alô

Por Biu*

olha, moleque, me dizia Nhá Núbia, minha mãe-preta, apontando para o caldo dentro da panela. nunca vi mulher mais religiosa, eu acordava de manhã, abria os olhos, e lá estava ela de joelhos, todo santo dia. Foi escolhida à dedo por meu avô para dar de mamar a minha mãe, pois minha vó não tinha leite, apesar de seus dezessete anos, e desde então é como um desses pilares dessa casa, um bem forte e bem crente, porque como já disse nunca vi rezar tanto, eu acordava de manhã, abria os olhos e lá estava ela de joelhos, rezando, dava meio-dia, novamente, anoitecia, de novo, e de novo, murmurando uma ladainha ininteligível, sempre pro mesmo lado. Nhá Núbia era redonda, se balançava como essa rede que estou agora quando caminhava de lá pra cá por dentro do casarão e seus passos no chão de tábuas fazia o mesmo chiado que ela faz, e suas ladainhas o mesmo efeito de seu vai e vem em mim, eu estou quase a dormir e a sonhar com Nhá Núbia, Nhá Núbia me dormitando, Nhá Núbia apontando seu dedo roliço para o redemunho na panela e me dizendo – olha moleque, quanta coisa junta, tu acha por acaso que tudo isso se combina, que tanta coisa diferente na mesma panela pode dar em algo que se coma e que se suste? Porque tem peça de tudo que é lugar aqui, filho de tudo que é mãe. Pois olha, vê o meu dedo rodar o caldo, vê ele fazer esse sinal, e ainda este e este, viu? viu que o fogo está alto já faz uma eternidade e que por mais que não lhe falte lenha esse caldo não ferve nunca?

eu estou quase a dormir, e meu sono é sem descanso e sem fim.

vai que morri.

eu morri?

Nhá Núbia passa por mim, seus passos, como os punhos da rede que balanço, me dizem que – não. que – sim. que – não. que – sim. que.

.

*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.