No matem el toro! Matem el toreador! (Notas de uma brasiliense lisboeta)


por Flávia Diab*

Lisboa é mesmo uma cidade para se descobrir a todos os minutos de todos os dias. Uma nova rua com um prédio muito estranho, placas escondidas, jardins por de trás dos muros… uma portinha se abre e um grande pátio com coisas incríveis está ali e você nunca soube. Brechós, tascas, becos, grêmios… É uma coisa que nunca se acaba de descobrir.

Eis que agora volta e meia cruzo com um dos mais onipotentes edifícios de Lisboa, a Praça de Touros, mais especificamente, no Campo Pequeno. Esta é uma área da cidade interessante, mas quase completamente desconhecida para mim, nunca fez parte da minha rota habitual.

Mas bem, então, fica no Campo Pequeno. Vou dentro do meu autocarro (o nosso velho conhecido ônibus) e mal aperto o botão de stop (aqui pare é stop. pode?) e me surge às vistas aquele colosso, uma Praça de Touros evidentemente árabe!

Ao contrário da Espanha, as touradas não são tão populares em Portugal. Já foram. Existem hoje país adentro várias praças abandonadas, saudosas pelas práticas das touradas, o que vivamente me faz crer no potencial de modernidade que esse país tem! Os meus colegas antropólogos que me desculpem, mas não me venham com essa de relativização cultural. Como dizia alguém numa música: no matem el toro! matem el toreador!

Viva Portugal! Viva a Praça quase sem Touros!

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.
eulisboeta.blogspot.com

Mohsen Makhmalbaf e o cinema iraniano

por Flávia Diab*

Dentre as cinematografias mundiais mais significativas dos últimos anos, certamente possui lugar de destaque a iraniana. O ocidente, divulgador de uma imagem tão negativa e caricatural deste povo, encontrou o Irã sob uma perspectiva diferente. Através de um cinema-verdade, onde grande parte das personagens interpretam seus próprios dramas, o Irã pôde ser visto de uma maneira sincera e lúdica. Importantes obras refletem o país em toda sua potencialidade: em suas cores, costumes e tradição; os tabus e problemas sociais; as gentes comuns e o cotidiano.

Desde 1947 o país possui uma indústria cinematográfica ativa. A produção é relativamente barata, os filmes custam em média entre US$ 150 mil e US$ 400 mil. O “cinema farsi”, como eram chamadas as primeiras produções iranianas, possuíam uma linha muito diferente dos filmes hoje realizados. Em sua maioria as tramas giravam em torno de um herói vingador, num mundo de violência e dançarinas do ventre.

Após a revolução fundamentalista em 1979, o cinema no Irã começa a se firmar com força redobrada. Temendo que as influências estrangeiras (vide ocidentais) se difundissem entre a cultura, o Estado proibiu a divulgação de filmes não árabes. Se por um lado restringiu-se a exibição, por outro a medida representou espécie de pulo do gato para os realizadores locais, que tiveram seus trabalhos incentivados. Com as restrições impostas à produção e exibição cinematográfica, a principal fonte de inspiração passa a ser a própria cultura e vida árabes.

Foi nesta mesma época que Mohsen Makhmalbaf, dentre outros importantes diretores como Abbas Kiarostami (Através das Oliveiras, 1994) e Jaafar Panahi (O Balão Branco, 1995), começou a produzir mais intensamente, resultando num cinema humanista e singelo. As tramas construídas, aparentemente simples, procuram dar conta de uma complexidade cultural. As imagens projetadas, por sua vez, possuem apuro e elegância, comprovando o domínio da técnica.

Makhmalbaf acredita na universalidade e simplicidade que o cinema deve ter. “Creio que é importante encontrar coisas comuns a todos, é assim que entendo a sensibilidade. Logo, tudo depende do ângulo a partir do qual se vêm as coisas. O cinema iraniano é simples, terno, próximo da natureza ou da realidade quotidiana. Talvez seja por isso que alguns espectadores ocidentais apreciam determinados filmes iranianos”, diz o diretor.

O primeiro longa dirigido pelo cineasta com destaque mundial foi Salve o Cinema (95), que mostra uma suposta escolha de atores para participarem de um filme. A cada candidato o diretor indaga a respeito do interesse pelo cinema e por qual motivo gostaria de seguir a carreira de ator. O que os aspirantes não sabem é que seus depoimentos já seriam o próprio filme.

Sua cinematografia mostra um trato diferente com relação à imagem, constrói uma linguagem própria, explorando com vigor qualidades visuais e sonoras. Gabbeh (96), por exemplo, expõe o colorido, procura as cores em toda sua diversidade para o auxiliar em sua narrativa. O filme aborda a cultura popular: a lavagem dos tapetes e as histórias que contam (Gabbeh é o nome de um tipo de tapete persa), o casamento pré-destinado das mulheres, o cavaleiro solitário que ameaça as tradições. Imagens de rara beleza nos são apresentadas, é a celebração das cores!

Já em O Silêncio (98), o espectador absorve primordialmente o som. A história se desenvolve a partir do ponto de vista de um garoto cego e seu dia-a-dia, quando somos convidados à uma experiência auditiva. Os ruídos e barulhos ganham um novo significado, são elementos principais da narrativa. Apontada enquanto uma das obras mais significativas de Makhmalbalf, Caminho para Kandahar (2001), fala sobre parte do universo feminino em terras afegãs.

Viajamos com a personagem Nafas, uma jornalista exilada que retorna ao Afeganistão, na procura pela irmã que diz querer suicidar-se. O filme trilha os caminhos desérticos, evidenciado a tragicidade daquele povo, entre a dura repressão às mulheres e os mutilados pela guerra e minas escondidas. Uma visão desoladora da realidade afegã.

Aproximar-se da filmografia do diretor certamente significa conhecer um cinema autoral e original. Um cinema que acontece com poucos recursos e inventividade. Apurem os ouvidos e olhos!

Confira as principais obras do diretor:
O Ambulante (1989)
O Ciclista (1990)
Salve o Cinema (1995)
Um Instante de Inocência (1996)
Gabbeh (1996)
O Silêncio (1998.)
Caminho para Kandahar(2001)

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.

Bangue-Bangue no Cerrado

por Flávia Diab*

Afonso Brazza foi um importante cineasta brasiliense, que realizou, apesar da precariedade de suas produções. Faleceu de câncer em 29 de julho de 2003. Esta entrevista foi realizada em 6 de setembro de 2001. Publicamos para não deixar morrer a memória de quem decidiu fazer.

Tiroteios, mocinhos e bandidos, explosões e perseguições no Planalto Central. Essa é a atmosfera que envolve a obra do diretor brasiliense Afonso Brazza. Seu estilo inconfundível vem ganhando cada vez mais espaço na capital do país

Com 2 câmeras de 35mm adquiridas com recursos próprios após 20 anos de trabalho independente no cinema, conciliado com sua profissão de bombeiro, Brazza já produziu 7 longas. O Matador de Escravos (82) custou apenas R$ 8.000. Depois vieram Os Navarros (84), Santhion Nunca Morre (88), Inferno no Gama (93), Gringo Não Perdoa, Mata (95) e No Eixo da Morte (97/98), todos realizados com orçamento menor que R$ 100 mil. Esses três últimos são considerados clássicos pelos amantes do gênero.

Em Tortura Selvagem – A Grade, sua mais recente produção, Brazza mais uma vez faz de tudo: roteirista, diretor, produtor, galã… O filme custou cerca de R$ 200 mil e já está em cartaz nas salas da Cinemark, em Brasília. Todo filmado nas ruas de Brasília, A Grade conta a história do catador de lixo Maicon (Brazza) que é preso em flagrante por tráfico de drogas, mas tudo não passa de um engano. Um grupo de traficantes mata toda sua família e, a partir daí, Maicon segue seu caminho com sede de vingança. Torna-se um matador profissional.

Em todos os filmes de Brazza é comum não sobrar quase ninguém para contar a história. Apesar disso o diretor enfatiza sua posição com relação às matanças e perseguições criadas por ele. ‘Trabalho com ação e pancadaria, mas sou da paz, não uso arma e não gosto de violência’, garante. Além de contar no elenco com sua esposa Claudete Joubert, protagonista e mocinha de seus outros filmes, outras pitorescas figuras participam de A Grade, como José Mojica Marins, o Zé do Caixão; Rodolfo e Digão (da banda Raimundos); e a curiosa presença da filha do ex-governador do Distrito Federal, Liliane Roriz.

Afonso Brazza fala sobre seu trabalho:

Como surgiu seu interesse pelo cinema?
É uma coisa que vem de criança. Fazer cinema no Brasil é um gostar sofrido. A gente recebe pouco apoio, o mercado é difícil… E ainda tem as pessoas que ofendem e tentam derrubar com palavras indiscretas… Eu comecei a trabalhar com cinema em São Paulo, em 1979. Eu trabalhava como ator, figurante e técnico. Fiquei lá dez anos e trabalhei com Zé do Caixão, Toni Vieira, Os Trapalhões e mais com um monte de gente. Voltei para Brasília e fui trabalhar no corpo de bombeiros. Hoje, eu sou bombeiro e cineasta. E cineasta com 7 filmes nas costas! Estou, agora, conquistando um novo público… Não é só mais povão que assiste a meus filmes, toda a sociedade se interessa agora.

Como é o processo de elaboração dos seus filmes?
Eu sempre escrevo um roteiro, mas quase nunca sigo o que está no papel. Faço o filme que vai surgindo na minha cabeça… Personagens novos vão se encaixando no decorrer das filmagens. O roteiro é feito no dia-a-dia e grande parte dos atores não tem experiência. A maioria é de amigos que eu chamo para participar.

Você diz que seus filmes seguem uma linha Trash. O que é um filme trash?
Antigamente dizia-se que meus filmes eram produções de fundo de quintal. Que eram filmes mal-feitos, trash, ou seja, lixo. Comecei fazendo filmes trashs sim, mas eu estou aprendendo, subindo uma escada, como todo diretor de cinema.

Mas você acha que o que você faz é lixo?
Não! Eu não acho! As pessoas que fazem críticas é que dizem isso. Já recebi muitas críticas que me ofenderam muito. Uma vez, disseram que eu era um dos piores diretores do mundo. Mas eu sou o pior do mundo? Será que não faço nada que presta? O Afonso Brazza, criticado no passado, está hoje lançando seu filme numa importante rede de cinema que é a Cinemark. Estamos 4 semanas em cartaz com público todos os dias, e aí?

A reação do público ao assistir seus filmes é muito curiosa: a platéia ri bastante, o tempo todo. Você fica incomodado com isso?
Olha, meu trabalho é seríssimo. Acho que A Grade é um puta de um policial. As pessoas acham engraçado o jeito dos atores, a maneira como eles pegam nas armas. Às vezes, até eu acho engraçado. Mas eu gostaria de deixar claro que eu não faço comédias. Quem sou eu pra fazer esse tipo de filme? Eu vou continuar fazendo filmes sérios. Mas, se as pessoas riem, o que eu posso fazer? Todo mundo pede autógrafo. Como posso achar ruim isso?

Qual seu interesse em repetir temáticas tão parecidas, que envolvem bandidos, perseguições e mortes? Qual seu envolvimento com essa realidade?
Todos os meus roteiros são sobre coisas que acontecem, que estão aí todo
dia nos jornais. São temáticas atuais.

Num certo sentido seus filmes lembram os de José Mojica Marins. Ele também não recebia apoio financeiro algum para realizar seus filmes e sempre encontrava soluções muito inventivas…
É, o Mojica nunca teve recursos e nem por isso deixou de realizar. Acho que
a primeira coisa a ser feita é acreditar em você mesmo e também nos amigos que estão te apoiando. Você tem que ser criativo. Quando a gente está filmando e acabam as balas de festim, daí matamos com faca! São coisas que você vai inventando na hora, tem que ser assim. Fazer cinema no Brasil já é difícil, imagine em Brasília! A criatividade é fundamental.

Por que fazer cinema? Qual a importância?
Acho que eu nem consigo te explicar. A pessoa que faz cinema uma vez não esquece nunca mais. Quando eu voltei de São Paulo para Brasília e fiquei sem trabalhar com cinema, entrei em depressão, fiquei doente, saudoso. Se um dia acabar o cinema, todo mundo morre. É a mesma coisa que você perder uma namorada que ama profundamente. Cinema é uma paixão que não vai acabar nunca.

Você tem algum novo projeto em vista?
Sim, dia 25 de setembro já vamos começar a rodar o próximo filme. Chama-se Fuga Sem Destino. É um policial de pura ação e pancadaria. Conta a história de dez prisioneiros e de um homem que é contratado para resgatá-los.

Entrevista realizada em 6/09/01

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.

Caminho para Kandahar

por Flávia Diab*

Para grande parte do mundo, até pouco tempo atrás, o Afeganistão era um país desconhecido quase por completo. Nos últimos anos, tristemente, se tornou uma das principais notícias em todos os jornais. Em grande parte por seu famoso líder Osama Bin Laden, em outra pela brilhante invasão norte-americana, que aliás foi já praticamente esquecida pela grande mídia.

Em 1996, após dez anos de guerra com a ex-União Soviética, a milícia islâmica Talebã assumiu o poder em grande parte do território, instaurando um regime de extrema repressão. A fotografia, a pintura, bem como outras expressões artísticas foram proibidas. A situação das mulheres, se antes já era difícil, se tornou ainda mais restrita. Foram banidas de qualquer aspecto da vida social; proibidas de estudarem ou exercerem uma profissão.

Em Caminho Para Kandahar o diretor iraniano Mohsen Makmalbaf (Gabbeh, O Silêncio) procura revelar a condição feminina, em parte sintetizada pela assustadora burca (vestimenta que encobre as mulheres), escondendo-as dos pés à cabeça. “O Afeganistão é um país sem imagem por várias razões. As mulheres afegãs não têm rosto, o que quer dizer que metade de uma população de 20 milhões vive sem a chance de ser vista. Uma nação que não vê suas próprias mulheres é uma nação sem imagem.”, diz o cineasta.

O filme, entretanto, não se detém apenas na tragédia das mulheres. Mostra também a pobreza que atravessa as paisagens desérticas, além da tão dramática situação em que vivem aqueles que perderam pernas e braços em explosões de minas. Existem no Afeganistão atualmente cerca de 10 milhões de minas escondidas. Esta questão nos rende uma das mais impressionantes cenas de Caminho…, quando um avião sobrevoa um acampamento da Cruz Vermelha arremessando pares de próteses de pernas, provocando uma corrida desesperada de homens em muletas.

Caminho Para Kandahar realiza um tocante retrato de parte da realidade afegã. Trata-se de uma ficção-documental, no qual as personagens interpretam suas próprias vidas, vivem seus dramas reais. O que torna suas imagens mais impressionantes ainda.

A idéia do filme surgiu quando a jornalista Niloufart Pazira, em 1998, procurou Makmalbaf pedindo ajuda para conseguir entrar no Afeganistão. Ela havia recebido uma carta de uma amiga, contando as dificuldades que estava vivendo e sobre sua vontade de morrer. Pazira, que hoje vive no Canadá, mas que morou até os 16 anos no Afeganistão, decidiu regressar ao país para tentar tirar a amiga de lá. O diretor então lhe falou da impossibilidade de ajudá-la naquele momento. Somente dois anos mais tarde se encontram novamente, quando partem para a fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, onde a trama foi filmada.

Pazira, que de jornalista se transforma em atriz, passa a interpretar sua própria história. Nafas é uma afegã refugiada no Canadá, que regressa ao seu país de origem para tentar encontrar sua irmã menor. A caçula promete suicidar-se no próximo eclipse do sol, por não mais agüentar o regime repressor instaurado

Niloufarat acredita que o filme pode mostrar um pouco mais de perto a realidade afegã para as pessoas. Mostrar as caras e histórias, aproximar a gente que vive lá. “A nossa intenção era trazer o Afeganistão para o resto do mundo. O país está perdendo sua identidade cultural. Não existe cinema, as artes foram reprimidas. Me preocupa a manipulação que a mídia, principalmente norte-americana, possa fazer com as imagens que estamos apresentando. Após os acontecimentos de 11 de setembro o filme ficou mais visado, contudo nossa intenção continua a mesma que antes”, explica.

O filme foi apresentado pela primeira vez no Brasil na 25ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo. Na ocasião, o evento foi brindado com a presença de Niloufarat Pazira, que rodou o mundo divulgando o trabalho. “Nunca pensei que o filme poderia ser tão divulgado internacionalmente! Estou realmente impressionada com seu alcance”, conta a atriz, que diz ser essa sua primeira e provavelmente única experiência como intérprete (!).

Para quem não teve a chance de assisti-lo, Caminho Para Kandahar pode ser alugado facilmente nas locadoras. Vale o tempo investido!

Site oficial do diretor: http://www.makhmalbaf.com

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.

Memórias de uma brasuca no Alentejo

por Flávia Diab*

Promessa é dívida. Estava devendo ao Facada uma página do meu diário de viagens. Vim pra Portugal, rodei a Espanha. Comi muitos tapas e tomei muitas copas de vino. Participei de digreções punks pela península, passei frio e enjoei de comer jámon (fucking jámon). Voltei ao Brasil-il-il. E cá já estou de volta em terras portuguesas. Mas promessa é dívida. Então vamos lá.

Memórias de uma brasuca no Alentejo

Antes de tudo: vocês não sabem de nada. Portugal é um país lindo. Cheio de sítios lindos, praias, campo, serras. Comidas sensacionais, vinhos excelentes, música ótima e gente muito fixe. (além de guardar meu portuga-turco, coisa linda).

O rio tejo (oh! Rio tejo…) corta Lisboa (oh! Lisboa…) e por conseguinte é sufixo de duas regiões em Portugal. Acima do tejo, ribatejo. Abaixo do tejo, alentejo. Sacaram?

No último final-de-semana, fui ao alentejo, onde meu gajo nasceu e tem família. Em Lisboa, a presença brasileira é marcante. Não só através do pior da nossa música (axé music e samba rede globo), mas trabalhando por todo o lado: bares, restaurantes, lojas, agências de publicidade. São adorados e detestados. São alegres e festeiros, mas tiram emprego de gente portuguesa.

Agora… já nas profundezas do Alentejo, não sabia muito sobre o imaginário que se tem sobre nós, brasucas. Nosso alcance já não é tão extenso assim. Algo exótico? Talvez. A Aldeia dos Fernandes fica num planalto lindo e tem pouco mais de 400 habitantes. Toda a gente me recebeu amávelmente. Eu, todavia, sentia de tempos em tempos um rabo-de-olho sempre a me acompanhar: “ê pá! então… olha a brasuca…”. Euzinha, igual a eles, usava calça jeans, tomava café expresso e era até bonitinha…

A “minha família” portuguesa lembrava a minha própria. Mãe cozinhando, comida boa, família toda a mesa, risadas, conversas e afins. Me parece esse conceito ser universal, o da família (com suas excessões, claro), mas que pra mim siginifica essencialmente acolhida, e isso encontrei. Longe longe, de minha casa, em um campo no interior de Portugal. O mundo é enorme, e é bem pequeno também. Basta sair porta afora e ver.

Que soem os tambores!

Castro Verde fica bem ao lado da Aldeia dos Fernandes. Uma cidade, com rádio própria e tudo. Diab parte para o Kiosk Bar, uma noite de divertimentos e copos, mostrando um pouco sobre o nosso som.

E vamos lá. E tome samba-rock. E tome mundo livre s/a e chico science com sua nação zumbi. E um rockzinho ali, outro acolá. “hum… isso é música brasileia também”, pensavam os portugas, balançando as cabeças e os pézinhos. Me esforcei pra botar fogo… uma ou outra pegava mesmo. Ok.

Mas foi quando os tambores de Clementina de Jesus bateram foi que a gringalhada sambou (ou tentou sambar) e o bicho pegou. E daí foi côco, embolada, samba e mais samba. Um maxixe ali, e mais batida. Então entendi a força da nossa música, que é inigualável à poucas músicas no mundo. E o alcance da nossa batida, que não deixa ninguém parado.

Então ficou ali a brasuca, mostrando alguma coisa do Brasil. Mal sabiam eles que o Brasil poderia ser assim, tão intenso, de batucada tão pulgente. E meu coração foi batendo junto, contente, na batida do agogô.

Que Jorge Ben que nada! Deixa é a batucada comer pros gringos sapatearem. Que soem nossos tambores!

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.