No banheiro do necrotério I

por Fernando “Rá” Vasconcelos*

Ah! Castanhas do Pará açucaradas são uma beleza! São arredondadas, com a pele áspera do doce e crocantes como amendoim. Mas além do sabor adocicado do açúcar, têm o sabor da sua carne e que sabor meu sinhô! Às três da manhã, elas apuram o gosto, ficam vistosas, exalam cheiro e tremem só em pensar no canino que virá lhe cortar em pedaços. Primeiro, após lhes tirar as vestes de alumínio que devem ser retiradas vagarosamente, pede-se sugá-las durante algum tempo e depois fincar-lhes os dentes, claro, carinhosamente. Há um momento em que após a pele ficar totalmente arrepiada, fica a alma em seguida eriçada, procurando se esconder confusa em pensamentos vãos.

Não são almas más que habitam o banheiro do necrotério, ou então elas gostam do cheiro e do gosto daquele fruto, pois permitem sentir prazer e querência sem interferências fantasmagóricas. É muita coragem sorvê-las naquele espaço tão maculado pela violência da morte violenta. Será possível que terei que enfrentar a maldição desta terrível forma de morrer, o coração na mão de um fantasma sofrido da morte horrível. Não! Vixe! Figuinha meu brother! Omolú e Oxumaré que me protejam! Amém!

Quem nunca cometeu um raio de loucura que me atire a primeira pedra, quem nunca imaginou um triz de insanidade que a segunda me atire e assim por diante, sabendo que o nível de satisfação do usuário é inversamente proporcional à satisfação dos gerais, dos morais e usuais. Não havia água, a não ser a do vaso, que não tinha descarga. Mas ali, curtindo um fruto do Pará, não precisaríamos de água, pelo menos até certo ponto. Depois pensaria na sede, nos azulejos brancos, e sabe-se lá naqueles barulhinhos curiosos ronronando ali no pé do morto, limpos havia já algum tempo, como se o pessoal dos serviços gerais congelasse a nuca de medo e assim, diminuindo a amplitude do movimento, limitavam o alcance da limpeza e tínhamos claramente que já fazia bastante tempo que não davam uma geral ali. Também quem era que ia comer umas deliciosas castanhas do Pará daquelas, à toa, por aí?

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* Fernando “Rá” Vasconcelos é paraibano, médico, pirado, sem noção, que ainda vai morrer do coração. Mora em Recife.

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