Marginal do mainstream

por Roberta AR

A estética marginal está na moda desde os anos 60. Zineiros, poetas, grafiteiros, todo o tipo de arte acaba chegando na galeria para dar dinheiro para alguns. Parece pessimista a idéia de que ninguém consegue ser marginal de verdade, isso pode até ser uma tese, mas não é sobre isso que pretendo falar.

Um belo dia me ocorreu que muitos dos que se auto-intitulam marginais, na verdade estão loucos pela fama e usam dos recursos de que dispõe para alcançá-la. Isso até pode ser legítimo em alguns casos, mas para mim só soa como hipocrisia. Usar um meio alternativo como trampolim, não é exatamente honesto, principalmente com os que revolucionam as artes de verdade.

O lance é que o discurso marginal acaba se misturando com o papo de que é preciso que o governo incentive a cultura. É por isso que nada de bom aparece, etc. Mas quem é que consegue o dinheiro público? São realmente os bons? E quem reivindica a grana dos impostos é a dita classe marginal que se organiza com uma estética semi-profissional, reivindicando a grana dos que gostariam de se profissionalizar.

Não acho que o governo não deve financiar. Nem acho que todo mundo que consegue financiamento é ruim. Mas tem gente que está vivendo de pedir dinheiro para o governo, sem nem prestar atenção na qualidade do que faz.

É a mendicância artística, que só sabe falar da falta de apoio, mas sequer olha para a qualidade do seu trabalho. E diz que, com a sua arte, vai mudar a realidade brasileira. Só se for a própria realidade, pois o trabalho deixa de ser contestador no momento em que sai o primeiro patrocínio, financiado por alguma lei de incentivo fiscal.

É um discurso meio intelectual, meio de esquerda, o que estou escrevendo, mas eu estou realmente incomodada com a falta de escrúpulos de algumas pessoas que fazem qualquer coisa para chegar à fama. Uma das maneiras para que isso funcione é associação com o poder, com a desculpa de que é preciso se sujar um pouco para que os recursos tenham uma destinação decente. Indecente é dar o cu por dinheiro. Antigamente isso tinha um nome e até certa dignidade, que se perdeu com o tempo.

Num país em que tantos sequer têm o que comer – é clichê falar isso, mas o óbvio tem sido sistematicamente ignorado – pedir dinheiro para que o governo banque a diversão de alguns ao fazer um trabalhinho meia bomba, que ainda quer se autodenominar revolucionário, é uma usurpação (essa é a primeira vez que uso essa palavra, mas o sentimento é esse, de roubo). Principalmente carregando este discurso de marginalidade, que neste caso de confisco, só pode ter o sentido de ladroagem mesmo.

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Um comentário em “Marginal do mainstream

  1. E assim, cara amiga, acontece em todos os ramos do saber. Nada mais capitalista que o mercado comprador de “esquerdismos”.
    E o pior nem é isso que tu falou. Quer coisa mais fodida do que um intelectual vendendo livros e conceitos a partir de sua interpretação revolucionária do “trabalho produzido na comunidade pobre?”

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