Gotham Não Tem CAPS: O adoecimento masculino por trás do Batman

por Laluña Machado*

Existe uma ironia considerável no modo como parte do fandom do Batman trata Bruce Wayne como a encarnação máxima da racionalidade, da disciplina e da preparação absoluta. O discurso é sempre o mesmo: com preparo suficiente, o Batman vence qualquer um. Só que quase nunca se pergunta o que exatamente significa esse preparo, porque ele não é um poder metafísico caído do céu de Gotham, ele é dinheiro, tecnologia, treinamento financiado por bilhões e acúmulo de capital transformado em performance masculina. Mas não se preocupem, porque isso não tem nada a ver com privilégio. É puro esforço. [Isso é sarcasmo]

Gotham Não Tem CAPS não é apenas uma provocação ou uma ironia sobre saúde mental. É a chave para entender Bruce Wayne, o Batman e o tipo de masculinidade que muitos homens aprenderam a admirar com uma seriedade que beira o sagrado, o que é muito perturbador. Até porque, Gotham é uma cidade completamente adoecida e inundada de violência, paranoia, isolamento, obsessão, trauma e medo.[Parece só mais um dia comum em São Paulo] E mesmo assim, ninguém naquele universo parece acreditar em cuidado psicológico. Tudo é resolvido através da lógica do combate, da vigilância e da força. O acolhimento, convenhamos, é coisa de cidade fraca. E até a psiquiatra fodona com doutorado e tudo, despirocou de vez. Não é mesmo senhorita Harley?!

Pois bem, Bruce Wayne perde os pais de forma brutal ainda criança e transforma o próprio trauma em um projeto de guerra pessoal. O fandom, no entanto, raramente interpreta isso como sofrimento psíquico. O que muitos enxergam é disciplina, resistência, foco e eficiência. O trauma desaparece como dor humana e reaparece como fetiche de virilidade. [Mais uma característica muito perturbadora]
O sujeito não dorme, não confia em ninguém, vive paranoico, responde ao luto com obsessão compulsiva e passa a noite inteira vestido de morcego espancando pessoas com uma roupa de BDSM. Mas aí uma quantidade absurda de homens olha para isso e pensa, com toda a sinceridade do mundo: GIGANTE!! AUHH, AUHH, AUHH!!

Existe algo profundamente “revelador” nessa admiração. Porque o “preparo” do Batman nunca é emocional, psicológico E MUITO MENOS afetivo. O preparo é sempre externo: dinheiro, treinamento, tecnologia, resistência física, controle absoluto e capacidade de suportar dor. Ou seja, exatamente o tipo de resposta que a masculinidade tóxica costuma oferecer ao sofrimento masculino. O homem pode estar completamente destruído por dentro, desde que continue funcionando como máquina de desempenho. A dor só ganha legitimidade quando vira produtividade. O trauma só é aceito quando produz eficiência e um uniforme de couro bem agarrado ao corpo com uma capa.
Bruce Wayne não é apenas um herói traumatizado: ele é a fantasia contemporânea do homem emocionalmente adoecido que converte sofrimento em poder. Talvez seja por isso que tantos homens o admiram com tanta intensidade. O Batman oferece uma imagem sedutora da dor masculina, aquela em que sofrer sem pedir ajuda, suportar tudo sozinho e transformar colapso emocional em performance heroica não é um problema a ser tratado, mas uma qualidade a ser celebrada. O problema, claro, é que isso não fica preso na ficção.

Fenômenos como o movimento Legendários ou discursos recentes de Juliano Cazarré dialogam diretamente com essa lógica. Existe uma espécie de espiritualização da virilidade acontecendo nesses espaços, onde homens sobem montanhas, enfrentam provas físicas, realizam dinâmicas de resistência e transformam sofrimento em ritual performático de masculinidade, como se o amadurecimento emocional pudesse ser substituído por exaustão suficientemente fotografável. [Os caras acham que estão no filme do Christopher Nolan]
O mais curioso é que o discurso quase sempre gira em torno de “resgatar” homens enfraquecidos, só que esse resgate raramente envolve vulnerabilidade emocional real. Não envolve linguagem para sofrimento psíquico e saúde mental. O homem pode sangrar, mas chorar é absurdo demais.
A masculinidade tóxica, especialmente a que abraça homens cis e heterossexuais aceita o “macho” em guerra, mas se perde quando se depara com um semelhante em sofrimento. E é por isso que o paralelo com Batman funciona tão bem. Bruce Wayne também transforma dor em ritual.
E então o título deixa de ser metáfora engraçada e vira tese. Gotham não tem CAPS porque aquele universo não possui linguagem para acolher homens traumatizados sem transformar o trauma em espetáculo de força. Bruce Wayne não aprende a sofrer: aprende a operar, a vigiar, a suportar, a bater antes de desabar.
A pergunta mais desconfortável sobre o Homem Morcego talvez seja justamente essa: se Bruce Wayne tivesse recebido acolhimento psicológico verdadeiro, ele ainda precisaria virar o Batman? Porque existe uma possibilidade extremamente incômoda aí.
Talvez o herói mais idolatrado da cultura pop seja também uma das maiores fantasias contemporâneas da masculinidade adoecida na representação de um homem incapaz de se curar, mas extremamente eficiente em transformar sofrimento em produtividade e poder simbólico. E talvez seja exatamente por isso que tantos homens o chamam de ícone de preparo, porque o símbolo que admiram não é o da força, mas o da dor que nunca se resolve.

No fim, as Empresas Wayne e o Estado em Gotham investem bilhões em tecnologia militar, combate ao crime, armaduras, carros, jatos… e até em spray anti tubarão [se você viu o filme do Batman 66 vai entender], mas nunca resolve o sofrimento estrutural da própria cidade. Gotham não tem CAPS porque Bruce Wayne também não tem, e os dois parecem muito satisfeitos com esse arranjo.

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*Laluña Machado é Palestrante, Professora e Escritora. Graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB e Pós Graduada em Ensino de História – Uniamérica. Jurada Técnica do CCXP AWARDS e do Prêmio Mapinguari de Quadrinhos, curadora do Santos Criativa Festival Geek, vencedora do Troféu HQMIX nas categorias Melhor Livro Teórico e Melhor Mix com a produção Mulheres & Quadrinhos e com História dos Quadrinhos EUA na categoria Melhor Livro Teórico. Também conta com indicação no troféu Angelo Agostini como Melhor Publicação com o Mulheres & Quadrinhos. Além de ser a maior especialista tórica em Batman do Brasil. Foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB. Além disso, é Mediadora Cultural na Gibiteca de Santos e conteudista no site FacadaX. Também é pesquisadora Teórica de Histórias em Quadrinhos, apontando direcionamentos que envolvem contexto histórico, sociologia e filosofia para uma leitura mais crítica da nona arte.
Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd.

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