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por Biu*

Prólogo:

No momento mesmo em que você começou ler este texto, Digitus Linhares, que por ora chamaremos de Sr. Finados, abriu os olhos e viu que havia uma faca peixeira cravada até a metade em seu bucho. Algumas tripas suas tinham dado uma saidinha pela porta que a lâmina deixou aberta quando lhe trespassou e fizeram amizade com umas moscas varejeiras que passeavam por ali. O sangue havia coalhado na faca. Estava uma linda tarde de outono.

Ao tentar sacar a faca de suas entrelinhas expostas, com as cócegas que isso lhe provocava, rindo baixinho, Sr. Finados entendeu que estava morto. Escavacando um pouco sua chaga terminou por achar melhor deixar a faca lá, ao menos por enquanto, afinal ela deve estar aí por alguma razão, não é mesmo? Descobriu também, remexendo em seus bolsos, que foi vítima de um crime passional – sua carteira ainda estava lá, com um monte de cédulas dentro. E que se chama Digitus Linhares, trinta e três anos, registro geral número um cinco oito cinco dois dois cinco, natural de…

Não importa. Digitus Linhares está morto e livre deste nome embaraçoso.

Sr. Finados, então, levantou-se e foi fazer a única coisa que resta a alguém em sua atual condição: Assombrar. Estar morto não é nada de mais, mas todo mundo tem direito a um enterro, e ele também quer o seu.

EM LINHA RETA

“É como se eu estivesse morto”, pensou o Sr. Linhares com seus miolos em decomposição, fumando um careta que catou no chão, observando as pessoas passarem impassíveis por ele na rua. Ele está já a algum tempo se esforçando por lembrar-se de alguém ou alguma coisa, mas não consegue lembrar de nada nem de ninguém. Levantou-se e foi tentar achar o próprio nome na lista telefônica. Não havia mais ninguém com esse nome na cidade. Digitus Linhares achou-se a pessoa mais solitária do mundo. E no mesmo instante sentiu que estava sendo observado. Havia mais alguém ali com ele, alguém que o via, que lhe podia ver, alguém com respostas, talvez.

E no entanto o mundo ao seu redor girava de soslaio.

Digitus Linhares decidiu ir fundo nessa questão, ir mais fundo até que o própio fundo, a la crack. E depois de meditar por horas a fio chegou a conclusão de que aquilo era sem condição, não podia ser, que sua situação era absurda, ou ele existia ou não, não havia meio termo para isso. Ou havia? E se até existir é relativo?

Deu um pulinho em uma mãe de santo pra ver qual é. Não pegou nada. Dona Maria de Xangô, uma novata, não soube entender o Sr. Linhares em toda sua complexidade, rolou um frevinho momentâneo, todos passam bem.

Digitus Linhares sonhou que caminhava com uma pá a tiracolo em meio a um enorme parque de diversões. A terra encantada, o castelo de cristal, o navio pirata, a cidade adormecida, a floresta de fogo que consome almas… Entre a caverna do dragão e o país dos duendes ele parou e começou a cavar uma cova rasa onde deitou-se e começou esperar pacientemente que algo acontecesse. Esperemos…

Mais um pouco…

Nada aconteceu. Digitus Linhares acordou. A faca ainda estava lá, ele ainda estava morto: Alguém ainda o está vigiando. Talvez você. Talvez o Sr. Linhares esteja profundamente equivocado, talvez ele esteja, em sua busca pela morte, vivo, e em sua ignorância pela vida, morto, de maneira que não são os outros que não podem vê-lo, é ele que se esconde em si dos outros, que assim acabam irrelevantes nessa história, a história do funeral do Sr. Linhares. Mas os outros são os outros, e você é você, que passou até aqui a discorrer sobre as vísceras literárias de Digitus Linhares, vítima de escrutínio.

Tenha, pois, dó desse coitado e pare de esfaqueá-lo com os olhos, abandone o texto, interrompa o aruspício de Digitus Linhares, e deixe cair enfim a última pá de cal sobre a memória oblíqua desse andarilho de linhas retas em sua viagem infinita até o ponto final, deslizando em espiral pelo ralo de um buraco negro de sete palmos luz de profundidade, descendo cada vez mais fundo para dentro da próxima frase.

Epílogo:

Aqui Jaz Digitus Linhares. Sua vida foi um livro aberto.

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

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3 comentários em “___

  1. O dito morto não é mais, do que aquilo que quero! O viver é como um infortúnio quando se passa a lutar pela vida; o morto quando se viu morto ainda queria estar vivo para que soubessem de sua morte e do porque, ele é a somra de todos nós modernos seres humanos, queremo ser sutis, porém detestamos ser esquecidos ou que passemos despercebidos. Aquele que gosta de ser fantasma, este sim já padeceu, mas quer estar vivo para certificar-se de que tudo aquilo que sempre mal falou continuará a ser u erro, não um mero erro. Já o morto quero o tempo de estar vivo para que ao menos oercebesse que está morto!

    DigóesX

  2. A velha fixação por facas e armas brancas. Essa tara deve ter um nome e talvez uma cura.

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