Dona Maria

por Roberta AR

Dona Maria é minha vó, que completou 100 anos em 2012. Ela pode não ter se dado conta disso (acho difícil), mas soube usar o tempo a seu favor e esse foi seu grande legado na minha vida, o de me fazer entender que sempre há tempo para (complete com o que quiser).

Mariquinha, como é chamada por muita gente, é de um tempo em que os casamentos eram arranjados e se casou com meu avô aos treze anos de idade, ele era bem mais velho que isso. Aos quinze, já era mãe da primeira de sete mulheres, uma casa de bruxas, alguém me disse. Ela teve um filho homem também.

Sua vida não foi fácil. “A gente sofre, minha filha”, ela me diz quando a gente conversa sobre alguma dificuldade minha ou dela. Passou por privações que ela não gosta de lembrar, mas que às vezes deixa escapar para mim.

Um dia, quando eu estava de mudança para o nordeste, falei do quanto eu gostava de cuscuz de milho e recebi uma careta de enjoo. Achei que era questão de gosto, só que era bem mais que isso. Mais tarde, quando estava fazendo seus bicos de crochê em panos de prato, ela começou a falar da sua vida no Jacu (ela é dos Gerais, aqueles do Guimarães Rosa), de como às vezes a seca destruía tudo e quase não havia o que comer. “O que sobrava era o milho seco que a gente guardava para moer e fazer cuscuz, que era o que tinha todo o dia até o de comer voltar”, ela me disse.

Não me lembro do meu avô, que morreu de câncer quando eu completei um ano de idade. No meu aniversário de quatro anos, estava lá minha vó com seu novo namorado. Ela já tinha mais de sessenta anos e isso, claro, foi um escândalo, estávamos no final do anos setenta. Mas minha surpresa mesmo foi quando eu entendi a história toda, bem mais velha.

Eles acabaram se casando e viveram juntos mais de trinta anos, minha vó é viúva pela segunda vez daquele que foi seu primeiro amor. Sim, este novo namorado da minha vó tinha sido seu chamego antes dela se casar com o meu avô, ou seja, antes dos treze anos! Se reencontraram quando os dois ficaram viúvos e, ao que parece, a coisa toda continuou de onde tinha parado.

Dona Maria não é letrada, mas sabe ler o mundo com os olhos de quem o observa. É engraçado ver como os tabus não servem mais para ela. Teve uma vez que ela descobriu uma tatuagem nova em mim e passou seus dedinhos curiosos e fez tantas perguntas que achei que ela queria fazer uma. “Bonitinha essa”.

Se ela gostar de você e você for uma prostituta, maconheira, separada, ou qualquer dessas coisas abominadas pela “família”, em poucos minutos aquilo que deveria (pelos olhos de quem gosta das convenções) ser um escândalo nem existe mais e quem quiser fazer questão vai ter que sair de perto, porque, afinal de contas, não há tempo para certas bestagens.

Essas não são lições que ela soube ensinar desde cedo, é fácil perceber que foi o efeito do tempo sobre ela e eu, pária que sou, consegui perceber e usufruir dessa sabedoria que veio da experiência, mas que não foi transmitida para a geração anterior a minha. Minha mãe e minhas tias são bem apegadas às aparências, ao fuxico e à catalogar pessoas para encaixar nas caixinhas de aceitáveis ou não aceitáveis.

Talvez seja por essa identificação, por esse jeito parecido de ver o mundo nessa altura do campeonato, que eu tenha usufruído de momentos de confidência com a dona Maria. Assim, displicentemente, fiquei sabendo que ela está procurando uma nova companhia, que é difícil, pois quase não há parceiros disponíveis para alguém que já viveu tanto.

A vida continua indefinidamente até acabar e isso parece tão simples por ser tão óbvio. Enquanto isso, dona Maria está por aqui.

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Um comentário em “Dona Maria

  1. Roberta, que história linda! Lembro das histórias que você me contou de sua avó, mas este texto é uma declaração de amor! Que o mundo tenha a sorte de contar com centenas de Donas Marias como sua avó! Parabéns Dona Maria!

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