Nunca é mesmo o seu dia

por Charles Bundowski

Quando J. Abelardo meteu a chave tetra na fechadura mole da porta, naquela noite de quarta-feira, mal sabia ele que sua mulher, Maria Lambreta, rolava nos lençóis de algodão – furados de bitucas – com seu patrão, Inácio Pintomole, e o jantar jazia frio e azedo dentro do forno.

Tendo sido sumariamente demitido neste mesmo dia e, mesmo que não fosse, retornando do bar e das mágoas afogadas sem pressa, devia saber que, cedo ou tarde, qualquer dia desses, haveria de encontrá-la em flagrante adultério, vencida pelo tédio da vida de dona-de-casa. Mas nada disso impediu o choque, seguido pela raiva e as labaredas do ciúme que apossaram-se dele ao entrar no quarto-e-sala distraído, ligar o rádio, jogar a gravata no cabide, conferir o bilhete azarado da quina e, só então, ao sentar-se na cama para tirar os sapatos apertados, dar-se conta do ex-chefe explicando à Maria que aquilo nunca havia lhe acontecido antes.

J. Abelardo era homem razoável e, assim sendo, ao invés de descarregar o chumbo quente do tambor da pistola da gaveta do criado-mudo nos dois, apanhou a garrafa de uísque barato quase vazia, calçou os chinelos e desceu os três lances de escada até a rua. Secou o resto da garrafa de um só gole e espatifou-a no meio-fio, enquanto avaliava a qualidade (ou falta de) dos corpos semi-nus insinuantes colados aos postes. Conferiu a carteira magra. Disposto a pagar para esfregar umas carnes quaisquer, entrou num prédio velho com uma puta meio gorda, chamada Consuelo, de olhos claros num vestido apertado. Tomaram o elevador antigo e ela destrancou a porta dum apartamento limpo, mobiliado, e muito maior do que o seu. “Fique à vontade, amor. Queira lavar as mãos antes de comer”. Uma verdadeira profissional, mas estava com pressa e só tinha o resto da noite para faturar.

J. Abelardo tinha a noite toda e mais nenhum tostão. Sentou-se na beira da cama puxando-a – já com os peitos caídos de fora – para o colo, tentando acariciar-lhe o meio das pernas cruzadas. O quarto não tinha luz, mas o rádio – entre um solo do Kenny G e outro – despejava eventuais notícias do preço do barril de petróleo e anúncios de pomadas para hemorróidas. Ele havia livrado-se da calcinha de renda dela, metera-lhe os dedos no meio das pernas – nos lábios sem pêlos e já pegajosos – e, num ímpeto descuidado, ao chupar-lhe as tetas, acabou mordendo um dos mamilos – o direito – ao que ela reclamou e ele desculpou-se polidamente. Ela tocava uma punheta capenga com o polegar e o indicador, mas sem as mãos mostrou-se das mais competentes. Aí montou em cima dele meio desajeitada, aos poucos, até afundar por completo o membro, logo quicando com entusiasmo. Neste momento J. Abelardo viu-se completamente indefeso, rendido, com os peitões moles batendo na cara, tomado por aquele corpo enorme em cima do seu, que lhe comia impiedosamente. E nem adiantou gritar “papai e mamãe!” que quando ela pulou para o lado chamando “vem, amor” ele já ejaculava pateticamente, sozinho, ao que só restava confessar “agora já foi”. Jogou (o coldre da) arma do crime no lixo do banheiro e, após tentar barganhar revanche, foi expulso quase aos pontapés. Viu-se novamente à rua, ainda insatisfeito, mais pobre e insone.

Perambulou distraído pelos becos até avistar um conhecido que lhe devia, numa sinuca de ficha em que a corrente marítima do forro manchado sempre pendia pra caçapa noroeste. Sem conferir o vento e os instrumentos, amargou tantas derrotas que saiu devendo o dobro do que devia receber. Emputeceu-se mesmo, desiludido, roubou um carro de modelo ultrapassado que estava com as chaves no contato, pensando em fugir para o México ou quem sabe pra Piracicaba mesmo, mas mal completava uma volta no quarteirão e viu-se sem gasolina. Porém, já no alto da ladeira, banguelou no embalo, apenas para descobrir-se sem freios na curva mais fechada da cidade. E talvez até tivesse sucesso em dobrar a esquina, não fosse a poça de óleo estrategicamente derramada no meio do caminho. Aí espatifou-se horrorosamente, justamente no muro da delegacia. E em péssima hora, que o delegado desacatava a secretária debaixo da mesa enquanto ela redigia os relatórios atrasados do ano todo. Daí para o xadrez não viu mais nada.

Não teve tempo de pensar também. Cavou o túnel e liderou a fuga que o pôs de volta à rua, quando mal raiava o dia ainda. Um dos presos pagou-lhe o café, frio e azedo, não sem depois roubar-lhe o chapéu. Após tudo isso, então, J. Abelardo fez a única coisa que podia: venceu os três lances de escada, meteu a chave tetra na fechadura mole da porta naquela manhã de quinta-feira, deu uma mijada e cutucou: “Maria, chega pra lá.” Adormeceu entre a mulher e o chefe.

* Charles Bundowski só fala merda. E pondera: “Melhor falar merda do que não falar nada!”

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