Ser artista mulher é…

por Roberta AR

Começa mais um ano, desta vez caminhamos para a terceira década do século XXI, mas algumas práticas antigas permanecem intactas. Explico. Fui olhar algumas listas de melhores quadrinistas do ano passado e “pasmem” (tô sendo irônica, hein), tinha lista de site alternativão com ZERO mulheres. De novo. Sempre. E isso se repete em todas as áreas, ninguém lembra de uma mulher sequer para indicar, muitas vezes nem nós mulheres lembramos. Por isso que estou no quinto ano consecutivo fazendo listas (agora temos aqui no Facada também a categoria LISTA), neste caso especial, uma delas reúne mais de cem quadrinistas, até o momento. E é por esse tipo de coisa que o livro Ser artista mulher é…, da Cris Camargo, tem incomodado tanto por aí.

O livro reúne as tirinhas da série Ser artista mulher é… publicadas em sua página no facebook (https://www.facebook.com/sucodekaiju/), além de compilar os comentários escabrosos que uma mulher que registra experiências pessoais e relatos de outras artistas recebe pelas redes sociais. Sim, o tema é tenso, e o quadrinho trata disso de maneira ferina e divertida, com direito até a Bingo da Discórdia.  Cris Camargo tem levado pedradas por meter o dedo na ferida e acho muito difícil uma mulher ler o livro inteiro sem se identificar com pelo menos uma cena que ela registra.

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O livro

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Ser artista mulher é… foi publicado de maneira independente, após uma campanha de financiamento coletivo. É totalmente impresso em cores e pode ser adquirido diretamente com a autora (corra que ela tem poucos exemplares). Entre em contato com a Cris Camargo no facebook ou no instagram.

O prefácio

Eu tive a honra de ser chamada para fazer o prefácio dessa publicação e vou colocar meu texto na íntegra, porque muito do que ia dizer por aqui, já disse por lá:

Ser artista e ser mulher

Trabalhar com artes tem sido cada dia mais difícil por diversos motivos, agora parece que está na moda perseguir artistas com as mais diversas acusações e sabemos que isso acontece porque as artes sempre foram o espaço de questionamento e contraponto ao status quo.

Ser artista independente se tornou o lugar de resistência para muita gente, pois se profissionalizar e viver disso é uma realidade distante para a grande maioria.

Se para os artistas as coisas andam assim e para quem é artista e mulher?

“Ah, lá vem aquele discurso vitimista”, sempre tem um pra dizer. Mas quem é mulher que trabalha em qualquer área (mas qualquer mesmo) sabe bem que tem que gritar muito alto para alguém ver o que ela está fazendo. E olha que a gente tem gritado…

As Guerrilla Girls, grupo de artistas anônimas que expõem o tratamento desigual entre homens e mulheres nas artes, fizeram uma pequena lista (irônica, pelamor) com “As vantagens de ser uma artista mulher”, em que destaco: “trabalhar sem a pressão do sucesso”, “não ter que participar de exposições com homens”, “estar segura que, independente do tipo de arte que você faz, será rotulada de feminina”. Parece que é um discurso antigo, mas isso foi exposto no MASP em 2018.

Enquanto este livro está sendo fechado, está em cartaz uma exposição em um outro museu de SP que pretende ser um grande panorama mundial de quadrinhos, mas é um panorama que tornou as mulheres invisíveis. Não há justificativa possível para panoramas, listas on-line, antologias impressas que serão registros históricos desse tempo e não mostre que nós, mulheres, existimos. NÓS EXISTIMOS.

Quando a Cris me convidou para fazer este prefácio, senti o peso desse manifesto que ela está transformando em livro. Cada uma de suas tiras é o desabafo de muitas artistas, mas que pode ser transposto para muitas outras atividades em que mulheres são ignoradas como autoras, como pensadoras, na sua existência mesma como pessoas que também criam e constroem o mundo em que vivem.

Não somos side-kicks, não estamos aqui para enfeitar lugar nenhum, não somos ajudantes, não queremos estar atrás de ninguém. Não queremos nem ser gostadas (né Cris?). Agora não digam que estar na nossa pele é fácil e que gritamos por pouca coisa, porque, se calamos, nós sumimos.

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