Quem nos dera, ao menos uma vez mais…

por Tiago Penna*

Hoje, 1° de junho de 2007, quase cinqüenta anos após o homem ter pisado na Lua, saiu no jornal: descoberto grupo indígena com 87 integrantes que nunca tiveram contato com o homem branco. A postos, o “chefe” da FUNAI, e um cacique de nome estranho, irão tentar o primeiro contato. Pra quê? Me pergunto. Quando falaram sobre os ianomamis na década de 90: “última tribo de índios sem contato com os brancos”, eu raciocinei na hora, não são os últimos, nem sequer os antepenúltimos. Hoje, 15, 20 anos após minha especulação adolescente, posso testemunhar pela televisão o que minha intuição já me dissera de imediato. Nós não estamos sós. Nem eles. Coitados, não podem viver isolados? Por que não? Eles não são índios? O que o governo brasileiro ou nossa sociedade pode dar de produtivo para esses índios vivos? Um assentamento? Uma televisão de plasma? Uma camionete de luxo, última geração?

Como uma daquelas coincidência, daquelas que só os loucos percebem, ouço da janela do meu apartamento, à beira mar da capital da Paraíba, uma moto-serra, matando alguma árvore indefesa na mísera reserva ao lado da minha casa. Mas não se preocupem. Eles (os assassinos) são do governo. Esta é a terceira vez que me deparo com uma situação dessas ao vivo. Na primeira, muito louco, resolvi telefonar para o disque denúncia do IBAMA, órgão instituído a priori para proteger o verde. Me falaram: “Ah, mas é na Universidade Federal, deve ter autorização…”. Pois então verifique!! Não tive capacidades de ordenar. Na segunda, translocado, escrevi um texto, pois percebi que os humanos pouco se lixavam, enquanto o cadáver da árvore verde e em plena forma era dilacerado no chão, enquanto a seiva etérea ia escorrendo. Até aonde vai a vida? Até a planta secar? Assim que ela é desgarrada do solo? Quando ela não puder mais dar frutos? Ou apenas quando apodrecer?

Me pergunto: hoje já é São João aqui no Nordeste. Será que tão catando lenha? Fico ansioso. Verifico pela terceira vez. Trata-se de um caminhão oficializado, sabe-se lá daonde. Bom para se pensar é a questão: até onde vai a oficialidade e até onde segue o bom senso? Voltando à questão indígena. Pergunto-me: se acharam esse grupo em pleno século XXI, no meio da região centro-oeste, o que deverá haver abaixo daquela imensidão de copas verdejantes que é a Amazônia Brasileira? Porque intervir? Pra quê? Para levar-lhes doenças, por certo, aprender pouco ou nada, e “ensinar-lhes” a serem cidadãos brasileiros, abandonados por certo, nem índios, nem brasileiros, um misto destituído dos dois, sem hospitais, com algumas vacinas, sem universidade, com pneumonia e diarréia, sem conta no banco (até quando?), com destaque nos mais importantes telejornais internacionais. Nós, civilizados e educados, estamos loucos para ver este resquício de barbárie nativa, queremos vê-los nus. Não queremos ver seus rituais mágicos. Mas sim os seios das indígenas adolescentes. Queremos saber como sobrevivem, sem coca-cola, hambúrguer, ou televisão. Como alguém, pode viver assim, perguntam nossos psicólogos, sociólogos, antropólogos, filósofos, artistas, comunicólogos, engenheiros, doutores do direito e da medicina, anciães, crianças com mães, e também aquelas abandonadas.

Can you hear me? Can you feel…?? What? The vibe, my brow. wht do u thnk about tht?

Você já pôde ouvir uma moto-serra em sua ação assassina? E sentí-la? Você pôde? Ou sua mente está calculando os afazeres domésticos e bancários, as verbas e notas da faculdade?

Para onde essa indagação poderá me levar, só Deus sabe, ou talvez o meu inconsciente:
Domesticado está ele a tremular diante de tanta atrocidade de fantasias desesperadas e inesperadas santificadas pelo Papa de outrora como da outra vez perante o inatingível translúcido, indago: não quero mais calcular, quero intuir, mesmo que ela me leve para o buraco, como fez da última vez em que foquei minha atenção em um dálmata que grunia, sabe-se lá porquê, e quando fui dar atenção devida pareceu sorrir de felicidade enquanto abanava inescrupulosamente aquele rabo canino, mas o cão me mordeu na jugular assim que pôde, e enquanto não acabar o papel não finda-se a especulação humana, mas estamos na era dos computadores, não há papel, há virtualidade, admirável mundo novo, é isso que queremos: levar para os nossos índios, “bem vindos ao século XVI”, bem vindo Pedro Álvares Cabral, você vai querer enrabar quantas dessa vez? Pero Vaz, digo, Bonner, manere a língua, fale bem do governo, mas não elogie a dissidência, pode ser perigoso para o seu emprego, e para o seu papel de orador da nossa terrinha, eterna colônia, os filhos dos índios, eternos cheira-colas, quem deve olhar por eles? Apenas as damas caridosas de alguma ONG naturalista, ou algum douto em algum tipo de ciência, inexata, desumana, por certo, longe da saúde mental que assola esses povos ditos selvagens, mas que não costumam cometer estupros, latrocínios, adultérios (oxalá deve saber se é permitido), ASSASSINATOS.

Após essa digressão surrealista, vale reler o texto e verificar a racionalidade do mesmo. Quem vai dar a vida pela Amazônia? Ou não percebem o montante de cientistas, leia-se bio-piratas do velho mundo, ou os aviões-radar do imperialismo verificando se há combustível nuclear de primeira em nosso afamado e desde já ameaçado território nacional. Estão de olho no futuro. Mas nós não temos passado. Temos apenas um pseudo-problema, chamado presente. Em que alguns perdem tempo lendo um testículo como esse em algum blog talvez um pouco menos idiota do que a maioria, ou perde-se tempo escrevendo textos, que jamais lhe dará retorno, apenas para esvaziar a mente de tanta angústia, como se alguém quisesse mesmo saber o que o autor pensa, se é que ele pensa mesmo. Ele é formado em quê? Graduou-se aonde? Escreve para quem? Tem fama? Tem relevância?

Please God, My Lord, can you hear-me? Please, answer me. Nâo deixe nossa herança ser pilhada mais uma vez. Quem nos dera, ao menos uma vez, ficar feliz com o achamento de uma terra nova, onde plantando-se tudo dá.

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* Tiago Penna é candango, professor de filosofia, videasta, roteirista, produtor e mais outras coisas em audiovisual.

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