Das fragilidades

por Roberta AR

Caminho sempre perto de casa. A calçada é esburacada e cheia de falhas e, com alguns passos mais apressados, é inevitável tropeçar e eventualmente ter uma lasquinha da ponta do dedo arrancada, se estiver de chinelos ou sandálias.

Dia desses, pensei que poderia cair e quebrar uma perna ou braço, depois de tropeçar num buraco. Isso deixaria minha mobilidade ainda mais comprometida. Digo “ainda mais” porque a mobilidade do pedestre é bem débil numa cultura em que os vencedores andam de carro, por isso só se investe onde eles passam. Isso não acontece só na cidade em que moro ou neste país. Carro é símbolo do mérito do forte, do vencedor.

Mas daí que você está lá todo convencido que seu status vencedor com carro do ano é eterno e quebra a perna feio tropeçando no buraco da calçada bem na frente do seu trabalho, que é o único pedaço de calçada que você anda, porque calçada é uma coisa inútil e serve apenas para os fracassados que andam, e, temporariamente, esperamos, terá que se locomover com cadeira de rodas. Exposto, frágil, dependente para fazer coisas básicas, como entrar num edifício, nesse mesmo que te deixou nesta situação.

Suponhamos que nada disso aconteça. Se tudo correr bem na vida, chegará a velhice, que poderá vir até acompanhada de carro do ano e tudo o mais, mas também com a marca de fim da linha, de fora do mercado. Calculo uns vinte anos nessa etapa da vida, porque, com bons recursos, a longevidade é uma realidade. Duas décadas sendo tratado como o passado, o que deve dar lugar aos novos vencedores, porque é preciso força e o resto que vem com isso, e a velhice é o símbolo da fraqueza.

Ainda antes disso, vai ter o momento da pressão que todo vencedor sofre, o de passar seus genes para frente, ter filhos. Uma mulher nesta situação será cobrada a fazê-lo antes que a idade impeça, mas assim que decidir e engravidar será tratada como a preguiçosa que só pensa na licença maternidade. Porque é assim, de imediato se passa de pessoa de sucesso para estorvo simplesmente por estar numa situação de vulnerabilidade qualquer.

É muita gente que gosta de falar na maternidade como algo sagrado, como é lindo, mas na hora do vamos ver é quem persegue mãe na rua para dizer que ela não sabe coisas básicas sobre o filho, como quando ele está com fome ou com frio. “Esse choro é cólica”, diz o desconhecido que passa direto. Mas é pouquinha gente perguntando se precisa de ajuda ou tratando com carinho suas inseguranças. É médico que dá informação errada sobre alimentação para ganhar seus brindes das indústrias todas, a família que insiste nas receitas de sucesso de crianças que se tornaram obesas e doentes e cheias de outros problemas que todo mundo finge que não vê, TV/revista/jornal/internet com seus “especialistas” dando toda a sorte de informações equivocadas para vender coisas desnecessárias.

Você e eu já fomos esse bebê e fomos tratados como coisas que precisavam ser controladas, que tinham o dever de dormir na hora programada, mesmo sendo hoje um adulto que tem dia que dorme bem e dia que não. Mas criança não tem essa de ter vontade. Comer na hora certa, mamar de três em três horas, mesmo que sua fome hoje não tenha hora, nem lugar adequado e você corra para saciá-la. E se sua mãe foi dessas que decidiu te dar de mamar em qualquer lugar, ouviu reprimendas, claro, “onde já se viu”, “nem um paninho?”, “está querendo se exibir” e por aí vai.

Não adianta se fazer de forte e se achar vencedor, todo mundo vai ter seu momento de fraqueza. É desse exato momento que esse mundo de vencedores vai se aproveitar para eliminar mais um concorrente.

Num mundo onde só os fortes sobrevivem, sucumbimos todos.

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