Female artists in history: mulheres artistas de todo o mundo reunidas em uma única página

por Roberta AR

O apagamento das obras feitas por mulheres ao longo da história é uma constante, persiste ainda hoje, quando inúmeros portais de todas as áreas simplesmente publicam muito pouco, às vezes nenhuma, ação, descoberta, projeto ou obra de mulheres da atualidade. É por isso que temos tantas páginas, sites, portais dedicados apenas a elas, pois, ou fazemos nós esse registro, ou seremos apagadas de novo. Muitas ações estão sendo feitas para a recuperação da memória histórica dos trabalhos das mulheres também e aqui falamos de um desses projetos, que tem sido um parceiro do Facada faz um tempo (confira na categoria PINTURAS): Female artists in history.

Uma página no facebook que reúne pintoras, ilustradoras, escultoras de todo o mundo em centenas de pastas com descrição detalhada das obras, biografias, de maneira simples e acessível, esse é o trabalho imenso feito por uma única mulher. Christa Zaat, holandesa, autodidata em artes, criou a página Female artists in history  com o objetivo de divulgar o trabalho de artistas que já morreram, como ela mesma diz: “eu quero dar voz às mulheres que não podem mais falar por si mesmas”.

Pedi para Christa Zaat falar um pouquinho para gente sobre o seu trabalho de curadoria e como iniciou o projeto:

“Eu mantenho um blog de arte como Christa Zaat desde 2012. Eu sempre tentei prestar uma atenção extra às mulheres artistas, já que eu tinha curiosidade para saber onde elas estavam na história. O material que encontrei sobre mulheres artistas foi tão avassalador que, em 20 de abril de 2014, iniciei a página de arte Female artists in history. Até agora eu tenho mais de 112.000 seguidores e mais de 2000 álbuns sobre mulheres artistas. Nosso banco de dados, no entanto, é muito maior, com quase 10.000 nomes e 40.000 imagens. Então eu tenho muito mais do que posso postar diariamente. E ainda estou com pouco tempo.

Eu só tenho uma página no Facebook neste momento, mas estou trabalhando em um site nos bastidores. Mas esse ainda não está ativo. É muito trabalhoso fazer isso.

Eu não estou fazendo isso sozinha. Meu parceiro Carel (um homem) é o homem forte e leal nos bastidores. Ele não gosta de estar em evidência, então eu faço todas as coisas do front-end (planejamento, postagem, organização, comunicação), e juntos fazemos a pesquisa.”

É possível ler uma longa entrevista sobre seu trabalho (em inglês) nesse link:

http://nosmokingmedia.com/features/art-herstory-christa-zaat/

Aqui, vou destacar as mulheres brasileiras que encontramos neste imenso banco de dados:

Rosina Becker do Valle

(Rio de Janeiro, 1914 – 2000) foi uma pintora naïf brasileira

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Georgina de Albuquerque

(Taubaté, 4 de fevereiro de 1885 — Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1962 ) foi uma pintora, desenhista e professora brasileira.

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Tarsila do Amaral

(Capivari, 1 de setembro de 1886 — São Paulo, 17 de janeiro de 1973) foi uma pintora, desenhista e tradutora brasileira e uma das figuras centrais da pintura e da primeira fase do movimento modernista no Brasil, ao lado de Anita Malfatti. Seu quadro Abaporu, de 1928, inaugura o movimento antropofágico nas artes plásticas.

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Mira Schendel

(Zurique, 7 de junho de 1919 — São Paulo, 24 de julho de 1988) foi uma artista plástica suíça radicada no Brasil, hoje considerada um dos expoentes da arte contemporânea brasileira.

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Angelina Agostini

(Rio de Janeiro, 1888 — Rio de Janeiro, 1973) foi uma pintora, escultora e desenhista brasileira, filha do também pintor e caricaturista Angelo Agostini e da pintora Abigail de Andrade

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Bertha Worms

(Uckange, França, 26 de fevereiro de 1868 – São Paulo, 27 de junho de 1937), foi uma professora e pintora de gênero e de retratos franco-brasileira.

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Uma lista de quadrinistas mulheres no Drive

por Roberta AR

Faz uns anos que tenho feito listas de mulheres quadrinistas e ilustradoras. Trabalho com quadrinhos e zines independentes faz mais de uma década, divulgando, produzindo, organizando evento e uma constante é ter poucas mulheres nas publicações e qualquer coisa relacionada ao tema, menos nos bastidores, onde sempre são muitas.

E a justificativa dada para isso é sempre que existem poucas mulheres fazendo ou que o trabalho não tem qualidade. Para contestar essa “verdade” reproduzida pelo senso comum e que está longe de reproduzir a realidade, passei a organizar em listas os nomes de mulheres que trabalham com quadrinhos dos mais variados estilos.

Agora, decidi compartilhar uma planilha com todos os nomes que já reuni em posts, principalmente no MinasNerds, para que seja uma ferramenta fácil para consulta. Clique neste link do drive e veja seus nomes, cidades onde moram, links para seus sites e redes sociais: https://docs.google.com/spreadsheets/d/19AJsUN8kRa_30lXMRceBxjQYQrAbq1HXNn0VywQ1Loo/edit?usp=sharing

Veja, compartilhe, divulgue. Esta é uma lista em andamento, pode ser acrescida de nomes a qualquer momento.

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Dói

por Roberta AR

Isso dói, já disse.
Deixa pra lá, ele me responde.
Mas dói, continua doendo.
Você é mais forte, ela diz.
Tá doendo muito!
Olha lá a louca!, ouço o coro.
Me afasto, respiro.
E vejo alguém que me olha sem julgar.
Sozinha.
E algo em mim dói menos

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poema resultado da oficina “Empoderamento Poético”, da poeta Marina Mara, e transformado em lambe-lambe

Meu não é a muitos eles

por Roberta AR

Eu sinto um medo constante desde que me entendo por gente. Medo de ser agredida quando eu menos espero, verbalmente ou fisicamente. Não tem um momento de alegria pura que não seja tomado por esse sentimento, de que algo muito ruim vai acabar acontecendo.

Toda a minha infância foi vivida na ditadura militar, nasci num subúrbio operário, como diz a música. Muito nova, participei de mobilizações de legalização de loteamentos, o que hoje poderia ser chamado de MTST, o terreno que meu pai comprou em Parelheiros era ilegal. O medo das “autoridades” era constante, não podíamos ter conversa sobre política em casa, que eu ouvia um “shhhhhhh” retumbante da minha mãe. Foi um tanto de tempo depois que fui entender o que era aquilo.

Mas o medo que me acompanha não é só esse, de fora. O meu maior medo vinha de dentro de casa, de um homem que deveria cuidar de mim e que me dizia sempre que podia: “você pensa que você é gente? você não é gente não!”. Ou então me proibia de quase tudo dizendo que “se eu fosse homem poderia”, rindo. Uma vez ele me trancou em casa por dois meses, porque achou que eu tinha sido cantada na rua. Ele começou a me bater, minha mãe deixou de ser exclusiva nessa violência. E foi aí que comecei a ter medo de morrer cada dia que ficava em casa.

Nesse tempo, comecei a participar de um grupo de jovens na igreja, acho que meus pais achavam que ali seria um ambiente seguro para uma “menina de família”. Mas eis que eu caio num grupo Pastoral, de uma Comunidade Eclesial de Base e a partir dali minha história mudou completamente. Uma nova constituição foi aprovada no país e, pela primeira vez na minha vida, alguma lei garantia que eu era igual aos homens em direitos e deveres. Colei o artigo em toda a parte de casa, apavorada com a violência que sofreria, mas realizada de ter um papel ao meu favor.

Eu fui engajadíssima na aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, tinha dezesseis anos e ainda teria alguns anos de cobertura da primeira lei que interveio na violência doméstica nesse país. Foi uma alegria imensa ver o texto aprovado e os primeiros conselhos tutelares funcionando. Alguns dos conselheiros eram meus amigos de pastoral e olhavam por mim. Meu pai foi veemente contra a lei: “onde já se viu não poder fazer o que eu quiser com minha própria filha!”. Não podia mais. Ainda não pode. Mas mesmo assim me torturou psicologicamente por anos ainda. Me ameaçou jogar na rua porque comecei a trabalhar, mesmo ganhando pouco, me proibiu de comer a comida da casa.

Meu pai era metalúrgico, fez parte do nascimento daquele partido do período das greves, foi membro de diretório da instituição. De esquerda.

Hoje, vivemos esse momento em que um candidato a presidente diz querer acabar com o Estatuto que eu lutei tanto para que fosse aprovado, e que provavelmente me salvou. Que fala das mulheres como se fôssemos lixo.

O medo me toma.

Tenho medo de ser abordada na rua e agredida por fanáticos. Tenho medo até de escrever esse texto.

Mas hoje não tenho mais o medo que me tomou a maior parte da minha vida, o de voltar para casa e não saber se eu ia sair de lá viva. Ainda hoje a própria casa é o lugar mais perigoso para as mulheres, mais da metade das assassinadas o são lá. Imagina só quando matar mulheres e filhas não gerava condenação nenhuma?

Faz tão pouco tempo que começamos a superar isso, não podemos deixar que isso volte a ser nossas vidas. NÃO VAMOS!

 

O caminho mais fácil

por Roberta AR

Eu queria chegar chegando, com os pés nos peitos dos outros, dizendo altas sinceridades impensadas sem filtro e isso podia não me afetar em nada. Me sentiria ofendida quando quem quer que fosse se contrapusesse, porque eu seria inquestionável.

Podiam me pagar por eu ser assim, bastante, porque, além de tudo, eu ia me achar a mais competente em tudo o que fosse fazer e isso, de eu me achar foda, já seria mais do que o suficiente para que os dinheiros fossem dados a mim pelas pessoas que gostam de pessoas que se acham as mais competentes.

Sairia perguntando para as pessoas, em debates na internet ou pessoalmente, de forma condescendente, “como você chegou nessa afirmação?”, dizendo que elas são burras de uma forma direta, mas ao mesmo tempo fingindo ser gentil. Eu nem precisaria estudar, porque ser inteligente é algo assim automático, basta querer ser e dizer que é.

Uma família perfeita é o que completaria esse cenário, claro. Um filho pequeno que soubesse todas as capitais do país, ou qualquer outra coisa inútil, mas que é bonitinho ficar mostrando pros outros, o que provaria que ele é melhor que os filhos dos outros em tudo. Simples assim. Ficaria exaltando as reuniões em datas especiais “dessa família enorme e unida que temos”. Fotos bonitas com todo mundo sorrindo, abraçados, cenas de cantoria, de primas “um pouco bêbadas”.

Um carro novo, uma casa com várias coisas.

Talvez escreveria um livro, como tantos que já existem, mas esse seria melhor, porque meu, para ajudar as pessoas a ter essa vida perfeita que eu teria. Possivelmente seria coach motivacional de vida, de carreira, ou de tudo, porque teria tanto para ensinar para quem não sabe viver.

Cabeça cheia de projetos e atividades e vida social porque ociosidade e cabeça vazia é oficina do diabo. Não ter tempo para pensar faz com que os problemas não sejam reais.

Nem seria preciso fingir, porque eu ignoraria por completo minha alma destroçada pela violência de não ser quem eu sou, de não me preocupar com o que é realmente importante pra mim.

Tudo daria certo e o que não desse seria fruto da inveja, das más energias ou da incompetência mesmo dos outros. Qualquer dor sentida seria uma grande injustiça desse mundo que não me dá tudo o que eu acho que preciso, mas que quero ardentemente.

Seria assim até o fim, que teria discursos lindos sobre a minha grandeza, enquanto minhas cinzas seriam espalhadas por pessoas que nunca souberam realmente algo importante sobre mim.

Seria fácil, mas já não é mais possível. Não pra mim.

“Mamaini, essa música não”

por Roberta AR

Eu sempre me perguntei: pra que fazer essas versões “infantis” de músicas pop? Além de esquisitas (e assustadoras, em alguns casos), por que crianças não podem ouvir os originais? Não estou falando aqui de canções infantis, de ciranda ou de roda, mas de “Ramones para crianças”, “Beatles para crianças” e por aí vai.

Tem uma linha de trem perto da minha casa, junto a um parquinho público e uma pista de caminhada. Estava andando por ali um dia desses e comecei a ouvir uma pianola, um sonzinho fraco que parecia uma caixinha de música, com uma canção conhecida, que depois de algum tempo percebi ser dos Beatles, em versão canção de ninar. Posso dizer o quanto aquilo parecia uma cena de filme de terror? Um dia nublado, no fim da tarde, um parquinho com balanços ao vento e essa música assustadora de fundo.

Eu sempre ouvi punk rock com meu filho, desde meses de vida. Teve parente me dando bronca que aquilo ia “perturbar a criança”, mas ele nunca pareceu perturbado. Quando começou a balbuciar sons mais controlados (ficou um bom tempo falando por onomatopeias), soltou um “ocai, oait”, que era o refrão de Sixteen, dos Buzzcock. Achei engraçado, ele todo feliz cantando isso pela casa. Depois foi a vez de “chamar a barca”, o refrão de Preta Pretinha. Ele está aprendendo a falar agora, então tenho colocado mais músicas em português. Os Mulheres Negras, que eu gostava muito quando era criança, o disco Acabou Chorare (que, vejam só, foi feito para crianças), Gal Costa, Rita Lee, tudo faz sucesso, até Itamar Assumpção, que parece ser um dos seus favoritos, surpreendentemente.

Podia emendar sobre o quanto acho meu filho um prodígio musical, de sensibilidade sobrenatural e coisas do tipo, mas eu sei que toda criança é assim e que seus gostos podem ser mais amplos e variados do que podemos imaginar, a limitação é nossa mesmo. Não é preciso simplificar música para crianças, nem nada. É claro que é bom estar atento a conteúdos adequados, histórias de mortes brutais, sexo e coisas do tipo não fazem bem e não devem ser compartilhadas com crianças. Mas que mal faz um ieieiê?

Eu costumo falar muito sobre isso, mas é que essa é a coisa que mais se reafirma ao criar um filho: nós não controlamos nada. Quando meu filho tinha uns seis meses, rolou uma oficina de musicalização para bebês com um maestro estrangeiro que fazia experiências com crianças até um ano de idade, uma lindeza na sensibilização dos pequenos. Estava toda empolgada, achando que ele ia arrasar nos instrumentinhos, mas foi chegar e ouvir o primeiro acorde de violino que um choro sentido começou, até virar um choro alto e cheio de lágrimas. Tentamos sair e voltar umas duas vezes, o maestro já tava ficando putaço, até que percebemos que era a música que estava deixando ele daquele jeito. Era assim com saxofone também, não podia ouvir que começava a chorar sentido, ativava uma chave da tristeza nele. Parecia um adulto na fossa ouvindo um brega romântico, algo o deixava muito abalado. E tinha o agudinho do sertanejo universitário, que o deixava tão puto que começava a gritar com raiva, isso com uns três ou quatro meses. Fizemos alguns testes para confirmar se não era viagem da nossa cabeça, mas a audição trazia outras coisas além de lágrimas. Foram muitas as crises de choro acalmadas com música, também. Acabou Chorare acabava o chorare quase sempre, parecia mágica, um relaxamento que vinha até o choro parar. Agora, perto dos três anos, ele começou a ouvir cantigas infantis com joguinhos de palavras. Adora o sítio do Seu Lobato com seus iaiaô e os sons dos bichos. Mas fui tentar colocar o disco do Zeca Baleiro, e mais uns outros de cantores com versões de músicas famosas para crianças, e ele mandou tirar na hora, todas as vezes. Odiou. Ele ainda prefere as versões originais.

Falei das minhas preferências musicais, mas tem as do pai também, que gosta de metal, coisa que nunca ouvi e nunca gostei. O menino está apaixonado por Amorphis, faz performance imitando. Tem até a versão de “iaiaô” com voz gutural, que tem sido o grande hit do momento.

Sabe o que acontece? Ele é uma pessoa. Todo dia isso se confirma. Veja bem, eu sei que estou falando o óbvio aqui, mas saber disso e praticar isso não é a mesma coisa. Meus desejos e anseios não querem dizer nada para ele, o que eu posso fazer é dividir as coisas que são importantes para mim, vivermos essa experiência de ouvir músicas e dançar juntos. Ele sente como eu, canta e se emociona também, não precisa simplificar nada, o que ele não gosta, ou o que o deixa incomodado, ele pede para tirar. E eu não preciso fantasiá-lo de roqueiro ou de David Bowie para realizar minha fantasia bizarra de dizer para todo mundo “esse é o meu filho mesmo”. Meus gostos não vão ser a prioridade nos gostos dele. A coisa já está tomando forma, bem aqui no comecinho da vida, e às vezes eu tenho que ouvir “shh, mamaini, essa (música) não”.

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Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #5

A chalga do meu coração

por Roberta AR

Um dia cheguei no trabalho contando de um show do Varukers que tinha assistido no Conic (quem é de Brasília sabe que esta sempre foi uma quadra underground, um pouco menos agora que começa a ser gentrificada por hipsters, lojas de vinis e coisas do tipo). Uma colega, assustada, me disse que nunca me imaginaria num show punk, que eu tinha cara de quem gostava de Vanessa da Mata. Acho que são meus cabelos cacheados e o fato de eu ser de humanas que dão essa impressão de que eu gosto de nova mpb (ainda chamam assim?).

Mas minha vida musical nunca foi assim só underground, tem os pop que me tocam fundo, sempre gostei de Robertão (chorei horrores nos dois shows que fui) e David Bowie é ainda um grande amor da minha vida.

Quando conheci meu companheiro, nossa primeira conversa foi sobre Rammstein, ainda morro de inveja que ele foi num show e eu não. Ficamos juntos num show do Gangrena Gasosa. Tudo caminhava para sermos um casal camisa preta, quando, num belo dia, o Pedro me apresenta Azis, que conheceu nas zueiras de internet, ele é de uma geração depois da minha e conhece coisas que eu demoro um pouco mais para ter contato.

E a primeira coisa que vi do Azis foi o clipe de Hop. É difícil descrever a sensação que tive enquanto ouvia e via. Uma empolgação, comecei a rebolar discretamente na cadeira (estava no trabalho, com meus melhores amigos, os fones de ouvido), mas por dentro me senti numa noitada nA Lôca*. Vou tentar descrever aqui o que vi e ouvi.

Azis é um cantor pop da Bulgária. Ele canta chalga, que mistura ritmos tradicionais búlgaros com batidas eletrônicas, considerado brega no leste europeu. É muito popular, o vídeo de Hop, na página da Diapason Records do youtube, tem mais de doze milhões de visualizações. A primeira imagem que vemos, é uma casa de madeira coberta de neve, corata para a foice e martelo, símbolo do comunismo, num fundo preto, seguida de uma animação com o nome da música em letras brancas HOP, até agora ao som de uma sanfona, ou algum instrumento tradicional. E aí a diversão começa.

Damos de cara com o Azis ricamente maquiado em um ofurô, rodeado de lindos homens seminus numa sauna, cantando “Lover, lover / Fucker, fucker / Lover” e depois entra o trecho em búlgaro. Imagens de um dançarino folclórico se alternam com a sauna e closes de Azis em roupas mínimas, cheias de lantejoulas.


(clique e veja o clipe de Hop)

Seus hits são contagiantes, outra música que recomendo para quem quiser conhecer é Sen Trope, que, na página azisofficialmusic, tem mais de três milhões e meio de acessos.

Seu visual andrógino exageradamente elaborado pode parecer de alguém fútil, mas ele é uma personalidade política importante na Bulgária, se casou com um, agora, ex-companheiro com quem tem uma filha e não teve sua união reconhecida no país, foi vice líder do Euroma, partido ultraliberal búlgaro, e luta pela visibilidade e direito dos ciganos na Europa.

Vi poucas coisas em português sobre ele nas minhas pesquisas, mas sei que tem uma geração que o conhece por essas bandas, muito pela zueira, mas alguns foram curtindo de verdade. Apresentei para uma colega de trabalho que ficou simplesmente alucinada por ele, com planos de ir para a Bulgária e tudo e eu ainda nem sei o quanto tinha de brincadeira ou verdade nessa história toda.

Mas Azis é pra isso tudo mesmo. Delícia demais!

*boate de São Paulo

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Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #3