Cafeinômana

por Roberta AR

Tenho que confessar que gosto de café. Pelo menos um por dia. Gosto de espresso, mas também de fazer na cafeteira italiana. Quando não é possível, tomo preparado de jeito que for, no coador, naquelas máquinas de sachê, porque me anima e fico mal se passo o dia sem um que seja. Nesses tempos, é difícil encontrar um bom café, não é possível precisar a procedência ou a pureza, então bebo o que aparece.

Desde que a indústria descobriu que o café traz prejuízo a seus empreendimentos lucrativos, principalmente na produção de energéticos e termogênicos, sua ilegalidade foi algo que seus benefícios à saúde não conseguiram impedir.

Suas propriedades antioxidantes e antidemência devem ter ajudado na motivação de banir essa delícia (desculpa, não resisto) da vida de todos. Daí ficamos assim, dependentes de uma indústria facínora, mantida com a anuência do estado que diz estar trabalhando para defender os cidadãos de bem. Defendendo dos horrores de uma xicarazinha de café, sério mesmo estado?

Antes eram opções em todas as esquinas, redes de fast food ou pequenos e charmosos cafés (lembra do tempo em que nomeava estabelecimentos?), agora só se pode consumir legalmente em algumas cidades do mundo onde os drugshops são autorizados a servir. Um dia me mudo para um lugar desses e serei apta a apreciar as variedades arábicas tão deliciosas, com torragens que variam pelo amargor e pelas notas de frutas ou castanhas. E seriam apreciadas em espressos, afogattos, cappuccinos, macchiatos e todos esses nomes italianos que faziam a minha alegria antes de pequenos prazeres diários serem transformados em ameaça à segurança pública.

Resisto e para manter o hábito procuro fontes para o meu prazer com conhecidos. Por sorte tenho conseguido grãos de um fornecedor muito bom que me arrumaram, o único problema é fazer a torragem em casa, e dá-lhe incensos que harmonizam e mascaram o cheiro.

Por que falo sobre isso? Porque esta semana acontece a primeira Marcha do Cafezinho, em que a sociedade civil organizada vai expor a irracionalidade de se controlar pequenos prazeres em favor de uma indústria tacanha. Precisamos todos nos mobilizar para demonstrar a nossa indignação. O lucro de alguns não pode sobrepujar a necessidade de muitos.

A luta é pela retomada de nossas tradições. Para poder passar um cafezinho para as visitas, algo que faz parte da nossa cultura ancestral, ou chamar um amigo para um café e ter aquela conversa descontraída. Além de podermos tomar algo mais natural naqueles momentos em que o sono quer bater forte e precisamos estudar. Ou pelo simples prazer de tomar um curto. O motivo não importa, o que não é mais possível é ficarmos impassíveis a tudo isso. Às ruas!

(texto originalmente escrito para o jornal Pimba #3 e publicado no blog Cafeinomanah)

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