infeliz mancebo!
Nesse comenos alguém despontou longe, como se fora um ponto negro no extremo horizonte. Esse alguém, que pouco e pouco avultava, era um homem, e mais tarde suas formas já melhor se distinguiam. Trazia ele um quer que era que de longe mal se conhecia e que, descansando sobre um dos ombros, obrigava-o a reclinar a cabeça para o lado oposto. Todavia essa carga era bastante leve – um cântaro ou uma bilha; o homem ia sem dúvida em demanda de alguma fonte.
Caminhava com cuidado, e parecia bastante familiarizado com o lugar cheio de barrocais, e ainda mais com o calor do dia em pino, porque caminhava tranquilo.
E mais e mais se aproximava ele do cavaleiro desmaiado; porque seus passos para ali se dirigiam, como se a Providência os guiasse. Ao endireitar-se para um bosque à cata sem dúvida da fonte que procurava, seus olhos se fixaram sobre aquele triste espetáculo.
— Deus meu! – exclamou correndo para o desconhecido.
E ao coração tocou-lhe piedoso interesse, vendo esse homem lançado por terra, tinto em seu próprio sangue, e ainda oprimido pelo animal já morto. E ao aproximar-se contemplou em silêncio o rosto desfigurado do mancebo; curvou-se e pôs-lhe a mão sobre o peito, e sentiu lá no fundo frouxas e espaçadas pulsações, e assomou-lhe ao rosto riso fagueiro de completo enlevo; da mais íntima satisfação. O mancebo respirava ainda.
— Que ventura! – então disse ele, erguendo as mãos ao céu – que ventura, podê-lo salvar!
O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos, e que na franca expressão de sua fisionomia deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano fervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde – dissemos – se revoltava, porque se lhe erguia como barreira – o poder do forte contra o fraco!…
Ele entanto resignava-se; e se uma lágrima a desesperação lhe arrancava, escondia-a no fundo da sua miséria.
Assim é que o triste escravo arrasta a vida de desgostos e de martírios, sem esperança e sem gozos!
Oh! Esperança! Só a tem os desgraçados no refúgio que a todos oferece a sepultura!… Gozos!… Só na eternidade os anteveem eles!
Coitado do escravo! Nem o direito de arrancar do imo peito um queixume de amargurada dor!…
Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo –, e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça ao seu semelhante!… Àquele que também era livre no seu país… Àquele que é seu irmão?
E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos e puros como a sua alma. Era infeliz, mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista.
Reunindo todas as suas forças, o jovem escravo arrancou de sob o pé ulcerado do desconhecido o cavalo morto, e deixando-o por um momento, correu à fonte para onde uma hora antes se dirigia, encheu o cântaro, e com extrema velocidade voltou para junto do enfermo, que com desvelado interesse procurou reanimar. Banhou-lhe a fronte com água fresca, depois de ter com piedosa bondade colocado-lhe a cabeça sobre seus joelhos. Só Deus testemunhava aquela cena tocante e admirável, tão cheia de unção e de caridoso desvelo! E ele continuava a sua obra de piedade, esperando ansioso a ressurreição do desconhecido, que tanto o interessava.
Finalmente seu coração pulsou de íntima satisfação; porque o mancebo, pouco e pouco revocando a vida, abriu os olhos lânguidos pela dor, e os fitou nele, como que estupefato e surpreso do que via.
Deixou fugir um breve suspiro, que talvez a pesar seu se lhe destacasse do coração, e sem proferir uma palavra de novo cerrou os olhos.
Talvez a extrema claridade do dia os afetasse; ou ele supusesse mórbida visão o que era realidade.
Entretanto o negro redobrava de cuidados, de novo aflito pela mudez do seu doente. E o dia crescia mais, e o sol, requeimando a erva do campo, abrasava as faces pálidas do jovem cavaleiro, que soltando um outro gemido mais prolongado e mais doído, de novo abriu os olhos.
Tentou então erguer-se como envergonhado de uma fraqueza a que irremissivelmente qualquer cedera; porém desalentado e amortecido foi cair nos braços do compassivo escravo, única testemunha de tão longas dores e desmaios, e que em silêncio o observava. Mas esta segunda síncope, menos prolongada que a primeira, não afligiu tanto ao mísero rapaz, que dedicadamente o reanimava. A febre começou a tingir de rubor aquela fronte pálida, dando vida fictícia a uns olhos, que um momento antes pareciam descair para o túmulo.
— Quem és? – perguntou o mancebo ao escravo apenas saído do seu letargo. – Por que assim mostras interessar-te por mim?…
— Senhor! – balbuciou o negro – vosso estado… Eu – continuou, com o acanhamento que a escravidão gerava – suposto nenhum serviço vos possa prestar, todavia quisera poder ser-vos útil. Perdoai-me!…
— Eu? – atalhou o cavaleiro com efusão de reconhecimento – Eu perdoar-te! Pudera todos os corações assemelharem-se ao teu. E fitando-o, apesar da perturbação do seu cérebro, sentiu pelo jovem negro interesse igual talvez ao que este sentia por ele. Então nesse breve cambiar de vistas, como que essas duas almas mutuamente se falharam, exprimindo uma o pensamento apenas vago que na outra errava.
Entretanto o pobre negro, fiel ao humilde hábito do escravo, com os braços cruzados sobre o peito, descaía agora a vista para a terra, aguardando tímido uma nova interrogação.
Apesar da febre, que despontava, o cavaleiro começava a coordenar suas ideias, e as expressões do escravo, e os serviços que lhe prestara, tocaram-lhe o mais fundo do coração. É que em seu coração ardiam sentimentos tão nobres e generosos como os que animavam a alma do jovem negro: por isso, num transporte de íntima e generosa gratidão, o mancebo, arrancando a luva que lhe calçava a destra, estendeu a mão ao homem que o salvara. Mas este, confundido e perplexo, religiosamente ajoelhando, tomou respeitoso e reconhecido essa alva mão, que o mais elevado requinte de delicadeza lhe oferecia, e com humildade tocante extasiado beijou-a.
Esse beijo selou para sempre a mútua amizade que em seus peitos sentiam eles nascer e vigorar. As almas generosas são sempre irmãs.
— Não foste por ventura o meu salvador? – perguntou o cavaleiro com acento reconhecido, retirando dos lábios do negro a mão, e malgrado a visível turbação deste apertando-lhe com transporte a mão grosseira; mas onde descobria, com satisfação, lealdade e pureza.
— Meu amigo, – continuou – podes acreditar no meu reconhecimento e na minha amizade. Quem quer que sejas, eu a prometo: sou para ti um desconhecido; e inda assim foste generoso e desinteressado. Arrancando-me à morte tens desempenhado a mais nobre missão de que o homem está incumbido por Deus – a fraternidade. Continua, agora peço-te em nome da amizade que te consagro, continua a tua obra de generosidade; porque sinto que tenho febre, e não me posso erguer. Arreda-me destes lugares se te é possível; porque… – e a voz, que era fraca, expirou nos lábios; porque ligeira vertigem precursora talvez de um mais prolongado sofrer de novo lhe ofuscou a vista, e as faculdades se lhe afracaram.
A febre tornara-se ardente, e o mancebo exigia mais sérios cuidados.
O negro bem o compreendeu, e esperou ansioso que o mancebo voltasse a si para falar-lhe, e aproveitando um momento em que por um pouco se reanimara, disse-lhe: — Meu senhor, permiti que vos leve à fazenda que ali vedes – e apontava para a outra extremidade do campo –, ali habita com sua filha única a pobre senhora Luísa B., de quem talvez não ignoreis a triste vida. Essa infeliz paralítica todo o bem que vos poderá prestar limitar-se-á a uma franca e generosa hospitalidade; mas aí está sua filha, que é um anjo de beleza e de candura, e os desvelos, que infelizmente vos não posso prestar, dar-vo-los-á ela com singular bondade.
Imerso entanto em novo cismar, o mancebo parecia nada ouvir do que lhe dizia o jovem negro, deixando-se conduzir por ele, que como se fora leve carga o levava sobre seus ombros nus e musculosos.
Foi um momento de meditação, a febre, a dor, e o movimento arrancaram-no a ela, e soltando um frouxo suspiro perguntou ao seu condutor:
— Como te chamas, generoso amigo? Qual é a tua condição?
— Eu, meu senhor – tornou-lhe o escravo, redobrando suas forças para não mostrar cansaço – chamo-me Túlio.
— Túlio! – repetiu o cavaleiro, e de novo interrogou:
— A tua condição, Túlio?
Então o pobre e generoso rapaz, engolindo um suspiro magoado, respondeu com amargura, malgrado seu, mal disfarçada:
— A minha condição é a de mísero escravo! Meu senhor – continuou – não me chameis amigo. Calculastes já, sondastes vós a distância que nos separa? Ah! O escravo é tão infeliz!… Tão mesquinha e rasteira é a sua sorte, que…
— Cala-te, oh! Pelo céu, cala-te, meu pobre Túlio – interrompeu o jovem cavaleiro – dia virá em que os homens reconheçam que são todos irmãos. Túlio, meu amigo, eu avalio a grandeza de dores sem lenitivo que te borbulha na alma, compreendo tua amargura, e amaldiçoo em teu nome ao primeiro homem que escravizou a seu semelhante. Sim – prosseguiu – tens razão; o branco desdenhou a generosidade do negro, e cuspiu sobre a pureza dos seus sentimentos! Sim, acerbo deve ser o seu sofrer, e eles que o não compreendem! Mas, Túlio, espera; porque Deus não desdenha aquele que ama ao seu próximo… E eu te auguro um melhor futuro. E te dedicaste por mim! Oh! Quanto me hás penhorado! Se eu te pudera compensar generosamente… Túlio – acrescentou após breve pausa – oh dize, dize, meu amigo, o que de mim exiges; porque toda a recompensa será mesquinha para tamanho serviço.
— Ah! Meu senhor – exclamou o escravo enternecido – como sois bom! Continuai, eu vo-lo suplico, em nome do serviço que vos presto, e a que tanta importância quereis dar, continuai, pelo céu, a ser generoso e compassivo para com todo aquele que, como eu, tiver a desventura de ser vil e miserável escravo! Costumados como estamos ao rigoroso desprezo dos brancos, quanto nos será doce vos encontrarmos no meio das nossas dores! Se todos eles, meu senhor, se assemelhassem a vós, por certo mais suave nos seria a escravidão.
E o cavaleiro perguntou-lhe:
— Essa é, Túlio, toda a recompensa que exiges?
— Sim, meu senhor. Fizeste-me tão feliz, que nada mais ambiciono; e rendendo a Deus graças pela minha presente ventura, suplico-lhe que vos cubra de bênçãos, e que vele sobre vós a sua bondade infinita.
E o negro dizia uma verdade; era o primeiro branco que tão doces palavras lhe havia dirigido; e sua alma, ávida de uma outra alma que a compreendesse, transbordava agora de felicidade e de reconhecimento.
Pobre Túlio!
E o mancebo sentia mais e mais crescer-lhe as dores, e as ideias se lhe barulhavam: entretanto Túlio aproximava-se da casa de sua senhora para onde conduzia o moço enfermo.
Empregava para isso todas as suas forças, porque conhecia que o moço sofria cruelmente.
Dentro em pouco sua tarefa concluiu-se. Túlio penetrou, rendido de cansaço, o lumiar da porta.
Simples e solitária era essa casa implantada sobre um pequeno outeiro, donde a vista dominava a imensidade dos campos. Um aspecto de nobre singeleza apresentava; pouco extensa era, mas coroava-a agradável mirante, orlado de largas varandas, por onde uma onda de ar tépido divagava rumorejando.
Esplêndida claridade de um sol vivo e animador iluminava as nuas e brancas paredes dessa plácida morada, e dardejando nas vidraças das janelas, refletia sobre elas as cores cambiantes do ocaso. Aí parecia gozar-se a vida; – aí ao menos o homem terá um momento de felicidade; porque longe do buliço enganoso do mundo, com a mente erma de ambições, vive nas regiões sublimes de um pensar livre e infinito como a amplidão – como Deus. A existência é serena, mais pura, e mais formosa; – aí despe-se a vaidade do coração; – aí cessam os mentirosos preconceitos, que o homem ergueu em seu orgulho – vergonhosos limites contra os quais vão quebrar-se de encontro os virtuosos transportes do seu coração.
Quanto é o homem egoísta e vão!…
Túlio franqueou a entrada da casa de Luísa B. no momento mesmo em que o jovem desconhecido, alquebrado pelo muito sofrer de algumas horas, acabava de cair em completa e profunda letargia.

Este é o primeiro capítulo do livro Úrsula, que pode ser lido na íntegra ao clicar neste link (em pdf)

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*Maria Firmina dos Reis (1825 —  1917) foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira, negra e maranhense.