Bangue-Bangue no Cerrado

por Flávia Diab*

Afonso Brazza foi um importante cineasta brasiliense, que realizou, apesar da precariedade de suas produções. Faleceu de câncer em 29 de julho de 2003. Esta entrevista foi realizada em 6 de setembro de 2001. Publicamos para não deixar morrer a memória de quem decidiu fazer.

Tiroteios, mocinhos e bandidos, explosões e perseguições no Planalto Central. Essa é a atmosfera que envolve a obra do diretor brasiliense Afonso Brazza. Seu estilo inconfundível vem ganhando cada vez mais espaço na capital do país

Com 2 câmeras de 35mm adquiridas com recursos próprios após 20 anos de trabalho independente no cinema, conciliado com sua profissão de bombeiro, Brazza já produziu 7 longas. O Matador de Escravos (82) custou apenas R$ 8.000. Depois vieram Os Navarros (84), Santhion Nunca Morre (88), Inferno no Gama (93), Gringo Não Perdoa, Mata (95) e No Eixo da Morte (97/98), todos realizados com orçamento menor que R$ 100 mil. Esses três últimos são considerados clássicos pelos amantes do gênero.

Em Tortura Selvagem – A Grade, sua mais recente produção, Brazza mais uma vez faz de tudo: roteirista, diretor, produtor, galã… O filme custou cerca de R$ 200 mil e já está em cartaz nas salas da Cinemark, em Brasília. Todo filmado nas ruas de Brasília, A Grade conta a história do catador de lixo Maicon (Brazza) que é preso em flagrante por tráfico de drogas, mas tudo não passa de um engano. Um grupo de traficantes mata toda sua família e, a partir daí, Maicon segue seu caminho com sede de vingança. Torna-se um matador profissional.

Em todos os filmes de Brazza é comum não sobrar quase ninguém para contar a história. Apesar disso o diretor enfatiza sua posição com relação às matanças e perseguições criadas por ele. ‘Trabalho com ação e pancadaria, mas sou da paz, não uso arma e não gosto de violência’, garante. Além de contar no elenco com sua esposa Claudete Joubert, protagonista e mocinha de seus outros filmes, outras pitorescas figuras participam de A Grade, como José Mojica Marins, o Zé do Caixão; Rodolfo e Digão (da banda Raimundos); e a curiosa presença da filha do ex-governador do Distrito Federal, Liliane Roriz.

Afonso Brazza fala sobre seu trabalho:

Como surgiu seu interesse pelo cinema?
É uma coisa que vem de criança. Fazer cinema no Brasil é um gostar sofrido. A gente recebe pouco apoio, o mercado é difícil… E ainda tem as pessoas que ofendem e tentam derrubar com palavras indiscretas… Eu comecei a trabalhar com cinema em São Paulo, em 1979. Eu trabalhava como ator, figurante e técnico. Fiquei lá dez anos e trabalhei com Zé do Caixão, Toni Vieira, Os Trapalhões e mais com um monte de gente. Voltei para Brasília e fui trabalhar no corpo de bombeiros. Hoje, eu sou bombeiro e cineasta. E cineasta com 7 filmes nas costas! Estou, agora, conquistando um novo público… Não é só mais povão que assiste a meus filmes, toda a sociedade se interessa agora.

Como é o processo de elaboração dos seus filmes?
Eu sempre escrevo um roteiro, mas quase nunca sigo o que está no papel. Faço o filme que vai surgindo na minha cabeça… Personagens novos vão se encaixando no decorrer das filmagens. O roteiro é feito no dia-a-dia e grande parte dos atores não tem experiência. A maioria é de amigos que eu chamo para participar.

Você diz que seus filmes seguem uma linha Trash. O que é um filme trash?
Antigamente dizia-se que meus filmes eram produções de fundo de quintal. Que eram filmes mal-feitos, trash, ou seja, lixo. Comecei fazendo filmes trashs sim, mas eu estou aprendendo, subindo uma escada, como todo diretor de cinema.

Mas você acha que o que você faz é lixo?
Não! Eu não acho! As pessoas que fazem críticas é que dizem isso. Já recebi muitas críticas que me ofenderam muito. Uma vez, disseram que eu era um dos piores diretores do mundo. Mas eu sou o pior do mundo? Será que não faço nada que presta? O Afonso Brazza, criticado no passado, está hoje lançando seu filme numa importante rede de cinema que é a Cinemark. Estamos 4 semanas em cartaz com público todos os dias, e aí?

A reação do público ao assistir seus filmes é muito curiosa: a platéia ri bastante, o tempo todo. Você fica incomodado com isso?
Olha, meu trabalho é seríssimo. Acho que A Grade é um puta de um policial. As pessoas acham engraçado o jeito dos atores, a maneira como eles pegam nas armas. Às vezes, até eu acho engraçado. Mas eu gostaria de deixar claro que eu não faço comédias. Quem sou eu pra fazer esse tipo de filme? Eu vou continuar fazendo filmes sérios. Mas, se as pessoas riem, o que eu posso fazer? Todo mundo pede autógrafo. Como posso achar ruim isso?

Qual seu interesse em repetir temáticas tão parecidas, que envolvem bandidos, perseguições e mortes? Qual seu envolvimento com essa realidade?
Todos os meus roteiros são sobre coisas que acontecem, que estão aí todo
dia nos jornais. São temáticas atuais.

Num certo sentido seus filmes lembram os de José Mojica Marins. Ele também não recebia apoio financeiro algum para realizar seus filmes e sempre encontrava soluções muito inventivas…
É, o Mojica nunca teve recursos e nem por isso deixou de realizar. Acho que
a primeira coisa a ser feita é acreditar em você mesmo e também nos amigos que estão te apoiando. Você tem que ser criativo. Quando a gente está filmando e acabam as balas de festim, daí matamos com faca! São coisas que você vai inventando na hora, tem que ser assim. Fazer cinema no Brasil já é difícil, imagine em Brasília! A criatividade é fundamental.

Por que fazer cinema? Qual a importância?
Acho que eu nem consigo te explicar. A pessoa que faz cinema uma vez não esquece nunca mais. Quando eu voltei de São Paulo para Brasília e fiquei sem trabalhar com cinema, entrei em depressão, fiquei doente, saudoso. Se um dia acabar o cinema, todo mundo morre. É a mesma coisa que você perder uma namorada que ama profundamente. Cinema é uma paixão que não vai acabar nunca.

Você tem algum novo projeto em vista?
Sim, dia 25 de setembro já vamos começar a rodar o próximo filme. Chama-se Fuga Sem Destino. É um policial de pura ação e pancadaria. Conta a história de dez prisioneiros e de um homem que é contratado para resgatá-los.

Entrevista realizada em 6/09/01

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.

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