Quando Neil Gaiman “matou” o Batman

por Laluña Machado*

– Eu morri?

– Ainda não.

– Diga o que está havendo.

– Bruce, você é o maior detetive do mundo. Por que não descobre?

Lançada em duas partes (Batman #686 e Detective Comics #853), Batman – O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas? traz uma narrativa na qual, o arquiteto das palavras Neil Gaiman nos coloca completamente inseridos na trajetória transmidiática do Homem Morcego. Mas, para isso, o Batman teve que morrer. 

A história foi encomendada por Dan DiDio e sua sugestão foi que ela teria os mesmos parâmetros narrativos que foram utilizados por Alan Moore em O que aconteceu com o Homem de Aço?, que também foi dividida em duas partes e que representava o fim de uma era editorial legitimada com Crises nas Infinitas Terras. Seria realmente como se fosse a última história do personagem e Neil Gaiman teve liberdade para escrever o que desejasse sobre o Cruzado Encapuzado. O autor já tinha feito outras histórias nas quais o Batman foi trabalhado, como a primeira narrativa de Orquídea Negra, Batman Preto e Branco e ousou colocar o Homem Morcego em Despertar, o último arco de Sandman. Além disso, Gaiman já relatou sobre sua paixão com o personagem e toda a influência que o mesmo teve em sua vida, principalmente sobre a importância do seriado de TV de 1966.

Porém, mesmo com as sugestões de DiDio, Gaiman não apresentou nada na linha narrativa que Moore usou, como o autor diz, “o Alan fez uma celebração do final de uma era, o canto do cisne dos maiores artistas de Superman, algo que terminou com um sorriso e uma piscadela. As histórias do Batman não terminam com sorrisos e piscar de olhos.” Há não ser que seja uma história do Batman ’66.

Em 2019 o Batman comemorou 80 anos, atravessou várias eras e inúmeros contextos que influenciaram suas produções, tornou-se um personagem flutuante que pode se encaixar em diversas mídias e produtos, sendo assim, não é um personagem que é fácil de “matar”. A trajetória do morcego já faz parte de todo um imaginário cultural. Portanto, Neil Gaiman com mais uma parceria incrível com Andy Kubert (1062 é outra produção emblemática dos dois, na qual heróis da Marvel são colocados na Inglaterra Elisabetana), faz uma homenagem a toda essa história trazendo aspectos de vários momentos importantíssimos dessas oito décadas com nuances de histórias como Ano Um, A Queda do Morcego, Piada Mortal, Asilo Arkham e O Filho do Demônio, mas nos levando a acreditar que aquela narrativa poderia ser realmente a última do Cruzado Encapuzado.

Além de falas pronunciadas na terceira pessoa, que nos induz a um sentimento de que estamos realmente ouvindo a voz do Bruce, a arte de Kubert mostra claramente o esforço de nos contar aquilo que está sendo apresentado a “olho nu”, afinal toda a história é banhada por requadros que trazem traços de artistas que fazem parte da estrada editorial do Batman, além de outras representações midiáticas como o Batman Animated Series. Contudo, Kubert destacou que não queria copiar artistas como Bob Kane, Carmine Infantino, Neal Adams, Dick Giordano, Frank Miller, Dave McKean, Bill Finger e outros mais, o artista externou que não tentou desenhar como eles, mas desenhou como se os artistas citados pudessem desenhar com o traço dele. 

Ao decorrer de toda a trama que é apresentada diante do velório do Batman, os personagens de todo o universo ficcional de Gotham (pelo menos os principais), vão elencando suas percepções sobre a participação do Batman em suas vidas. Alguns mencionam relações estreitas com Bruce Wayne, que interferiram diretamente no resultado final da explanação. 

Além disso, Gaiman destaca uma personagem que quase não se dá importância nas histórias do Homem Morcego. Sua mãe Martha tem fundamental participação no enredo para que possamos entender melhor a psique de um homem que viu os pais serem assassinados e que, para resolver esse trauma, se veste de morcego à noite e espanca pessoas. Martha Wayne dialoga com o filho perturbado tendo consciência do futuro após sua morte, ela sabe o que ele se tornou. 

Esse tipo de representação da mãe de Bruce foi minimamente visto em 80 anos, a maioria das histórias coloca o pai Thomaz Wayne como maior referência do gothamita, isso quando o mesmo não se torna o próprio Batman como acontece em Flashpoint e Martha entra em surto psicótico tornando-se o Coringa. Gaiman acerta em trazer esse tipo de laço para que o leitor possa entender melhor todos os questionamentos que são levantados pelo Batman até então, e nada melhor do que sua própria mãe para responder suas maiores dúvidas. No andamento de toda a trama, esses questionamentos são apresentados por referências não ditas, mas sentidas pelo leitor que acompanha a história do personagem e até mesmo por aquele que só teve contato com o Homem Morcegos de outras mídias fora dos quadrinhos. Atualmente o enredo pode ser encontrado em uma edição especial da Panini, com as Batman 686, Batman Black and White 2, Detective Comics 853, Secret Origins 36 e Secret Origins Special 1, o encadernado também conta com capas variantes, uma delas feita por Alex Ross e os estudos de desenhos do Andy Kubert. Essa edição foi lançada em abril de 2013 em papel couché, lombada quadrada, capa dura e contém 128 páginas.

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos e do site Minas Nerds.Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

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