Os Artesãos de Dionísio – parte 1

por Hipólito José da Costa*

Os mistérios dos antigos, e as associações em que suas doutrinas foram ensinadas, foram mal considerados nos tempos modernos, mas com o propósito de desacreditá-los e ridicularizá-los.

Os sistemas de mitologia antiga foram tratados como absurdos monstruosos, rebaixando a razão humana, conduzindo à idolatria e favorecendo a depravação dos modos.

Entretanto, mais do que o esbanjamento e a ignorância com que seus corruptores os contemplaram, merece a atenção os motivos de seus inventores.

Quando os homens foram privados da luz da revelação, aqueles que deram forma a códigos morais para guiar seus companheiros segundo os preceitos de uma razão superior merecem os agradecimentos da humanidade, por mais deficientes que estes sistemas sejam, ou que o tempo possa tê-los alterado; o respeito, não o mofo, deve atender aos esforços daqueles bons homens; mesmo seus trabalhos sendo não comprováveis.

Neste ponto de vista, deve ser considerada uma associação, seguida desde a mais remota antiguidade, preservada apesar das inúmeras vicissitudes, retendo, contudo, as marcas originais de sua fundação, escopo e princípios.

Isso aparece em um período muito adiantado, alguns homens contemplativos eram desejosos de deduzirem, pela observação da natureza, regras morais para a conduta da humanidade. A astronomia era a ciência selecionada com esta finalidade; a arquitetura foi chamada mais tarde para complementar este sistema; e seus seguidores deram forma a uma sociedade ou a uma seita, que foi o objeto deste inquérito.

A continuidade deste sistema será encontrada quebrada às vezes, um efeito natural de teorias de oposição, da alteração das maneiras e da mudança das circunstâncias, mas fará suas aparências em períodos diferentes, e a mesma verdade será considerada constantemente.

A importância de calcular com precisão as estações do ano para regular a agricultura, navegação e outras necessidades, deve ter feito à ciência da astronomia um objeto de grande cuidado no governo de todas as nações civilizadas; e a predição de eclipses e outros fenômenos deve ter sido para o instruído nesta ciência motivo de respeito e veneração por parte da multidão ignorante, bem como extremamente útil aos legisladores na escrituração de leis que regulassem a conduta moral de seus povos.

As leis de natureza e as regras morais deduzidas delas foram explicadas nas histórias alegóricas, que nós chamamos fábulas, e aquelas histórias alegóricas foram imprimidas na memória por cerimónias simbólicas denominadas mistérios, e que, embora mal e tardiamente entendidas, contêm os sistemas das mais profundas, sublimes e úteis teorias da filosofia.

Entre aqueles mistérios são notáveis por sua peculiaridade o Eleusianismo. Dionísio, Baco, Orisis, Adonis, Thamuz, Apollo, etc., eram nomes adotados em várias línguas e em diversos países para designar o Divino, que era o objeto daquelas cerimónias, e admite-se geralmente que o sol estêve representado por estas diversas denominações.

Deixe-nos começar com o fato, não refutado, de que nestas cerimónias, uma morte e uma ressurreição sejam representadas, e que o intervalo entre a morte e a ressurreição fosse às vezes três dias, às vezes quinze dias.

Agora, pelo testemunho simultâneo de todos os autores antigos as deidades chamadas Osiris, Adonis, Bacchus, etc. eram nomes dados ao, ou a, tipos representando o sol, considerados em situações diferentes, e contemplados sob vários pontos de vista.

Conseqüentemente, estas respresentações simbólicas, que descreviam o sol como morto, ou escondido, por três dias sob o horizonte, devem ter sua origem em um local onde o sol, quando no hemisfério mais baixo, está, em uma determinada estação do ano, escondido por três dias das vistas dos habitantes.

Tal lugar é, de facto, encontrado tão ao norte quanto a latitude 66°, e é razoável concluir, que, de uma pessoa que vive perto do círculo polar é que a adoração do sol, com tais cerimónias, deve ter se originado; e alguns supõem que este pessoa era um Atlantide.

A adoração do sol é seguida geralmente aos ritos de Mitra, e àqueles inventados pelos Magi de Persia. Mas fazer do sol um objeto de adoração, e da preservação do fogo cerimônia religiosa, deve ser natural a um pessoa que vive em um clima congelado, para quem o sol é o grande conforto, cuja ausência no horizonte por três dias é um evento deplorável, e cuja reaparição seja uma fonte real de alegria.

Não na Persia, onde o sol nunca esconde-se por três dias, e onde seus raios estão longe de ser uma fonte de prazer, onde desviar-se deles e apreciar a sombra é reconfortante, exercendo-se para isso todo tipo de arte. A adoração do sol e da manutenção de seu fogo sagrado, consequentemente deve ter sido uma introdução estrangeira na Persia.

A conjectura é reforçada por alguns fatos importantes, que, por alusões e referências astronômicas, coloca a cena fora da Persia, embora a teoria seja encontrada lá.

No Boun Dehesch (traduzido da pág. 400 de Anquetil Du Perron) nós encontramos “que o dia o mais longo do verão é igual aos dois mais curtos do inverno; e que a mais longa noite do inverno é igual às duas noites mais curtas do verão.“

Esta circunstância pode somente ocorrer na latitude de 49° 20 onde o dia mais longo do ano é de dezesseis horas e dez minutos, e o mais curto de oito horas e cinco minutos.

Esta latitude é para além dos limites de Persia, onde a história coloca Zoroaster, a quem as doutrinas sagradas do livro persa Boun Dehesch são atribuídas. Esta proporção, então, de dias e de noites, em regra geral podia somente ser verdadeira em Scythia, nas fontes do Irtisch, do Oby, do Jenisci, ou Slinger.

Nós não sabemos nada da história daqueles Scythians ou Massagetes, mas nós conhecemos que disputaram sua antiguidade com os egípcios, e que o princípio acima, embora atribuído ao persa Zoroaster, é somente aplicável ao país dos Scythians.

Mas, deixando a origem dos mistérios do sol um pouco de lado, eles foram comemorados na Grécia, em vários lugares, dentre os quais Appollonia, uma cidade dedicada a Apollo, e situada na latitude 41° 22 ‘. 2 Nesta latitude o dia mais longo tem quinze horas, diferindo três horas do comprimento do dia em que o sol está no equinocial: o reverso dá-se com as noites.

Esta circunstância esclarecerá a preservação de três dias nestes mistérios, mesmo quando comemorado em Grecia, e igualmente para os quinze dias, ou a respresentação do número quinze em alguns dos ritos dos Eleusinianos.

Os números misticos foram empregados para designar tais e similares operações da natureza, por isso diz-se que os símbolos e os segredos pitagóricos eram emprestados dos ritos Órficos ou Eleusinianos; e que isso consistia o estudo das ciências e das artes, mais a teologia e a ética, sendo comunicados nas cifras e nos símbolos. Enunciados similares, a respeito da importação mística dos números, são encontrados em muitos outros autores.

As letras, representando números formam nomes cabalísticos, expressivos das qualidades essenciais do que querem representar; e também os gregos, quando traduziram os nomes extrangeiros, cujo significado cabalístico conheciam, fizeram-no pelas letras gregas correspondentes, a despeito de conservar a mesma interpretação nos números, que nós encontramos exemplificados no nome Nilo.

Ν {Greek N} 50

Ε {Greek E} 5

Ι {Greek I} 10

Λ {Greek L} 30

Ο {Greek O} 70

Σ {Greek S} 200

365

No número três, a que tantas alusões místicas e morais são feitas, há uma referência aos três círculos celestiais, dois dos quais o sol toca, passando sobre o terceiro em seu curso anual.

Os mistérios dos Eleusis, os mesmos de Dionysius ou de Bacchus, foram supostamente introduzidos na Grecia por Orpheus: Podendo ter lá chegado pelo Egipto, mas o Egipto pode tê-os recebido em um período precedente dos persas, e estes por sua vez dos Scythians; mas levando em consideração que nós os encontramos apenas na Grecia, daremos aqui um esboço de suas cerimónias.

O aspirante a estes mistérios não era admitido até que chegasse em uma determinada idade, e pessoas particulares eram apontadas para examiná-lo e prepará-lo para os ritos de iniciação. Aqueles cuja conduta era tida como irregular, ou que tinham sido culpado de crimes atrozes, eram rejeitados, aqueles tidos como dignos da admissão eram instruídos então por símbolos significativos aos princípios da sociedade.

Na cerimônia da admissão nestes mistérios, o candidato era primeiro levado a um quarto escuro, chamado a capela mística. Determinadas perguntas eram-lhe impostas. Quando introduzido, o livro sagrado era apresentado entre duas colunas ou pedras: ele foi recompensado pela visão: uma multidão de luzes extraordinárias eram-lhe apresentadas, algumas dignas de observação particular.

Vestiam-no em uma pele de carneiro; a pessoa oposto era chamada a revelar as coisas sagrados e era vestida igualmente em uma pele de carneiro ou com um véu roxo, e em seu ombro direito uma pele de mula manchada, representando os raios do sol e das estrelas. Em uma determinada distância estava o lanterneiro, representando o sol; e ao lado do altar uma terceira pessoa, que representava a lua.

Perceba assim que aquela assembléia era presidida por três pessoas, em funções diferentes, e nós podemos observar, que no governo das caravanas, nos países orientais, três pessoas igualmente as dirigiam, embora houvesse cinco oficiais principais, além de três matemáticos; aquelas três pessoas eram: o comandante-chefe, que governa tudo; o capitão da marcha, que tem o poder de dirigente, contanto que a caravana esteja em movimento; e o capitão do descanso, ou rafrescamento, que a governa quando parada.

Alguns autores observaram a mesma divisão de poder na marcha dos Israelitas através do deserto, sendo Moisés o comandante-chafe, Joshua o capitão da marcha; e talvez Aarão como o capitão do descanso.

A sociedade de que nós estamos falando, foi governada por três pessoas, com deveres diferentes atribuídos a eles por um costume vindo desde a mais remota antiguidade.

Os mistérios, entretanto, não eram comunicados imediatamente, mas por gradação, em três etapas diferentes. A iniciação, propriamente dita, era dividida em cinco seções, como nós encontramos em uma passagem de Theo, que relaciona a filosofia daqueles ritos místicos.

Estas cerimónias, até aqui, parecem conter mistérios menores, as duas primeiras etapas do candidato no curso de suas iniciações. Havia, entretanto, um terceiro estágio, quando o candidato simbolicamente morria, e então retornava à vida.

Neste terceiro estágio da cerimónia, o candidato era esticado sobre um leito, representando assim sua morte.

A respeito das festividades, em que aqueles mistérios foram comemorados, nós encontramos que no dia 17 do mês Athyr (Novembro, solstício de inverno) as imagens de Osiris eram encerradas em um caixão ou em uma arca: no dia 18 eram procuradas; e no dia 19 eram encontradas.

Remexendo em fábulas ou em histórias simbólicas, em relação a estes mistérios, nós encontramos Adonis massacrado e reanimado; as mulheres sírias chorando por Thamuz, etc.

Deixe-nos agora examinar o significado deste simbolismo de morte e ressurreição, ou de certos personagens, que visitavam o Hades e retornavam.

Parece que esta prática, em todas as suas várias formas e denominações, representa a passagem do sol pelo hemisfério mais baixo, e seu retorno à parte superior.

Os egípcios, que praticavam esta adoração do sol, sob o nome de Osiris, representaram o sol na figura de um homem idoso, imediatamente antes do solsticio de inverno, e representavam-no por Serapis, tendo a constelação de Leo oposta a ele, a Serpente ou Hydra sob ele, a de Lobo a leste da de Leão, e a de Cão no oeste. Este é o estado do hemisfério sul na meia-noite desse período do ano.

Os mesmos egípcios representaram o sol pelo menino Harpocrates, no equinócio vernal; e era então a festividade da morte, do enterro, e da ressurreição de Osiris; que significa o sol no hemisfério mais baixo; retornando, e nascendo no hemisfério superior.

Nesta situação superior o sol foi chamado Horus, Mitra, etc. e saudado como sol invictus. Nós indicaremos agora alguns outros símbolos para expressar os mesmos fenômenos, embora diferentes dos tipos que nós tratamos até agora.

Nos monumentos astronômicos de Mitra, onde a figura de um homem é representada conquistando e matando um touro, há duas figuras em seus lados com tochas; uma que aponta para baixo, a outra para cima.

Nestes monumentos, onde os mistérios em questão foram descritos, o homem que mata e que conquista o touro, representa o sol, passando ao hemisfério superior, através do signo de Touro, que nesse período remoto (quatro mil e seiscentos anos antes de nossa era) era signo equinocial. Os dois lanterneiros, apontando suas tochas para baixo e para cima, representam o sol que desce ao hemisfério mais baixo, e retorna outra vez.

Em um tempo ainda mais remoto que o aludido, no equinócio de verão, o sol encontrava-se no signo de Touro, e o ano começava neste período para os astrónomos egípcios. Mais tarde, em decorrência da precessão dos equinócios, o equinócio do verão ocorreu no signo de Aries; quando parte dos egípcios transferiu sua adoração do touro ao cordeiro; enquanto outros continuaram a adorar o touro.

Nós podemos explicar este na língua de nossos astrónomos modernos dizendo, esses alguns dos egípcios instruídos continuaram a contagem pelo zodíaco móvel, quando outro contavam o ano pelo zodíaco fixo; e esta circunstância produziu uma divisão das seitas nos povos, porque era uma divisão de opinião.

Do mesmo modo, pela mesma precessão dos equinócios, o sol passou de Aries a Peixes no equinócio vernal, em aproximadamente trezentos e trinta e oito anos antes de nossa era; contudo o começo do ano continuou a ser contado do Aries. Se a astronomia e a religião egípcias existissem então com o mesmo vigor, talvez sofressem uma alteração similar; mas os sistemas egípcios nesse período estavam quase aniquilados. Nós podemos observar, entretanto, que os cristãos, no início de nossa era, marcaram seus túmulos com peixes como um emblema da cristandade, para distinguir seus sepulcros dos sepulcros pagões.

Retornando desta digressão curta a nossa finalidade imediata, nós temos que observar, que se aquelas cerimónias e símbolos representavam o sol e as leis de seus movimentos, estes fenômenos da natureza foram estudados de um ponto de vista moral, como sendo eles mesmos representações de uma filosofia mais sublime ou mais metafísica; e as regras morais deduzidas daí foram imprimidas na memória por aquelas imagens e respresentações vívidas.

A imersão do sol no hemisfério mais baixo, e seu retorno foram contemplados como uma prova ou como um símbolo da imortalidade da alma; um dos mais importantes, assim como um dos mais sublimes princípios da filosofia platônica.

*Hipólito José da Costa (Colônia do Sacramento, 13 de agosto de 1774 — Londres, 11 de setembro de 1823) foi um jornalista, maçom e diplomata brasileiro, patrono da cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. Ele foi preso por ser maçom pela Inquisição em Portugal em 1802, fugiu em 1805 e se estabeleceu em Londres. Escreveu um livro de dois volumes sobre as suas experiências, Narrativa da Perseguição, em 1811. Publicou o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense ou Armazém Literário, (1808-23), e é conhecido como “o fundador da imprensa brasileira”.

Este ensaio, publicado em 1820, foi uma tentativa de provar que a Maçonaria moderna é derivada das antigas idéias filosóficas e religiosas gregas.

Traduzido por Biu do original em inglês