por Biu*

Minha dúvida, minha única dúvida, eu já superei a morte, passei incólume por esse presépio, aleluia, eu já superei toda essa merda existencialista, My shit is perfect, já caguei toda a merda do mundo, um mundo de merda… Minha única dúvida era se derretia ou se explodia.

Não estou bem certo se o que então percorria minha espinha era eletricidade ou apenas calafrios, tanto faz, por pura ironia, haja visto minha situação, vocês em breve entenderão, por pura ironia minha única preocupação era se o tamborete em que trepei me aguentaria, uma vez que a corda já havia me certificado que sim. Ao contrário do que se pode imaginar, o nó nem é tão importante assim, uma ponta atei a uma viga, a central, tudo bem espetaculoso, a outra ponta ateia-a ao meu pescoço, e esse nó que me desatasse a vida.

E é engraçado, não se pára de ser. De todas as formas que há para se fazer isso essa me era a mais alienígena, mas era o que estava à mão, fazer o quê?

Boa pergunta, a propósito…

Seria um pequeno passo para a humanidade, seria um nada, e no entanto, para mim, um salto gigantesco. O que me afligia nem é se veria mamãe novamente, por assim dizer, era o que os outros iriam pensar, acho que vão pensar… Sei lá o que vão pensar, o tamborete aguenta? Era isso que me afligia. Achei meio bamba uma de sua perninhas, “Isso tudo pode subitamente vir abaixo”, pensei, vai que o “cão atenta”, como dizia minha avó… Será que ela vai estar por lá também?

Acho que não. Eu acho que vou explodir.

E de qualquer maneira foi isso mesmo, uma explosão, mijei-me todo, caguei-me, ora veja você, mesmo com toda aquela merda… Retesei-me…

A corda estirou, estalando em sol maior sustenido, acho, uma blue note, definitivamente, e minhas canelas também estiraram.

Antes de meu pequeno passo fatal surgiu-me esse monstro metafísico em forma de Besta, um Leviatã de mil olhos chamado Morte, ele arrastou-se melindrosamente até mim, estirou-me a língua de fogo, e ficou nisso. Fala, véi, ou vai ficar só dando pinta, indaguei, ao que me respondeu – Creck!

Esperava mais de uma Besta-Fera de mil olhos, devo admitir, mas foi o suficiente.

Shit happens, Shits Happen? Shit Happy. Perdi minha vida, maldito tamborete paralítico de merda. Mas não perdi o senso de humor. Restou-me o que no final resta a todos: Uma boa, gostosa e contagiante gargalhada.

Bum, explodi.

Morri de pau duro. Agora é com vocês.

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

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2 comentários em “

  1. Seu corpo inerte e inútil foi encontrado 5 dias depois, quando o dono do imóvel veio cobrar pessoalmente o aluguel atrasado. A carcaça mal cheirosa foi enterrada como indigente e o bilhete suicida foi devidamente reciclado.
    PS: Não resisti e coloquei no blog aquela estória do jornalista e do deputado que vc e a Roberta me contaram. Abraço!

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