“Mamaini, essa música não”

por Roberta AR

Eu sempre me perguntei: pra que fazer essas versões “infantis” de músicas pop? Além de esquisitas (e assustadoras, em alguns casos), por que crianças não podem ouvir os originais? Não estou falando aqui de canções infantis, de ciranda ou de roda, mas de “Ramones para crianças”, “Beatles para crianças” e por aí vai.

Tem uma linha de trem perto da minha casa, junto a um parquinho público e uma pista de caminhada. Estava andando por ali um dia desses e comecei a ouvir uma pianola, um sonzinho fraco que parecia uma caixinha de música, com uma canção conhecida, que depois de algum tempo percebi ser dos Beatles, em versão canção de ninar. Posso dizer o quanto aquilo parecia uma cena de filme de terror? Um dia nublado, no fim da tarde, um parquinho com balanços ao vento e essa música assustadora de fundo.

Eu sempre ouvi punk rock com meu filho, desde meses de vida. Teve parente me dando bronca que aquilo ia “perturbar a criança”, mas ele nunca pareceu perturbado. Quando começou a balbuciar sons mais controlados (ficou um bom tempo falando por onomatopeias), soltou um “ocai, oait”, que era o refrão de Sixteen, dos Buzzcock. Achei engraçado, ele todo feliz cantando isso pela casa. Depois foi a vez de “chamar a barca”, o refrão de Preta Pretinha. Ele está aprendendo a falar agora, então tenho colocado mais músicas em português. Os Mulheres Negras, que eu gostava muito quando era criança, o disco Acabou Chorare (que, vejam só, foi feito para crianças), Gal Costa, Rita Lee, tudo faz sucesso, até Itamar Assumpção, que parece ser um dos seus favoritos, surpreendentemente.

Podia emendar sobre o quanto acho meu filho um prodígio musical, de sensibilidade sobrenatural e coisas do tipo, mas eu sei que toda criança é assim e que seus gostos podem ser mais amplos e variados do que podemos imaginar, a limitação é nossa mesmo. Não é preciso simplificar música para crianças, nem nada. É claro que é bom estar atento a conteúdos adequados, histórias de mortes brutais, sexo e coisas do tipo não fazem bem e não devem ser compartilhadas com crianças. Mas que mal faz um ieieiê?

Eu costumo falar muito sobre isso, mas é que essa é a coisa que mais se reafirma ao criar um filho: nós não controlamos nada. Quando meu filho tinha uns seis meses, rolou uma oficina de musicalização para bebês com um maestro estrangeiro que fazia experiências com crianças até um ano de idade, uma lindeza na sensibilização dos pequenos. Estava toda empolgada, achando que ele ia arrasar nos instrumentinhos, mas foi chegar e ouvir o primeiro acorde de violino que um choro sentido começou, até virar um choro alto e cheio de lágrimas. Tentamos sair e voltar umas duas vezes, o maestro já tava ficando putaço, até que percebemos que era a música que estava deixando ele daquele jeito. Era assim com saxofone também, não podia ouvir que começava a chorar sentido, ativava uma chave da tristeza nele. Parecia um adulto na fossa ouvindo um brega romântico, algo o deixava muito abalado. E tinha o agudinho do sertanejo universitário, que o deixava tão puto que começava a gritar com raiva, isso com uns três ou quatro meses. Fizemos alguns testes para confirmar se não era viagem da nossa cabeça, mas a audição trazia outras coisas além de lágrimas. Foram muitas as crises de choro acalmadas com música, também. Acabou Chorare acabava o chorare quase sempre, parecia mágica, um relaxamento que vinha até o choro parar. Agora, perto dos três anos, ele começou a ouvir cantigas infantis com joguinhos de palavras. Adora o sítio do Seu Lobato com seus iaiaô e os sons dos bichos. Mas fui tentar colocar o disco do Zeca Baleiro, e mais uns outros de cantores com versões de músicas famosas para crianças, e ele mandou tirar na hora, todas as vezes. Odiou. Ele ainda prefere as versões originais.

Falei das minhas preferências musicais, mas tem as do pai também, que gosta de metal, coisa que nunca ouvi e nunca gostei. O menino está apaixonado por Amorphis, faz performance imitando. Tem até a versão de “iaiaô” com voz gutural, que tem sido o grande hit do momento.

Sabe o que acontece? Ele é uma pessoa. Todo dia isso se confirma. Veja bem, eu sei que estou falando o óbvio aqui, mas saber disso e praticar isso não é a mesma coisa. Meus desejos e anseios não querem dizer nada para ele, o que eu posso fazer é dividir as coisas que são importantes para mim, vivermos essa experiência de ouvir músicas e dançar juntos. Ele sente como eu, canta e se emociona também, não precisa simplificar nada, o que ele não gosta, ou o que o deixa incomodado, ele pede para tirar. E eu não preciso fantasiá-lo de roqueiro ou de David Bowie para realizar minha fantasia bizarra de dizer para todo mundo “esse é o meu filho mesmo”. Meus gostos não vão ser a prioridade nos gostos dele. A coisa já está tomando forma, bem aqui no comecinho da vida, e às vezes eu tenho que ouvir “shh, mamaini, essa (música) não”.

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Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #5

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A chalga do meu coração

por Roberta AR

Um dia cheguei no trabalho contando de um show do Varukers que tinha assistido no Conic (quem é de Brasília sabe que esta sempre foi uma quadra underground, um pouco menos agora que começa a ser gentrificada por hipsters, lojas de vinis e coisas do tipo). Uma colega, assustada, me disse que nunca me imaginaria num show punk, que eu tinha cara de quem gostava de Vanessa da Mata. Acho que são meus cabelos cacheados e o fato de eu ser de humanas que dão essa impressão de que eu gosto de nova mpb (ainda chamam assim?).

Mas minha vida musical nunca foi assim só underground, tem os pop que me tocam fundo, sempre gostei de Robertão (chorei horrores nos dois shows que fui) e David Bowie é ainda um grande amor da minha vida.

Quando conheci meu companheiro, nossa primeira conversa foi sobre Rammstein, ainda morro de inveja que ele foi num show e eu não. Ficamos juntos num show do Gangrena Gasosa. Tudo caminhava para sermos um casal camisa preta, quando, num belo dia, o Pedro me apresenta Azis, que conheceu nas zueiras de internet, ele é de uma geração depois da minha e conhece coisas que eu demoro um pouco mais para ter contato.

E a primeira coisa que vi do Azis foi o clipe de Hop. É difícil descrever a sensação que tive enquanto ouvia e via. Uma empolgação, comecei a rebolar discretamente na cadeira (estava no trabalho, com meus melhores amigos, os fones de ouvido), mas por dentro me senti numa noitada nA Lôca*. Vou tentar descrever aqui o que vi e ouvi.

Azis é um cantor pop da Bulgária. Ele canta chalga, que mistura ritmos tradicionais búlgaros com batidas eletrônicas, considerado brega no leste europeu. É muito popular, o vídeo de Hop, na página da Diapason Records do youtube, tem mais de doze milhões de visualizações. A primeira imagem que vemos, é uma casa de madeira coberta de neve, corata para a foice e martelo, símbolo do comunismo, num fundo preto, seguida de uma animação com o nome da música em letras brancas HOP, até agora ao som de uma sanfona, ou algum instrumento tradicional. E aí a diversão começa.

Damos de cara com o Azis ricamente maquiado em um ofurô, rodeado de lindos homens seminus numa sauna, cantando “Lover, lover / Fucker, fucker / Lover” e depois entra o trecho em búlgaro. Imagens de um dançarino folclórico se alternam com a sauna e closes de Azis em roupas mínimas, cheias de lantejoulas.


(clique e veja o clipe de Hop)

Seus hits são contagiantes, outra música que recomendo para quem quiser conhecer é Sen Trope, que, na página azisofficialmusic, tem mais de três milhões e meio de acessos.

Seu visual andrógino exageradamente elaborado pode parecer de alguém fútil, mas ele é uma personalidade política importante na Bulgária, se casou com um, agora, ex-companheiro com quem tem uma filha e não teve sua união reconhecida no país, foi vice líder do Euroma, partido ultraliberal búlgaro, e luta pela visibilidade e direito dos ciganos na Europa.

Vi poucas coisas em português sobre ele nas minhas pesquisas, mas sei que tem uma geração que o conhece por essas bandas, muito pela zueira, mas alguns foram curtindo de verdade. Apresentei para uma colega de trabalho que ficou simplesmente alucinada por ele, com planos de ir para a Bulgária e tudo e eu ainda nem sei o quanto tinha de brincadeira ou verdade nessa história toda.

Mas Azis é pra isso tudo mesmo. Delícia demais!

*boate de São Paulo

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Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #3

Acho que ele me chamou

por Roberta AR

Acho que ele me chamou de novo. Será que foi ele? Vou lá olhar. Está dormindo, deve ter sonhado algo. Tão bonito assim, dando risadinha sonhando.

Estou cansada, não consigo falar frases compostas mais. O pensamento não acompanha. Nunca mais uma noite com mais de cinco horas de sono consecutivas. E essas cinco horas são raras, bem raras.

Eu gosto de dormir, preciso, isso me deixa meio paranoica, isso de não dormir decentemente. Aliás, me deixa mais paranoica. Mas me dá uma satisfação ver que estou dando conta, que está crescendo saudável, fisicamente, emocionalmente, mentalmente.

Ele acorda e me chama, angustiado porque está crescendo e isso é difícil. Tentamos deixar as coisas mais fáceis para ele, mesmo que sejam pesadas para a gente, mas isso não tem nada a ver com ele.

Ah, sim, a paranoia. Eu sinto medo do abandono o tempo todo. Sinto que ele vai ser abandonado quando chora, mas não por mim, é um abandono ancestral, o que eu sinto. O abandono que eu mesma sofri. “É melhor ter pais ausentes do que nenhum”, diz a pessoa que não tem ideia do que está falando.

Eu tinha sonhos estranhos quando era criança, desde muito pequena. Um dia sonhei que uma equipe de agentes federais invadia a minha casa e me dizia que aqueles não eram meus pais, mas robôs disfarçados que me roubaram. E que iam me levar para casa, finalmente. Acordava sobressaltada, uma alegria que se dissipava assim que eu percebia que era só sonho. E foram vários do tipo, com variações dos sequestradores, que eram alienígenas, agentes soviéticos (ah, os filmes americanos…).

Uma vez sonhei que estava no quintal, era uma noite muito fria, daquelas que dava geada na madrugada, o céu bem limpo e eu pedia ajuda para alguém, qualquer um, e o vira-lata, aquela paródia do super homem que em inglês chama underdog, descia e me resgatava. A sensação de estar voando para longe, qualquer lugar, era maravilhosa. Ainda lembro direitinho.

Hoje, aqui, em casa, sinto o sobressalto do abandono quando olho para ele pequeno dormindo na cama. Medo de que ele sinta isso. Será que meu afeto basta? Será que tem afeto em mim? Sinto que secaram minha fonte lá atrás, me deixaram seca de afeto, mas sei, e isso é diferente de sentir, que não é assim. O que falta, falta para mim e daquelas pessoas. A mãe que está em mim é meio capenga e está fazendo tudo surgir do zero, reflexivamente, racionalmente, deixando brotar algo que alimente a si mesma também.

É uma oportunidade de cicatrizar, sinto que estamos nesse caminho, mas não sem ficar uma quelóide ou algo assim que poderia ilustrar o que sinto.

E ainda tem que proteger das cobranças emocionais de relações tóxicas o tempo todo, da chantagem de quem acha que afeto é um direito e não algo a ser cultivado com respeito e cuidado. Ter que ser a vilã num mundo que não está nem aí para a saúde emocional e mental de ninguém. Tem gente realmente interessada em desequilibrar a vida alheia e assistir a tudo desabando. Eu sei que isso vem de quem está em sofrimento profundo, o que torna tudo ainda mais difícil.

Quanto tempo desde que ele me chamou? Cinco minutos? Será que consigo relaxar e dormir agora ou será mais quanto tempo pensando nisso tudo de novo e de novo? Amanhã tem que lavar aquela roupa, o texto que estou devendo…

Femina

por Roberta AR

Voltei a  menstruar. Depois de dois anos e meio. Uma gravidez no início desse período e amamentação até agora. São muitas doses de hormônios de todos os tipos nesse intervalo, dos que mexem com o corpo todo e fazem ser suportável todas as mudanças pelas quais passei, é essa mesma a função deles. Se fosse só o corpo, seria bem fácil, mas tem o mundo todo para lidar e isso deixa a gente paralisada, tem hora.

Essas mudanças físicas todas me fazem pensar nos corpos diferentes, nas mulheres que não menstruam, nas que não têm útero pelo motivo que for, nas que não são mães. Somos todas um grande grupo que ficou à margem do mundo porque o dinheiro quis assim. Podem dizer muitas coisas e tornar essa história mais complexa, e com razão, mas simplificando bem, o dinheiro e quem o tem não gostam de mulheres.

O não gostar de nós se manifesta de muitas formas e todos os dias. Eu ouvi com tom professoral outro dia um cara me explicar que homens estupram porque não conseguem se controlar, “é hormonal”, ele me disse. Fiquei sem resposta olhando para aquele rosto meigo que me dizia essa barbaridade pensando em quantas pessoas ele teria estuprado para justificar aquilo de maneira tão simples e “científica”.

E teve o dia em que o marido de uma conhecida queria brincar com meu filho, menino, que estava doente e esse homem gritou comigo porque não era nada grave e era má vontade minha, eu, que também estava doente e sem dormir por causa de nós dois por quatro dias. A naturalidade em que um homem grita com uma mulher é uma coisa assombrosa.

Não podemos esquecer o assobio nosso de cada dia, em cada esquina. E o medo que nos faz andar pelo meio da rua, fugindo de calçadas escuras e mesmo das claras, quando homens vêm caminhando em nossa direção.

E ser mãe tem essa cobrança todos os dias de todo mundo que diz que filho que faz isso e faz aquilo é porque a mãe não educou direito, quando tem um mundo inteiro achando normal agredir mães (lembra do cidadão citado aí em cima?), que ensina que homem é grosso e bruto mesmo, que tem que ser pegador e todo o tipo de barbaridade banalizada e repetida infinitamente em festas de famílias e por pessoas próximas. “Mas a mãe (sempre ela sozinha, diz o mundo) tem que corrigir isso em casa”. Sério mesmo que uma mãe é capaz de sozinha colocar o filho contra o mundo todo? A gente faz o que é possível e, ainda assim, quando evitamos o convívio com certas brutalidades nos chamam de “radical demais”. O certo é que nunca estaremos certas.

Eu nem quero falar muito sobre a dor cotidiana dos nossos corpos agredidos, violentados, mortos só porque somos mulheres, porque essa é uma dor conhecida de todas nós e nosso medo de todo dia.

Foi mesmo o corpo de cada uma nós que vi nesse meu depois de tantas mudanças em tão pouco tempo, como se tivesse cada mulher do mundo em mim. Somos mesmo uma só no que passamos só por ser mulher. E por isso precisamos de muitos gritos de ordem, porque as dores são muitas. Não esqueceremos! Nem um direito a menos! Nem uma a menos!

 

Cabelos – volume II

por Roberta AR e Clara do Prado*

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Para ler o zine, clique na imagem.

O zine Cabelos – volume II foi lançado na Feira Plana 2015 pelo selo Rabanete, da designer Clara do Prado.
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*Clara do Prado é brasiliense, designer gráfica e a mulher por trás do Selo Rabanete.

A morte é parte da vida

por Roberta AR

Eu era ainda muito pequena quando fui a um funeral, o primeiro. Nem lembro que idade tinha, porque minha família nunca protegeu as crianças dessas cerimônias funestas, nem de muitas outras coisas que não vêm ao caso agora.

Foi a perda de uma irmã que me fez entender que a morte pode mudar tudo na vida, dentro de uma casa, na dinâmica das relações. Mas nem assim sua presença, da morte, passou a me acompanhar, era algo que existia, que eu sabia ser repentina em muitos casos, que doía e que deveria ser superada, pois a vida continua, mesmo que acabe para alguns.

Nem todo mundo é assim, vivo e querendo viver, tem aqueles que invocam a presença da morte todo o tempo, que fazem dela sua mais preciosa companheira imaginária, claro, pois se estão vivos, a companhia real é a da vida. E isso me faz pensar em Júlio.

Era uma fase de mudanças intensas na minha vida e ele apareceu. A minha empolgação com tudo, com novas pessoas, novas possibilidades de trabalho, minhas pretensões artísticas nas horas vagas, novos lugares, sabores, tudo isso parecia atraí-lo e algo que poderíamos dividir. Ele falava muito de morte, brincando, era o que eu pensava naquele tempo, e eu achava divertido, irônico, como um desprezinho à cultura de que temos que estar alegres o tempo todo. Mas eu estava muito enganada com esse julgamento, totalmente enganada.

Então estava lá eu, toda entusiasmada com a nova vida que se desenhava à frente e nem me dava conta de que entrava numa história completamente diferente do que eu esperava. Fui colocada em companhia da morte.

Sua familiar mais próxima decidiu desistir do próprio corpo e parecia brincar de querer morrer. Uma pessoa me disse uma vez que morrer não é algo tão fácil quanto parece, decidir morrer enfraquecendo o próprio corpo leva muito tempo, neste caso foram anos de dedicação. Esse foi mais um passo para que a morte fosse uma presença constante na vida e sua influência, desta mulher que desistiu de viver, continuou mesmo depois que ela alcançou o que achava que queria.

Assim como ela, ele gostava de correr riscos, de uma maneira um pouco diferente no começo, e também não cuidava do próprio corpo. Eu achava divertido isso de correr riscos, porque é preciso sair do confortável, da monotonia, para que a vida seja mais. Diversão é necessária numa vida saudável. Mas a busca ali não era a da saúde e eu nem me dava conta, ou fingia não perceber.

Com a convivência cotidiana, passei a me sentir triste todo o tempo e não entendia porquê. Ele ficava indignado, porque não era de uma mulher triste que ele tinha se aproximado e eu, confusa por conta dessa tristeza que não sabia como combater, falava sobre isso de que não se pode ser alegre o tempo todo, o que pensei que ele sabia, mas ouvia impropérios e apologias à festa eterna, à diversão acima de todas as deusas. Era uma alegria artificial, proporcionada por aditivos químicos de todo o tipo e que anestesiavam a vida.

Fui arrebatada para este mundo em que vida ficava em suspensão, uma espécie de coma induzido, em que nada parecia real e nenhum sentimento era sincero. Fui tomada pela tristeza, meus dias se arrastavam, minha saúde foi afetada, fiquei inchada, indisposta, insone. Mas ele sorria o tempo todo e devia achar que isso era felicidade. Ou apenas encarava isto cinicamente, o mesmo cinismo com que passou a me tratar com o passar do tempo.

A presença da morte era tão constante, que não foi possível uma nova vida vingar em mim, parecia impossível pro meu corpo lidar com aquilo, eu tinha medo desse legado de tristeza que dava a impressão de ser intransponível. Trazer vida para morte era algo incompreensível e inaceitável.

Eu me sentia entregue a esta vida fúnebre, mas algo em mim reagia mesmo sem eu perceber. A vontade de viver, de me atirar ao novo e bonito e saudável estava lá, no fundo da minha alma, e começou a me empurrar para a ação. Isso foi logo depois que comecei a temer pela vida dele todos os dias, a vida física, o corpo, que estava prestes ao colapso. Meu medo era de um mal incapacitante, que me tornasse uma babá para o resto da vida. Sim, fui egoísta e sem nenhuma vergonha disso, ainda mais depois de ter sido tragada para um abismo. Um belo dia, desisti dele e acabamos nos afastando.

Foi chocante ver que, mesmo depois de não mais convivermos cotidianamente, ele ainda tentava me puxar para o seu abismo pessoal. As poucas conversas que aconteceram foram sobre como sua vida era uma grande tragédia ou para me humilhar nas minhas fraquezas pessoais.

E foi assim que percebi que só quero estar morta quando morrer efetivamente. A morte faz parte da vida, mas é preciso estar vivo para entender o que isto significa.

Cafeinômana

por Roberta AR

Tenho que confessar que gosto de café. Pelo menos um por dia. Gosto de espresso, mas também de fazer na cafeteira italiana. Quando não é possível, tomo preparado de jeito que for, no coador, naquelas máquinas de sachê, porque me anima e fico mal se passo o dia sem um que seja. Nesses tempos, é difícil encontrar um bom café, não é possível precisar a procedência ou a pureza, então bebo o que aparece.

Desde que a indústria descobriu que o café traz prejuízo a seus empreendimentos lucrativos, principalmente na produção de energéticos e termogênicos, sua ilegalidade foi algo que seus benefícios à saúde não conseguiram impedir.

Suas propriedades antioxidantes e antidemência devem ter ajudado na motivação de banir essa delícia (desculpa, não resisto) da vida de todos. Daí ficamos assim, dependentes de uma indústria facínora, mantida com a anuência do estado que diz estar trabalhando para defender os cidadãos de bem. Defendendo dos horrores de uma xicarazinha de café, sério mesmo estado?

Antes eram opções em todas as esquinas, redes de fast food ou pequenos e charmosos cafés (lembra do tempo em que nomeava estabelecimentos?), agora só se pode consumir legalmente em algumas cidades do mundo onde os drugshops são autorizados a servir. Um dia me mudo para um lugar desses e serei apta a apreciar as variedades arábicas tão deliciosas, com torragens que variam pelo amargor e pelas notas de frutas ou castanhas. E seriam apreciadas em espressos, afogattos, cappuccinos, macchiatos e todos esses nomes italianos que faziam a minha alegria antes de pequenos prazeres diários serem transformados em ameaça à segurança pública.

Resisto e para manter o hábito procuro fontes para o meu prazer com conhecidos. Por sorte tenho conseguido grãos de um fornecedor muito bom que me arrumaram, o único problema é fazer a torragem em casa, e dá-lhe incensos que harmonizam e mascaram o cheiro.

Por que falo sobre isso? Porque esta semana acontece a primeira Marcha do Cafezinho, em que a sociedade civil organizada vai expor a irracionalidade de se controlar pequenos prazeres em favor de uma indústria tacanha. Precisamos todos nos mobilizar para demonstrar a nossa indignação. O lucro de alguns não pode sobrepujar a necessidade de muitos.

A luta é pela retomada de nossas tradições. Para poder passar um cafezinho para as visitas, algo que faz parte da nossa cultura ancestral, ou chamar um amigo para um café e ter aquela conversa descontraída. Além de podermos tomar algo mais natural naqueles momentos em que o sono quer bater forte e precisamos estudar. Ou pelo simples prazer de tomar um curto. O motivo não importa, o que não é mais possível é ficarmos impassíveis a tudo isso. Às ruas!

(texto originalmente escrito para o jornal Pimba #3 e publicado no blog Cafeinomanah)