Medíocre

por Biu*

Para mim.

1. Eu sou um desses caras com esqueletos no armário e cobras nos bolsos e uma faca na cabeça. Antes arrastava cadáveres, mas aí me estabeleci e agora meus mortos têm um lugar só deles. É como um aquário, eu vou lá, dou uma sacada, certifico-me de onde vim, para onde vou, e relaxo. E tirando a faca, que resolvo com analgésicos e um chapéu, pois ela não sai de lá, considero-me o mais normal dos seres ordinários, o animal perfeito para um grupo controle de DL50 e por isso contarei minha história: Em nome da ciência. O que precisamos é de mais ordinários como eu, nem preto nem branco, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem forte nem fraco, para completarmos um grupo controle representativo, mais noventa e nove voluntários e formamos um chat de discursão para testes em duplo cego, onde quem gritar mais alto é guia. Ando pensando nisso. Recentemente fiquei sabendo que fármaco etimologicamente, além de remédio e veneno, também significa linguagem escrita e seu radical também designa bode expiatório. Com esses dados em mãos facilmente reconhecemos as regras de um jogo onde a mesa sempre leva a melhor, não é mesmo? Arrombadores biológicos, Pignarre os chama em sua versão moderna. Você precisa ir ao Youtube e ver a imagem de um Bacteriofago invadindo uma célula, que seresinhos brilhantes, assassinos altamente refinados como nós nunca seremos e com os quais temos de aprender a conviver se quisermos durar por aqui. Não, senhores, o homem não é o lobo do homem, o homem é o homem do homem, e o lobo é o lobo do lobo, e um terremoto mata ambos, e um vírus sobrevive aos três, noves fora, rabinho entre as pernas, senhores, sejamos medianos, vamos ao teste…
Consiste em ficarmos os cem em uma sala onde a ciência nos provará mas não a todos, apenas cinquenta serão os escolhidos, contudo, nem os cem nem a ciência saberá quais dos cem são os cinquenta, e se, ao cabo, sessenta se salvarem significa que há algo errado com nossa crença na ciência, mas isso logo se resolve, com vinte e cinco miligramas disso ou daquilo duas ou três vezes ao dia, todo dia.
Analgésicos, esqueletos, aquário, cobras, um chapéu e um cão. Meu cão chama-se Fait Divers, ele é peludo, babão e rola no chão. Eu me chamo Ismael, quanto a você, chamai-me como quiser: Call Anything, eis um bom nome para uma música caótica cuja ordem incompreensível só pode ser insinuada e subentendida. A Love Supreme é um bom nome para esse acorde mágico, o Fármaco, a Blue Note, o trítono com a tônica, segundo Stevz e colaboradores: Quarta com sexta aumentada e que já foi chamada Diabulos in Música e proibida na Idade Média por gerar a tensão que exige resposta imediata, e é outra a cada música.
Mais palavras, portanto.
O Fármaco age por sedução, afirmou Derrida. Ele precisa do diálogo e de um tema e de uma trama, teatro.
Vá ao Teatro. Diga ao balconista que precisa de algo para dor de cabeça, algo mais forte que o usual, diga isso a ele, diga-lhe que estou disposto a pagar o preço, pisque-lhe um olho, pergunte se o que indica é do bom, pergunte se não é um similar, de farinha, um placebo, comprimido, cheio de solvente, peça dois gramas, diga-lhe que deixe um espaço no livro, a receita vem depois, como sempre, já datada, em qualquer cor. O caô do caô do caô…

2. Eu nasci muito longe daqui, muito tempo atrás.
Quando nasci a lua incendiou-se, juro. Na floresta escura brilhou os olhos da pantera, e fez-se luz. E você deveria lembrar-se disso, pois também estava lá.
Como estamos todos carecas de saber, mas não custa passar uma navalha só para garantir, estrelas de neutrons não colidem todo dia, agora temos esta floresta de luz, ficou claro que há uma pantera lá fora, gravitando nosso espaço. O que fazer?

Auto-Trepanação. Distúrbio de personalidade, ou apenas uma solução fácil?
Gagueira, má formação congênita, ou indício de mutação?
Jesus, rei dos reis ou ET?

Questões pertinentes que nossa época ainda não conseguiu responder. Grandes dilemas antropomórficos amplamente discutidos e estudados diariamente em escolas, filas de supermercados e programas de televisão. Depois perceberemos que o buraco é mais embaixo, mas estou me adiantando, e o compasso é importante.
Segundo Thomas Pynchon, que segundo Bráulio Tavares é Bob Dylan, havia esse cara com um parafuso no umbigo, e isso, naturalmente, o incomodava, mas nenhum médico era capaz de livrá-lo daquilo, então, em um sonho, um místico o mandou a uma árvore de chaves de fenda, nesse dia ele acordou feliz, levantou-se de um pulo e sua bunda caiu no chão. Então, deixo a faca aonde está. Faz tanto tempo que já nem sei como ela foi parar aí. É uma faca do tipo peixeira, cabo de madeira, lâmina reluzente que dilata em dias quentes como hoje. Em dias assim o meu juízo latejando ressoa em meu crânio como folhas de alumínio em um pomar de motosserras, eu fico meio grogue e ligeiramente gago e costumo errar na concordância, mas não me surre ainda, amigo, sei que o compasso é importante. É preciso respeitar a cadência. Em nome da governabilidade de se matar e roubar à vontade, às vezes se caindo no ridículo, mas nunca na prisão, é preciso observar a marcha e não destoar do coro. Os bois, depois a boiada.

Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância è Sapiência. Ordem é Progresso. Amor de Cu é Rola.

É o que venho tentando fazer. Acho que sim. Desculpe qualquer coisa. E por isso me considero o mais mediano dos homens, e como o mundo é feito de gente medíocre como eu em sua maioria, acho de interesse dos clínicos sociais estudarem a mola mestra dessa máquina peluda por mim tão bem representada, sob pena dessa geringonça degringolar. Povo, esse desconhecido. Onde vive, o que faz? Estará em um shopping na Paulista, em uma cabaça em Cabaceiras? Quá, quá, quá. E como é também de meu interesse saber onde porra isso tudo va-vai dar, continuo escrevendo, em nome da ciência.
Desconfio que não vá dar em nada. É muita impunidade, saca?

3. É só dar uma olhada lá fora: A tempestade descasca as árvores com espocadas numinosas de luz. Primeiro os frutos, aos borbotões, depois os galhos e finalmente as próprias árvores quedam. O vento rebate a chuva que se quebra com estardalhaço nas varandas dos prédios, os bueiros estouram, os postes apagam, o comércio fecha, o trânsito pára. A cidade capitula, cheia de si.
Talvez seja o fim do mundo chegando, como disse minha traficante, tomando café e comendo pamonha. Talvez sim, eu respondi, tomando conhaque e fumando maconha. “Nossas pernas nunca estão abertas o suficiente na hora do bacu”. Eu vi a hora ter que tirar a roupa para acalmar a vizinhança na janela. Dessa vez por capricho dos homens tivemos que ficar descalços, e eu imagino que depois eles se esconderam em algum lugar e se masturbaram fumando nossa baga e pensando em nossos pés, bizarro. Tinha o com cara de porquinho, tinha o mimadinho e tinha até o intelectual, tinha o bonzinho e o mauzinho, tudo muito surreal: Uó! Sai do carro, mão na cabeça, é bom colaborar, apaga esse cigarro, que falta de respeito, vem ver eu te revistar. Sabia que eu podia te levar pra delegacia…
O que falou comigo tinha os olhos de china e as bochechas rosadas, parecia um garoto que a mãe acabara de pôr talquinho, e tinha o careca, muito feliz em seu papel de malvado nervosão. Nenhum deles sabia argumentar e respondiam às nossas perguntas mudando de assunto, mas mesmo assim foi o bacu mais esclarecedor que já tive o prazer de tomar. Meus agradecimentos sinceros ao soldado porquinho do mal e ao soldado bochechinhas rosadas.
Voltando ao fim do mundo, Auxiliadora acha que vai piorar, disse-me para acertar as contas com a lei o quanto antes, vejam só a ironia, pois ainda vão chegar dragões com chifres, pragas, filho matando pai matando filha matando mãe estuprando filho roubando pai vendendo filha, cavaleiros galáticos e um banho de sangue. Eu acho que o mundo já acabou, mas como não desanimo de uma boa festa, continuo muito bem sentado em minha cadeira, fumando meu cigarro, bebendo meu conhaque e olhando pela janela, aguardando o dragão chifrudo e seus cavaleiros voadores, sorvendo meu apocalipse em doses homeopáticas. Então, nada tema, siga em frente, eu estarei aqui rezando por você, alguém tem que fazer o trabalho sujo e você não tem tempo para isso, tempo é dinheiro, o mundo é dos espertos, é por isso que está esta beleza. Vida em Marte, morte em toda parte, deu na News. A Vida é Bélica, passou na TV. Uma mão lavra a outra, como diz o ditado, e juntas lavam o corpo delito, como dizia minha vó, se é que você me entende. Eu explico: Nada vale a pena quando a alma se apequena. Com vocês o fim do mundo, em primeira mão só aqui.

“De longe dá pra ver as balizas, decrépitas, medonhas. Segue-se a elas aleijados, anões, moribundos em suas camas, lunáticos e alienados, miseráveis de todos os tipos. Eles arrastam-se para frente, zumbis, cadenciados pela banda que vem atrás tocando um tema militar. Um garotinho de bochechas rosadas e cabelos encaracolados muito negros, fardado e de luvas carregava preocupado uma bandeira escandalosa. Os que iam na frente, a medida que sucumbiam, iam ficando pelo caminho e eram pisoteados por quem vinha atrás, às vezes com crueldade, às vezes com indiferença. Havia umas bailarinas descalças com seus pés sangrando, sorridentes, e uns caras de capuz esguichando óleo quente nos espectadores. Nada fazia muito sentido. O sol estava parado no meio dia e os sinos repicavam, havia uns altares, muita gente praguejando, eu não sabia se aquilo era uma marcha ou uma procissão. Pernas de pau de fraque cuspindo fogo uns nos outros, fogos de artifício e salvas de tiros. Sodomia, onanismo e felação. Diante da igreja a banda parou e começou a fazer uma evolução bizarra, epiléptica. Houve um fuzilamento e um batizado. Uma tuba descompassada marcava o tempo, as caixas repicavam um toque de suspense, mas não acontecia nada, dava para perceber a ansiedade de muitos crescendo até explodir em crises de violência mútua, alguns suicidavam-se. Pude reconhecer várias daquelas pessoas, eu vi você por lá, baby, você caminhava sobre minha juventude com saltos de pontas muito finas, eu parecia gostar, hoje não gosto do que vejo, mas tenho as pálpebras pregadas, os olhos esbugalhados, e não posso me mexer.”

É, acontece.

4. Eu sei que venho me distraindo do assunto principal e perdendo o prumo desta narrativa que vem a ser eu mesmo – desse jeito que está escrito. Mas este é um assunto que se come pelas bordas para não se queimar a língua. Eu não me deixaria pegar fácil por mim mesmo, alguém que conheço tão bem. Além do que assim é mais gostoso.
Contudo, e ainda nesse glorioso quarto capítulo, e sempre em nome da ciência, tentarei despir-me de vez de meus pudores e me revelar por inteiro, medíocre que sou. Assim este passa a ser o último capítulo, e na iminência de acabar abruptamente, uma vez que não tenho lá muito controle sobre essas cascavéis que carrego nos bolsos, adiós. E muito obrigado pela atenção.

…Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem gênio nem estúpido, nem empregado nem patrão, nem certo nem errado, nem daqui nem de lá, nem rico nem pobre, nem preto nem branco, nem bonito nem feio, nem velho nem novo, nem rápido nem lerdo, nem de direita nem de esquerda nem de centro, eu não me destaco na paisagem. Nem quero, irmão.
Esse bem que podia ser o final. Mas não é. Eu não poderia, nem as cascavéis, encerrar esta narrativa sem falar deles:

Os Esqueletos.

São alvos, têm o mesmo número de ossos brancos adultos, duzentos e seis, a mesma expressão vazia e pesam toneladas, de maneira que, na impossibilidade de abandoná-los, deixa-se para trás um rastro fóssil onde fica impresso a história do viajante e sua cruz, mais um motivo pelo qual os cientistas, sempre eles, devem escrutinar esta minha narrativa medíocre.
As cascavéis que trago nos bolsos dão-se muito bem com eles, apesar de não se darem bem entre si, daí carregá-las sempre em bolsos diferentes e andar sempre com muitos bolsos. Minha vida é deveras muito malabarística, possas crer.
Na porta do armário onde os guardo, colei um espelho e hoje ao acordar de sonhos do fim do mundo com o martelar da reforma no apartamento vizinho, caminhei até ele, olhei para um homem de meia idade com olheiras que em nada se parece comigo, mas que sou eu, ainda que sem a faca incrustada na cabeça, e mandei-o à merda, abrindo de súbito o armário de onde rolou um crânio, era mamãe descarnada a me dizer ser ou não ser. Deixei-a falando sozinha, como sempre, e tranquei-me no armário com minhas cobras, caveiras e minha personal excalibur, meu exoesqueleto, disposto a reconhecer-me na saída, ou viver de vez aqui. Fait Divers montou guarda à porta.

Aqui é escuro e úmido e confortável, passo a maior parte do tempo em posição fetal, admirando meus recém formados testículos. Comigo estão Clara e Charlie – minhas cascavéis, seus chocalhos me ninam, e também todos os meu mortos – os que matei e os que morreram, e também Ismael, de cujo crânio tirei a faca metafísica que agora empunho. Eu me chamo Severino.

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

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