O diabo e o seu amigo

por Maria Lacerda de Moura*

“Descendo uma rua, viram a sua gente um homem abaixado e apanhar no chão alguma coisa, a qual foi examinado minuciosamente e guardada com cuidado no bolso. O amigo perguntou ao diabo:
-Que foi que apanhou aquele homem?
– Um fragmento da verdade –respondeu o diabo. Eu o farei organizar a Verdade”.
É a verdade organizada a causa de todas as males sociais. Enquanto procurarem organizá-la – seja no campo das lutas dos partidos políticos, ou dos embates religiosos ou das reivindicações revolucionarias e reacionárias de todos os matizes – em qualquer terreno – viveremos no mesmo caos social de tartufismo e incompreensão.

O diabo, aqui, é a própria sociedade… são os grupos detentores da Verdade, e que querem impor a sua verdade a todo o orbe terrestre – tenha ela o nome de fascista, comunista, católica, espírita, cristã, anarquista, teosofista, liberal democrata, nacionalista-socialista, – sufocando as verdades dos outros.
Cada qual julga estar com a verdade, cada qual “sente” que tem uma missão a cumprir… Defendendo a sua verdade contra a verdade de outrem.
Cada grupo de bate pela verdade, contra a verdade de outros grupos e de outros indivíduos.

E mais a convicção de estar com a verdade é arraigada e mais as lutas são encarniçadas.
Daí, a organização da verdade em religiões, em filosofias, em grupos revolucionários ou reacionários, em ciências, em arte, em academias, em lutas de classes, em princípios sociológicos – para a defesa da verdade própria.
É, pois, um perigo o individuo convencer-se de estar com a verdade: são as perseguições, os autos de fé, as fogueiras, os degredos, todas as Siberias e as Clevelandias ou os Biribi do Sectarismo, seja vermelho ou tzarista, democrata, clerical, romano ou fascista.
É a defesa agressiva de todos os detentores da verdade, porque cada qual afirma: fora da minha igreja não há salvação.

É a autoridade animal, o espírito de autoridade dentro de cada ser humano – a causa das organizações sociais.
Nós atacamos os governos, as religiões, industriais, a concorrência comercial, e a causa de todo o nosso mal estar é a sociedade em si. Religiões, governos, não são filhos das sociedades, da organização social. E a economia política sabe disso, quando afirma:

“Cada povo tem o governo que merece”… Como todos os governos são excrescências…

As organizações se substituem umas às outras… Porque, a causa está em nós mesmos.

O que é preciso é a não-cooperação com a sociedade.
O que seria necessário é a solidariedade de todos no gesto individualista… contra a bastilha burguesa das quatro castas parasitarias: políticos, clero, militares e exploradores industriais. Mas, não para formarem outras castas com outros nomes…

Seria a não-cooperação com o Estado, com a religião, com a caserna e com os exploradores e proletariado.
Abster-se de toda função pública de ordem administrativa, judiciária, militar; não ser prefeito, juiz, policia oficial, político ou carrasco. Não aceitar funções que possam prejudicar a terceiros. Não ser banqueiro, intermediário em negócios, explorador de mulheres, advogado, explorador de operários. Não ser operário de fabricas de munições ou armas de guerra, não ser operário de jornais clericais ou fascistas (difícil!…) Recusar Ser instrumentos de iniqüidades. Sacrificar o corpo, si for preciso – do numero das cousas diferentes para o estóico – afim de não sacrificar a razão, a liberdade interior ou a consciência.
Não denunciar, não julgar, não reconhecer nenhum ídolo – nem reacionário, nem revolucionário. Não matar. Resistência ativa, ação direta, a nova tática revolucionaria de suprema resistência ao mal: a não violência.
Aí esta um programa mínimo de não-cooperação. Quem o puder seguir… que heroísmo!
O governo de hoje tanto é um produto da organização social capitalista que estamos assistindo ao espetáculo deprimente do sabujismo de Estado, de joelhos entes de potencia açambarcadora de Capital.
Daí o imperialismo da libra ou do dólar. É ingenuidade, suprema ingenuidade, qualquer tentativa social – pela violência – contra o imperialismos. Lá esta a china martirizada pelo Japão. Si são os imperialismos econômicas que fornecem o dinheiro e as armas para o governo e os rebeldes!

Extraído do livro: Fascismo, filho direto da igreja e do capital
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Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945) foi uma anarquista brasileira que se notabilizou por seus escritos feministas.

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