Plástica do caminho cool: para onde fica o lado?

por Túlio Flávio*

Cheguei à conclusão que os “cools” merecem morrer. Os que sobraram, claro. Essa herança coolística dos nossos membros originais de décadas, séculos atrás, – citarei apenas o menor dos seus problemas -, faz do mero produtor o ‘artista’ dos artistas. E o artista tendo um produtor assim evolui gradativamente para uma raça que nem os pokémons são capazes de alcançar. Como eu estava falando, os seres que já mudaram de plano conseguiram fincar profundamente um reinado árduo e espinhoso que não é pra todo mundo não. Se você pensa que o tridente ou a coroa foi deixado por aí pra quem quiser pegar, pra quem chegar primeiro, está profundamente enganado, principalmente se acha que atitude e “coolidez” é comprada em lojas de discos, livros, encontradas em jogos de xadrez, em bares exóticos… Se nunca pensou em ganhar um abacaxi num desses programas de tv perto da sua casa, nem ser chamado para um vernissage do alemão que foi abusado sexualmente quando criança e pinta pior do que o seu sobrinho de 4 anos de idade,- porém sabe investir em conceitos ultra cabeça -, nem passou um ano estudando em Paris e voltou achando que tem um pau estilo Torre Eiffel e anda falando carioca porque morou com um gaúcho… sem dúvida estarás num caminho de muita luz irmão, longe dos cools e da sua mediocridade pseudointelectual.

Imaginei nesse instante um amigo lendo isso aqui e querendo discutir sobre hermafroditas, androginia, suicídio coletivo, sexo a cavalos…Ah! Leia amigo cool, saboreie e odeie o seu amigo aqui, sem mas. Ta achando ruim?Ta a fim de ser cool? Então se mata e vai perguntar a Hendrix, Cobain, Wilde, Mozart – todos que semeiam aquela competição sem fim na prática pós-vida da coolidez permanente -, qual é o segredo da percepção extra-informal da dádiva cool dos seres de luz do universo. Mas pra saber a resposta sabe o que tem que fazer, né?

Se eu fosse listar as pessoas que se consideram do meio, e que ainda estão vivas… hum… Com certeza teria um problemão. Mas como amigo é pra essas coisas citarei apenas alguns nomes que eu conheço e que gostaria de vê-los embaixo da terra. Calma! não lhes desejo mal, muito pelo contrário, quero é encorajá-los ao encontro rumo a felicidade, ou acha que eles gostam de ser assim? Morrer não é tão ruim, não é Jason? Apesar de cools, também são seres humanos como quaisquer outros: Já jogaram vôlei em frente a sua casa, compraram o leite de manhã cedo, são adeptos das revistas pornôs, e na maioria das vezes se sentem os últimos dos seres. Mas quem não se sente? Bom, acho que os baianos do axé nunca se sentiram. Porque eles sofrem de auto-estima elevado, e por isso acham que são os donos da Bahia e da cultura afro-cult-iemanjá! É uma pena, mas não é um problema, como diria nosso amigo don Juan.

A minha lista dos que deveriam morrer este ano estão em 7 amigos. Mataria dois em São Paulo, um em Brasília, e um no Rio de Janeiro… Só em João Pessoa mataria uns 23. No entanto, não posso aniquilar uma porção tão grande de uma vez só, pois haveria um certo desequilíbrio para a formação da próxima geração. Deixarei em 3 nesta localidade, certo? Abaixo descreverei algumas características inspiradas em alguns seres desta facção que insistem em auto intitular-se os líderes dotados de atitude, bate-papos cabeções-mutante e muita, mas muita vontade de ser alguém importante:

Ser cool é:

… ir para uma festa e detestar quando são abordados por mais de duas pessoas ao mesmo tempo. Eles fingem odiar, mas por dentro estão se coçando para que todos, sem exceção, os vejam e notem sua presença.

… é ser muito discreto e sempre manter uma fala pausada e um tom aveludado de voz. Converse com alguns integrantes de bandas de Recife e note suas performances fora do tablado. Eles odeiam abordagens em tons altos de voz como: diga aí cara, tudo massa meu irmão? Anda fazendo o quê da vida? Isso é o fim. Muitas vezes costumam reagir virando-se lentamente e pedindo uma dose de vodka com suco de laranja com manga bem gelado.

… dizer que está ouvindo um grupo da Finlândia que bebe nas tradições arcaicas do experimentalismo neo-medieval das andorinhas anglicanas do início do século XVIII. O ser cool é muito competitivo. Por exemplo, jamais dirá que ouve um artista que está na boca das pessoas. Só eles conhecem tudo, e quanto mais conhecerem, mais seletos e ousados serão os papos.

… beber saquê com suco de pêssego e dizer que merece tudo do bom e do melhor, pois já viveram o suficiente. Apreciam cigarros fabricados por escravos tailandeses com menos de 9 anos de idade; muitas vezes fumam o famoso derby mesmo. Há essa coisa de ou oito ou oitenta.

… sair de casa apenas nos grandes eventos, pois não perderiam tempo com qualquer bobagem. Pois há muita literatura, discussões intelectuais na casa de amigos, pintura ou composições para serem estudadas, apreciadas, e trabalhadas na sua toca (sempre haverá qualquer coisa, ele sempre diz que está ocupado).

… ter muito orgulho de quem é ou do que já fez, seja ter participado de uma grande convenção internacional, resolvido uma grande equação matemática, ou ter lido embriagado um poeminha escrito no fim de uma noite de revolta e rancor. Qualquer status é digno de profundo orgulho e empinação,- narigásticamente falando, óbvio.

(No final, Zackarias, pra variar, perde completamente o rumo da prosa e dá uma de cigano Igor fingindo omitir os sentimentos mundanos de sua alma, mas não hesita em soluçar desespero e compaixão quando lembra do finado Mussum, e Tatu, da ilha da fantasia).

(o mata leão)

Eu já fui cool, confesso. Não quero mais. Segundo Buda, a causa de todo sofrimento está no desejo. E essa competição não está mais para mim assim como não está o devaneio e a sinceridade caótica de fazer o que nos foi resignado desde que nos entendemos por cria. Acredito que a próxima raça virá com toda. E não restará um cool sequer. Talvez seja saudável ler os livros de Paulo Coelho, Lair Ribeiro, Sidney Sheldon, fazer parte do todo e parar de consumir a literatura da instigação. Deixar um pouco Terence Mackena de lado.

Milhões e milhões de combustível são injetados em todo o planeta, porém canalizados por pessoas que sentem o medo e recuam logo ao sentir o primeiro gostinho. No dia que elas resolverem ir em frente, será tarde demais. Se o próximo passo é viver como os Morlocks (raça mutante que vive em baixo da terra), acho melhor desligar a luz do sol agora, porque se brilhar demais pode cegar. E cu de cego não tem dono: na plástica do caminho cool, tatu caminha dentro?

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*Túlio Flávio é paraibano, músico, gosta de ouvir Zackarias Nepomuceno e A Mãe de Quem?. Mora no Rio de Janeiro.

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