Fear of the Dark: Titãs e a filosofia do medo de Heidegger

por Laluña Machado

I am a man who walks alone
And when I’m walking a dark road
At night, or strolling through the park
When the light begins to change
I sometimes feel a little strange
A little anxious when it’s dark1

[ESSE TEXTO CONTÉM SPOILER]

Nesse último fim de semana, a plataforma de stream Netflix liberou a 3ª temporada da série Titãs. A produção segue a linha narrativa da 1ª temporada, que trouxe vários questionamentos sobre o papel de Bruce Wayne na vida do primeiro Robin, Dick Grayson, e de como isso interfere direta e indiretamente nas decisões do atual Asa Noturna. Além disso, permanecem as condições para que a classificação da série seja 18+, misturando terror psicológico com horror e algumas cenas mais “picantes” (o Superboy gostou muito dessa parte).

Porém, nessa nova camada da produção as minhas suspeitas foram confirmadas. Considerando que o Robin em si é o líder dos Titãs dos quadrinhos e que não importa qual é a personalidade que está sob as condições desse alter ego, a série tem focado e em grande parte nele e não nos Titãs propriamente. Ora, se o trabalho se dispôs a elencar fatos desta determinada equipe, espera-se que isso seja feito, ou substitua o nome da série para “Os problemas psicológicos dos Robins com a participação de uma galera aí”. Mas isso não é novidade nas obras da DC, que monopoliza todo o seu arsenal de super-heróis e vilões no universo ficcional do Batman, o que nesta nova temporada ficou ainda mais evidente. Essa nova temporada teve como proposta adaptar algumas histórias que moldam a trajetória de ninguém mais, ninguém menos que o… Batman. Então, mesmo com personagens que tentam “escapar” desses braços narrativos, a apelação continua em determinar o ponto de partida da diegese. Tanto que os Titãs foram transportados de São Francisco diretamente para Gotham (emoji pensativo). Mas isso é um debate que vou deixar para outros sites e canais de nerdolas histéricos (pleonasmo). Então vamos filosofar!

Com essa nova etapa da série, a Netflix decidiu justapor um dos episódios mais emblemáticos da história do Homem Morcego, quiçá da cultura pop, o arco Batman: Morte em Família.

A publicação chegou até o público entre 1988 e 1989, nas edições Batman #426 -429, contando com roteiro de Jim Starlin e arte de Jim Aparo. Mas antes de externar algumas partes importantes do arco para entender as motivações da adaptação na série, é determinante que algumas informações que mudaram a indústria cultural popular por causa desse quadrinho sejam ditas. Dentre elas, a ideia de sentenciar o fim de um personagem ou não com interação do público consumidor. Para isso, a DC Comics orquestrou uma votação por telefone na qual, os fãs decidiram (depois de DEZ MIL VOTOS) que o Robin Jason Todd deveria morrer. Sim, no fim dos anos de 1980 as pessoas votaram por telefone para matar um super-herói dos quadrinhos. Já era um contexto de extrema efervescência na cena, afinal Batman O Cavaleiro das Trevas (1986) era absoluto, além de ser seguido por Batman Piada Mortal (1988) e Asilo Arkham (1989). Para fechar, o filme Batman (1989) com direção de Tim Burton era a estrela dos olhos da DC Comics e junção com a Warner.

Batman Morte em Família também trouxe debates importantes para expor o contexto sociopolítico estadunidense. O itinerário narrativo destaca acontecimentos internacionais como a Guerra Civil do Líbano (1975-1990), movimentação do grupo terrorista IRA, na Irlanda do Norte, e políticas econômicas do presidente Ronald Reagan. Mas o fato extremo foi colocar o Coringa como Embaixador do Irã e negociador de mísseis com o objetivo de bombardear Israel. Contudo, isso foi modificado após muitas críticas e o Irã foi substituído por um território ficcional chamado Qurac.

O que realmente gerou destaque na história foi a morte brutal de Jason Todd. O segundo Robin foi espancado por um pé de cabra pelo Coringa, que o deixou para morrer numa explosão. A arte sequencial que ilustra essas ações determinou duas coisas muito importantes para os quadrinhos do Batman na época – 1) O papel definitivo de um Coringa completamente psicopata e maníaco – 2) A força que o fandom do Batman tinha naquele tempo e de como ele era alimentado.

Na série Titãs, a morte de Jason Todd também foi determinante para que todas as junções narrativas fizessem sentido. Afinal, o roteiro mescla outras histórias importantes do Batman como Terra de Ninguém e Terra Primal. (mais uma vez, histórias do Batman e não dos Titãs).

Como é uma adaptação dos quadrinhos para outra mídia, é mais que esperado que essa versão sofrerá modificações e, para o que a produção quis propor, até que fez sentido. Há todo contexto diferenciado que leva Todd ao seu destino e esse contexto tem seu início na segunda temporada. No momento em que Jason tem uma experiência de quase morte e desenvolve um estresse pós-traumático, o que na série é entendido apenas como “medo”, “pavor”, “ressalva”, quando nos é apresentado um cenário com dois extremos. De um lado temos o Espantalho/Dr. Jhonatan Crane, que tem como principal pesquisa psiquiátrica a que atribui as definições e condições do pavor real. E do outro temos Jason Todd, que já não consegue desempenhar seu papel como Menino Prodígio (mesmo que ele fizesse isso de forma bastante porca), pois está tomado por um medo absoluto que o deixa impotente, contudo, não o isenta de questionamentos sobre si mesmo e sobre o seu “pai” Bruce Wayne.

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) pode nos ajudar a entender as condições de Jason Todd após sua experiência de quase morte na segunda temporada da série. Para Heidegger, a morte pode incitar dois sentimentos: a angústia e o medo. Segundo ele, a angústia pode ser “tratada” de forma filosófica e literária. São “sufocamentos” existenciais teóricos que podem ser resolvidos com consumo intelectual ou expectorar com debates e escritas. Mas o medo nos leva para outros lugares.

Heidegger o descreve como um convite para a “impropriedade”, ou seja, viver num estado em que não somos donos de nós mesmos. O medo gera uma posição que terceiriza ações, que nos aliena e que nos faz atribuir fatos e circunstâncias para terceiros. Por isso que sempre procuramos ocupações internas ou externas.

Ainda considerando as contribuições de Heidegger quando o mesmo fala do “medo sobre a morte”, podemos tentar entender o fio condutor das ações de Jason nessa terceira temporada. O filósofo determina que o medo sobre a morte também aliena a existência e isso acontece com o Segundo Robin. Jason ficou obcecado por eliminar seu trauma para que de alguma forma pudesse voltar para as ruas e fazer algo que desse sentindo a sua existência, mas sem o apoio devido de Bruce Wayne que se ausenta emocionalmente (o que não é nenhuma novidade) e terceiriza completamente as suas responsabilidades para a terapeuta, Jason acaba quebrando.

Todd procura alternativas com o psiquiatra de vilão Jhonatan Crane para produzir uma droga que pudesse eliminar seus medos. Ora, considerando que Heidegger dispõe de duas formas do “ser”, a autenticidade e a impropriedade, podendo estabelecê-las de formas diferentes durante a vida, o que vale mesmo é não determinar que a existência tenha sentido, contudo, nós que temos que outorgar sentido a ela. Pois bem, é isso que Jason Todd vai buscar quando procura Crane.

O Segundo Robin tem um destino trágico como inúmeras pessoas que buscam sentidos em ocupações “medíocres”. Confesso, que Jason Todd é um dos personagens que mais me extrai ranço por conta da sua personalidade soberba e impulsiva, mas a filosofia me ajudou e ajuda a entender os seus motivos para ser ou não dessa forma, assim como os das pessoas que estão ao meu redor e, sobretudo, os meus.

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1 Fear of the Dark é uma canção escrita por Steve Harris, baixista e compositor principal da banda britânica de heavy metal Iron Maiden, fazendo parte do álbum homónimo de 1992 Fear of the Dark. Em 1994, a canção foi nomeada para o Grammy Award na categoria “Best Metal Performance”.

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Foi colaboradora do site Minas Nerds e atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos. Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

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