Envelhecer é bom, besta

por Roberta AR

Outro dia estava andando pela rua, ou melhor, pela quadra, que já não existem ruas na minha vida faz tempo, e uns garotos jogavam bola numa escola parque qualquer. A bola caiu bem na minha frente e eu a devolvi. Num ato de simpatia controverso, um dos garotos começou a gritar: “Obrigado, senhora”.

Eu sou professorinha de formação, fiz magistério, que comecei a cursar com 14 anos. Estou acostumada a ser chamada de tia desde muito cedo. O que aquele garoto pretendia era me deixar encabulada, porque parece que ele já se ligou que é bem ruim fazer uma mulher se sentir velha.

A sensação foi ótima nos segundos em que constatei a intenção sinistra do futuro machistinha: percebi que, de cima dos meus 32 anos, estou absolutamente satisfeita em estar envelhecendo. Foi uma delícia perceber que eu podia ser mãe daquele pirralho, que seria mais educado se fosse meu filho.Gritei um “de nada”, rindo.

Não acredito que haja idade certa para se fazer o que quer que seja. Vamos supor que o tempo não é linear, que seja circular. Num círculo não há começo. Quando entramos na roda, entramos em qualquer ponto, e isso não faz diferença no andamento do tempo, porque ninguém está se dirigindo para um fim, do mesmo jeito que se entra, se sai. Então o que para alguns acontece na adolescência, para outros pode acontecer na maturidade.

E foi exatamente isso que eu li no novo de Gabriel Garcia Marquez. Em Memórias de Minhas Putas Tristes ele descreve o primeiro amor de um homem que surge em seu aniversário de 90 anos. Um primeiro amor como todos são, inseguro, apaixonado, angustiado. Um homem que achou que ia acordar morto no dia em que se tornasse um nonagenário e acabou renascendo num amor pueril, cheio de contradições.

Nem me sinto capaz de dizer mais sobre esse livro que li em apenas um dia. Nesses tempos em que a velhice se torna uma possibilidade palpável, já que a expectativa de vida do brasileiro tem aumentado bastante, é um alento ver a maturidade registrada com tanto cuidado.

Coincidência ou não, acabei investindo no tema esta semana. Com a morte de Raul Cortez, decidi ver um filme com ele. Escolhi O Outro Lado da Rua, que traz também a Fernanda Montenegro como uma mulher frustrada, que foi traída e abandonada por seu primeiro marido e vive amargurada por isso. Ela trabalha como voluntária para a polícia do Rio de Janeiro como uma espécie de dedo-duro profissional de supostos crimes que ocorram em Copacabana. Raul Cortez faz um juiz aposentado, que ajuda a abreviar a vida de sua esposa, que sofre de câncer. Esse suposto crime é o que aproxima esse novo casal e traça um outro horizonte na vida dos dois.

Lindo e sensível. Pode não ser um filme estupendo, mas a impecável atuação do casal força um olhar diferente para a sexualidade na chamada terceira idade. É linda a cena de sexo entre os dois, que foi a mais falada pela crítica na época em que o filme saiu no cinema. Nem é nada demais, mas parece que o mundo realmente não está preparado para a vida após os trinta anos.

Lembro de uma conversa que tive com uma nova amiga. Ela tinha medo de estar velha demais para realizar sua “missão”. Eu disse, e repito, que o tempo é só uma convenção. Sempre é tempo para tudo. Tem que ser. Os manuais de auto-ajuda não entendem nada da vida, porque ela não serve para nada. A gente só deve buscar ser feliz. Quer coisa mais difícil?

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