Mohsen Makhmalbaf e o cinema iraniano

por Flávia Diab*

Dentre as cinematografias mundiais mais significativas dos últimos anos, certamente possui lugar de destaque a iraniana. O ocidente, divulgador de uma imagem tão negativa e caricatural deste povo, encontrou o Irã sob uma perspectiva diferente. Através de um cinema-verdade, onde grande parte das personagens interpretam seus próprios dramas, o Irã pôde ser visto de uma maneira sincera e lúdica. Importantes obras refletem o país em toda sua potencialidade: em suas cores, costumes e tradição; os tabus e problemas sociais; as gentes comuns e o cotidiano.

Desde 1947 o país possui uma indústria cinematográfica ativa. A produção é relativamente barata, os filmes custam em média entre US$ 150 mil e US$ 400 mil. O “cinema farsi”, como eram chamadas as primeiras produções iranianas, possuíam uma linha muito diferente dos filmes hoje realizados. Em sua maioria as tramas giravam em torno de um herói vingador, num mundo de violência e dançarinas do ventre.

Após a revolução fundamentalista em 1979, o cinema no Irã começa a se firmar com força redobrada. Temendo que as influências estrangeiras (vide ocidentais) se difundissem entre a cultura, o Estado proibiu a divulgação de filmes não árabes. Se por um lado restringiu-se a exibição, por outro a medida representou espécie de pulo do gato para os realizadores locais, que tiveram seus trabalhos incentivados. Com as restrições impostas à produção e exibição cinematográfica, a principal fonte de inspiração passa a ser a própria cultura e vida árabes.

Foi nesta mesma época que Mohsen Makhmalbaf, dentre outros importantes diretores como Abbas Kiarostami (Através das Oliveiras, 1994) e Jaafar Panahi (O Balão Branco, 1995), começou a produzir mais intensamente, resultando num cinema humanista e singelo. As tramas construídas, aparentemente simples, procuram dar conta de uma complexidade cultural. As imagens projetadas, por sua vez, possuem apuro e elegância, comprovando o domínio da técnica.

Makhmalbaf acredita na universalidade e simplicidade que o cinema deve ter. “Creio que é importante encontrar coisas comuns a todos, é assim que entendo a sensibilidade. Logo, tudo depende do ângulo a partir do qual se vêm as coisas. O cinema iraniano é simples, terno, próximo da natureza ou da realidade quotidiana. Talvez seja por isso que alguns espectadores ocidentais apreciam determinados filmes iranianos”, diz o diretor.

O primeiro longa dirigido pelo cineasta com destaque mundial foi Salve o Cinema (95), que mostra uma suposta escolha de atores para participarem de um filme. A cada candidato o diretor indaga a respeito do interesse pelo cinema e por qual motivo gostaria de seguir a carreira de ator. O que os aspirantes não sabem é que seus depoimentos já seriam o próprio filme.

Sua cinematografia mostra um trato diferente com relação à imagem, constrói uma linguagem própria, explorando com vigor qualidades visuais e sonoras. Gabbeh (96), por exemplo, expõe o colorido, procura as cores em toda sua diversidade para o auxiliar em sua narrativa. O filme aborda a cultura popular: a lavagem dos tapetes e as histórias que contam (Gabbeh é o nome de um tipo de tapete persa), o casamento pré-destinado das mulheres, o cavaleiro solitário que ameaça as tradições. Imagens de rara beleza nos são apresentadas, é a celebração das cores!

Já em O Silêncio (98), o espectador absorve primordialmente o som. A história se desenvolve a partir do ponto de vista de um garoto cego e seu dia-a-dia, quando somos convidados à uma experiência auditiva. Os ruídos e barulhos ganham um novo significado, são elementos principais da narrativa. Apontada enquanto uma das obras mais significativas de Makhmalbalf, Caminho para Kandahar (2001), fala sobre parte do universo feminino em terras afegãs.

Viajamos com a personagem Nafas, uma jornalista exilada que retorna ao Afeganistão, na procura pela irmã que diz querer suicidar-se. O filme trilha os caminhos desérticos, evidenciado a tragicidade daquele povo, entre a dura repressão às mulheres e os mutilados pela guerra e minas escondidas. Uma visão desoladora da realidade afegã.

Aproximar-se da filmografia do diretor certamente significa conhecer um cinema autoral e original. Um cinema que acontece com poucos recursos e inventividade. Apurem os ouvidos e olhos!

Confira as principais obras do diretor:
O Ambulante (1989)
O Ciclista (1990)
Salve o Cinema (1995)
Um Instante de Inocência (1996)
Gabbeh (1996)
O Silêncio (1998.)
Caminho para Kandahar(2001)

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.

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