Lembrai, lembrai

por André Rafaini Lopes

“Lembrai, lembrai do nove de julho
A pólvora, a traição, o ardil,
Por isso não vejo como esquecer
Uma traição de pólvora tão vil”

Alô, Geração Vem Pra Rua! Nesses tempos de espíritos cívicos inflamados, olhe 81 anos no passado e tire o pó da Revolução Constitucionalista de 1932. Ah, não… você ainda acredita no discurso separatista. Fico levemente desapontado. Estou longe de ser um historiador, então releve alguma incorreção contextual e, por favor, se atenha ao cerne da questão. E sua atualidade, claro. Naquele começo da década de 1930, Getúlio Vargas ocupava a presidência em um governo provisório estendido muito além do devido. Um golpista e ponto. Descontentamento com o regime eram expressos por todo o Brasil, mas em São Paulo tinham seu foco mais concentrado. Manifestações, passeatas, discursos em praça pública e confrontos. Ressalta-se que, naquele tempo, as forças de contenção ainda não tinham sido apresentadas às balas de borracha. No fatídico dia 23 de maio, quatro jovens são alvejados e morrem. Qualquer semelhança com nosso 17 de junho não é mera coincidência. Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo se tornam mártires e sigla. O MMDC começa a congregar voluntários dispostos a pegar em armas para instituir uma constituição, movimento este que não tardou em ser apoiado também pelas forças armadas paulistas. O conflito foi deflagrado em 9 de julho.

Claro que São Paulo não seria ingênuo em se levantar sozinho. Apoios eram esperados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Minas Gerais, além de armas encomendadas dos Estados Unidos. TODOS deram para trás. Na ponta do lápis, a contabilidade foi essa: Forças de Getúlio (100 mil combatentes, 250 canhões e 24 aviões) versus Paulistas (35 mil homens, 44 canhões e 6 aviões). O caudilho estava certo de que o embate não levaria mais de dez dias. São Paulo resistiu por três meses. Três meses sem armas adequadas. Um ponto estratégico na região de Amparo´, por exemplo, foi mantido por 20 dias com apenas alguns fuzis e matracas (um objeto de madeira com uma roda serrilada movida por uma manivela sobre placa de metal, simulando o barulho de tiros). Três meses sem o treinamento adequado: a linha de frente era composta por jovens treinados em poucas semanas. Três meses de cerco. São Paulo converteu indústrias em fábricas bélicas, reuniu doações de ouro e prata para financiar as batalhas, treinou mulheres para atuarem como enfermeiras.

O final não poderia ser outro. Os paulistas caíram, mas dois anos depois baixaram uma nova constituição. A vitória foi moral.

As marcas da revolução em São Paulo, hoje, só são perceptíveis a quem sabe ver: por bem mais de meio século a capital paulista não teve uma rua com nome de Getúlio Vargas diferente de todas as grandes cidades do país. A exceção só não perdura pela ação de algum vereador desalinhado (é possível descobrir o nome do desinfeliz?) que abriu uma à margem da Rodovia dos Bandeirantes. O Obelisco – obra do escultor Galileo Emendabili – chama a atenção de todos que descem a Avenida 23 de maio para o mausoléu dos mártires e combatentes. Por alguma determinação constitucional que dava a cada governador o poder de decretar um feriado estadual, Mário Covas escolhe 9 de julho.

Tanto lá quanto cá, as intenções dos manifestantes foram deturpadas pelos meios de comunicação de massa. Tanto lá quanto cá. o que estava em jogo era um ideal de país melhor e, acima de tudo, democrático. Tanto lá quanto cá, houve quebra-quebra, depredações e incêndios. Mas, incorrendo no velho clichê, a Revolução Constitucionalista de 1932 – uma verdadeira guerra civil em favor de um novo Brasil e um dos maiores conflitos armados do século XX em território tupiniquim – foi pouco a pouco sendo apagada, pois a história é escrita pelos vencedores.

Torço para que esse próximo 9 de julho tenha um sabor diferente. Que não passe despercebido pelos paulistas – a grande maioria se contenta em saber que é apenas um dia a menos ou dois de trabalho. Que amigos de outros estados, especialmente os mais jovens que saíram do Facebook, redescubram os feitos de loucos que arriscaram vidas (um total de 830 mortos – quase o dobro das perdas dos pracinhas na Segunda Guerra; 600 eram paulistas) por um ideal.

Pronto. Pode subir 1812 Overture de Tchaikovsky.

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