Eu fui Edmar Leitão (primeira parte)

por Sebatião Vicente*

Edmar Leitão era um ás com uma pistola na mão. Corriam os anos setenta quando ele surgiu, com sua sombra viril recortada contra o alaranjado de um pôr do sol num lugar qualquer do sertão. Edmar Leitão metia medo até em alma. Qualquer valentão se desmanchava de pavor quando encontrava Edmar Leitão. Edmar Leitão escrevia suas iniciais a bala nos paredões das casas onde moravam os homens que estavam marcados para morrer. Homem que seriam mortos por ele, era só uma questão de tempo. De dias ou de horas. Edmar Leitão usava óculos rayban, calças jeans, cinto de fivela dourada e no peito um medalhão como o de Roberto Carlos. Embora fosse bandido, Edmar Leitão parecia artista de filme faroeste. Edmar Leitão lembrava John Wayne e Jerônimo, o herói do sertão. A diferença é que o artista nunca morre. Mas Edmar Leitão era um bandido tinhoso e só morria no final. Edmar Leitão era uma pistola com um ás na mão.

Agora mesmo, Edmar Leitão está entrando na cidade para cumprir mais uma missão. Seu andar é gingado e ele tem uma cicatriz na face esquerda que o sertão inteiro conhece. Ai de quem cruzar com aquela cicatriz. Na rua de barro batido onde se inicia a cidade, Edmar Leitão pisa com gosto no esgoto a céu aberto que empesta o ar. As botas de Edmar Leitão são à prova de micróbios. A expressão no rosto de Edmar Leitão é a dos facínoras que empestam o cinema americano. Uma mosca varejeira insiste em perturbar a paz de espírito de Edmar Leitão. Ele acerta a mosca com um peteleco e segue seu caminho. A pistola de Edmar Leitão já lhe formou uma cavidade na barriga. A depressão lhe provoca uma incômoda dor no estômago, mas Edmar Leitão não liga.

Uma criança suja e vestida apenas com uma camiseta que cobre a barriga enorme se aproxima inocentemente de Edmar Leitão. Ele tira a mão direita do bolso e parece que vai fazer um carinho nos cabelos louros da criança. Mas ele fecha o punho e dá um tremendo cascudo no couro cabeludo do menino, que corre e entra chorando na primeira porta que encontra. Edmar Leitão avança e logo percebe que há outras pessoas em seu caminho além da criança. Agora ele já entrou na cidade. Homens conversam numa birosca. Adolescentes jogam bola num campinho improvisado. “Vai, Rivelino!”, grita um adolescente. Um homem vem dirigindo uma Rural. “Ê, bicho cangueiro”, ri um homem recostado no balcão da birosca. Parece que ninguém ainda se deu conta da presença de Edmar Leitáo. Mas Edmar Leitão sabe se fazer notar. Ele vem caminhando e de repente pára. Ergue o queixo, abre as pernas e leva a mão ao coldre (a cavidade natural que criou na barriga) como se fosse duelar.

Homens e adolescentes de repente começam a se afastar. De repente, não. No início, eles caminham lentamente na direção das casas da rua. Logo apressam o passo. Apressam mais. Agora correm e mal vêem a hora de fechar as portas por trás de si. Edmar Leitão está na área. Ninguém é louco de facilitar.

Agora a rua está deserta. Edmar Leitão só tem a companhia de sua própria sombra. Ele continua parado, queixo erguido, pernas abertas, mão no coldre de carne. Olha para a direita e faz uma pausa. Olha para a esquerda e novamente pára. Edmar Leitão fareja seu alvo e não o encontra. A cidade é maior do que ele imaginava. Ele terá que caminhar um pouco mais para encontrar seu alvo. Edmar Leitão é esperto e corajoso, mas agora tem a boca seca e resolve se refrescar.

Edmar Leitão vai até a birosca e pede um trago ao moleque que atende os fregueses. Com as mãos tremendo, o moleque mal consegue despejar a pinga no copo ensebado que entrega a Edmar Leitão. O moleque acha que o ato de servir um trago de cachaça a Edmar Leitão será seu último feito sobre a terra e percebe o quanto foi inútil a sua existência. Mas Edmar Leitão não tem tempo de se preocupar com a inutilidade de uma vida que não tem por que tirar. Edmar Leitão não sabe exatamente por que tem simpatia por tirar a vida de uns e não a de outros. Só sabe que não resiste ao poder dessa simpatia. Edmar Leitão mata por dinheiro mas também por antipatia. Muitas vezes ele mata apenas para se livrar de um incômodo qualquer. Edmar Leitão se pergunta a si mesmo, enquanto bebe a cachaça, por que não matou a criança buchuda que o abordou na entrada da cidade. Edmar Leitão acaba de beber a cachaça e não encontra uma resposta. Ele limpa a boca com as costas da mão e se sente pronto para seguir em frente.

Edmar Leitão avança por uma rua onde ainda não notaram sua presença. Mas não demorarão a notar. Um homem espanca uma mulher da vida bem ao lado da calçada por onde Edmar Leitão passa. A mulher grita de dor com a sova que recebe do homem. Ele a chama por nomes feios e ao redor um punhado de moleques se diverte com a cena. A mulher parece fraca e doente. Seus gritos são agudos. Sem a menor chance de resistir, ela percebe a presença de Edmar Leitão e seu olhar de cacto. Aos olhos da mulher, Edmar Leitão parece com um santo ou um doutor. Ela fixa o olhar no olhar de Edmar e grita por socorro. Edmar Leitão leva a mão à barriga. O homem percebe e pára de bater na mulher. Os moleques batem em retirada. A mulher continua gritando por socorro. Edmar Leitão, irritado com o alarido, dispara três tiros na cabeça da mulher e segue seu caminho.

* Sebastião Vicente, ou apenas Tião, é natural do Rio Grande do Norte, iniciou a carreira de jornalista em Natal e deu continuidade a ela em Brasília. Depois de trabalhar em diversos veículos impressos e de TV, virou servidor público e agora edita programas na TV Câmara. Ele pode ser lido também no blog Sopão do Tião .

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