Feminismo? Caridade?

por Maria Lacerda de Moura*

A palavra “feminismo”, de significação elástica, deturpada, corrompida, mal interpretada, já não diz nada das reivindicações feministas. Resvalou para o ridículo, numa concepção vaga, adaptada incondicionalmente a tudo quanto se refere à mulher.Em qualquer gazela, a cada passo, vemos a expressão “vitórias do feminismo” – referente, às vezes, a uma simples questão de modas! Ocupar uma posição de destaque em qualquer repartição pública, cortar os cabelos “à la garçonne”, viajar só, estudar em academias, publicar um livro de versos, ser “diseuse”, divorciar-se três ou quatro vezes, pelas colunas do “Para Todos”, atravessar a nado o Canal da Mancha, ser campeã de qualquer esporte. – tudo isso consiste “nas vitórias do feminismo”, vitórias que nada significam perante o problema da emancipação integral da mulher.

A verdadeira emancipação é posta de lado

É uma tática bem manejada. Enquanto as mulheres se contentam com essas “vitórias”, a sua emancipação é posta de lado ou nem chega a ser descoberta pelos tais reivindicadores de direitos adquiridos… E essas reivindicações não se podem limitar a ação caridosa ou a um simples direito de voto que não vem, de modo algum, solucionar a questão da felicidade humana e se restringirá a um número limitadíssimo de mulheres. Aliás, quando os homens sérios retiram-se, num ostracismo voluntário, dessa política de latrocínios oficializados, desse bacanal parasitário, desse despudor em se tratando dos negócios públicos; quando se decreta, positivamente a falência, o descrédito do parlamentarismo em toda uma sociedade em plena decomposição, – é agora que a mulher acorda e sai correndo atrás do voto, coisa que deveria ser reivindicado a cem ou duzentos anos atrás… o supõe, ingenuamente, estar cuidando dos interesses femininos ou dos interesses sociais.

A solução para os problemas humanos não é a caridade

E quando chegamos à conclusão de que a caridade humilha, deprecia, desviriliza; desfibra a quem dá e a quem recebe; quando sentimos que a solução para os problemas humanos não é a caridade que sufoca todas as fibras interiores de que tira, às faces escancaradas da miséria, as sobras, o supérfluo; a caridade que estrangula todas as energias latentes daquele que estende as mãos para receber, servilmente, o que sobra das orgias e da exploração dos que vivem à custa do trabalho alheio; quando por si mesma, a moral de que se alimenta a sociedade vigente decreta a falência, essa moral odiosa, de classes de ricos piedosos e de pobres a receberem esmolas, de exploradores caridosos e explorados calculadamente vigiados pela força armada, mantenedora da passividade exterior e da revolta latente dos ilótas modernos; essa moral farisaica que, para os ricos aconselha a caridade, a distribuição ostentosa do supérfluo adquirido à custa do suor proletário, e para os pobres recomenda a resignação passiva, o receber humildemente as sobras que espirram, por acaso, das mesas dos ricos e olhar ainda agradecidos, para essas mãos orgulhosas que se divertem nas caridades exibicionistas dos salões elegantes, tirando partido das misérias sociais para o seu prazer; quando novas fórmulas de uma moral mais pura se nos apresentam para outra organização social de mais eqüidade, – ainda a mulher está convencida de que a sua mais alta missão na vida é a caridade e só conhece a questão social através da caridade, mas, dessa caridade de chás, tangos e requebros nos salões…

Gastam somas fabulosas com a construção de igrejas e exploram torpemente os criados

Essa mesma mulher que reparte altas somas para a construção de igrejas ou “creches” religiosas, explora, torpemente, os criados, a cozinheira, a lavadeira, a costureirinha contratada para trabalhar em sua casa, horas e horas, sob o olhar impertinente da mundana ociosa, da criatura virtuosíssima que, pelas colunas da imprensa, espalma as mãos dadivosas consolando os infelizes, os mal instalados na vida… Dá por um chapéu, por uma pluma, um brinco, um vestido de baile, um leque, uma sombrinha, uma jóia, por qualquer fantasia, somas fabulosas, inacreditáveis, entretanto, exerce pressão vergonhosa sobre a sua bordadeira que lhe cobra uma miséria por qualquer trabalho feito com sacrifício inaudito, em horas triturantes de agonia, à noite depois de exausta do trabalho diário do atelier – no qual também já lhe tiraram gotas de sangue, na amargura da exploração pelo salário quotidiano.

Chora ante o ecran do cinema e fica impassível ante as injustiças sociais

Sentimentalismo de epiderme que faz chorar ante o écran do cinema e, todavia, soluça em torno da elegância caridosa, toda a miséria ciclópica da luta pela vida e ela não vê, não quer ver o sofrimento milenar da mulher proletária , calculadamente cultivada a sua ignorância através do pão duro de cada dia, no trabalho exaustivo da fábrica, das oficinas e no lidar doméstico – servindo à ociosidade farta da alta sociedade ou dos bordéis do vício elegante.A piedade das senhoras caridosas não vê, não sabe da luta dantesca de uma pobre moça do povo que resvala na miséria mais negra se não cai nos braços escancarados da prostituição “necessária” nesta sociedade bestial e moraliteísta. A atividade da mulher elegante só sabe votar-se a essa caridade exibicionista dos salões iluminados, onde ostenta a sua beleza e sentimentos problemáticos de uma bondade estudada no espelho… A mulher é vaidosa e comodista e os psicólogos femininos preocupados em agradar, em fazer psicologia de “boudoir” – não perscrutam, não querem ver a falsidade dos altos sentimentos caridosos do mundanismo elegante. Prefere continuar a sofrer as conseqüências do seu servilismo, da sua submissão a desenvolver o caráter, as faculdades de iniciativa para lutar contando com as suas próprias energias. Procura conservar o seu parasitismo dourado, indiferente aos males sociais: é odalisca e cortesã, mas, vai à Igreja, em horas chics, rezar pelo próximo e, dançando um passo moderno, exerce a caridade. Como é odiosa e perversa essa caridade!

Civilização de protetores e protegidos

E a mulher duplamente escravizada não compreendeu que é necessário sim, alevantar o ânimo abatido do que luta, do que pensa sucumbir aos embates da injustiça social, dar-lhe meios de subsistência pelo próprio esforço e fazer dele um indivíduo capaz de ver a casta civilização de fartos e famintos, de ociosos parasitas vivendo à custa do sacrifício alheio, civilização de protetores e protegidos, de lobos e cordeiros, em que os mais altos sentimentos se confundem com as mais torpes baixezas, de chibata azorrague, de avariose e cafetismo, de excesso de ociosidade e excesso de miséria. E tudo, inclusive, principalmente a literatura, essa literatura nefasta, de elogios, de louvores incondicionais, literatura odiosa endeusando a fêmea, literatura à Júlio Dantas tudo contribui para o cultivo sistemático da pieguice, de chiliques e requebros, do falso sentimento, do sentimentalismo para o público. E o raciocínio, por si obscurecido através da escravidão feminina secular, da tutela dos dogmas e da moda, dos prejuízos e da rotina, fecha-se sob a chuva de galanteios, de frases feitas. E a mulher esquece-se de que tem mais alguma coisa além da sua carne, do seus contornos perturbadores. Deixa de ser mulher para ser apenas o animal do homem. A grande miséria, a enorme dor das injustiças sociais vive ao seu lado e a mulher desvia o olhar para poder divertir-se, gozar das regalias e do seu comodismo de “bibelot”, de lulu número 1, prisioneira nas gaiolas douradas das avenidas elegantes, sempre a mesma escrava, odalisca e cortesã.

Adormecida dentro dos trapos

A alma feminina jaz adormecida dentro dos trapos, das jóias, do império da moda, – a eterna sultana desse harém de civilizados que ainda compram, vendem, exploram, seduzem, abandonam por imprestável a mesma mulher, cuja posse exclusiva consiste a sua preocupação única. É deprimente a situação da mulher superior, neste meio de cafetismo social, em que os homens não sabem olhar uma mulher senão desrespeitando-a.

E para quê enumerar essas associações atrasadas do feminismo de caridades?

Sem dúvida é doloroso perscrutar as misérias dos famintos, da nudez, dos cortiços.

Mas, não se trata de esverrumar a causa da chaga sangrenta da miséria, mesmo do coração da opulência, ao lado da ociosidade que se diverte cinicamente, depois de atirar uns níqueis para os esfaimados, níqueis roubados ao trabalho árduo dos explorados do salário.

Divertimentos à custa da dor

Há apenas a preocupação de se jogar migalha na boca escancarada da fome, talvez para que nos deixem em paz… E, divertir-se a custa da dor, da amargura, da fome, é insultar o sofrimento.

E a miséria está de tal modo humilhada, deprimida, que nem forças tem para devolver, orgulhosamente, os restos que se lhe atiram através dos esplendores dos salões elegantes, por entre as pontas dos dedos enluvados para que não volte um salpico das calçadas a enlamear-lhes as mãos dadivosas. Não houvesse ociosos fartos, degenerados pelo tédio e pelos vícios elegantes, não houvesse a exploração do homem pelo homem, não houvesse a exploração da mulher pelo homem, e certo não seria “necessária” a prostituição, essa perversidade inominável em nome da virtude.

A caridade é “a janela da consciência”, aberta para a exploração diurna e noturna do proletariado nas oficinas, nas fábricas e do camponês, do colono na agricultura. Para que a elegância brilhe, para que triunfe o mundanismo, para que os “cabarets” e os “cassinos chics” regorgitem de ociosos – é preciso que o colono, campônio e o operário de ambos os sexos seja triturado, dobrado, esmagado nas oficinas, na lavoura, nas fábricas, dia após dia, sem tréguas, sem nenhum direito a não ser o direito ao trabalho obrigatório.

As várias superstições

É a escravidão moderna do salário para matar a fome e cobrir a nudez dos filhos, também cedo destinados à exploração torpe e miserável do parasitismo social, incansável na sua faina, de acumular bens para gozar à custa do suor exaustivo das máquinas de trabalho, dos animais de tiro, do proletariado mundial. Devemos à superstição governamental, à superstição religiosa sectarista, à superstição patriótica, à superstição nacionalista, à superstição do progresso material, à ganância de uns e ao servilismo da maioria – o predomínio desta civilização de duas classes sociais: a dos ricos e a dos pobres.

A humanidade custará a compreender que a vida social poderia desdobrar-se num ambiente de solidariedade, de auxílio mútuo, sem amos nem escravos, sem protetores e protegidos, sem representações parlamentares em mediocracias diplomadas…

Religiões – instrumentos de explorações dos incautos

Levará ainda tantos séculos a perceber que as religiões organizadas, política e economicamente, não são senão instrumentos de exploração dos ignorantes, dos desfibrados, dos ambiciosos, dos moluscos, dos que carecem de espinha dorsal… Ninguém cresce na sua individualidade através da consciência ou, talvez, da inconsciência de outrém. Não é demais repetir que a atual organização social baseia-se na ignorância de uns, no servilismo da maioria, na astúcia de outros, no comodismo de muitos, na exploração dos espertos, na felicidade dos “proxenetas” e “souteneur “, desse cafetismo, desse regime de concorrência, em que se compra e vende tudo, inclusive o Amor e a Consciência – as mais altas manifestações do que é nobre e belo e grande, do que tumultua na vibração interior da nossa vida profunda.

Representação parlamentar: circo de cavalhinhos

Sentimos que as mentalidades de “elite” ultrapassaram de há muito a moral atual que tenta acorrentar ainda as aspirações humanas libertárias. Tudo faliu: a igreja, o parlamentarismo, a academia, a instituição legal do casamento, o ensino universitário, o patriotismo. Pois bem: é agora que a mulher vem reivindicar o direito do voto – quando a representação parlamentar é circo de cavalinhos, o sufrágio universal uma mentira. A mulher, essa energia latente formidável que vem despertando para a atividade social, já foi enlaçada pelo passado reacionário – para dispersar todas as suas forças na corrente das “verdades mortas”.

Feminismo de votos e feminismo de caridades

É a razão por que não posso aceitar nem o feminismo de votos e muito menos o feminismo de caridades. E enquanto isso a mulher se esquece de reivindicar o direito de ser dona de seu próprio corpo, o direito da posse de si mesma. Sou “indesejável”, estou com os individualistas livres, os que sonham mais alto, uma sociedade onde haja pão para todas as bocas, onde se aproveitem todas as energias humanas, onde se possa cantar um hino à alegria de viver na expansão de todas as forças interiores, num sentido mais alto – para uma limitação cada vez mais ampla da sociedade sobre o indivíduo. Que representa uma “creche”, um hospital ou o direito de voto ante a vastidão dos nossos sonhos de redenção humana pela própria humanidade? É subir mais alto o coração e o cérebro, ver horizontes mais dilatados -além do sectarismo religioso ou da superstição social governamental. Isso é feminismo? Dêem o nome que quiserem, pouco importa: o que esse feminismo (não me agrada a expressão tão estreita para ideal tão amplo) reivindica é o “Direito Humano”, o Direito Individual, acima de qualquer outro direito, além dos direitos limitados ao parlamentarismo, além dos direitos de classe.

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Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945) foi uma anarquista brasileira que se notabilizou por seus escritos feministas.

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O diabo e o seu amigo

por Maria Lacerda de Moura*

“Descendo uma rua, viram a sua gente um homem abaixado e apanhar no chão alguma coisa, a qual foi examinado minuciosamente e guardada com cuidado no bolso. O amigo perguntou ao diabo:
-Que foi que apanhou aquele homem?
– Um fragmento da verdade –respondeu o diabo. Eu o farei organizar a Verdade”.
É a verdade organizada a causa de todas as males sociais. Enquanto procurarem organizá-la – seja no campo das lutas dos partidos políticos, ou dos embates religiosos ou das reivindicações revolucionarias e reacionárias de todos os matizes – em qualquer terreno – viveremos no mesmo caos social de tartufismo e incompreensão.

O diabo, aqui, é a própria sociedade… são os grupos detentores da Verdade, e que querem impor a sua verdade a todo o orbe terrestre – tenha ela o nome de fascista, comunista, católica, espírita, cristã, anarquista, teosofista, liberal democrata, nacionalista-socialista, – sufocando as verdades dos outros.
Cada qual julga estar com a verdade, cada qual “sente” que tem uma missão a cumprir… Defendendo a sua verdade contra a verdade de outrem.
Cada grupo de bate pela verdade, contra a verdade de outros grupos e de outros indivíduos.

E mais a convicção de estar com a verdade é arraigada e mais as lutas são encarniçadas.
Daí, a organização da verdade em religiões, em filosofias, em grupos revolucionários ou reacionários, em ciências, em arte, em academias, em lutas de classes, em princípios sociológicos – para a defesa da verdade própria.
É, pois, um perigo o individuo convencer-se de estar com a verdade: são as perseguições, os autos de fé, as fogueiras, os degredos, todas as Siberias e as Clevelandias ou os Biribi do Sectarismo, seja vermelho ou tzarista, democrata, clerical, romano ou fascista.
É a defesa agressiva de todos os detentores da verdade, porque cada qual afirma: fora da minha igreja não há salvação.

É a autoridade animal, o espírito de autoridade dentro de cada ser humano – a causa das organizações sociais.
Nós atacamos os governos, as religiões, industriais, a concorrência comercial, e a causa de todo o nosso mal estar é a sociedade em si. Religiões, governos, não são filhos das sociedades, da organização social. E a economia política sabe disso, quando afirma:

“Cada povo tem o governo que merece”… Como todos os governos são excrescências…

As organizações se substituem umas às outras… Porque, a causa está em nós mesmos.

O que é preciso é a não-cooperação com a sociedade.
O que seria necessário é a solidariedade de todos no gesto individualista… contra a bastilha burguesa das quatro castas parasitarias: políticos, clero, militares e exploradores industriais. Mas, não para formarem outras castas com outros nomes…

Seria a não-cooperação com o Estado, com a religião, com a caserna e com os exploradores e proletariado.
Abster-se de toda função pública de ordem administrativa, judiciária, militar; não ser prefeito, juiz, policia oficial, político ou carrasco. Não aceitar funções que possam prejudicar a terceiros. Não ser banqueiro, intermediário em negócios, explorador de mulheres, advogado, explorador de operários. Não ser operário de fabricas de munições ou armas de guerra, não ser operário de jornais clericais ou fascistas (difícil!…) Recusar Ser instrumentos de iniqüidades. Sacrificar o corpo, si for preciso – do numero das cousas diferentes para o estóico – afim de não sacrificar a razão, a liberdade interior ou a consciência.
Não denunciar, não julgar, não reconhecer nenhum ídolo – nem reacionário, nem revolucionário. Não matar. Resistência ativa, ação direta, a nova tática revolucionaria de suprema resistência ao mal: a não violência.
Aí esta um programa mínimo de não-cooperação. Quem o puder seguir… que heroísmo!
O governo de hoje tanto é um produto da organização social capitalista que estamos assistindo ao espetáculo deprimente do sabujismo de Estado, de joelhos entes de potencia açambarcadora de Capital.
Daí o imperialismo da libra ou do dólar. É ingenuidade, suprema ingenuidade, qualquer tentativa social – pela violência – contra o imperialismos. Lá esta a china martirizada pelo Japão. Si são os imperialismos econômicas que fornecem o dinheiro e as armas para o governo e os rebeldes!

Extraído do livro: Fascismo, filho direto da igreja e do capital
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Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945) foi uma anarquista brasileira que se notabilizou por seus escritos feministas.