Sobre corpos que reproduzem

por Roberta AR

“Não será a família do passado, mesquinha e estreita, com brigas entre os pais, com seus interesses exclusivistas para os filhos que moldará o homem da sociedade de amanhã”.

Alexandra Kollontai, O Comunismo e a Família

A gravidez, no Brasil, é um imperativo para a maioria das mulheres, pois temos aborto legalizado somente para situações específicas. Acontece, agora, uma votação muito importante no Supremo Tribunal Federal (colocada em compasso de espera pelo novo presidente, homem) sobre o direito à interrupção da gravidez e arrisco dizer que todo mundo conhece alguém que fez um aborto, mesmo que não saiba disso. Quem tem dinheiro consegue fazer com segurança, e quem não tem, bem, é sobre isso a votação, evitar que mulheres morram por se submeter a procedimentos horríveis no desespero diante de uma gravidez inesperada. E não só isso, mas ainda se sujeitarem a maus tratos no serviço de saúde e serem criminalizadas por isso. “Nem presa, nem morta”, gritamos na onda verde na América Latina. 

Para falar de maternidade no Brasil, temos que ter em mente que mais da metade das gestações não são planejadas e acontecem por inúmeros motivos, que podem ser desconhecimento sobre métodos anticoncepcionais e até falha desses próprios métodos, que não são cem por cento eficazes (me encaixo nesse último caso). Em caso de gravidez, na maioria das vezes, só resta assumir. Não há nenhum amparo social previsto para mães e seus filhos, não temos estruturas de rede apoio pública, as famílias, grande parte delas, acreditam que “quem pariu Mateus que o embale”.

Se não bastasse isso, existem pessoas, inclusive as que se pretendem revolucionárias, que não se encabulam em dizer que crianças incomodam, que deveriam não estar em qualquer lugar, naturalizando o que chamamos de “adultocentrismo” (a discriminação contra crianças tem nome). Falar sobre adultocentrismo é importante, porque quando falamos sobre violência doméstica, as crianças são as maiores vítimas. Cerca de 70% dos estupros são cometidos contra crianças, meninas, em sua maioria, mas meninos também. E esses estupros são cometidos, majoritariamente, por familiares ou conhecidos da família. A família, esta estrutura nebulosa no Brasil…

Mas, voltando ao tema, quando falamos sobre interrupção da gravidez, falamos sobre controle sobre os corpos que reproduzem. E que controle é esse? É o controle sobre a “produção” de novos trabalhadores para a sociedade capitalista. Esse é um tema aprofundado por Silvia Federici, no que ela chama de “trabalho reprodutivo”, esses corpos que possuem a capacidade reprodutiva se tornam um bem do capital, a suposta moral religiosa que circunda esse debate está a serviço do capital, pois as crianças geradas serão força de trabalho disponível e que deve existir em grande proporção, mesmo que sejam descartadas depois. E realmente são descartadas, é muito grande o número de filhos sem pais e, quando os têm, são boa parte “pais de instagram”, que nem pensão pagam. Descartadas por homens que fazem as leis que controlam os corpos das pessoas que reproduzem.

A gente mascara a maternidade com ares espirituais e afetivos, mas o que se pretende é manter essa estrutura do capitalismo. Por que os corpos que engravidam não têm direito de escolher? Porque a Moral Monogâmica Burguesa determinou que esses corpos possuem dono. E quem determina a propriedade é quem ejacula primeiro nesses corpos, ou quem ejacula e fecunda esses corpos. E as crianças carregam a marca do pecado, da que “na hora de fazer achou bom”. É feio, é nojento. Isso está impregnado em toda parte. Mulheres que não têm filhos, um número maior delas do que se pensa, acreditam que a maternidade é uma fraqueza. Homens que acreditam, mesmo que digam que não, que a maternidade estigmatiza esses corpos. Uma mãe não é um corpo livre. 

Emma Goldman, em Casamento e Amor, diz que “se a mulher for livre e grande o bastante para aprender sem a sanção do Estado ou da Igreja o mistério do sexo, será condenada como absolutamente imprópria para ser esposa de um ‘bom’ homem, sua bondade consistindo de um cérebro vazio e uma carteira cheia. Poderia haver alguma coisa mais ultrajante do que a ideia de que uma mulher saudável, em plena idade, cheia de paixão e vida, ter de negar as exigências da natureza, ter de reprimir seu desejo mais intenso, minar sua saúde e quebrantar seu espírito, ter de aturdir sua visão e abster-se da profundidade e da glória da experiência do sexo, até que venha um ‘bom’ homem para tomá-la como esposa? ”. Quem já não era livre antes, se torna ainda menos livre depois da maternidade.

Se não formos capazes de superar a Moral Monogâmica Burguesa continuaremos na manutenção de uma sociedade opressora. A revolução começa dentro de casa.

editado em 13/10/2023 às 13h30