Damien Song (parte I)

por Fernando “Rá” Vasconcelos*

Poderia iniciar essa história falando de como a vida é cruel e de como o sistema provê o inferno de boas almas que desandam no espaço sem fim, até o desabar certeiro final rumo ao abismo insolucionável a sete palmos da terra. Ou poderia discorrer sobre mais um caso clínico, iniciar descrevendo de forma técnica e concisa como era o tipo físico e o perfil psíquico, porque Damien não era uma doença ou mais uma aberração da natureza perfeita e sim uma pessoa que insistia em ter opinião própria. Só sei que ele, desde que nos conhecera, não nos esquecera, ia todos os dias em nossa casa e por vezes tivemos que ser grosseiros. Além do mais Damien fumava, e o que é pior de tudo, do meu cigarro, e pedia café e comida o tempo inteiro, aliás ia nas panelas ver o que tinha e abria a geladeira, o que só fez uma vez, porque eu vi e dei-lhe uma comida de rabo do tamanho do mundo, que em outras circunstâncias ele adoraria, porém Damien era um menino desses excluídos e sua mãe, uma mulher muito conversadeira, metida a sabida, porém muito conversadeira e dominadora, apesar de aparentar aquela humildade sorrateira, que pessoas de cor que não se tocam de que cores não importam da forma que se pensa por aí e além do mais se esquecem ou desconhecem que dependem totalmente da luz. Porque eu, se tiver no escuro desapareço, e se a luz for muito intensa, fico mais amarelado que o sol, logo essa pseudo-humildade, que mais se parece com a capacidade mutante de escapar escorregando, nunca me enganara. Apanhara tanto do padastro, pai dos outros três irmãos, que adquirira uma rara alteração na conformação da córnea, aliás ele e a mãe sempre atribuíam o problema ao monstro do padastro, como quem transfere toda a responsabilidade do dolo ao agressor, justificando daí toda a sorte de desventuras que o destino lhe traria. Aquela senhora não dissera àquele menino os reais motivos daquela agressividade do seu padastro, mas Damien sabia porque ele vira e ouvira certas coisas que não se devem ver ou ouvir, mas traumatizado e excitado que ficou com a cena, guardou aquilo. Sua mãe sempre que queria que o filho fosse mendigar na rua por um pedaço de pão ou um parceiro para ela, era uma doçura, porém quando estava naqueles tempos que precedem a descida do fluxo ou quando estava bicada, sim bicada, e é porque se dizia crente e tementíssima ao Senhor de Todos os Senhores, ficava uma vaca de safadeza e maltratava o “coitadinho do ceguinho” como era hábito chamar-lhe todas as vezes que queria sangrar um pouquinho o coração de Damien, e muitas vezes ele saiu correndo para escapar da luxúria daquela mulher que era mais uma dessas que transformam-se em monstras para poderem suportar o resto de suas vidas.Esse tipo de gente sabe que vai direto pedir a benção do cão quando morrer, mas enquanto não morrem…

Damien foi percebendo que tinha uma dificuldade visual, caía muito, batia nas coisas e nas pessoas, era um completo pateta (Stooge) e além do mais com o tempo e com a fama já conseguia fazer uma graninha na feira e na igreja. A casa em que viviam tinha dois vãos pequenos, o primeiro era dividido ao meio por um guarda-roupa aos pedaços, das costas do guarda-roupa para a parede ficava um espaço que servia de corredor de entrada, onde duas poltronas também aos pedaços, ficavam. A irmã criava um rato,nada mais asqueroso que criar um rato, mesmo de laboratório, e ele odiava isso. Como sua mãe não se importava e dizia sempre que se a menina adoecesse, Deus cuidaria, uma vez mais tirando o corpo da responsa de fora e delegando ao Criador os poderes que lhes são pertinentes, jogando nas mãos do Cansado Senhor das Criaturas a batata quente de volta, e daí o resultado que for conformará a todos, afinal assim foi o que Deus quis. Damien sangrava e muito, via aquilo no seu olhar, e muitas vezes fui eu quem lhe fiz jorrar sangue. Mas ele parecia já ter se acostumado a ver seus pedaços pelo meio do caminho por onde andava, Damien andava pra caralho.

O Calibre do Maquinário Hidráulico Novo
por Rá

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* Fernando “Rá” Vasconcelos é paraibano, médico, pirado, sem noção, que ainda vai morrer do coração. Mora em Recife.

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